Na rua da Esperança, junto à Madragoa, facilmente encontramos o Museu da Marioneta. A escadaria que se impõe naturalmente à rua, mais ou menos estreita, indica-nos que naquele edifício a marioneta eterniza estórias que compõem a sua história.

Ao lado do edifício do Museu, encontra-se um escritório a meia-luz com outras tantas estórias para contar. Entre livros e marionetas estão três secretárias; ali se sentam, todos os dias, Luís Vieira e Rute Ribeiro, diretores artísticos do Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas (FIMFA), e Daniela Matos, que dá apoio à produção. Foi nesse escritório que nos sentámos com Luís e Rute e conversámos sobre o papel da marioneta no universo artístico e social, o preconceito que ainda existe em torno do teatro de marionetas e os públicos a que se destina e, como não podia deixar de ser, a 18.ª edição do FIMFA.

 

Gerador (G.) — No vosso texto de apresentação do FIMFA, há uma parte em que dizem que a marioneta é uma arte híbrida e sem fronteiras. O que é que implica pensar em marionetas hoje?

Luís Vieira (L.V.) – Pensar em marionetas hoje é pensar no teatro na sua globalidade. Como a ópera, o teatro de marionetas é uma espécie de Fórmula 1 das artes. É verdade que tradicionalmente o marionetista sabia esculpir, representar, construir a sua cenografia, etc. etc. Hoje em dia, acho que já não precisa de ser bem assim; hoje em dia as pessoas especializaram-se, de certa maneira, com o trabalho nas escolas, e podemos ver envolvidos numa produção de teatro de marionetas atores, bailarinos, videoastas, encenadores, enfim, um conjunto de disciplinas muito diferentes — ou não —, mas todas dentro das artes cénicas e que a marioneta convoca para o seu espetáculo. De facto, as marionetas são um terreno de pura experimentação…

Rute Ribeiro (R.R.) – É, porque quando se fala em marionetas as pessoas não estão à espera que se fale nisso, ainda. Em Portugal,  e não só.

Luís Vieira (L.V.) – E é muito difícil fechar os limites da marioneta,  hoje em dia. Por isso, é uma espécie de vírus que contamina e é contaminado pelas outras artes. Tem esta panóplia de capacidades que tornam hoje este universo super aliciante.

Rute Ribeiro (R.R.) – E não só hoje, porque maior parte das pessoas não associa, mas nos principais movimentos de vanguarda — com o Chapitô e bailados do Picasso, por exemplo —, eram utilizadas marionetas e máscaras gigantescas e, à primeira vista, não se associa que são marionetas. Mesmo nos filmes mais contemporâneos, encontramos marionetas por toda a parte.

Luís Vieira (L.V.) — Alguns dos filmes que ficaram como referência na nossa cultura, como por exemplo o “King Kong”, têm marionetas extraordinárias. As marionetas estão lá e não só do ponto de vista dos animatrónicos, mas também de um conjunto de pessoas que dão vida a esse objeto.

Rute Ribeiro (R.R.) – O “Metrópolis” do Fritz Lang é outro exemplo bom disso! É curioso também que as marionetas estão associadas a muitos movimentos de contestação. Podemos lembrar-nos do Wall Street ou do Bansky, que usa muitas vezes marionetas para mostrar o seu trabalho. No fundo, esta pode ser uma (outra) forma de ver o mundo.

Luís Vieira (L.V.) – A marioneta sempre foi um objeto de vanguarda porque permite, nas mais diversas ocasiões da História, dizer coisas que habitualmente que não era permitido as às pessoas dizerem naturalmente. Se calhar, porque há esta ideia de que é um boneco que está a falar e isso é permitido. Por outro lado, durante o Estado Novo havia guardas- republicanos que prendiam Robertos, o que é engraçado se pensarmos que eram as marionetas que estavam a ser presas.  

“Metrópolis” de Fritz Lang é um clássico na história do cinema

G. – Também tem graça estarem a falar nas marionetas com uma ligação tão grande à vanguarda. Não sentem que ainda se vê o teatro de marionetas como sendo algo muito ligado à tradição?

