Desde 2014 que o festival Tremor pôs o arquipélago dos Açores no centro de um mapa cultural, que não deixa ninguém indiferente. Hoje em dia, e à entrada para a sua sexta edição, o Tremor confirma o estatuto ímpar no panorama dos festivais de música portugueses: assume-se como um lugar de fruição artística, de descoberta, mas também de promoção do que melhor se faz no arquipélago.

De 9 a 13 de abril, o Tremor volta a ocupar os cantos e recantos da ilha de São Miguel. Antes disso, foi tempo de encontrar António Pedro Lopes em Lisboa, para falarmos da edição de 2019 do festival em que estão já confirmados artistas como Colin Stetson, Moon Duo, Bulimundo, Lula Pena ou Natalie Sharp.

Nesta entrevista concedida ao Gerador, o codiretor do Tremor falou da importância do festival enquanto agente contributivo para as mudanças no panorama cultural e social que se têm assistido nos Açores. Para António Pedro Lopes, o Tremor é hoje parte de um ecossistema maior, que atrai artistas de todo o mundo e que encontram nas ilhas uma fonte inesgotável de inspiração.

Gerador (G.) – O Tremor começa em 2014. Seis anos depois o festival continua a crescer. Como é que olhas para essa evolução?
António Pedro Lopes (A.) – A evolução é positiva e a transformação é radical. Na primeira edição, o Tremor era um festival de um dia, centrado na cidade de Ponta Delgada, e com um cartaz unicamente português. Depois, na segunda edição, o festival começou a internacionalizar-se e a expandir-se na ilha. Ou seja, saímos do centro histórico e começámos a pensar na ilha como um todo. Daí para a frente, o festival foi crescendo e tomando a semana até chegar ao formato que tem hoje em dia. É um festival de cinco dias, que acontece com base em Ponta Delgada mas que, efetivamente, tem a ilha de São Miguel como palco. Atualmente, até tem uma noite do seu programa que acontece na cidade de Ribeira Grande. O cartaz tornou-se internacional, sem limites geográficos ou de estilo musical. Gostamos de pensar que trazemos artistas independentes e que fazem o que fazem com uma grande paixão e com algo muito urgente para dizer. É um festival multidisciplinar, no sentido em que inclui outras narrativas artísticas e que serve de plataforma à criação artística. Temos um programa de residências em que todo os anos provocamos encontros, com projetos ligados às artes visuais e com comunidades e territórios específicos. À medida que o Tremor se foi descobrindo enquanto festival, que se alargou no território e na forma como se envolve com as comunidades, tornou-se não só um festival de apresentação mas também de criação. Há muitas propostas que se estreiam ou que se inauguram ali e que depois partem para outros caminhos.

G. – Nesse sentido, podemos olhar para o Tremor como um festival de convergência a todos os níveis. Concordas?
A. – Sim, a ilha torna-se um local de confluência, especialmente se pensarmos que apesar de estarmos numa condição que é ultra periférica, no meio do oceano Atlântico, estamos entre continentes e no meio do mundo. Ou seja, temos a possibilidade – se nos imaginarmos como centro – de sermos um lugar onde novos encontros podem acontecer, seja com artistas, seja com público que, hoje em dia, nos chega um pouco de todo o lado.

G. – Esse aspeto de promover encontros num local que não é geograficamente assim tão acessível surpreende-vos?
A. – Por um lado, sim, nunca achamos que fosse possível. Por outro lado, a evolução do Tremor em seis anos acompanha também a evolução dos Açores, e isso inclui fenómenos como a liberalização do espaço aéreo, o desenvolvimento da indústria turística, a cobertura mediática que o arquipélago tem ou a descoberta das ilhas por parte dos americanos. Começámos o festival no dito período da crise, da austeridade. Isso fazia sentido de uma forma muito intensa, num centro histórico que era um local abandonado e numa sociedade que estava deprimida, fechada sobre si. A cidade de Ponta Delgada desertificava às três da tarde, e isso foi mudando à medida que os Açores começaram a ter uma espécie de explosão no mundo. O festival foi acompanhando essas mudanças e contribuiu para elas, no sentido em que ele conta outras narrativas dos Açores e que abre portas a espaços que, pelo menos no imediato, não funcionam como cartão de visita. As pessoas quando pensam nos Açores associam o arquipélago às lagoas, águas quentes, vacas, chá, praias de água escura devido à areia ser preta ou umas paisagens tipo Jurassic Park. Acho que este festival e outros eventos vieram mostrar que existe muito mais do que isso. Além do mais, o festival criou muito entusiasmo, pertença e desejo. Sentimos essa necessidade, de que o Tremor é preciso nos Açores. Temos os artistas locais que querem estar no Tremor e até as pessoas que nos querem acolher nas suas casas. Não se põe a questão de «como é no próximo ano?», mas sim «tem de ser!». Claro que, em perspetiva, isto é muito surpreendente e não seria possível há seis anos, mas houve todo um movimento a muitos níveis diferentes que possibilitou essa confluência.

