Um festival que promove o encontro entre artistas e público e que prima pelo cruzamento de diferentes linguagens artísticas. É desta forma que se carateriza o MEXE – Encontro Internacional de Arte e Comunidade, que regressa ao Porto entre os dias 16 e 22 de setembro.

Em entrevista ao Gerador, Hugo Cruz, diretor artístico do MEXE, apresenta algumas das novidades para a quinta edição do evento, que se tem vindo a afirmar como um importante espaço de discussão das práticas artísticas comunitárias.

Performances, instalações, música, teatro, dança, oficinas e cinema serão algumas das linguagens que explorarão o diálogo entre arte e comunidade, numa edição marcada também pelas extensões do MEXE nas cidades de Faro e Lisboa.

Na cidade do Porto, o MEXE vai ocupar algumas das principais salas e espaços públicos da cidade para debater sobre “o comum” na sociedade contemporânea. “Depois de uma série de falências de determinadas configurações políticas e com as múltiplas crises que atravessamos, queremos pensar como é que configuramos este comum e como é que é possível nos reestruturarmos e construirmos uma nova forma de estarmos em conjunto”, explica Hugo Cruz.

Até ao momento, o projeto musical português Fado Bicha e o grupo de teatro brasileiro Coletiva Ocupação estão entre as primeiras confirmações da iniciativa. Além destes, o MEXE conta ainda com a proposta da artista Caterina Moroni, Duck March, em que se realizará uma marcha coreografada sobre a maternidade composta exclusivamente por mulheres grávidas. Na maioria dos casos, a programação do festival é totalmente gratuita.

Gerador (G.) – Como é que descreves o MEXE?
Hugo Cruz (H. C.) – O MEXE é um espaço no qual tentamos provocar encontros inusitados e improváveis entre pessoas de diferentes geografias, em locais menos visíveis da cidade do Porto e que nos permite debater acerca de outras formas de estar na vida. É um festival que permite a experimentação, durante uma semana, de outros padrões de relação, de criação artística e de organização social. De uma forma geral, eu diria que o MEXE possui a esta provocação positiva e implícita de pôr as pessoas olhos nos olhos, corpo a corpo, demonstrando ao público que isso permite reconstruir o olhar que temos uns dos outros e do mundo. Desta forma, toda a linha programática do MEXE é pensada nestas premissas e por isso é que os artistas são postos em profundo diálogo com as comunidades, quer nas suas criações quer na própria organização da qual fazem parte.

G. – É portanto um festival marcado por uma programação multidisciplinar e com espaço para as mais variadas narrativas artísticas?
H. C. – Exatamente! A proposta programática é realmente de cruzamento disciplinar, ou seja, trabalhamos com o teatro, a música, a dança e as artes plásticas, especialmente em espaços públicos – de preferência, menos convencionais – embora tenhamos alguns espectáculos em sala no Teatro Nacional São João. Devido a este enquadramento inicial, faz sentido falar do MEXE como um espaço de hibridez e de cruzamento no que diz respeito às linguagens artísticas. É muito mais interessante perceber quais são os territórios que cruzam novas abordagens e perceber que novos territórios é que emergem dessa dinâmica, com caraterísticas próprias. Parece-nos que esta é uma forma muito urgente de testar novas criações e ir ao encontro de novas linguagens artísticas e sociais. Diria que esse ponto de vista é perfeitamente coerente com a nossa filosofia.

G. – O que acaba por ser uma marca que vos distingue enquanto festival. Concordas?
H. C. – Sim, de alguma forma, acho que essa caraterística, por uma questão de coerência, só pode funcionar assim. Ou seja, não é concebível para nós estar a programar áreas que fossem estanques. Neste tipo de encontros, com esta atenção à emergência e até algum cuidado que temos de ter com a experimentação de coisas novas, faz todo o sentido que o festival se distinga por esse cruzamento disciplinar. Se isso nos diferencia? Eu acredito que de alguma forma sim.

G. – Como é que o MEXE se encontra organizado?
H. C. – O MEXE divide-se em quatro grandes áreas. A do pensamento, onde está integrado o Encontro Internacional de Reflexão sobre Práticas Artísticas Comunitárias (EIRPAC), organizado em conjunto com oito universidades portuguesas que ali desenvolvem uma série de cursos artísticos. Para este encontro, abrimos uma open call de candidaturas de projetos e vamos agora começar a analisar. Só para se ter uma ideia, na última edição, tivemos cerca de 100 comunicações de onze países diferentes. Esta área de pensamento faz todo o sentido que esteja intercalada com a ação que desenvolvemos no festival. É também o tempo de parar e refletir face àquilo que estamos a fazer. Temos comunicações que assumem a forma de performance, workshops, entre outras abordagens. Em segundo lugar, temos a linha de documentação, em que temos no fim de semana antes do início do festival uma programação dedicada a processos artísticos participativos. Depois, em terceiro lugar, temos outra linha dedicada à capacitação/formação, em que aproveitamos o facto de ter um conjunto de artistas no Porto para que possam contactar com os grupos comunitários e com as escolas artísticas da cidade que também integram estas formações. Finalmente, em quarto lugar, temos a área de apresentação, em que temos os espectáculos e residências artísticas que decorrem nos vários espaços do festival.