L.V. – À tradição e à infância.

R.R. – Completamente! Ainda há muita gente que olha para o nosso festival e diz “Festival de Marionetas? Hei -de levar os meus filhos”. Nós n’ A Tarumba sempre trabalhámos espetáculos que pessoas de diferentes faixas etárias podiam ver.

L.V. – Na verdade,  um bom espetáculo para crianças é permitido aos adultos verem.

G. – Mas acham que ainda há muito estigma em relação aos públicos de marionetas?

R.R. – Ainda há muito, sim. Eu sinto que com o festival fomos mudando, felizmente, essa visão. Mas chegam sempre muitas pessoas que ainda veem as coisas dessa forma. No início do festival, tínhamos espetáculos à meia- noite, alguns até à uma da manhã, e apareciam pessoas com crianças porque achavam que aquilo realmente se destinava a elas.

L.V. – Na verdade, a marioneta nunca foi para crianças, sempre foi um objeto de contestação e crítica social. Há sempre um lado até revolucionário. Com o tempo, foi-se pensando que as marionetas eram para as crianças por causa de universos como a Walt Disney.

R.R. – E não só, na Europa também se utilizou a marioneta nas escolas. Mas essa ideia de ser só para crianças é muito recente, até.

G. – E o FIMFA já existe desde 2001. Ao longo destes 18 anos,  notaram que a vossa programação ia refletindo a mudança que têm vindo a sentir na forma como se faz teatro de marionetas?

L.V. – Nós quando começámos,  tentamos juntar o mais tradicional e o mais contemporâneo, para que se pudessem cruzar entre si. É verdade que as companhias tradicionais — de tradição familiar — são muito numerosas e é difícil trazê-las e apresenta-las no FIMFA, principalmente com os pequenos orçamentos com que trabalhamos. Já tivemos, mas em circunstâncias muito específicas. O trabalho que tentamos sempre explorar e dar a conhecer às pessoas é esta nova forma de olhar para um objeto para o qual as pessoas olham muitas vezes até de uma forma depreciativa.

R.R. – Tal como se diz que há o novo circo, na Europa também há quem diga que há a nova marioneta. Eu sinto que, desde o início, que apostamos em coisas um pouco radicais e continuamos a fazê-lo, mas agora com mais público e mais abertura do que tínhamos no início.

L.V. – Nós fazemos essa procura e também tentamos equilibrar o programa de acordo com a maneira como vemos o mundo e sentimos o tempo. Os artistas têm, de certa forma, alguma responsabilidade e a missão (digamos assim) de trazer esses temas e preocupações sociais para a mesa e confrontar o público com estas questões — quer sejam as questões de migração, de identidade, de memória, de coisas que é preciso lembrar as pessoas para não se esquecerem.

R.R. – Também vemos o festival como uma espécie de criação nossa e tentamos criar essa ligação e sintonia entre os diferentes elementos da programação.

G. – Apesar de haver companhias de teatro de marionetas com força e projeção — como a Tarumba ou a Companhia de Marionetas do Porto —, sentem que tem havido espaço para o incluir na programação das salas de espetáculo portuguesas?

L.V. – Tem havido pouco. É verdade que em Lisboa, em particular, nós apresentamos espetáculos nas principais salas da cidade, mas não é verdade que isso aconteça no resto do país.

R.R. – Embora aconteça mais. Há uma evolução, felizmente!

L.V. – Existe mais do que há 20 anos, mas também existem muito mais companhias do que existiam e, de facto, ainda não é uma preocupação dos programadores dos teatros fazerem este tipo de programação. Continua a ser uma programação muito de fronteira.

