Um festival de dissenso, de partilha e de lançamento para novos artistas na área da criação contemporânea. Do teatro à dança, passando pela performance, o Festival Materiais Diversos tem atualmente estatuto de iniciativa consolidada, que manteve intacto o seu propósito de promover o encontro entre as áreas performativas e as comunidades locais.

Reconhecido pelo seu mote disruptivo, à 10.ª edição, o festival – que decorre de 27 de setembro a 5 de outubro, nas localidades de Minde, Cartaxo e Alcanena -, acolhe 17 espetáculos, cinco em estreia absoluta e quatro em estreia nacional, e mais de 60 atividades envolvendo 150 artistas nacionais e internacionais.

Em entrevista ao Gerador, Elisabete Paiva, diretora artística da Materiais Diversos, falou da importância do festival na região onde se insere e onde ajudou a criar práticas culturais, dando impulso à economia local. Além disso, a responsável falou da falta de “políticas culturais com visão”, o que perpetua a ideia de inacessibilidade face às artes contemporâneas. Face a este paradigma, Elisabete Paiva reconhece no entanto, um maior sentido crítico dos públicos que se tem desenvolvido nos últimos anos. “É muito importante alimentar a existência de espaços de encontro em que as pessoas possam estar juntas e discordar”, realça.

Gerador (G.) – Comemoram este ano a 10.ª edição do Festival Materiais Diversos. Que balanço fazem do percurso trilhado até hoje?
Elisabete Paiva (E. P.) – Um balanço muito positivo, não sem dificuldades, mas as dificuldades podem-se transformar em desafios e em fator de impulso para a criatividade. Muito positivo mesmo porque o festival persistiu na região, o que não é evidente face à descontinuidade das políticas culturais e à dificuldade em se compreender o papel da criação contemporânea. Não é evidente que tenha persistido, e isso é já um ganho. Outro ganho é o reconhecimento da qualidade do festival enquanto marca. Os públicos e os parceiros reconhecem essa qualidade e que podem confiar nas nossas escolhas, independentemente do conteúdo ou da opção estética. Outro muito importante é que efetivamente o festival trouxe boas práticas para as associações que trabalham na área da cultura, metodologias diferentes, e deu um impulso à economia local. O festival desempenha um papel importantíssimo para a restauração, o alojamento, sobretudo agora nesta versão que tem mais programação regular e ao longo do ano. Um outro fator que não é quantificável é que o festival criou um horizonte de possibilidade mais vasto para os jovens desta região. Há jovens que nos procuram para assistir ao programa, que nos procuram para ser voluntários, que ganharam um impulso e uma certeza de quererem estudar e trabalhar em artes e na cultura por causa do festival e há, inclusive, já uma política desde 2016 de contratação de jovens para a equipa do festival que sejam da região e que eventualmente já tenham sido voluntários e que agora merecem dar o salto e começar a profissionalizar-se.

G. – Destacas essa questão dos territórios periféricos onde a presença das artes contemporâneas não é tão evidente e o festival tem essa lógica de trazer novas linguagens bem patente. O impacto tem correspondido às vossas expetativas?
E. P. –Acho que é um festival que tem contribuído para melhorar a dinâmica social da região. Nós recolhemos em 2016 testemunhos sobre o que é que o festival representava para várias pessoas, e há pessoas que falam do festival como uma bolha de oxigénio na região para que queira ter uma vida cultural mais rica e para quem precise no seu quotidiano de discutir, de imaginar, de contactar com perspetivas diferentes. O festival adequa-se ao local, no sentido em que pensa sobre o território e escuta os públicos, mas não está pensado numa lógica de conciliação ou de baixar a fasquia. O festival está pensado numa lógica de crescimento comum. As pessoas reconhecem que há um ambiente construtivo.

G. – Os públicos reconhecem que existe essa reflexão por detrás do festival?
E. P. – Reconhecem que é um ponto de encontro, porque uma das coisas que acontece nestas zonas é sentirmo-nos isolados, e esse é também um testemunho que várias pessoas nos deram. O festival contribui para minimizar esse isolamento porque traz outras pessoas e outras vozes para a região.