Além desta quatro áreas, o MEXE tem ainda três níveis de vivência diferenciados. Temos o Mexe Casa, que consiste numa experiência de proximidade, em que temos cerca de 45 alojamentos na cidade que vão permitir às pessoas que vêm de propósito ao festival estarem próximas das dinâmicas da cidade no seu quotidiano. Neste nível, temos uma ilha do Porto que vai estar disponível para alojar estas pessoas que, assim dessa forma, podem estar num momento de grande proximidade com os artistas e com os grupos comunitários envolvidos. Depois temos o patamar do Mexe Praça que, na verdade, funciona como o nosso meeting point, de 16 a 22 de setembro. Ou seja, todos os dias depois da programação diária terminar, o Jardim de São Lázaro será ocupado pelos artistas e pelo público, e claro temos curiosidade para saber o que é que deste momento pode surgir. Lá haverá ainda concertos e será lançada uma fanzine com uma reflexão sobre cada dia do festival e em que obviamente haverá toda uma oferta em termos de restauração. Essa componente do encontro é, para nós, extremamente importante, uma vez que pretendemos, sobretudo, aprofundar o diálogo entre pessoas; queremos esse tempo para estar e não para se andar a correr entre espetáculos, sem haver tempo para conversar sobre eles. Fundamentalmente, queremos que esta semana seja um pretexto para nos alimentarmos para o resto do ano. Este espaço serve para que toda a gente possa conhecer-se e conversar. Finalmente, temos o Mexe Cidade como terceiro nível em que convidamos uma série de estruturas da cidade do Porto a associarem-se ao festival da forma que lhes for mais conveniente e a trabalharem o tema do festival que este ano é o “Comum”. Lançamos um desafio, num nível mais macro e deixamos que cada parceiro possa trabalhar ideias da forma mais conveniente. É, no fundo, mais uma forma do MEXE se moldar à cidade.

"Faz sentido falar do MEXE como um espaço de hibridez e de cruzamento no que diz respeito às linguagens artísticas"

G. – Essa questão do tema é fundamental para a conceção do MEXE?
H. C. – Sim mas, na verdade, o tema não é obsessivo, no sentido em que toda a programação tem de estar subordinada a isso. Serve como indicador de uma urgência para discussão e reflexão no momento em que ele é decidido. Nem faria sentido que toda a programação estivesse necessariamente conectada. É uma espécie de linha orientadora para nos situarmos relativamente às nossas preocupações, que achamos que devem estar presentes no festival.

G. – E o que se pretende com o tema escolhido para este ano?
H. C. – Este ano, com o tema “Comum”, queremos debater sobre o que é que significa comum hoje em dia. Falamos de quê? Depois de uma série de falências de determinadas configurações políticas e com as múltiplas crises que atravessamos, queremos pensar como é que configuramos este comum e como é que é possível nos reestruturarmos e construirmos uma nova forma de estarmos em conjunto. É esse o mote e a grande pergunta que nos orienta nesta edição.

G. – Concordarias se dissesse que, para além do MEXE ser um encontro entre artistas e público, é também um festival que quer passar uma mensagem e ser ativista de certa forma?
H. C. – Acho que isso depende da conceção que temos de arte e, para nós, não é possível falar de arte, sem falar de pensamento. Nesse ponto de vista, o MEXE é claramente um festival artístico e de pensamento. Se isso é uma forma de ativismo? Podermos sê-lo não é um rótulo que incomode, mas existe essa dimensão de estarmos muito atentos à realidade e preocupados, mas não de uma forma que nos bloqueie ou nos torne pessimistas, mas numa que nos traga algum prazer. É o prazer de estar na luta. E repara como é difícil em Portugal assumirmos que, quando estamos em determinadas lutas, não estamos porque somos masoquistas. A luta tem um lado muito prazeroso, com uma conexão muito forte à possibilidade de transformação. É uma conexão muito forte à criação de mundos que ainda não são possíveis, mas que a história cíclica da humanidade nos vai mostrando que mais à frente esses mundos podem ser possíveis. Então, desse ponto de vista, nós estamos ai situados. Isto é, no mundo em que nós estamos, inevitavelmente, a arte é criação de momentos, de tendências e que são reflexo de uma profunda ligação com a atual situação social.