G. – O FIMFA pode ser uma forma de aos poucos irem conquistando esse território?

L.V. – Sim, isso sem dúvida. O FIMFA conquistou um público, mas também a credibilidade de muitos espaços na cidade (e não só). As pessoas reconhecem que o trabalho que fazemos no festival e que estes autores fazem nas suas criações são, quer artisticamente quer tecnicamente, muito competentes. E isso era importante desenvolver de uma forma mais sustentada no nosso país: ou seja, que as companhias tivessem mais capacidade financeira para poderem contratar pessoas e desenvolver os seus projetos com outras dimensões. Isso faria mudar tudo.

G. – Há algum lugar que tenham como referência, nesse sentido?  

R.R. –  A França e a Alemanha, por exemplo.

L.V. – A marioneta está presente em todos os países, mas no caso da França deve-se ao investimento que o país tem nas artes. Claro que isso se reflete no nível de qualidade das peças desses países.

R.R. – Em França, os períodos de criação dos espetáculos são de dois anos, há tempo para períodos de residência e para apresentar o espetáculo em vários contextos.

L.V. – Há um tempo de laboratório e de experimentação, há outro de levar as coisas a cena e de as testar, e depois há outro tempo de apresentar os espetáculos e os testar. Em França, lutou-se para que houvesse esse tempo de criação. O tempo é algo fundamental e cada vez as pessoas parece que vivem com menos tempo.

G. – Na vossa programação deste ano levam o FIMFA a 10 espaços diferentes da cidade. Esta opção acaba por criar um laço com outras áreas, como diziam no início?

L.V. – Além de invadir espaços tradicionais como o Teatro São Luiz ou o Teatro Nacional D. Maria II, o festival tem uma organização um pouco particular. Temos mais espetáculos de rua do que habitualmente, o que acaba por criar uma ligação maior entre a cidade e o teatro de marionetas. Espaços como o Castelo de S. Jorge e o Palácio Pimenta permitem o cruzamento de públicos — pessoas que vêm ao festival e conhecem estes sítios pela primeira vez, e pessoas que vão a esses espaços e se confrontam com objetos artísticos que não estão à espera de encontrar. Também temos mais espetáculos para crianças e famílias do que o habitual, porque há um teatro específico que faz programação para a infância, o LU.CA, ainda que com propostas mais alternativas e que podem chegar aos adultos também.

Este ano, temos coisas que são muito grandes e outras que são mínimas. Há espetáculos feitos para 1 ou 5 pessoas e outros para 300 ou mais. Nos mais pequenos, exploramos a possibilidade que a marioneta tem de criar uma relação mais íntima com o espectador.

R.R. – O espetáculo de que o Luís está a falar vai estar no Teatro da Trindade, do Xavier Bobés, que se chama “Coisas que se esquecem facilmente” e é sobre a memória. É só para cinco pessoas e levanta questões que vêm desde 1942 e que têm a que ver com o que se passou em Espanha com o Franco e o fascismo; uma série de coisas que ele sentiu que as pessoas se estavam a esquecer e que era importante não esquecerem.

“Coisas que se esquecem facilmente” vai estar no Teatro da Trindade entre 10 e 12 de maio

G. – Nesse sentido, sentem que o teatro de marionetas também tem sido importante no combate a um certo revisionismo da História?

L.V. – Muitas pessoas que vêm à procura do teatro de marionetas vêm à procura de magia, mas a verdade é que a magia são elas que a constroem. O manipulador apenas sugere e dá informação ao público para este a trabalhar. O teatro de marionetas, por oposição ao teatro tradicional, não passa por uma experiência em que as pessoas se vão sentar e ver uma peça que vai decorrer num palco e na qual podem estar com uma postura passiva em relação àquilo que estão a ver. No teatro de marionetas,  acontece precisamente o contrário; as pessoas são suscitadas a participar para construírem o significado das imagens que lhes estão a ser apresentadas. Não quer dizer que isto não possa acontecer no teatro tradicional, mas, por regra, é isto que acontece no teatro de marionetas. Esse nível de proximidade cria outra disposição para pensar nos assuntos.