G. – Falaste nesse aspeto do acolhimento e da pertença. Como é o que os açorianos têm reagido à evolução do Tremor?
A. – Há uma comunidade fiel, que está lá sempre. Há uma comunidade de curiosos que vai e vem. Há uma comunidade que não se sabe relacionar e estranha por não reconhecer nomes ou as propostas que são feitas. Estranha o formato do festival, que não é convencional, de recinto, com banda no palco. E depois há ainda quem estranhe o fator intergeracional. Há pessoas de todas as idades e de todas as origens. Ao mesmo tempo há uma comunidade artística, que é um grande suporte, sendo por isso que há uma grande representação da nova música açoriana. Depois, temos ainda as comunidades locais que funcionam como nossos anfitriões. O festival começou, na primeira edição, por esgotar, o que foi logo surpreendente e que mostrava essa necessidade de haver coisas a acontecer. Ao longo dos anos, fomos experimentando, até pela natureza elástica do evento. Inventamos secções, abrimos para a ilha, aumentámos o número de dias, trouxemos outras artes e, por isso, houve estranhamentos e quem já não reconhecesse. Dou-te um exemplo, temos uma secção do festival que se chama Tremor na Estufa, com concertos em locais surpresa. Chamava-se assim porque a primeira sessão foi realizada numa estufa de ananases. Mas depois tornou-se numa secção, e a regra era que as pessoas tinham de apanhar um autocarro, com lotação limitada, para serem levadas. Era uma coisa de 70 pessoas. No quarto ano, tornou-se uma coisa para 700. Como podes imaginar, no quinto ano tivemos de abolir o autocarro, porque era impossível. No entanto, há umas semanas, apareceu-nos uma senhora que nos ofereceu um autocarro em miniatura a dizer quantas saudades tinha do autocarro do Tremor, em que as pessoas ficavam à espera na fila e conviviam (risos). Ora, hoje em dia, não é possível. Houve reajustes, e muitas pessoas na comunidade local queixaram-se porque tiramos o autocarro. Ainda assim é incrível ver que, para além do autocarro, iam depois carros atrás e as pessoas abriam as portas para dar boleias a estranhos. Hoje continua a haver essa cortesia e a partilha de descoberta que faz parte do Tremor.

G. – O Tremor tem esse lado de fruição musical que atrai público até pelo ecletismo do cartaz, mas há muitas pessoas que depois aproveitam para fazer turismo. Isso já faz parte da orgânica?
A. – Sim, e na ideia de como abrimos para a ilha, como encaramos a natureza e de como exploramos espaços não convencionais, entendemos que mesmo para os locais, esse era um exercício importante de deslocamento na forma como as pessoas tendem a habitar ou a descobrir os lugares. Há sempre muitas portas em que muita gente nunca entrou e para eles essa é uma forma de descobrir a sociedade, a sua ilha. É uma possibilidade de descoberta e de experiência a vários níveis. Claro que, observando aqueles que nos visitam, eles querem comer, querem lagoas e passeios. Por isso, não tínhamos como fazer um festival que não tivesse essa inclusão, no sentido experiencial e que é, simultaneamente, turístico e cultural.

G. – Um pouco à imagem do Milhões de Festa, o Tremor ocupa um lugar distinto, pela multidisciplinaridade e ecletismo do cartaz. Consideras que esse lugar ainda existe para que vocês se afirmem ou neste momento há muito mais oferta?
A. – Acho que a roda não está inventada, há todo um trabalho por fazer. É preciso arregaçar as mangas, falar com as pessoas e torná-las parceiras na formulação e ativação da tua ideia. Acho que muito foi feito por este festival no sentido em que ajudou a estimular uma dinâmica local. A cidade mudou, não apenas por este, mas por outros festivais, por galerias de arte que surgiram, casas noturnas que apareceram e que dispõem de espaços para concertos e exposições. Os espaços transformaram-se. Olha, por exemplo, uma das partes que organiza o Tremor é uma agenda cultural que se chama Yuzin, mensal e gratuita, que tem sempre conteúdos associados ao que acontece na ilha de São Miguel e na de Santa Maria. Isso é incrível! É um luxo naquele contexto, porque de repente tens um objeto que é um compêndio mensal, acessível a todos, de tudo o que acontece culturalmente ali, seja daquilo que é mais de vanguarda, seja do que é popular e tradicional. Em relação aos festivais, acho que há muito por fazer, muito mudou e há vontade de fazer mais. Há, a título de exemplo, um outro festival que é o Walk&Talk Azores, ligado à arte contemporânea, dança, performance e música. Hoje,entendemos que todos fazemos parte da mesma cena, de uma agenda, que cria novos interesses. Mas, claro, nós fazemos o Tremor de ano para ano, voltamos sempre à estaca zero, mesmo financeiramente. Gostava que o festival continuasse ad aeternum e gostava que aparecessem propostas para outras alturas do ano, outros espaços que ainda carregassem aquele teor criativo que aquelas ilhas podem ter enquanto laboratório experimental ou lugar de inspiração e de descoberta. Não há um artista que chegue ali e que não sinta isso e que não queria passar a palavra a outro. Isso faz com que os Açores comecem, cada vez mais, a fazer parte do mapa cultural. Não são só um conjunto de ilhas. Ali acontecem coisas que são extremamente importantes e que apontam para muitas direções do que a cultura pode ser, sobretudo quando ela é afeta à ideia de transformar uma sociedade e um território. Por assim dizer, o festival é um local de fruição, mas também de revolução.

