Filipe Sambado estreou-se na música em 2012, com o EP Isto não é coisa para voltar a acontecer. Passou parte da sua vida em várias cidades de Portugal e iniciou-se como técnico e produtor em audiovisual. De momento, vive da música e soma já uma discografia que conta com discos como Vida Salgada, Filipe Sambado & os Acompanhantes de Luxo, entre outros.

Para 2020, o artista espera uma nova fase. Janeiro vai ser o mês do lançamento do novo álbum, Revezo, que vai ser um disco “meio beat, mas com uma vibe muito anos 60 e 70 na formalidade da canção”. No mês seguinte, o cantor sobe ao palco do Festival da Canção para interpretar a sua música, na primeira semifinal do concurso.

Gerador (G.) – Quem é o Filipe Sambado?

Filipe Sambado (F. S.) – Eu sou um rapaz de 34 anos, nasci em Lisboa e morei numa data de sítios. Estive em Santo André, depois fui morar para Lagos, Elvas, voltei a Lagos e, finalmente, regressei a Lisboa. Em Lisboa, só tinha mesmo nascido. Esta é a minha apresentação em relação ao meu crescimento. O que é que eu faço? Eu neste momento consigo estar dedicado apenas à música, mas até há pouco tempo trabalhava na área do audiovisual como técnico e produtor.

G. – Como é que a música entrou na tua vida?

F. S. – Não sei ao certo de que forma foi, mas sei que forma tinha. Foi através do hip-hop e r&b que me comecei a interessar mais pela música. Também surgiu do tempo que ia passando com o meu pai e pelo facto de ele me mostrar alguns discos que tinha.

G. – Dizes na tua página do Facebook que o EP 1234 surgiu como uma “urgência tipo jato”. A tua vida é acelerada ou vives nas calmas?

F. S. – Eu sou muito tranquilo por fora, acho eu, mas não sou por dentro. Sou um bocado agitado interiormente. As pessoas que são próximas de mim têm essa sensação de que sou uma pessoa muito tranquila.

G. – Tu também te caracterizas por um ativismo social através da música. Sentes que tens essa responsabilidade como músico?

F. S. – Não é uma responsabilidade. Embora isso seja uma responsabilidade social, eu não vejo bem assim. É mais uma tomada de consciência. Sabendo que ocupo um espaço, sei que posso aproveitar isso para fazer e dizer coisas que me incomodem e que podem coincidir com certas temáticas que estejam aos olhos das pessoas. Também porque as próprias pessoas vão estar mais alerta. As agendas e programas proliferam nas redes, e é muito fácil ficarmos a par de tudo e também incomodados. Portanto, isso torna-se facilmente temático.

G. – E sentes que as figuras públicas deveriam tomar mais essa consciência?

F. S. – Não. Se as coisas não se passam diretamente contigo, não tens de ter essa obrigação. Esses temas que acabo por falar é porque me são muito próximos. Se as coisas não são diretas contigo ou simplesmente não te apetece falar sobre elas, também não tens de falar só porque é pertinente.

G. – No site onde consta a tua discografia, agradeces sempre à tua família. Que lugar é que ela ocupa na tua vida?

F. S. – O coração. Ocupa sempre um lugar importante. Eu tenho uma família grande, tanto do lado da mãe como do lado do pai, e tive a necessidade e a oportunidade de poder passar muito tempo com a família toda, com primos e tios, inclusive. E então tenho essa proximidade grande com a família.

G. – A indústria musical em Portugal é recetiva aos artistas emergentes ou ainda existe uma grande barreira?

F. S. – Não sei. Sinto que os degraus que temos de caminhar são sempre logaritmos. Não são degraus de tamanho linear. É muito difícil subir para o patamar seguinte. O patamar seguinte é sempre o dobro do anterior, nunca é do mesmo tamanho. Quando subimos, ficamos demasiado tempo nesse patamar a sentir que chegamos a um sítio bom. Mas depois, quando queremos ir para o outro, porque sentimos que merecemos ou é o próximo passo a dar, parece que nunca mais o damos até o conseguirmos finalmente dar. Agora, não há propriamente um estatuto entre artistas consagrados e artistas emergentes. É um caminho que às vezes fazem em simultâneo. A única diferença que existe é a capacidade financeira dos artistas. Tens artistas emergentes e estão a tocar nas rádios todas e não conseguem receber o mesmo porque não têm tantos anos de carreira ou não atingiram estatuto de consagrados. Tens de estar atento: se parares, desapareces.

G. – Quais são as tuas maiores inspirações?

F. S. – Este ano, foi a Rosalía, o Fausto, o Zeca... Lembro-me de que ouvia muito a Charli XCX, também. Houve várias coisas da pop que ouvi muito e ao mesmo tempo voltei à canção de resistência e protesto português. Acabou por ser um ano muito marcado por essas coisas que, não sendo distantes, acabam por sê-lo.

G. – O que é que podemos esperar do próximo álbum, Revezo?

F. S. – Eu acho que é um bocado disso, desse lado. Se calhar o trabalho que a Rosalía fez inspirou-me a fazer uma pesquisa semelhante, mas com padrões mais nossos. Por Este Rio Acima foi um disco que eu me fartei de ouvir e fiquei completamente embrenhado no seu lado percussivo, não só nas belas canções que o Fausto fez, mas no lado dos arranjos percussivos. A ideia foi passá-los para uma coisa mais urbana e tentar fazer disso uma linguagem minha. Acho que o disco vai ser uma coisa meio beat, mas com uma vibe muito anos 60 e 70 na formalidade da canção.

G. – Quanto ao Festival da Canção, qual foi a tua reação ao convite para a composição?

F. S. – Eu não sei bem como reagi porque eu não conheço o festival. Conheço o formato e tudo mais, mas não costumo ver o festival. Tinha ficado um bocado apreensivo, no ano passado, por causa da situação do Conan... Foi toda muito estranha. Não seguindo o festival, chegaram-me pelas redes todas aquelas maldicências e achei aquilo tudo muito pesado. Fiquei sem vontade nenhuma de participar caso me convidassem. Até comentei com a Cecília, que é a minha namorada, que se me convidassem, para ela me lembrar de que eu não queria participar. Mas quando apareceu o convite, acho que foi mais forte do que eu e acabei por aceitar.

G. – O que achas dos restantes compositores?

F. S. – Eu acho que está bastante variado. Faziam falta mais mulheres, muitas mais mulheres. Há pouquíssimas, só há três mulheres compositoras e, num grupo de 16 pessoas, é muito fraco. Deveria haver um equilíbrio maior.

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia de Diogo Vasconcelos & Xipipa

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