Mayra Andrade tem reinventado a música cabo-verdiana e aberto portas a quem entra agora no mundo mágico e sempre contagiante de um país que canta porque tem de ser e com uma profundidade que não se repete, mas se vai intensificando. É provável que já a tenhas ouvido na rádio, que te tenhas cruzado com ela no COLORS ou até que a sua voz quente esteja na tua playlist — se nenhuma das hipóteses anteriores se adequar a ti, não há problema, ainda vais a tempo de pôr Navega (2006), Storia, Storia (2009), Studio 105 (2010), Lovely Difficult (2013) ou Manga (2019) no volume máximo enquanto mergulhas no seu universo.

Cantar sai-lhe da alma quase desde que nasceu e foi em tenra idade que começou a partilhar com a família as suas interpretações das canções de Caetano Veloso, que até hoje se mantém uma referência. Com apenas quinze anos e depois de uns tempos a viver fora de Cabo Verde, Mayra regressou ao lugar a que deve as suas raízes e convenceu o Centro Cultural Francês a incluí-la num concerto que ia haver na sua ilha. Subiu ao palco para cantar “Ultimo Desejo” de Maria Bethânia e “Les Portes de Paris” do musical Notre Dame de Paris e a partir daí começou a traçar um caminho arriscado na aposta, mas seguro na consistência.

Foi no dia em que anunciou a sua participação no COLORS — onde atuou com “Tan Kalakatan”, com um crioulo reconhecido em qualquer parte do mundo por qualquer cabo-verdiano — que se encontrou com o Gerador para uma conversa sobre emigração, a relação de Portugal com Cabo Verde e a importância da passagem de testemunho entre gerações.

Mayra canta com a alma, mas a honestidade é transmitida a quem está do lado de cá pelo olhar. Não esconde o que pensa, sabe para onde quer ir e, mais importante, não se esquece de onde vem.

Gerador (G.). – Tens andado em tour desde outubro com o teu último disco, Manga. Há algum concerto que até agora te tenha marcado, por algum motivo especial?
Mayra Andrade (M.A.) – Há muitos concertos que nos marcam, por diferentes motivos. Às vezes, porque são concertos com uma expectativa muito alta e correm muito bem, então marcam-nos por isso; outras, porque são numa cidade mais pequena e marca-nos porque a simbiose com o público foi extraordinária. Acho que posso dizer que há muitos concertos que me vão marcando pelo caminho.

G. – Já disseste várias vezes que Manga acabou por ser um disco muito libertador para ti. Mas o que é que ainda há daquela menina de 15 anos que começou a cantar vestida de branco no Centro Cultural Francês?
M.A. – Muita coisa… muita coisa, porque eu com aquela idade já era muito madura. Já sabia que não queria fazer qualquer coisa no mundo; queria fazer algo genuíno, que fosse muito meu, algo autêntico. E isto foi sempre a red line do meu trabalho. Há dias um amigo artista estava a elogiar-me e a falar de consistência. E a consistência do meu trabalho – se é que posso dizer que a tenho –, a qualidade dos meus discos, tem muito a ver com eu sempre ter querido fazer alguma coisa com as características que te disse. Por isso acho que não há uma grande desconexão com a menina de 15 anos. Mas é claro que ela nunca imaginava o que ia fazer hoje e onde ia chegar.

G. – Na faixa “Vapor di Imigrason”, que também já confessaste noutras entrevistas estar relacionada com o teu avô, trazes para o disco com força o tema da emigração. É engraçado como, nos países em que te tens movido – leia-se Cabo Verde, França e Portugal –, há sempre essa memória da emigração.
M.A. – A minha conexão com a emigração tem sobretudo a ver com o facto de eu ser cabo-verdiana e sermos um povo emigrante. É uma diáspora muito grande – há um milhão de cabo-verdianos e quinhentos mil em Cabo Verde. A emigração marcou e ritmou sempre a nossa vida, a nossa identidade, a nossa música, a nossa arte de uma forma geral. Todos nós temos famílias espalhadas pelo mundo, e isso define a nossa identidade. Portugal é um país com muitos emigrantes cabo-verdianos, alguns até de Santiago (a minha ilha) que vivem cá, França também é um país que recebe muitos emigrantes. Mas é sobretudo um tema que é muito atual, há desgraças a acontecer com pessoas todos os dias, que são forçadas a emigrar.

