Ao longo deste ano, de janeiro a junho, João Pedro Fonseca deu vida a uma nova criação artística que se materializou, ainda que de forma não intencional, numa trilogia de performances, que, para além de terem passado por diversos espaços – em Lisboa e Lamego –, reuniram e contaram com a colaboração de artistas dos diferentes universos artísticos.

Numa obra a que acabou por chamar Extinção, o artista plástico, de 29 anos, conduziu-nos ao seu imaginário – transcendente e imprevisível –, através de uma tríade performativa, composta por Anatomia da Extinção (apresentada em janeiro na Appleton, em Lisboa), Fragmentos de uma Anatomia (apresentada em abril na ZONA, em Lamego) e, por fim, Extinção (apresentada em junho no Desterro, em Lisboa).

As três criações, nas quais o corpo, a performance, a luz, a instalação, a matéria e a música serviram como elementos-chave de um universo intimista e plástico, contaram com a participação de outros artistas, que impuseram uma necessária imprevisibilidade ao resultado final de cada momento criativo. Juntos, todos puderam habitar de forma tangível o habitat concebido pelo artista, onde as questões de fragmentação do “eu” nas distintas formas de representação social estão bem presentes.

Em entrevista ao Gerador, João Pedro Fonseca falou do processo que o levou a criar esta recente trilogia, intimamente ligada ao universo da música experimental – a que se encontra também apegado através da editora portuguesa de música eletrónica ZABRA records, de que é cofundador -, mas também do panorama das artes em Portugal, da sua “função” enquanto artista e da forma como as artes plásticas, designadamente este tipo de performances, são hoje recebidas pelos diversos espaços culturais.

Gerador (G.) – Em que consiste a trilogia Extinção?
João Pedro Fonseca (J. P. F.) – Há certas coisas, na minha vida, que são inexplicáveis, provavelmente por surgirem sob uma questão ou uma consequência em particular que me afeta emocionalmente – está cada vez mais difícil lidarmos com as emoções, há demasiados gatilhos instáveis apontados a nós. Atualmente, há uma exigência em estarmos incessantemente online, e vivermos a “sociedade da exposição”, obrigando-nos a apresentar-nos sob múltiplas formas e ideias – em vários “eus”. Sei que sou um todo de vários fragmentos, mas por vezes há formas de estar que, com o tempo, vão apelando a um habitat mais concreto e pessoal. A Extinção é o emergir desse habitat para um corpo específico ter o seu espaço, um não-lugar suspenso no tempo e na compreensão onde os corpos/fragmentos são uma ocupação ou talvez um desejo egoísta de impor uma certa ordem ou regra, é aí que a performance/narrativa toma lugar. Vejo esta trilogia como um salto para um espaço que só ganha vida se for habitado, na possibilidade dessa queda quebrar a barreira entre a vida e a morte, limando uma “forma” que eu próprio não consigo classificar, mas chamar-lhe-ia talvez de “fronteira”. Contudo, a Extinção é um caso paradoxal, pois a criação do lugar e a sua beleza é uma necessidade em tensão com a presença do Homem. No fundo, acredito que há “coisas” que são belas porque têm a completa liberdade de viver no desconhecido e no inabitável – as “coisas” livres, as quais não podemos possuir, são as que mais nos fascinam. Nas três partes há a conclusão que desemboca na ideia de fatalidade, talvez até da morte, ou talvez não.

Anatomia da Extinção” apresentada em janeiro na Appleton, em Lisboa. ©Rui M. Costa

G. – O que é que te motivou para a criação desta performance/exposição?
J. P. F. – Numa primeira instância, a motivação foi exterior. Surgiu de um convite feito pela Appleton para apresentar uma peça no seu espaço Box. Testar o corpo e a imprevisibilidade dentro de uma criação minha ao vivo era uma abordagem que há muito queria experimentar, principalmente quando comecei a trabalhar com o Miguel Moreira. Achei que esse convite seria uma porta perfeita para essa oportunidade. O que podemos chamar como o ato da entrega é para mim uma das mais difíceis declarações, é aí que a imprevisibilidade joga com esse fator, não tem qualquer medo da consequência. Sempre tive um percurso solitário e convidar outros artistas para o mesmo espaço que o meu, onde têm a liberdade do improviso e, acima de tudo, a oportunidade de alterarem a minha peça, era o desafio que estava a perseguir. Como por exemplo, na Anatomia da Extinção, pedi ao produtor musical Manuel Bogalheiro, também autor do texto que me acompanhou até ao fim desta trilogia, para fazer uma colagem musical ao vivo, algo que só ouvi pela primeira vez no ato da performance, e a cinco performers – André Costa, Beatriz Garrucho, Carlota Rocha Marquês, Inês Apolinário e Rita Barbita – que, a determinado momento, sairiam do público com máscaras espelhadas, tendo a liberdade total para fazerem o que quisessem com o meu corpo e o espaço. No final, as minhas ações eram consequências daquele dispositivo.

