Isabel Rato, pianista, compositora e arranjadora, sobe a palco pela primeira vez na Casa da Música (Esplanada) no próximo dia 28 de junho, pelas 22h, para apresentar o seu primeiro disco, desta vez em quarteto. Para além deste trabalho, a pianista vai apresentar temas novos. A ela juntam-se Desidério Lázaro no saxofone, João Custódio no contrabaixo e Alexandre Alves na bateria. O Gerador foi ter com a Isabel para ficar a saber tudo sobre o seu disco e algumas surpresas que tem preparadas para este concerto.

Com formação em piano jazz, a pianista também revela influências da música tradicional, música clássica e World Music. O seu primeiro disco nasce da sua relação com a poesia e vontade de compor usando uma fusão de sonoridades que não se restringem a um único estilo, mas sim à sua expressão e sentir.

Este é um concerto em que se pode antecipar um ambiente familiar, não só por ser um concerto aberto a todos, como também pela índole do trabalho da Isabel. “Para Além da Curva da Estrada”, o seu primeiro disco, leva-nos numa viagem pelas suas memórias e sentimentos. Mais do que isso, é uma partilha intensa e melódica do reflexo que a poesia, ou até a pintura, têm na compositora, procurando revelar um olhar sobre a dicotomia da vida e da morte e o que estará à nossa espera Para Além da Curva da Estrada.

 

Sempre sentiste vontade de escrever música tua ou essa foi uma porta que se abriu mais recentemente?

Penso que foi nos últimos cinco ou seis anos que tive essa necessidade de começar a escrever música e muito à conta de ter feito a minha licenciatura em jazz, na Escola Superior de Música de Lisboa, que acabou por desencadear essa vontade de escrever devido a esse incentivo da parte dos professores de nos porem a escrever e a experimentar coisas.

Então esta vertente surgiu na escola?

Sim. Surgiu na escola a obrigação de teres de efetivar e escrever alguma coisa. Mas, no fundo, tens de ser tu a querer fazer. Mas sim, o primeiro boost foi na faculdade.

Este vai ser um concerto que inclui algumas músicas do teu primeiro disco. Porque decidiste batizá-lo de “Para Além da Curva da Estrada”?

O nome do disco é um verso de Fernando Pessoa e é do heterónimo do Alberto Caeiro, que é o mestre. Gosto muito de poesia, tem feito parte da minha vida ao longo dos anos. Estudei poesia, também. Fernando Pessoa acabou por ser uma espécie de ensinamento de vida e os poemas dele acabam por ser uma escola a nível de sentimentos, pensamento, filosofia, entre outros. O nome “Para Além da Curva da Estrada”, para além do próprio poema que o tem, também fala um pouco daquilo que está para além da curva da estrada, nomeadamente na questão da existência, da nossa vida, da nossa existência enquanto corpo, se isto continua, se acaba tudo ou não. No fundo tem muito a ver com a vida e com a morte.

Já que estamos a falar de Fernando Pessoa, uma das músicas que integra este trabalho é o Guardador de Rebanhos, um poema de Fernando Pessoa. Porque decidiste trabalhar musicalmente este poema?

Escolhi este poema porque faz parte do meu crescimento enquanto pessoa, fez parte do meu estudo de poesia e funciona quase como um poema que me acalma, me guia. São palavras que me serenam e ao mesmo tempo apoquentam, porque ele às vezes também fala de coisas filosoficamente muito complicadas. Mas acima de tudo, queria muito escrever um tema para Fernando Pessoa, com um poema seu. Na minha pesquisa era o que eu decidia sempre, não, vai ser este! Depois via outros e pensava, não, vai ser aquele! E acabou por ficar aquele.

Que cuidados ou preocupações tiveste aquando da sua composição?

Há muitas coisas em relação à questão da composição quando utilizamos a palavra falada. Outra responsabilidade é estar a usar um poema do Fernando Pessoa, que é uma pessoa pela qual tenho imensa admiração e tem uma obra incrível. As questões da composição prenderam-se ao assunto do poema, ter cuidado na utilização da melodia/harmonia, ou seja, como é que as duas coisas casavam. Tendo a melodia e a harmonia, portanto a parte dos acordes, tentei fazer um arranjo que fizesse sentido, e no fundo, que a melodia também transparecesse o assunto e as intenções, que é um bocadinho mais complicado mas não deixei de pensar nisso, do poema através do som.

Nas tuas músicas procuraste não obedecer a nenhum estilo, procurando apenas exprimir memórias tuas. Podes escolher uma das músicas que vais tocar na Casa da Música e falar-me da sua história ou memória que evoca?  

Na Casa da Música eu vou tocar música do “Para Além da Curva da Estrada” e vou fazer, eventualmente, dois ou três temas novos. Vou falar de um dos temas mais emblemáticos, que penso caracterizar o disco, que é o “Movimento”. É um tema que está no disco e que foi o que desencadeou a possibilidade de o fazer. Esta questão da composição, de me atirar para fazer arranjos, temas e gravar um disco e assumir-me como compositora. Dizeres, não, eu sou compositora, escrevo música também. O “Movimento” é aquele que me deu essa noção. É um tema que foi escrito muito a pensar em harmonia jazzística e com muita preocupação a nível harmónico do que se iria processar. Foi um tema que me deu muito gozo construir, por causa dessa matemática toda que a música tem, que é uma das partes que eu mais gosto. Toda a parte dos acordes, como é que eles se relacionam. Mas para além da parte matemática como é que ela consegue dar essa sensação de musicalidade e como é que isso pode soar a música e não soar matemático. O “Movimento” tem um bocado isso.

