Gui Garrido, diretor artístico do festival A Porta, recebeu o Gerador na sua casa em Lisboa para uma conversa informal sobre o que vai acontecer em Leiria entre 14 e 23 de junho. “É precisamente isto que o festival pretende: que se abram as portas da intimidade, o que já é raro nos dias que correm”, começa por dizer enquanto se senta para conversar na mesa da sala. O encontro agendado para um jardim acabou por passar para a sala de estar da casa do diretor artístico d’A Porta enquanto a chuva, lá fora, teimava em ficar.

Tanto sobre Gui Garrido como sobre A Porta — o festival que começou a projetar em Leiria há cinco anos — nem tudo se encontra no Google. “Há muita coisa que não se encontra no Google, felizmente. O início da porta tem duas partes distintas, mas são fundamentais e têm uma relação entre elas. Uma delas é uma reaproximação minha a Leiria, depois de ter sido pai, na qual encontrei uma cidade muito mais ativa, com uma massa associativa e com agentes culturais a título individual; a outra tem também que ver com esta reaproximação, mas com o facto de ter visto lugares que foram extremamente importantes para mim e que estavam entregues a um certo abandono”, começa por contextualizar.

“Este nome, A Porta, tem muito que ver com essa vontade de abrir portas. Sejam elas as portas de espaços que estavam fechados e abandonados, ou até de novos espaços da cidade que não estão a ser ocupados ao abrigo das artes como achamos que deveria de ser”, explica. Gui conta que esta abertura só é possível porque “há muita gente a contribuir para que isto aconteça, abrindo as portas das suas casas, dos seus teatros e dos seus estabelecimentos comerciais” para celebrar em conjunto.

É a pensar nos leirienses e no restante público que vem de fora que faz “um festival para todos”. “Esse é o nosso subtítulo — Um festival para todos — porque, de facto, temos um público-alvo muito abrangente desde o começo. Vai do bebé ao sénior”, conta Gui sem esconder um sorriso, “E a ideia de pensarmos um festival para todos também tem que ver com questões de acessibilidade, que também são incluídas na nossa programação através de atividades como uma aula de skate para cegos (como já fizemos em parceria com a ACAPO) ou o Pé de Atleta, para pessoas portadoras de profundas deficiências físicas que não se consigam locomover”, remata.

Portinha

A Portinha é o programa de serviço educativo d’A Porta

Gui Garrido tem plena consciência de que o percurso que foi fazendo, com o qual foi ficando mais atento a assuntos que habitualmente estão nas franjas da sociedade, tem repercussões na programação que faz. “Tem que ver com um trajeto meu, com coisas que fui tendo pontualmente ao longo da minha vida. Quando estudei nas Caldas da Rainha, tive umas aulas de língua gestual, quando fui viver para o Porto, tive um espaço cultural onde tínhamos aulas de dança para cegos e acabei por organizar no Teatro Rivoli uma angariação de fundos para uma equipa de futsal ir ao campeonato europeu para cegos, que eu nem sabia que existia”, diz Gui. “Eu questiono sempre: será que não há comunidade suficiente para criar a estrutura para essas pessoas irem ou estarem incluídas, ou será que somos nós que simplesmente não criamos essa estrutura?”

A formação em artes plásticas nas Caldas da Rainha, os mais de 10 anos dedicados à dança contemporânea e as outras áreas de interesse que completam o seu universo de referências — como a música, a arquitetura e a gastronomia — influenciam o programa eclético que faz questão de ter n’A Porta. “Em 2014, eu quis pôr num festival o meu background, exceto a dança, porque era isso que eu conhecia mais e que, se calhar, era exigente e mais crítico”, confessa admitindo de seguida que, ainda assim, têm tido “alguns apontamentos de dança no festival”. O que decidem incluir ou excluir da programação vai entrando e saindo naturalmente. Tal como o logotipo que muda de edição para edição, Gui explica que tudo é possível de ir sofrendo alterações porque “os interesses acabam por mudar, as vontades também, e somos atravessados por outras sensibilidades, temos outras vontades de mostrar”. “O projeto, tal como nós, é algo mutável”, refere com convicção.

“Nós somos uma equipa muito pequena, que dá a sua alma e coração; o seu tempo livre. A maior parte das pessoas têm os seus empregos normais e são pessoas com um papel fundamental em Leiria, que tiram parte do seu tempo para pensar no Festival. Há uma exigência da nossa parte em querer mostrar projetos diferenciadores, algo que não seja muito comum de ir a Leiria”, conta Gui Garrido. O diretor artístico do festival sente que “trabalhar com a comunidade artística de Leiria é fundamental” e diz, sem deixar margem para dúvidas, que “Leiria tem uma massa criativa inacreditável”. Com A Porta, gostava de ajudar a “sedimentar novas possibilidades para o futuro, melhores condições financeiras, melhor estrutura de apresentação, melhores contactos em rede para haver circulação”.

O laço entre o festival e a cidade de Leiria é fundamental

N’A Porta, todas as atividades da programação pesam o mesmo. Gui explica que até aquele que podia ser considerado o programa paralelo “está profundamente integrado no festival”. A ideia “de criar o espaço e o tempo para a família estar a usufruir de um momento em conjunto é estruturante”, e o projeto de serviço educativo vai ganhando um peso cada vez maior na totalidade do festival. “Claro que também me dá muito gosto trazer o novo disco dos First Breath After Coma ou a festarola dos Mauskovic Dance Band, mas o festival não é só isso. Não é um festival apenas de música e entretenimento. E mesmo o programa musical viaja por uma série de géneros e permite que este seja um festival de descoberta, com os riscos que isso pode trazer”, sublinha.

A ideia de mostrar novos projetos e possibilidades aos públicos que recebem n’A Porta agrada a toda a equipa. Gui explica que isso acontece medindo as vontades das duas partes: dos programadores e dos públicos. “Eu não programo para mim. O programador tem de ter sempre muito respeito e atenção à vontade dos seus públicos.”

A contar 5 anos de existência, A Porta tem desbravado caminhos em Leiria e as mudanças, para Gui Garrido, são visíveis. “Com toda a modéstia que devemos ter, sinto que fomos tendo alguma influência na vida cultural de Leiria. Até porque há muita comunicação entre nós e os agentes locais. E isso é uma coisa que valida o projeto: não se fechar em si mesmo. Estou extremamente feliz e grato por sentir que a educação para a cultura é, cada vez mais, refletida em Leiria”, confessa a sorrir, com o brilho no olhar de quem vai vendo uma missão ir sendo cumprida. “Isto é dar para receber”, conclui.

The Mauskovic Dance Band são uma das bandas no cartaz deste ano

Entre 14 e 23 de junho outras portas se abrem em Leiria, para albergar uma programação eclética o suficiente para juntar a família toda num programa diferente, longe de telemóveis e computadores. Podes consultar a programação completa do festival, aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de ©Vera Marmelo
O Gerador é parceiro d’A Porta

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