G. – Porque é que decidiste dividir esta performance em três momentos distintos?
J. P. F. – Não foi consciente, foi um processo de acasos. A segunda parte surgiu porque a Douro Creative Hub me convidou para fazer uma reposição da primeira, Anatomia da Extinção, na ZONA – Residências Artísticas de Lamego. Contudo, alguns performers não podiam e, dado ao seu número elevado, logística e financeiramente, os valores ficavam incomportáveis. Foi então que escrevi a peça Fragmentos de uma Anatomia para a qual convidei a Rita Barbita. Foi uma peça muito pensada do inicio ao fim, talvez para dar respostas a questões que encontrei após terminar a primeira parte – na realidade, foi necessário que ela tivesse ganho vida, pois já estava a pensar numa expansão daquele universo.

G. – No caso do Desterro, contaste ainda com a participação de outros artistas. Porque é que decidiste escolher esta abordagem?
J. P. F. – Já as peças anteriores contavam com a participação de outros artistas, contudo, no Desterro, um lugar talvez ainda mais livre em comparação com os outros anteriores, houve a possibilidade da peça se transformar num pretexto, num evento maior no qual também decidi incluir performances musicais: a Stasya, os Conferência Inferno, a NAOMI, o azul-revolto, assim como as performers Rita Barbita e a Inês Apolinário. Após a performance, o dispositivo cénico e mais umas peças que fizeram parte da construção imagética desta trilogia permaneceram durante um fim de semana inteiro, dando a oportunidade a quem visitasse de viver um habitat do meu imaginário, como se de um dos fragmentos labirínticos da minha mente se tratasse. Foi emocionante ter visto fotografias de pessoas, que não conhecia, a viveram aquele não-lugar, umas a sujarem-se, outras a deitarem-se ou a fazer figuras, fosse a contemplar, a questionar ou apenas a serem elas mesmas, o que pretendia estava já realizado: aquele habitat deixava de ser meu e assim estava completa a minha extinção.

G. – Atualmente, consideras que os “espaços culturais” estão mais abertos e dispostos a receber este tipo de abordagens artísticas?
J. P. F. – Considero sim, pois há cada vez mais este género de abordagens artísticas a serem praticadas, contudo, é de realçar que são os espaços mais novos, com um circuito jovem e fresco, que apostam nestas práticas. Há uma certa dificuldade latente nos espaços mais “antigos”, geridos por uma outra geração, em acompanharem a necessidade destas expressões artísticas.

G. – Para além desta criação, tens desenvolvido um trabalho artístico em que parece não existir barreiras formais. Essa diversificação faz parte do teu modus operandi enquanto artista?
J. P. F. – Eu considero o ato de criar um diálogo entre a matéria e o artista. Ao início há um certo desconhecimento de ambos os lados, pois podemos ter a certeza do que queremos, mas nunca do que podemos ter. É um confronto interno do que pode ou não pode ser concretizável consoante as nossas possibilidades – o eterno choque entre o sonho e a realidade. Neste caso a minha mente na criação é um espaço labiríntico onde todos os tons se misturam e quando pretendo materializar uma ideia, primeiro vem um fragmento desse imenso “mar” e depois tento perceber que forma é que lhe hei de dar. Se esta criação tivesse a necessidade de ser três pósteres era isso que seria, mas pediu-me outras coisas, houve necessidades que só a performance podia resolver. Também desejo nunca me repetir e ser honesto comigo mesmo: para quê pintar uma ideia em mil e um quadros se posso apenas pintar um e multiplicá-lo sob mil e uma diferentes abordagens artísticas? Chego a um ponto em que olho para trás e não vejo apenas uma “floresta”, mas um denso caminho percorrido entre sombras e clareiras.

Fragmentos de uma Anatomia foi apresentada em abril na ZONA – Residências Artísticas de Lamego. ©Rui M. Costa

G. – Procuras, enquanto artista, que o teu trabalho tenha algum tipo de função social?
J. P. F. – Já me questionei sobre isso e pensei se estava à procura de algo social em concreto, mas confesso que não, pois acredito que todo o trabalho criativo tem inevitavelmente uma função ou uma interpretação social. Toda a matéria com que o artista trabalha pertence à realidade de todos, à realidade comum, nunca houve algo inventado do nada, mas sim criado a partir de. Sou um ser no mundo como tantos outros, magoo-me com a dor e satisfaço-me com o prazer, e isso é refletido nas minhas peças. Há sempre um conjunto de componentes sociais e políticas latentes nas minhas abordagens devido aos meus ideais, porém, para além da ideia que pretendo transmitir através das minhas criações, há imensas portas para a interpretação pessoal. Não quero roubar essa possibilidade ao espectador, pois para mim ele é o terceiro elemento do diálogo entre a obra e o artista, o que os observa e lhes atribui um lugar, uma existência.

