Uma exposição que pretende refletir sobre a indefinição a que se assiste na era pós-digital entre realidade e ficção, tendo o design como área disciplinar de fundo. Esta é a proposta presente em It Takes Several Minutes for the Eyes to Adjust to the Dark, exposição que inaugura esta quarta-feira, dia 2 de outubro, organizada pelos finalistas do ano letivo 2018/2019 na licenciatura de Design de Comunicação da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

O título da mostra remete para o artigo Time for the Eyes to Adjust de Linn Ullmann, publicado em 2018 na revista The New Yorker. Neste artigo, a filha do realizador Ingmar Bergman e da atriz Liv Ullmann, refere o ritual que ambos praticavam todos os dias antes do visionamento de um filme. “Todos os dias, excepto ao domingo, pai e filha encontravam-se religiosamente 10 minutos antes da hora marcada. Entravam numa sala improvisada, escura, e esperavam que os seus olhos se adaptassem à escuridão. Um filme começava, pontualmente, logo de seguida”, explica o grupo de alunos em comunicado.

Afonso Matos, um dos finalistas organizadores da exposição, realça que é perante a “adaptação da realidade para a ficção” que se criam espaços “que o design pode passar a habitar e a utilizar para comentar temas sociais, políticos, culturais e institucionais, enquanto agente ativo gerador de reflexões”.

“A exposição cobre, portanto, esses dois grandes temas que orientaram a produção académica do ano letivo de 2018/2019: a Realidade e a Ficção”, acrescenta em declarações ao Gerador.

Project Room de “Lilith 99942”, ficção de Carolina Cipriano, Cizia Nunes, Laura Calado e Sofia Cavaquinho

No restante comunicado, o grupo de finalistas sublinha ainda a instrumentalização por parte de por “estruturas mais oficiais ou mais informais de poder” dos conceitos referidos, onde o design surge como disciplina associada ao “presente” por trabalhar “com e para o real”. Não obstante, nessa mesma conceptualização e perante “práticas históricas ou legitimadas — como a literatura e o cinema — o design reclama agora o seu lugar na ficção”, sustentam.

“No culminar de um ciclo de estudos em design de comunicação, abordaram-se os dilemas, as contradições e os temas “na ordem do dia” da contemporaneidade. Os projetos ora comentaram, criticaram e ensaiaram a realidade, ora a transformaram em ficção. Aproximámo-nos do cinema, da literatura, dos mitos, mas também dos factos e de uma realidade que teima em sucessivamente apresentar-se, surpreender-nos e desconstruir-se perante o nosso olhar”.

Paralelamente à exposição, o grupo de curadores programou seis eventos de entrada livre, onde se pretende “debater os limites entre a realidade e a ficção” em diversas modalidades, que vão das artes plásticas ao cinema, passando pelo urbanismo ou pelos novos media.

O primeiro destes momentos acontece a 4 de outubro, pelas 17h, no Auditório Lagoa Henriques da Faculdade de Belas-Artes, onde terá lugar a conferência “Aqui, ali e em todo o lado”, com a participação do geógrafo Álvaro Domingues.

Na segunda-feira, dia 9, nas escadas para a capela da mesma instituição, decorre uma conversa entre Alice Reis e Marta Espiridião, subordinada ao tema “Slimy Fictions: para re-invenção da distopia”. No mesmo local decorrem ainda as conversas “It tooks us several minutes”, no dia 11; Cri(tic)ar: pode a crítica de cinema ser um gesto artístico?, no dia 15; e “Paraficção e ‘Speaking Nearby’ enquanto método”, no da 18.

Fora do espaço da Faculdade de Belas-Artes, decorre no dia 16, no Crew Hassan, a performance “O Terceiro Expandido (based on a true fiction)”, onde participam Cinza Nunes, Carolina Cipriano e Carolina Lemos.

A exposição It Takes Several Minutes for the Eyes to Adjust to the Dark mantém-se patente na Galeria de Belas-Artes até dia 18 de outubro.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de “Towards the Omega Point”, ficção de Afonso Matos, Inês Pinheiro e Vítor Serra

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