G. – Achas que estamos num momento propício para este tipo de diálogo?
H. C. – Em 2011, quando começámos o festival, o mundo era outro. Só passaram oito anos mas aconteceram muitas coisas, de forma muita acelerada no mundo, mas também em Portugal. A situação política mudou muito. Pensando as coisas de forma mais global, há claramente uma falência de um sistema de organização democrática que urge agora não só ser pensado, mas ser mudado e rapidamente. O exemplo que nos foi dado com as manifestações dos estudantes sobre as questões ambientais revela, nomeadamente, que as gerações mais novas já estão a perceber que é necessário mobilizar e agir e não apenas ter uma narrativa sobre as coisas. Desse ponto de vista, há uma série de fissuras que, no bom sentido, devemos explorar. Portanto, neste conceito de festival que apresentamos, queremos dar respiração a essas fissuras e aproveitá-las no sentido da transformação. Dito isto, acho que os modelos de festival têm de ser adaptar obviamente aos públicos que temos e, necessariamente, tem de haver mais ações pontuais de programação, nomeadamente como forma de chegarmos às populações que têm menos acesso à fruição cultural. Estas populações têm o mesmo direito que aquelas que vivem nos grandes centros no que toca ao acesso à cultura, e isso tem de ser feito de forma continuada. Nesse sentido, eu acho que este modelo de festival nos pode aproximar mais de uma relação mais aprofundada e vertical com as populações nos seus diversos contextos. Somos um país pequeno, mas com grande diversidade, portanto, aproximar a população a este tipo de programação multidisciplinar é verdadeiramente fundamental. Para teres uma noção, no MEXE discutimos recorrentemente a programação e não é uma decisão feita de forma vertical. Quando o festival acontece, os próprios grupos com que trabalhamos são coprodutores e cocriadores.

Duck March, criação de Caterina Moroni

G. – Até ao momento confirmaram Fado Bicha, Coletivo Ocupação e a Duck March. O que nos podes dizer acerca das primeiras confirmações?
H. C. – São três confirmações que nos deixam muito felizes. O “Quando quebra queima” do Coletivo Ocupação é um espetáculo que envolve 18 jovens brasileiros, da cidade de São Paulo, em coprodução com a Câmara do Porto, no programa Cultura em Expansão. Por volta de 2015, há um conjunto de escolas no estado de São Paulo que são encerradas, porque estavam em zonas problemáticas, serviam populações desfavorecidas e onde existiam interesses imobiliários. Face a isto, os alunos mobilizaram-se e, por sua iniciativa, ocuparam 70 escolas do estado, num movimento que ficou conhecido como “secundaristas”, porque eram alunos do ensino secundário. Eu visitei algumas dessas escolas, e o que era mais interessante é que não se tratava apenas de um movimento de ocupação, mas que discutia também a escola e de que forma a instituição devia estar adaptada aos dias de hoje. Assim sendo, os alunos começaram a criar novas disciplinas que não tinham, a convidar outros professores, organizaram a limpeza e a comida. Isto foi possível durante dois meses, não foi uma alucinação, o que demonstra uma certa organização, tanto é que alguns professores e pais se juntaram reconhecendo o movimento. Deste período, surge então o grupo de teatro Coletivo Ocupação, que vamos receber e que,neste espetáculo, faz uma revisitação ao que foi o movimento. Este conjunto de jovens irá apresentar o espetáculo no liceu Alexandre Herculano, no Porto, que é um dos mais antigos da cidade. O grupo vai também fazer uma oficina para jovens no Porto, que termina numa ocupação da própria rua. O grupo vai ainda fazer uma conferência sobre esta experiência na Fundação de Serralves.

Relativamente ao Fado Bicha, nós achamos que se trata de um projeto com o qual devemos ter imenso cuidado no sentido positivo da palavra. É um projeto extremamente coerente e consistente e que põe o que realmente há de mais conservador na nossa sociedade em diálogo com causas que não deveriam ser só de hoje. O trabalho do João e do Tiago dialoga completamente com a lógica do nosso festival.

Depois temos o trabalho da Caterina Moroni, com esta marcha de mulheres, Duck March. Trata-se de um projeto muito interessante porque, primeiro, é muito raro vermos ajuntamentos de tantas pessoas em espaço público, isto é, de forma espontânea. Ao contrário dos homens, há também uma reserva das mulheres em relação ao espaço público, reserva essa que é estrutural. Por isso, esta proposta da Caterina de juntar vinte mulheres no espaço público, só por si já é muito significativa. O facto de serem mulheres grávidas é obviamente um símbolo a que se associa e reafirma a questão da gravidez, como apenas uma das dimensões do feminino. Acho que a intenção da artista, por um lado, é de intensificar essa caraterística, mas o que está na base do trabalho é, essencialmente, a ocupação do espaço público por um grupo de mulheres, pelo que já estamos perante um ato que é artista e político.

G. – Por fim, o que nos podes contar das possíveis incursões do MEXE noutras cidades?
H. C. – Queremos que o festival chegue, definitivamente, a outros locais. Para já, a extensão de Faro está confirmada, numa parceria com o teatro das Figuras, e que acontece uma semana depois do MEXE. Em Lisboa, estamos praticamente a fechar a nossa parceria.

Entrevista de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias cedidas pela organização do MEXE
O Gerador é parceiro do MEXE

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