G.– Numa entrevista que deste, falaste de uma necessidade permanente de experimentação. Em que medida é que essa postura vai ao encontro da mensagem que pretendes passar com o teu trabalho?
J. P. F. – Há uns tempos, ouvi o Sei Miguel a falar num documentário sobre a label Ama Romanta em que a experimentação é fundamental para um artista, pois através dela este deve perceber no que é que se está a tornar e, acima de tudo, experimentar-se a si mesmo. Nas minhas peças, há pormenores que pela sua complexidade me fazem perder a noção do tempo e deixar-me consumir totalmente, mas, por outro lado, quando já está uma estrutura bem definida e segura, abro portas a uma possibilidade de improvisação e experimentação constante. Aproveito todos os erros e desvios às minhas zonas de conforto para trilhar novos caminhos, devo confessar que é um processo árduo, é um processo de aceitação e negação em simultâneo, mas que resulta num trabalho livre e longe de certos hábitos. Já há algum tempo que trabalho a questão do gosto, não acredito na classificação de bom ou mau, acho que atravessamos uma fase que devemos deixar de classificar as coisas e sim entendê-las nos seus contextos e ambiente. Só isso me cria um espaço único onde o acaso se torna também um elemento da peça.

G. – Conta-nos um pouco do que estás a fazer atualmente?
J. P. F. – Atualmente estou a trabalhar em peças videoarte e mais uns projetos de performance e teatro com outros artistas que vão ser revelados mais para a frente. Uma peça de vídeo em específico chama-se Animal Fantasma e é um monólogo de um ser que não sente o seu próprio corpo, que tem lugar num mundo já abandonado pela natureza, onde a industrialização chegou ao seu limite e as cidades não dormem. Devido a uma certa fase em que me encontro na minha vida, deu-me vontade de voltar a pintar quadros e fazer peças de cariz mais plástico, afundar-me numa expressão que há tanto tempo me afastei. Acho que está a surgir em mim uma necessidade de materializar peças que, ao contrário do digital, lutem contra o tempo e a condição física.

“Extinção”, apresentada em junho no Desterro, contou com a participação de Stasya, Conferência Inferno, NAOMI, azul-revolto, Rita Barbita e  Inês Apolinário. ©Rui M. Costa

G. – Acreditas que estamos num momento propício para a criação artística?
J. P. F. – Tendo em conta a facilidade que temos em deslocarmo-nos de uma ponta à outra do mundo e conhecer o outro lado com os nossos próprios olhos, assim como a uso das ferramentas criativas estarem ao dispor de qualquer pessoa, acho que estamos num momento privilegiado. Acho que todos os momentos da história, desde que o homem teve o discernimento de imaginar, sempre foram propícios para a criação, a única diferença é a disponibilidade e condições. Hoje há muitas mais pessoas a criar pois dispõem desses fatores – há residências artísticas, apoios, casas culturais, entre outros.

G. – Como olhas para o atual panorama das artes em Portugal?
J. P. F. – É um sentimento misto, confesso. Portugal está a assistir ao mundo da arte a crescer cada vez mais, contudo, há uma gigante diferença geracional e social. Há problemas que continuam a existir como, por exemplo, os lobbies, já é típico, mas acabam por dominar a maior parte dos espaços artísticos e fazer circular os mesmos nomes. Refira-se também a má gestão de apoios e financiamento. No ano passado, tivemos os artistas a reclamar o 1% para a cultura, mas acho que a problemática vai muito além do valor e concentra-se mais na distribuição. A calendarização dos espaços culturais também é por vezes desconcertante, um calendário já preenchido para os dois ou três anos seguintes é um problema, impossibilita a maior parte de os artistas emergentes terem uma oportunidade de conquistar o seu espaço. Há muitas galerias e dispositivos culturais a fazerem uma programação já ultrapassada, lenta e com longas exposições, não adaptada ao presente, a um ritmo mais orgânico e acelerado. Contudo, já começa a haver a sensibilidade para a criação de salas distintas com esse propósito, espaços culturais não só nas capitais como também no interior do país a puxar os artistas mais novos, assim como residências artísticas espalhadas por diversas regiões com o intuito de desenvolver e trazer a arte do agora para as zonas com menos acesso à cultura. Nesse aspeto, Portugal está a crescer muito, mas esse ‘muito’ é do esforço de pessoas que, por vezes, não têm qualquer retorno financeiro ou sustentável. Os movimentos culturais, sejam eles conhecidos ou não, com pouco ou mais dinheiro, acabam por acontecer.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de João Pedro Fonseca

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