Mayra Andrade nasceu em Cuba, cresceu em Cabo Verde e mudou-se aos 17 anos para França

G. – Essas referências às tuas origens acabam por ser claras, na tua música. Já te compararam várias vezes à Cesária Évora, com quem tinhas uma relação muito próxima, como aliás também tens com a Omara Portuondo. Em que sentido é que esta passagem de testemunho é importante para ti?
M.A. – A comparação com a Cesária nunca poderia ser má porque ela é a maior referência da música de Cabo Verde e o legado dela nunca se vai repetir. Pode haver quem leve para a frente um caminho que ela abriu, um trabalho que ela começou. Eu sempre vi essa comparação como um elogio, mas nunca a alimentei porque achava superincorreto tendo em conta que ela ainda era viva e andava aí a fazer concertos e já falavam de sucessora quando eu tinha apenas 15 anos, o que eu achava um disparate — e continuo a achar. E musicalmente foi sempre tão diferente… Às vezes acho cansativo esses clichês que encontram, parece que não têm ideias boas para as perguntas nas entrevistas, que vão sempre evocar a saudade e tudo o que está à volta desse tema.

A questão do testemunho eu acho muito importante. Eu sinto uma ternura muito grande tanto pela Cesária como pela Omara, porque são mulheres que foram pioneiras no tempo em que elas fizeram o que fizeram. Tem de se pensar que era um tempo em que uma mulher que fizesse concertos era considerada inferior. São duas mulheres que sempre foram muito fortes e muito livres, e têm características com as quais eu me identifico — além das grandes divas que foram e do grande talento que têm. A Omara, por exemplo, tem 88 anos e canta provavelmente há mais de 60; e acho que essa passagem de testemunho é importante porque elas carregam consigo uma história que já não existe ou que pelo menos se vai dissolvendo à medida que elas vão desaparecendo. Eu quando canto com a Omara, ou quando cantava com a Cesária, estou ao serviço delas — faço-me toda pequenina e estou ali para o que for preciso. Há um carinho, uma ternura e um respeito muito grande, e como mulher de 34 anos vejo a minha avó e a minha mãe, lembro-me da minha mãe com a minha idade… e vejo o que o tempo faz. Como cantoras trabalhamos com um instrumento extremamente frágil, que é a voz; que está sujeito às intempéries, às doenças, às alegrias e às tristezas — é completamente transparente. Cantar é uma entrega muito grande e quando uma pessoa de 80 e tal anos sobe ao palco para ainda cantar, somos naturalmente obrigados a ter muito respeito. E esta passagem de testemunho vem muito deste lado humano, de ter uma sensação de estar a cantar com todos os meus avós e de ver pessoas que carregam o peso da vida e que viveram Cuba, Cabo Verde ou Portugal de uma maneira que nós hoje não conseguimos alcançar. Cantar a vida é uma coisa que implica muito de nós.

G. – No fim da vida, acabas por recolher todas essas memórias e transportá-las para o palco…
M.A. – As memórias reforçam o intérprete que nós somos. Sem memórias não haveriam grandes intérpretes. O corpo é que nos permite partilhá-las, e todos sabemos que as cordas vocais são um músculo que vai ficando cada vez mais frágil. Esta fragilidade toda e ter de encarar um público com milhares de pessoas a olhar para ti, sempre com medo de que a voz te falhe, que a perna te falhe ou a memória te falhe, é um lugar de fragilidade muito grande. E acho que as pessoas não imaginam.

