Depois de uma primeira apresentação em Janeiro deste ano e de outras apresentações em locais como o Porto ou Almada, o monólogo Todas as Coisas Maravilhosas, de Duncan Macmillan, regressa ao Estúdio Time Out, no Cais do Sodré, interpretado pelo actor Ivo Canelas. No monólogo, apesar do tom cómico, fala-se de temas difíceis como a depressão e o suicídio e de outros temas transversais, como a família e o amor.

Ivo Canelas frequentou o The Lee Strasberg Theatre and Film Institute, em Nova Iorque, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Desde então, participou em vários filmes, como A Rainha Margot (1994), de Patrice Chéreau, ou Call Girl (2007), de António-Pedro Vasconcelos, e trabalhou em teatro com encenadores como Diogo Dória, José Wallenstein, Jorge Silva Melo ou Solveig Nordlund. A peça Todas as Coisas Maravilhosas surge, assim, como o seu primeiro monólogo na vida profissional, a convite de Hugo Nóbrega, director criativo da H2N. Assim que o leu, Ivo aceitou de imediato o desafio.

No espectáculo, o actor convida o público a participar, distribuindo no início papéis com pequenas frases ou palavras simples, que ajudam a integrar os participantes e a tornar o ambiente mais íntimo. No monólogo, uma criança vai escrevendo, à medida que cresce, uma lista com razões para viver, com o objectivo de tentar ajudar a mãe a recuperar de uma depressão. Podes ver a peça no Estúdio do Mercado da Ribeira até ao dia 13 de Outubro. Entretanto, Ivo Canelas recebeu-nos no Estúdio Time Out, com as cadeiras vazias dispostas em círculo, que habitualmente se enchem na hora do espectáculo, para conversar um pouco sobre o monólogo, sobre alguns prazeres da vida, sobre a importância de relembrar, mas também de falar sobre assuntos difíceis como o suicídio ou a depressão.

Gerador (G.) – A primeira experiência deste monólogo neste espaço foi em Janeiro deste ano e correu muito bem (esgotou todas as sessões). Isso influenciou o regresso aqui?

Ivo Canelas (I. C.) – Deu-nos mais vontade e coragem de repor, sim. O feedback foi tão incrível e tivemos tantas pessoas que não conseguiram vir ver que fomos aumentando cadeiras e fomos aumentando sessões. Depois fizemos uma mini-tour por alguns pontos do país, sempre com vontade de voltarmos cá e fazer pelo menos mais uma temporada com um pouco mais cadeiras, apesar de também não dar para pôr muitas mais, senão perde a intimidade.

G. – Como é que vês este espectáculo? Como um espectáculo no sentido tradicional (de apresentar algo) ou como algo mais perto de uma conversa?

I.C. – Bom, oficialmente é um monólogo, mas acho que se aproxima muito de uma conversa. Eu tento criar o maior espaço possível, a maior tranquilidade possível e o maior à-vontade possível para as pessoas se sentirem, não diria em casa, mas num ambiente onde não serão julgadas e onde, se quiserem dizer qualquer coisa, serão ouvidas sem serem julgadas, porque o espectáculo vive também disso. Não estou num palco, não estou num sítio superior, estou à mesma altura que as pessoas, a olhar para elas, e tenta-se criar aqui a confusão entre a realidade do personagem e a realidade do performer, como se as coisas fossem a mesma coisa, e as pessoas ficam na dúvida se a história é minha ou se não é. Essa confusão é importante, até para poderes receber a história. Portanto, acho que tenta quebrar uma série de barreiras, mas acima de tudo estamos aqui todos ao mesmo tempo, ou seja, eu não estou a fazer de conta que não estou cá, nem a fazer de conta que vocês não estão. Estou a falar com vocês e vocês comigo, às vezes.

G. – Sobre este espectáculo disseste que nunca tinhas feito nada com um feedback humano destes. O que é que torna o texto tão especial?

I.C. – O texto é de uma enorme aparente simplicidade e até fragilidade, mas é isso, é aparente. Isto é uma máquina de comunicar ideias complicadas sobre depressão, suicídio; coisas que não são propriamente espectaculares — não é fácil venderes um bilhete com esse princípio —, mas surpreendentemente tem sido esse o gancho que interessa às pessoas, ou seja, esta coisa de virmos aqui falar um bocadinho, pensar alto sobre temas tão difíceis como estes.

G. – Aproveitando o facto de teres mencionado esses assuntos, qual é para ti a importância de apresentar um texto destes, que confronta as pessoas com um problema que muitas vezes é pouco falado, como a depressão?