É engraçado dizeres isso porque sempre achei que a música tem muito a ver com matemática.

Sim. Eu às vezes faço umas comparações em que me lembro sempre da questão das engenharias e da arquitetura. Por exemplo, olhas para uma catedral e é uma coisa fantástica, mas depois vais a ver e aquilo são contas de matemática e materiais que estão ali por trás. No fundo, a música também tem um bocado isso, toda uma ciência que está por trás a assistir, mas que depois fazes arte com ela e expressas-te com esses materiais. É uma matemática em que não andamos propriamente a contar dois mais dois. Não é dessa forma, mas tem uma base muito matemática do próprio sistema musical e de como ele funciona e é super interessante.

Mesmo nas artes plásticas isso acontece, temos o exemplo do Escher. Era matemático, mas depois fazia aqueles desenhos incríveis que só era possível serem feitos recorrendo à matemática.

Claro que sim. Eu escrevo muito também a partir de pintura e imagem. Para mim as cores são uma explosão que me incendeiam para escrever. Se for alguma coisa que me arrebate pode desencadear qualquer coisa do género, tenho de escrever! A parte da pintura é muito importante para mim. Neste disco já existe um cheirinho de pintura como inspiração.

As músicas parecem-me ter uma sonoridade melancólica. Achas que a saudade é um dos sentimentos que mais retrataste nas tuas músicas?

Não é bem saudade, a saudade do passado. O sentimento que pode estar presente é as memórias, mas não a saudade de voltar lá atrás. É relembrar memórias, sentimentos, coisas por que passei, mas não aquele sentimento de saudade num sentido trágico, como o fado ou algo pesado. Por acaso, não tenho muito essa coisa da saudade. Tenho as minhas memórias, as sensações em relação ao passado, alguma nostalgia, mas sou mais uma pessoa de ir para a frente. Nos temas mais melancólicos, essa melancolia às vezes tem a ver com alguns estados de solidão que sentimos, com problemas que acontecem, sensações, sentimentos. Às vezes coisas muito boas, outras vezes coisas menos boas levam-nos a escrever coisas mais melancólicas.

Fala-me dos músicos que escolheste para te acompanharem neste projeto.  

Isso é super importante! A equipa faz toda a diferença em termos de como a música depois sai para fora, como é tocada e apresentada. Neste disco a nossa formação foi um sexteto. Tínhamos o Alexandre Alves na bateria, o André Rosinha no contrabaixo, o Desidério Lázaro no saxofone, o Gonçalo Neto na guitarra, o João David Almeida na voz e eu estava a fazer a parte do piano. Tivemos ainda a participação dum quarteto de cordas, que estava dirigido pela Raquel Merrelho. Eles gravaram dois temas com o quarteto de cordas. Esta foi a formação que eu escolhi por vários motivos. São músicos que eu admiro muito, que tenho todo o respeito, são muito meus amigos, gosto muito deles e agradeço-lhes muito o facto de terem gravado comigo e virem para a estrada também comigo. Porque isto do jazz às vezes também não é muito fácil.

Mas na Casa da Música não vais levar os seis, pois não?

Não vou. Vamos a quarteto, infelizmente sem o João David na voz. O Gonçalo também não tem estado a tocar. O André Rosinha também não pode estar presente, então eu convidei o João Custódio, que também já tem trabalhado connosco.

Já revelaste que vais tocar novos temas que farão parte do próximo trabalho. O que nos podes revelar desse trabalho?

Ainda não posso dizer muito, porque ainda não decidi tudo. Acima de tudo gostava que ele acontecesse. Vontade não falta! Estou a pensar fazer um segundo trabalho, já com estes novos temas que eu vou fazer e com mais alguns que eu estou a terminar de arranjar, faltam os últimos pormenores. Também deve incluir uma canção tradicional portuguesa, porque é uma matéria que eu quero continuar a trabalhar e a incluir na minha vida. É uma homenagem à nossa história e à nossa música sempre com uma componente muito jazzística que é, no fundo, a minha formação e onde me sinto mais em casa. Apesar de ter sempre imensas influências da música clássica e World Music, mas a música improvisada é o meu maior gosto e onde eu quero estar. Há coisas que ainda não decidi e então vai ser uma surpresa, mas queríamos tentar gravar até ao final do ano.

Sentes que a Casa da Música é um sítio especial para tocares a tua música?

É um privilégio poder tocar na Casa da Música e no Porto. Estou muito feliz por poder fazê-lo e também agradeço à Casa da Música a possibilidade de isso poder acontecer. A minha relação com o espaço é ainda de admiração, porque ainda não toquei lá. Visitei apenas, portanto vai ser uma surpresa. Ainda não sei qual é a sensação de tocar na Casa da Música. Mas acima de tudo, tocar no Porto é algo que me deixa muito feliz, porque é uma cidade que eu admiro imenso, gosto imenso, tem excelentes músicos que eu admiro e que são uma inspiração para mim e tenho muita família no Porto, inclusivamente da parte do meu marido. Espero encontrá-los também por lá, amigos e pessoas que queiram vir e estejam interessadas em ouvir a minha música.

Entrevista por Andreia Monteiro