“O Tremor é elástico, experimental e a única coisa que interessa é que seja algo de vivo, ligado ao presente e ao espaço”, fotografia de Your Dance Insane

G. – A verdade é que, ao longo dos últimos anos, foram sempre aparecendo novos festivais nos Açores. Como é que tu, sendo natural dos Açores, olhas hoje para toda esta dinâmica?
A. – Eu saí dos Açores com 16 anos para estudar teatro e acabei numa escola de teatro musical, tipo Fame, em Santa Fé, no Novo México. Depois voltei, fiz a universidade em Évora, onde estudei dança e, desde aí,trabalhei em dança e teatro. Foram anos em que eu não tinha forma de me relacionar com os Açores. Não tinha um palco, não tinha um interlocutor, não tinha uma plataforma da qual fazer parte. Com este boom de projetos, do Walk&Talk ao Azores Burning Summer, entre outros festivais, ao espaço Arquipélago ou ao Arco 8, que é um bar/galeria em Ponta Delgada, à agenda cultural Yuzin, à galeria Fonseca Macedo, ao Raiz Bar, entre outros espaços que são realmente marcantes na dinâmica cultural daquele lugar, senti novamente pertença. Penso ainda na Galeria Brui ou na Galeria Miolo. São muitas mudanças. Tens um bairro que se afirma como lugar criativo que é Quarteirão, onde há lojas e ateliês de artistas. Para mim, é uma grande felicidade fazer parte de um lugar em que sinto haver uma comunidade e em que eu possa estar a contribuir para criar esse movimento. Em que possa estar a dizer «aqui também é possível; os Açores também podem ser um centro cultural privilegiado e inspirador». Eu não tinha lugar e agora sinto que tenho uma missão. Digo-o eu e muitas comunidades de artistas que vêm ali potencial para fazer novos projetos. Por estas razões, diria que estamos num momento particularmente feliz. Há muito para fazer, muita estratégia por pensar e políticas a desenvolver, nomeadamente na profissionalização daquilo a que chamamos agentes da cultura. Os artistas estão lá, mas precisam que a própria ilha lhes garanta um palco ou uma galeria para se poderem apresentar e que também os promova e os leve além portas.

G. – De ano para ano, como é que vocês pensam a programação do Tremor?
A. – Nós somos quatro curadores: sou eu, o Luís Banrezes, o Márcio Laranjeira e o Joaquim Durães. Logo após uma edição, é feita uma reunião de balanço e é numa conversa a quatro vozes que surgem as propostas para o ano seguinte, com ideias novas, bandas e experiências. Depois há um jogo de equilíbrio em termos das propostas, por exemplo, no facto de querermos um cartaz em que exista igualdade de género, em que se traga para o centro do discurso identidades não binárias, pessoas que tenham uma outra relação com o corpo e que não seja minada pelos limites do género. Trabalhamos com algumas destas diretrizes. Depois, procuramos sempre que a música açoriana esteja representada. E nisto tudo há um pensamento sobre o que é que se quer dizer, o que se quer mostrar e a importância de programar artistas que apontam direções para novos fenómenos da cultura, cujo trabalhos sejam estâncias discursivas e que digam alguma coisa sobre estarmos aqui e agora neste mundo, tendo em conta os problemas que estamos a passar e as comunidades que criamos para nos expormos e defendermos. É muito importante na música pensarmos sobre o que é que um artista carrega, o que transmite e o que contribui para a criação de um imaginário ou para a criação de novas ideias.