Ainda assim acho que as atrizes sofrem mais dessa descriminação por falta de empatia ou sensibilidade do outro lado. Mas uma pessoa que olha para uma cantora ou para uma atriz e diz “ela está velha”, não olha para a avó. Não percebe que essa pessoa é contemporânea com a avó.

G. – Falas várias vezes nos teus avós como uma referência para ti. Como é que a tua família cabo-verdiana tem olhado para a tua música?
M.A. – A minha família habituou-se desde o início a que eu procurasse caminhos novos e propusesse coisas diferentes. Mas é engraçado falar da família, porque nem sempre a nossa família percebe aquilo que fazemos só porque somos próximos. Não quer dizer que eles não tenham receio que eu não seja entendida, não quer dizer que não julguem também… Portanto, na verdade, também foi preciso “educar” muita gente a perceber que a minha missão era diferente daquela a que eles estavam habituados. Mas acho que acaba por ser um motivo de orgulho, principalmente quando eles vêm que com o tempo existe uma perenidade e um respeito que é adquirido com o meu trabalho.

G. – Ultimamente tem-se visto um reinventar de tradições muito forte —seja através do teu trabalho na música cabo-verdiana ou do da Rosalía com o flamenco, por exemplo. Noto que tem havido uma maior aceitação de culturas que se calhar em tempos podiam ser consideradas menores… achas que esta aceitação diz alguma coisa sobre os novos públicos?
M.A. – Eu acho que o público esteve sempre preparado para isso. Talvez não todo, mas uma grande parte. Só que os media, os programadores, as editoras têm uma grande responsabilidade no tempo que as coisas levam porque existe uma tendência muito grande para o mainstream. Eu acho que a partir do momento que o público sente que o artista é inteiro no que faz, vai estar lá. Pode não ser sempre o mesmo público, mas vai haver pessoas que se vão juntar e que não estavam no início. Eu digo isto porque eu nunca parei de fazer concertos e desde que lancei o meu primeiro disco, em 2006, faço entre 80 e 120 concertos por ano. E houve mudanças na minha música, mas que acontecem de forma natural, como uma espécie de metamorfose. Por que é que estamos a acabar com o planeta e as espécies estão a desaparecer? Porque não têm tempo de se adaptar. Se as coisas vão demasiado rápido, não temos tempo de nos habituar a elas, mas quando acontecem a um ritmo natural — que tem sido o meu caso —, não há um problema relacionado com isso.

Mas sim, a Internet e a forma como se consome música faz com que as pessoas tenham muito mais acesso a tudo e sejam mais recetivas, e o gosto do público acaba por modelar o que os decisores vão fazer também.

G. – O teu disco tem sido superbem recebido cá em Portugal, posicionando-se num campo livre de preconceitos que até pudessem existir quando se ouve crioulo. Esta zona livre de preconceito até me faz lembrar o feedback dos portugueses à vitória do Pedro Costa e da Vitalina Varela em Locarno, que trouxe novamente para cima da mesa a realidade de alguns cabo-verdianos em Portugal. Sentes que Portugal está com os braços cada vez mais abertos a Cabo Verde?
M.A. – Não sei bem, na verdade. Eu vivo cá há três anos e sempre me senti muito bem acolhida. Acho que a música cabo-verdiana sempre esteve muito presente em Portugal – talvez mais em Lisboa –, assim como a música angolana; Lisboa é uma cidade muito mestiça nesse aspeto. Basta ires a uma festa e veres como os portugueses sabem dançar e cantar as músicas luso-africanas. Não sei se Portugal está com os braços cada vez mais abertos a Portugal… sei que há pessoas muito descriminadas cá e que há muitos emigrantes que sentem essa descriminação na pele todos os dias. Eu estou cá, mas sou uma artista conhecida e apesar de não viver num mundo à parte, porque sou muito conectada com a realidade, o olhar das pessoas acaba por ser diferente. Mas eu sei que há muitos conterrâneos meus que não têm as mesmas oportunidades que as outras pessoas. Já a música cabo-verdiana sempre esteve muito presente em Portugal, e este país sempre foi muito importante para os artistas cabo-verdianos, sabendo que o artista cabo-verdiano tem sempre de emigrar para conseguir que a sua carreira avance — e aí Portugal sempre teve um papel fundamental, porque foi um palco importante para artistas como o Bana, como o Tito Paris, como a Celina Pereira e muitos outros. Mas nós, artistas cabo-verdianos, acho que também estamos a criar um som diferente para a música de Cabo Verde e que este som empurra as portas com mais força. É mais difícil se calhar resistir a este som tão mais contemporâneo, talvez menos tradicional, no que diz respeito a um público mais novo. A juventude portuguesa acaba por estar mais sensível à música cabo-verdiana de hoje do que à música cabo-verdiana tradicional.

