De repente, todos os objectos de casa que acompanhavam o meu confinamento começaram a contar poemas. Poemas que aconteceram depois de ter agarrado, por mero acaso, ao livro de Salete Tavares LEX ICON. A partir desse momento, todos os ícones que fazem parte do poema “Os objectos” transformaram-se completamente: o copo, os guardanapos, a toalha, a cama, o lixo, o bule, o pó, o sapato, mas sobretudo o pires que se metamorfoseou para sempre no meu olhar, de um não-objecto para um verso. Foi a poesia misturada com tédio que me fez reparar na minha máquina de lavar roupa pela primeira vez.

Estava sempre lá, utilizava-a todas as semanas, mas nunca a tinha visto. Nunca me tinha fascinado a sua janela redonda de barco, que reflete a sua espuma marinha com cheiro de lavanda, permitindo uma viagem até às ondas do mar, interditas na altura. As saias, misturadas com cuecas, levaram-me para outro barco no Egipto, onde vi pela primeira vez a dança da Tanoura, a dança de giros com saias. Fiquei também hipnotizada ao olhar o bailarino da minha máquina a girar numa cadência perpétua. Giros que lhe faço acontecer nos dias de sol, os dias da minha roupa jamais suja.

A sua explosão de cores trouxe à minha memória a paleta de pintura do meu pai, que sempre me fascinou da mesma forma que as suas histórias. Entre elas, contava uma em que, com a minha mãe, não conseguia deixar de olhar para a nova máquina de lavar automática, acabando por ali almoçar, contemplando as suas ações autodeterminadas. Trouxe também à minha memória o momento em que me tornei uma mulher branca, precisamente por causa de uma máquina de lavar roupa. O que para mim era um espetáculo de roupa estendida ao longo dos rios de São Tomé, para as mulheres que lavavam as suas roupas e as de toda a família era trabalho. Talvez por isso, nenhum rótulo que carrego de “mulher árabe”, nenhuma anca curvada minha nascida no continente africano, nenhuma da minha pele morena e olhos escuros conseguiram devolver-me a minha não-branquitude perante a pergunta: ó branca, tu não vais lavar a roupa ao rio, nê? Ter o privilégio de uma máquina de lavar fez de mim, aos olhos de quem lava à mão, uma mulher privilegiada.

Sem dúvida que as máquinas de lavar são um privilégio que melhorou a qualidade de vida de muitas mulheres, dispensando-as das idas aos rios e aos lavadouros. Mas será que as libertaram? Será que quando o trabalho de esfregar, branquear, tirar manchas e espremer a roupa começou a ser feito por uma máquina o mundo se apercebeu finalmente que o trabalho doméstico, realizado sobretudo por mulheres, é trabalho? Será que o tempo que a máquina de lavar proporcionou não duplicou o trabalho das mulheres, fazendo com que trabalhassem, agora, fora e dentro de casa?

O espetáculo de Sara Barros Leitão, Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa, dura o tempo de um ciclo de lavagem de uma máquina de lavar roupa. Tempo que nunca é suficiente para contar as histórias de muitas mulheres sem tempo: aquelas que limpam, lavam, cozinham, cozem, educam, cuidam e ainda reivindicam os seus direitos entre passear o cão, levar o lixo e desentupir a fossa. São estas mulheres que são “quase-como-se-fossem-família”, habituadas a criar, desde um bolo a um ser humano, que criaram o primeiro Sindicato de Serviço Doméstico em Portugal nos anos 70, à volta do qual a peça se desenvolve.

Após a limpeza profunda da sala de espetáculo, a fala nesta peça só começa com o momento de ligar a máquina de lavar roupa cujo som faz parte da narrativa. É curioso que este monólogo centrado no trabalho doméstico das mulheres seja sempre acompanhado por uma máquina de lavar, como se sublinhasse que esta não acabou com um trabalho que nunca termina. Não ofereceu mais direito nem mais horas de descanso às trabalhadoras, nem melhorou a actual legislação débil do serviço doméstico. Aqui, a máquina de lavar roupa é um espaço complexo de análise histórica, política, social e artística. É um palco que vira corpo e uma dança que se transforma numa cama quando o cansaço é muito. É um contentor de objectos e desejos: laranja, orgasmo, sapato e a água do desespero e dos sonhos. É sobretudo um contentor das conquistas estendidas através de uma resistência doméstica feminista. A máquina de lavar roupa é uma contadora de histórias, sobretudo das mulheres, gira para contar a história em que a própria máquina participou no branqueamento do trabalho doméstico precário, a história em que não conseguiu lavar o cansaço ou devolver o brilho ao tempo e à energia gastos nas tarefas de casa e a história em que não tirou as manchas das desigualdades sexuais e sociais. Mas também a história em que a máquina de lavar roupa nos lembra, que há sempre uma pessoa, normalmente uma mulher, que faz o trabalho necessário de nela colocar a roupa, tirá-la, estendê-la, apanhá-la, passá-la à ferro, dobrá-la e arrumá-la, para repetir todo este processo assim que o cesto fique cheio.

-Sobre Shahd Wadi-

Shahd Wadi é Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Tenta exercer a sua liberdade também no que faz, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. Procurou as suas resistências ao escrever a sua dissertação de Doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra que serviu de base ao livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Foi então seleccionada para a plataforma Best Young Researchers. Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010).  Para os respectivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua. 

Texto de Shahd Wadi
Fotografia da cortesia de Shahd Wadi
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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