G. – Para esta edição, que já está esgotada, qual é a antecipação que fazes?
A. – Nós nunca tínhamos esgotado 50 dias antes, e isso é muita responsabilidade. Ainda nos estamos a adaptar a essa ideia e a lidar com os problemas que isso traz. Mas, enfim, são cinco dias de música, de terça a sexta, pela ilha toda; há ainda uma grande surpresa que não se pode revelar; e sábado, no centro de Ponta Delgada, temos uma programação de 24 horas; temos também uma programação para crianças que se chama Mini Tremor, onde haverá concertos com panelas e instalações coreográficas. Será um festival de descoberta, com exposições, performances teatrais, que vai continuar a apostar nessas viagens surpresa, que vão mostrar São Miguel, daquilo que ainda não foi visto e que está bem guardado.

G. – E o autocarro vai voltar?
A. – Vai voltar, mas não para o Tremor na Estufa. Vai estar numa outra experiência em que uma companhia polaca, chamada Instytut B61, trará para o Tremor uma experiência imersiva e em que se cria uma performance que relaciona arte e ciência. As pessoas vão estar num espaço surpresa e em transição. Essa é a única dica que te posso dar. Isto é, será feita num espaço que era uma coisa, mas que está a transitar para uma outra coisa. Para chegarem a esses espaços, as pessoas serão levadas num autocarro.

G. – Do cartaz deste ano, o que é que gostarias de destacar?
A. – Quero muito ver uma banda espanhola que são os ZA!, que criaram já um culto no Tremor e que depois de já ali terem estado três vezes, regressam este ano com uma colaboração entre vários grupos de despensas de Rabo de Peixe, que é um grupo de homens que fazem danças com castanholas. Portanto, juntamos esta banda mega experimental da Catalunha com este agrupamento para fazer uma composição em que se tocam mundos.Quero muito ver o que é que a Ondamarela, de Guimarães, faz com a Associação de Surdos de São Miguel e com a Escola de Música de Rabo de Peixe, que é um projeto pioneiro de formação em jazz numa das vilas mais problemáticas do país, do ponto de vista social. É um projeto que muda vidas e que tem um ensino de música extremamente alternativo. Vamos juntar estas duas comunidades que estarão na abertura do festival.Depois destacar Bulimundo, grande festa do funaná e a grande descoberta do belga Lieven Martens que vem apresentar uma sonata em duas partes – uma eletrónica e outra acústica – sobre a história de uma guardador de vacas do Corvo, que é a ilha mais pequena dos Açores. Temos a Natalie Sharp, que esteve no Tremor no ano passado, e que este ano ajudou a criar o Tremor Todo-o-Terreno, em que os artistas são convidados a criar um banda sonora para um trilho pedestre e que as pessoas ouvem com fones enquanto fazem o passeio e de repente o artista aparece no meio do trilho. Depois, temos a dimensão da música independente americana com os Cave, os Grails ou o Colin Stetson. Temos ainda várias cantoras compositoras como a Haley Heynderickx ou a portuguesa Lula Pena. A diversidade é muito grande.

G. – Por outro lado, muitos artistas açorianos. Qual é a tua opinião sobre o panorama musical dos Açores?
A. – Acho que é um momento estimulante. É um panorama em mutação, não é homogéneo. Tens, por exemplo, o LBC que é uma espécie de marco local, um rapper extremamente prolífico e que, no Tremor, vai fazer uma colaboração com o realizador Diogo Lima. Tens o Balada Brassado, que surgiu o ano passado e que se tornou num artista viral, por causa dos vídeos e posts nas redes sociais com comentários e piadas sobre os mitos açorianos. Depois, tens figuras como o Rafael Carvalho que é como um porta-estandarte da Viola da Terra, que ensina e renova reportórios, e que está focado em manter aquela tradição viva. Há ainda os WE SEA, ligados a um universo mais pop, mas através de um imaginário insular, das festas típicas e com uma estética muito indie. Enfim, há muito para descobrir.

G. – Quais são os próximos passos do Tremor?
A. – Depois de fazer esta edição, é preciso entender como é que se persiste e se continua. Não está ganho. Acho importante pôr os pés no chão. Há um fenómeno de hype, de moda e de culto, mas é preciso refletir. Há muito para fazer no território. O nosso limite é o Corvo ou, se quiseres, todas as ligações maiores que o Tremor tem e que acabam na diáspora. Eu gosto de sonhar assim. O Tremor é elástico, experimental e a única coisa que interessa é que seja algo de vivo, ligado ao presente e ao espaço. O Tremor não é uma fórmula para franchise, não queremos impingir uma receita. Vamos antes mantê-la viva e virada para o “agora”. E espero que haja um processo de transmissão de conhecimento e que depois de nós venham outras pessoas.

G. – E que o Tremor continue.
A. – E que o Tremor continue!

Entrevista de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de capa de Bernardo Almeida

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