G. – E pensam que a vossa programação paralela também pode ajudar a mergulhar mais a fundo nesse universo?

L.V. – Sem dúvida. Eu acho que os encontros com os criadores — que permitem uma aproximação maior ao universo desses mesmos criadores —, as conferências, as masterclasses, tudo isso ajuda a compreender melhor onde é que o teatro de marionetas se move. Nós temos um filme do Roman Paska, por exemplo, que vai bastante de ao encontro a desta ideia que exploramos este ano — de memória e identidade — e que mostra uma viagem pela Cecília onde de repente o protagonista se encontra com marionetas cecilianas e um dos grandes criadores cecilianos, que lhe vai mostrar o seu processo de criação. Além de apresentar o filme,  vai dar uma masterclass, precisamente para que as pessoas possam estar mais próximas do trabalho e do universo dele.

O teatro de marionetas é um espaço de criação sem fronteiras, sem limites, sem barreiras, de pura criação. É isso que queremos trazer sempre para o FIMFA. E convocar pessoas de áreas completamente diferentes para o teatro de marionetas e para o festival faz parte do caminho que temos de percorrer.

G. – De que forma é que sentem que o valor que dão ao tempo — que foram mencionando ao longo da conversa — se reflete também na vossa programação deste ano?

L.V. – Todos os espetáculos têm este nível técnico e artístico precisamente porque tiveram tempo. Nada disto que vamos apresentar foi feito a correr ou em cima do joelho. E a arte não se faz assim porque precisa de distanciamento. Nós precisamos de olhar para as coisas e de nos envolver também emocionalmente com elas. Essa maturidade reflete-se nos espetáculos não só pelo tempo que tiveram para a criação, mas também pela quantidade de vezes que foram apresentados, porque um espetáculo também cresce à medida que vai sendo apresentado. Por exemplo, o espetáculo “Portraits in Motion” do alemão Volker Gerling está intrinsecamente ligado à ideia de itinerância.

R.R. –  E de tempo, porque ele fez a escola de cinema e depois apaixonou-se pela fotografia e pelos flipbooks. Inicialmente, ele andava pela Alemanha com uma bandeja a mostrar os flipbooks e ia conhecendo pessoas e vivendo momentos comoventes. Decidiu começar a fotografar essas pessoas com um determinado tempo de obturação, que ele explora neste espetáculo que vai apresentar cá.

L.V. – E o tempo é evocado também no momento em que ele revisita essas pessoas, passado uns 10 anos, e volta a fazer o mesmo registo. É muito engraçado como ele depois trabalha isso no espetáculo e reflete a necessidade de tempo para a criação do objeto artístico.

R.R. – É uma boa ponte que se faz entre a nossa programação e a forma como vemos o mundo e o teatro de marionetas.

Luís e Rute acreditam que a cumplicidade que os dois têm também se reflete na programação

O FIMFA Lx19 vai ocupar a cidade de Lisboa entre os dias 9 e 20 de maio. O Castelo de S. Jorge, São Luiz Teatro Municipal, Teatro Nacional D. Maria II, LU.CA – Teatro Luís de Camões, Museu de Lisboa – Palácio Pimenta, Teatro da Trindade, Teatro do Bairro, Teatro Taborda, Museu Nacional do Teatro e da Dança, Cinemateca Portuguesa vão ser os palcos das marionetas e formas animadas. Consulta a programação completa aqui.

O FIMFA surgiu em 2001 através da Tarumba, a companhia de teatro de marionetas da qual Luís Vieira e Rute Ribeiro fazem parte, criada em 1993 por um “conjunto de pessoas ligadas a diversas áreas artísticas”, do qual os dois fazem parte. Ao sentirem uma lacuna na programação do teatro de marionetas em Lisboa, decidiram criar um festival para o qual pudessem trazer os espetáculos que gostavam de partilhar com toda a gente e, ao mesmo tempo, que ajudasse a valorizar as marionetas em Portugal. Ainda que não queiram fazer do FIMFA uma convenção, sentem que o festival é uma oportunidade para reunir artistas e incentivar ao espírito de partilha.

Texto de Carolina Franco
Fotografias de ©Estelle Valente

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