G. – Faltam políticas com maior adequação aos territórios?
E. P. – Faltam políticas culturais com visão. Há uma ideia nas localidades mais pequenas e uma tendência de achar que na arte contemporânea os artistas ou que a cultura é uma e deve estar nas cidades e que essas formas são para uma elite e que são manifestações sobranceiras, fechadas em si mesmas por si só. Portanto, do ponto de vista das políticas culturais, há um grande receio em apostar em propostas que eventualmente não sejam consensuais e daí eu ter dito que é interessante que o festival tenha subsistido, o que é um impacto manifestamente positivo, até porque os políticos não são afirmativos do ponto de vista de qual é o papel da cultura. Querem a cultura do espetáculo, a cultura dos números, querem a cultura da validação, do público que é também eleitor e do êxito de bilheteira daquilo que já foi validado pelos média. Eu acho que isso é uma perspetiva paternalista e redutora do que é pode ser a cultura. A cultura não é uma, são várias e as artes não todas elitistas e sobranceiras embora a prática artística esteja codificada, com linguagens próprias. Isso não significa que haja um fechamento e que não possa ser descodificada. Se entendermos logo à partida que as pessoas ao irem ao encontro desses códigos não vão perceber, estamos a reduzir todas as possibilidades destas pessoas serem melhor em si mesmas.

“O festival trouxe boas práticas para as associações que trabalham na área da cultura, metodologias diferentes, e deu um impulso à economia local”

G. – Da parte dos públicos sentem uma maior valorização em relação à vossa programação?
E. P – Dos públicos, sinto uma valorização. Acho que as pessoas não gostam de todos os espetáculos, mas acho que gostam de muitos e, sobretudo, nota-se ao longo dos anos, pela prática de haver conversas após cada espetáculo que o público amadureceu. Isso é sinal de maturidade e trabalho feito. Faz parte dos impactos que nós geramos. É uma desinibição do espaço público e é uma emancipação da consensualidade. É muito importante alimentar a existência de espaços de encontro em que as pessoas possam estar juntas e discordar. Faltam espaços de dissenso.

G. – A Materiais Diversos tem também apostado num sistema de apoio através de bolsas. Qual a importância da atribuição destas bolsas?
E. P. – É importante porque não temos todos o mesmo acesso. Por exemplo, a bolsa Filhos do Meio é uma afirmação do nosso papel na região. É dada a dois projetos cada dois anos, inclui acompanhamento criativo e inclui apoio logístico e uma bolsa pecuniária para que o artista possa ter algumas condições. São também feitos convites a outros agentes para virem ver o trabalho. Essa bolsa afirma a nossa responsabilidade sobre o lugar onde estamos e que consideramos que ainda não existem as mesmas condições em todos os lugares para que os artistas se fixem. Nós queremos contrariar essa tendência e contribuir para que haja essas condições. Há também uma bolsa na área da dança de consultoria em produção porque há muitos artistas mais jovens que não têm dinheiro para pagar a um produtor. Nós fazemos um acompanhamento semanal do trabalho de jovens artistas e isso tem sido muito importante porque ajudamos a afinar metodologias e a definir estratégias, o que pode ser importante na carreira dos mesmos. Para já não falar das residências que na área da dança passaram a ter uma bolsa também em dinheiro.

G. – Como é que é feito o financiamento do festival?
E. P. – Sobretudo de apoios públicos e algum apoio privado, mais no sentido de parcerias. Conseguimos um mecenas há dois anos para projetos com jovens. Mas o mecenato não é uma área em Portugal muito desenvolvida. Nas artes performativas, é particularmente difícil porque ela não traz do ponto de vista dos números e da visibilidade mediática aquilo que as empresas querem. Por isso estamos numa franja e é difícil chegar aos grandes mecenas.

G. – Como é que descreverias a programação deste ano?
E. P. – É uma programação que quer transmitir paixão e convicção pela diversidade e a minha fé de que este festival existe para ser um espaço de encontro entre diferentes. Todas as escolhas foram feitas por convicção, por paixão e por articulação de encontros potencialmente positivos para as pessoas ou com um lugar ou com artistas, sempre numa perspetiva livre. É preciso haver espaços de dissenso, e o festival quer se afirmar assim. Como um espaço de colaboração, sendo que os artistas trazem um olhar diferente sobre o que está a acontecer à nossa volta. Interessa-nos trazer esse lugar para debaixo da luz e partilhá-lo com as pessoas.

Podes ler mais sobre a 10.ª edição do Festival Materiais Diversos no número 27 da  Revista Gerador, que podes adquirir aqui.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Luísa Baeta
O Gerador é parceiro do Festival Materiais Diversos

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