I.C. – É essencial. Só para terminar de responder à tua pergunta anterior: o enorme feedback foi, sem dúvida, surpreendente. Eu sabia que a depressão é algo transversal a todos nós, mais cedo ou mais tarde, com idades diferentes, graus diferentes. Surpreendeu-me quanto o suicídio é também mais próximo do que eu pensava, a tantos de nós, se não mesmo a todos nós, e, por isso, o feedback tem sido muito forte no sentido de as pessoas exporem as suas próprias vidas (exporem q.b.), nesses campos. Mas o feedback mais forte que eu tenho tido tem sido diário, quando estou aqui com as pessoas (eu estou sempre a olhar para as pessoas todas ou a tentar) e às vezes cruzo-me com olhos e, durante 2 segundos, parece que consigo ler tudo o que aconteceu ou talvez tenha acontecido — um feedback emocional durante 2 segundos profundíssimo. Em relação à importância do texto, o tema é um estigma. A morte acompanha o ser humano desde sempre. A arte e algum entretenimento, talvez, têm esse poder de nos confrontar e de nos fazer pensar sobre coisas que se calhar são mais difíceis de pensar usando o nosso próprio nome. De repente, um personagem, um actor, ou um contador de histórias, que interpreta o que quer que seja, permite ter uma distância emocional e intelectual suficiente para tu te aproximares de temas tramados sem sentires que te estás a perder ali. Gosto de acreditar que a arte por momentos também salva ou pelo menos mostra-nos possíveis caminhos de salvamento.

G. – Como já se falou, esta peça envolve alguma intervenção do público e isso talvez lhe dê um certo grau de imprevisibilidade. Como é que geres essa imprevisibilidade?

I.C. – Olha, eu dou-me bem com a imprevisibilidade em geral, na vida. Eu não sei que pergunta é que vais fazer a seguir, não sei quem é que está lá fora à espera, nós nunca sabemos e vamos descobrindo segundo a segundo. Aqui é exactamente igual: as pessoas vão entrando e eu, segundo a segundo, vou vendo pessoas, vou assumindo coisas, vou apostando que aquele é assim e que aquele outro é assado. Portanto, o espectáculo é construído muito no início, enquanto as pessoas estão a entrar, em que eu distribuo uma série de papéis com uma lista de coisas maravilhosas e vou tentando adivinhar onde é que cada pessoa vibra. Por exemplo, tenho um papel que diz “fazer xixi no mar sem ninguém ver”: encontrar a pessoa que ao ler isto reverbere de uma maneira qualquer interessante é onde o espectáculo é decidido. É eu olhar para ti e pensar: “OK, tu vais levar com ‘vestir-me de lutador de wrestling’”, por exemplo. É encontrar onde é que nós fazemos sentido. Às vezes, há pessoas que têm uma camisola amarela e o papel diz “a cor amarela”. Não fazes ideia da reacção do público (reacção de surpresa). Portanto, sim, é um espectáculo completamente imprevisível, mas ao mesmo tempo acho que o texto está construído de uma maneira em que as coisas não fogem para coisas que não têm nada a ver. É tipo o sulco de um rio, estamos sempre neste caminho. Portanto, é imprevisível, mas ao mesmo tempo partimos do A e acabamos sempre no B. É giro.

G. – E como é que este espectáculo se insere na tua carreira como actor? Que novos desafios te trouxe a ti, como actor?

I.C. – Eu só tinha feito um monólogo na escola, nunca tinha feito um monólogo profissionalmente. Já tive cenas monologadas, mas assim, só eu, não. Acho que um monólogo exige alguma maturidade, se calhar, e exige alguma calma para alguns desafios, mas nunca decidi muito sobre a minha vida… as coisas vão-se decidindo, para o bem e para o mal, e este texto surgiu-me da mesma forma. Surgiu, e eu fui sensível a ele e aqui estamos. Não tiro um grande momento de raciocínio sobre o que é que isto quer dizer (risos).

G. – Mas há alguma preparação especial que faças para este espectáculo?

I.C. – Aqui há um lado físico muito desgastante, portanto corro muito. Quanto mais espectáculos faço, mais corro, por isso há um lado de endurance, porque há um desgaste físico muito grande: é uma hora e quarenta minutos em que eu perco litros de água e corro, salto, pulo, canto e falo, falo, falo. Portanto, há uma preparação física grande de manutenção e há, do ponto de vista mais da energia, ou de uma energia mais espiritual, um exercício de estar aqui. Não sei se consigo explicar isto melhor. É um exercício de estar aqui agora, nesta hora, neste segundo e não 3 segundos atrás, a pensar no que disse, nem 4 segundos à frente a pensar no que vou dizer. É estar aqui, agora, correndo o risco, que às vezes acontece, de até me esquecer do texto, de tão no momento estar. Requer uma disponibilidade para receber estas energias todas e um cabedal (risos).

G. – Uma das partes do texto (que se pode ver no teu vídeo promocional) diz que se vivermos uma vida longa e chegarmos ao fim da vida sem nunca nos termos sentido profundamente deprimidos é porque não temos andado a prestar atenção. A lista pode ser sobre isso, sobre lembrar e prestar atenção ao que é ou foi importante para nós?

