I

A silhueta verde ganhou vida. Por alguns segundos, a agitação da metrópole congelou dando lugar aos passos errantes. Ao seu lado estava a mulher do casaco de peles, o jovem de camisa de linho folgada e a rapariga do casaco largo e geometricamente multicolor. O avô e a neta trocaram um olhar e avançaram também. O Teatro encarava-os, com as luzes refletidas nos bilhetes que seguravam. Ao longo da silhueta do edifício juntava-se um aglomerado de vozes inquietas. Junto à porta dos artistas, o diretor do Teatro bracejava impaciente enquanto segurava o telemóvel cuja luz lhe tingia o rosto. O avô aproximou-se da entrada principal. Dentro do edifício, o relógio apontava as nove horas da noite, mas não havia ninguém para receber os espectadores.

O diretor desaparece. A neta chama o avô para perto de si e confessa-lhe que sente um formigueiro na barriga. Um instinto nefasto. Ambos se toldam pelo desconforto da incerteza. O diretor interrompe os burburinhos amplificados, surgindo na porta principal. Não haverá espetáculo. Desculpe? Como assim não haverá espetáculo? Houve algum problema com o edifício? Os artistas? Não. O Teatro fechou. Como fecha um teatro em dia de estreia? Todos os estabelecimentos culturais encerraram. Até quando? Para sempre.

II

O despertador emitiu um ruído de interferência. A neta não acordou com a habitual pergunta daquela voz quente – “Qual é a ideia?”1 Empunhou o telemóvel que repousava na mesa de cabeceira. Desligou o despertador e acedeu às suas definições. Onde antes se inscrevia o nome da música, apareciam caracteres aleatórios. Foi ao Spotify e as suas playlists tinham sido apagadas. Foi ao YouTube e qualquer vídeo musical ou performativo dizia estar indisponível no seu país. O seu tronco ergueu-se assustado. Em frente, a estante habitualmente recheada por livros empilhados estava vazia. A aparelhagem estava partida. A prateleira dos discos, mais leve do que alguma vez a conhecera. A sua coleção de DVDs dissipara-se. Apressou-se para a cozinha onde costumava encontrar o avô a preparar ovos mexidos para a primeira refeição do dia. Encontrou-o com um olhar lunar, vazio, sentado à mesa. À sua frente, no lugar que costumava ser ocupado por um prato gastronomicamente venturoso, havia um comprimido que dizia pequeno almoço. No lugar da neta, o mesmo. 

III

A cantora acordou e, como reflexo, abriu a boca para entoar uma nota, garantindo que continuava a ser detentora de uma voz, de um timbre, de uma história. Ao contrário das outras manhãs, não ecoou qualquer som. De olhos, agora, arregalados, voltou a abrir a boca e a recriar o movimento abdominal e bocal que conhecia. Nada. Correu para a casa de banho, onde se encarou, pálida. Tentou cantar o tema que estivera a estudar no dia anterior. Os seus lábios mexiam contornando as palavras, mas nada se ouvia. Um grito. Ah! Eu tenho voz! Ouviu-se. Voltou a tentar cantar, mas qualquer nota emitida com uma intenção melodiosa era silenciada. Correu para o estúdio, onde o pianista já se encontrava. As teclas não emitiam qualquer som. Ocupou a bateria e o impacto das baquetas sobre os tambores era mudo.

As palavras da humorista eram travadas com a mesma assertividade da voz da cantora. Nas editoras, todos os ficheiros de livros por publicar haviam sido apagados. Os livros extintos. Os papéis, queimados. No quarto do escritor, o teclado do computador escrevia tudo, exceto se ele intencionasse edificar uma obra literária ou qualquer pensamento. A gaveta da artista visual já não tinha pincéis; lápis ou canetas não imprimiam resultados sobre qualquer superfície. As tintas estavam secas e comprovaram-se insolúveis. O programa de desenho digital estava bloqueado. Os videojogos davam lugar a ecrãs negros. As telenovelas, séries e filmes desapareceram da grelha das televisões.

As mercearias mostravam comprimidos multicolor, cada um recriando refeições ou alimentos que antes povoavam as cozinhas dos grandes chefs. Os menus dos restaurantes eram o reflexo dessa paisagem química.

As paredes grafitadas estavam virgens. Os edifícios da cidade foram convertidos em módulos uniformes, pintados de um branco gélido.

Ouviram-se alguns protestos combatentes. Os meses passaram, as respostas não surgiram. As asas deixaram de voar.

IV

A Cultura desapareceu. Primeiro, naquele país. Depois, em efeito dominó, pela Europa. Mais tarde, no mundo.

A economia perdeu mais de 28,1 mil milhões de euros em exportações de bens culturais. 7,6 milhões de pessoas perderam o emprego. O Produto Interno Bruto (PIB) da União Europeia (UE) caiu 4,4%, com uma quebra de receitas na ordem dos 643 mil milhões de euros. Verificou-se uma quebra na inovação tecnológica, diversidade de género e promoção de emprego para os jovens.2

Um a um, passo a passo, país a país, foi-se abandonando a democracia, entregando-se a governança a ditaduras cegas, discriminatórias, violentas, mortais. As torneiras deixaram de verter água. Os invernos tornaram-se quentes e os verões, vulcânicos. Havia mais refugiados do que lares habitados. Os ricos tornavam-se mais ricos. Os pobres extinguiam-se. O poder dirigia terras de ninguém, meia dúzia de corpos robóticos e um abundante vazio.

O avô zelava pelas memórias na intermitência da morte em vida, mas a neta perdera os sonhos. Declarou-se luto mundial pela suprimida empatia. As cidades tornaram-se acríticas, mutantes e estáticas.

V

Silêncio. Um fúnebre silêncio.


1 – “Nova Lisboa”, de Dino D’Santiago.

2 – Dados inspirados no resultado do estudo “Reconstruir a Europa: a economia cultural e criativa antes e depois da covid-19”, levado a cabo pela consultora internacional EY, encomendado pelo Grupo Europeu de Sociedades de Autores e Compositores (GESAC), e divulgado no dia 26 de janeiro, em Bruxelas.

-Sobre Andreia Monteiro-

Cresceu na terra que um dia alguém caracterizou como o “sítio onde são feitos os sonhos” e lá permanece, quer em residência, quer na constante busca por essa utopia. É licenciada em Comunicação Social e Cultural, na vertente de Jornalismo, pela Universidade Católica Portuguesa, e mestre em Ciências da Comunicação, na vertente de Jornalismo, pela mesma entidade. É, desde maio de 2019, a diretora editorial do Gerador, Associação Cultural a que se juntou no final da sua licenciatura. Apaixonada pelo mundo artístico, é uma leitora insaciável, a companheira constante de um lápis e papel, uma curiosa de pincel na mão, uma amante de teatro e cinema e está completamente comprometida com a beleza da música que tem vindo a descobrir. É, desde 2019, aluna na escola de jazz do Hot Clube de Portugal. Acima de tudo, é uma criatura com pouco mais de metro e meio cujo desassossego não deixa muito espaço para tempos mortos.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Joana Ferreira
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