A tour de Manga começou em outubro, no Théâtre des Bouffes du Nord, em Paris

G. – Tocas num ponto importante, a juventude. Tu que começaste tão nova a cantar, alguma vez sentiste que não te foi dado o devido crédito ou espaço por seres mais jovem?
M.A. – Sinceramente não, porque eu tive sempre uma maturidade muito forte e acho que o que as pessoas viram de talento em mim, falou por mim. Eu devo dizer que na música se calhar não é como o jornalismo ­— o facto de seres nova não quer dizer que não sejas um prodígio, e eu estou longe de ser um, mas como é uma vocação, acaba por ser diferente. Eu canto de forma muito intuitiva, canto como vivo — e isso vem do meu legado cabo-verdiano, em que ninguém vai para o conservatório aprender a cantar, portanto a partir do momento em que tu cantas e tocas as pessoas, a idade acaba por não contar. Sempre cantei com pessoas muito mais velhas e foi isso que senti. A música é o que conta.

G. – O Iminente, onde atuas no dia 20 de setembro, acaba por ser um palco para essas pessoas mais novas e um espaço para que artistas também possam falar entre si e quem sabe criar futuras parcerias. Tu tens feito várias parcerias, por exemplo com o Branko, com a Luísa Sobral, a Sara Tavares. Qual é a mais-valia de unir forças com outras pessoas?
M.A. – É mantermo-nos vivos. Há artistas que criam muito sozinhos, mas nunca estamos totalmente sozinhos, há sempre alguma coisa de alguém que fica em nós. É como subir num barco à vela e aproveitar o vento para avançarmos mais todos.

G. – E tanto nessas parcerias tuas como no Iminente a questão da lusofonia é um ponto que vos une. Ainda continuas a ver em Lisboa a tua casa?
M.A. – Continuo, sim. Eu ando muito de um lado para o outro e acho que raramente me senti tão em casa num sítio em que não fosse realmente a minha casa. Lisboa tornou-se de há quase quatro anos para cá a minha casa. Quando canto cá sinto que canto em casa. Vivi catorze anos em Paris, tenho um público grande em França, os concertos lá são sempre incríveis e sinto que tenho o meu público mais forte lá, mas cá é diferente. Não sei se é por as pessoas perceberem mais o que eu digo, se é por haver mais cabo-verdianos ou se por os portugueses estarem mais dentro da música cabo-verdiana… mas sinto que me tratam como uma artista nacional, e é isso que também me faz sentir em casa. Não me sinto uma artista exótica com uma presença notada mas com um corpo exterior; misturo-me muito na cidade e na luz de Lisboa.

Podes ouvir a Mayra Andrade a cantar como vive no Festival Iminente, no dia 20 de setembro às 21h30. Os bilhetes já estão disponíveis e podem ser comprados aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de ©OJOZ
O Gerador é parceiro do Iminente

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