I.C. – Eu acho que a vida tem um efeito abrasivo em nós, é como uma nave espacial a furar a atmosfera. A vida e os anos fazem um pouco isso e a malta vai ficando um bocadinho mais casca grossa, um bocado rijo de mais, chatos de mais, com certezas a mais, e acho que depois perdemos a capacidade de nos deslumbramos com coisas simples — um passarinho a aterrar, a apanhar uma migalha, uma formiga a levar um pãozinho… é incrível os milhões de coisas que estão a acontecer neste momento nos nossos corpos só para podermos falar. A improbabilidade que é estarmos aqui hoje nós os dois a ter esta conversa é absolutamente gigante. Eu não ser um autocarro e tu não seres uma pedra é um milagre… é o que for. E nós esquecemo-nos muito disso, eu próprio também. E se calhar é essa capacidade de esquecer que também nos permite seguir em frente, mas também pode ser mortal no sentido de vivermos vidas longas e não nos apercebermos de quão distraídos estamos. Essa frase é uma frase basilar no texto, que diz que, realmente, se viveres uma vida longa, que nem todos vamos viver, e se chegares ao fim da vida sem nunca teres levado uma martelada na cabeça, sem nunca teres apanhado um desgosto do caraças, é porque não andas a viver. Essa noção de morte… só morre quem está vivo. É um cliché, mas pronto. O texto transmite e reforça-te isso.

G. – As duas primeiras coisas na lista são gelados e poder ficar a ver televisão à noite depois da hora de ir para a cama. São coisas importantes para ti ou há algo na lista que te marque especialmente?

I.C. – Eu ainda hoje me lembro de poder ficar a ver televisão à noite depois da hora de ir para a cama e gelados continuam a ser para mim hoje das coisas mais essenciais e importantes do mundo. (Risos) Estou a brincar, mas é um prazer muito grande comer um gelado. Lembro-me de ser miúdo e quando não podia ficar a ver televisão depois da hora de ir para a cama ficava escondido, a ver, e isso são momentos especiais… são duas coisas tão simples e que nos dão tanto prazer. É giro que uma nos remete (como ver televisão depois da hora de ir para a cama) para uma infância e que outra (como o gelado) é transversal à vida toda. O meu pai tem 70 anos, pões-lhe um gelado à frente e ele tem tanta vontade de comer como a minha sobrinha que tem 1 ano, e meio e isso é muito giro, essa continuidade.

G. – De que maneira é que o espectáculo pode, por exemplo, unir as pessoas em torno dessas coisas importantes que são aqui partilhadas?

I.C. – Não sei… eu vejo aqui umas pessoas de vez em quando a dar as mãos (risos). Ou seja, há assim malta que se aproxima, e isso é muito bonito. No ano passado, houve um pai que trouxe o filho várias vezes, vieram ver o espectáculo 2 ou 3 vezes. Acho que, num espectáculo bom, relembramo-nos de que são mais as coisas que nos unem do que as que nos separam. Sentas-te num sítio e estão 200 pessoas que não conheces, mas de repente passa uma hora e aos poucos a malta é muito parecida e os teus problemas são os problemas dele e as tuas alegrias também são, mais ou menos. Este espectáculo, acho que pode ter essa força de nos aproximarmos um bocadinho, nem que seja durante esta hora e meia, depois cada um vai à sua vida.

G. – Fazer este espectáculo é de alguma forma também nostálgico para ti, por te lembrares do que era importante para ti quando tinhas 10, 15, 20 anos?

I.C. – Eu detesto nostalgia (risos). Felizmente não tenho muito disso em mim, pelo menos até à data, logo se vê daqui a 30 anos. Mas é muito giro para mim lembrar-me e procurar lembrar-me dessas coisas, desses momentos. Eu lembro-me que tinha uma caixa — isto é uma tontice —, mas lembro-me que tinha uma caixa, quando o meu pai e a minha mãe mudaram de casa, que tinha um bocadinho de esferovite, uma guita… essas coisas profundamente simples, que hoje me fazem perguntar “mas o que é que isso queria dizer?”. Mas passados 40 anos é aplicar exactamente o mesmo exercício, de estar constantemente a ligar e a reparar, de estarmos aqui, porque vamos deixar de estar (risos). Há coisas que vão e coisas que se mantêm: os gelados, por exemplo, mas também algo tão profundo e relaxante como fazer xixi no mar sem ninguém saber. Todos nós sabemos o que é dizer: “Espera aí, não te aproximes!” (risos). É um prazer profundo que em criança é genial e que em adulto continua a ser genial.

*texto escrito com o Antigo Acordo Ortográfico

Texto de Francisco Cambim
Fotografias de Diana Mendes

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