Com nova exposição em Lisboa, Pauliana Valente Pimentel está a fechar um ciclo na vida pessoal. Quem diria que uma fotógrafa de imagens políticas ia agora revelar o que publicou durante sete anos no Instagram.

Patrícia e Pedro, quarto na Estónia e visita a Moscovo, casa de praia em São Pedro de Moel, flores do campo e jantar de faisões, amiga inglesa no Algarve, mulher transgénero em Cabo Verde, Guincho no Inverno e cobra no Jardim Zoológico, caixa de ervas aromáticas e árvore de Natal, restaurante macrobiótico e viagem de comboio. Uma a uma, Pauliana Valente Pimentel mostra-nos fotografias que publicou no Instagram ao longo de sete anos. Estamos na mesa de um café do Jardim da Estrela, em Lisboa, e a manhã torna-se pequena para o entusiasmo com que ela fala de cada imagem.

São registos de sonhos num mundo pessoalíssimo, com espaço e tempo indefinidos, personagens muito livres: a filha, Sara, quando aos seis anos se “casou” com Vicente, o seu melhor amigo; um homem do Dubai que parece querer pescar no deserto; a fotografia da fotografia dos pais quando se casaram; uns pés de unhas garridas sobre o tablier de um carro; outra vez Sara e Vicente, agora com espingardas de fantasia, juntos no asfalto como Bonnie and Clyde.

Mas como é que uma artista visual, habituada a grandes formatos e projectos com temas políticos, dá agora tanta importância a imagens íntimas que captou com o telemóvel – e porque é que decidiu exibi-las numa galeria?

Dias antes da inauguração, à mesa do café, conversou sobre o assunto. A exposição chama-se A Vida é Feita de Likes, está n’A Pequena Galeria, na Avenida 24 de Julho, de 27 de Fevereiro a 30 de Março, mas o convite tem mais de um ano e a concretização chegou a ser adiada quando Paulina perdeu o pai.

“Como era a minha primeira exposição nesta galeria, quis fazer algo que ainda não tivesse feito. Poderia dar continuidade a temas antigos ou até mostrar obras mais ou menos conhecidas, mas achei que não. A Pequena Galeria não é um espaço fácil, não tem muito recuo para vermos fotos grandes, por isso fez-se este clique imediatamente no dia do convite: mostrar as fotos do meu Instagram”, recorda a fotógrafa, que tem uma conta privada, com apenas 471 seguidores aceites e mais do dobro de pedidos em suspenso. “Por volta de Abril do ano passado, voltei de um projecto nos Açores e andava muito ocupada, mas já tinha quase tudo pronto para a exposição. De repente, o meu pai faleceu e deixei de olhar para isto, adiei o trabalho. Só em Dezembro voltei a pegar nas imagens e segui a minha intuição, a escolha foi rápida, praticamente demorei uma tarde.”

Das cerca de oito mil imagens que tinha publicado entre 2011 e 2017, descarregou 500. Depois, isolou 200. Agora, restam 77 instantâneos. São impressos em Traditional Photo Paper, com relevo de papel de algodão antigo, formatos de 12 x 12 e de 20 x 20 centímetros. Não têm numeração, legenda ou data e de cada um há cinco cópias, contra o que é hábito nas exposições de Pauliana, geralmente com três cópias por imagem. Os preços variam conforme se trate de um conjunto ou de uma foto isolada. “Não têm molduras, mas se um coleccionador privado ou institucional quiser moldura, faço questão de ser eu a escolhê-la”, anota.

Criadora com escola de fotojornalista, lisboeta nascida em 1975, começou a fotografar há duas décadas e tem-se destacado em narrativas de proximidade, como nota o jornalista e crítico Vítor Belanciano num texto que agora escreveu para a folha de sala. Séries como “O Narcisismo das Pequenas Diferenças” (2018), que a levou a fotografar jovens açorianos de origens sociais muito díspares, ou “The Behaviour of Being” (2015), a partir de uma comunidade de artistas num lugar isolado do Algarve, revelam “um olhar de proximidade, que é tão fantasista quanto documental”, na busca de “um quotidiano afectivo”, numa “atenção constante à figura humana e ao seu envolvimento espacial”, resume Vítor Belanciano.

Talvez por isso, “A Vida é Feita de Likes” pareça uma mudança de rumo, ainda que só à primeira vista. Já não temos apenas a observadora-participante, agora também desvenda a própria intimidade, os filhos, os amigos, os lugares que frequenta ou por onde viaja.

“É sobre a minha vida, outros trabalhos são assuntos muito específicos, têm que ver comigo, mas não são sobre mim”, explica. “Quando estou a trabalhar sobre um grupo de jovens transgénero em África, a conotação política e social é muito forte e gosto que assim seja, cada vez mais procuro isso. Aqui não se trata de um trabalho político nem social, é pessoal.”

E, no entanto, “personal is political”, como diziam feministas americanas na década de 1970. Assumir que utiliza uma plataforma que banalizou a imagem, falar do Instagram como “um vício” e fazer disso um objecto artístico, é talvez a declaração política implícita desta mostra.

“Não posso ser contra uma coisa que uso e de que gosto, mas há uma grande diferença entre uma imagem bonitinha e tudo o resto”, analisa. “Se estou meia hora no Instagram a ver imagens e no dia seguinte já não sei o que vi, é porque só encontrei imagens bonitinhas. As que ficam, aquelas de que me lembro passados alguns dias, são as que valem a pena. As imagens têm de ser vividas, tens de viver cada fotografia que fazes, e é isso que procuro em cada projecto. Aqui, acho que também se sente isso. A minha presença está lá, sentes que vivi, não são snapshots de qualquer coisa. Não. Eu estou ali também, mesmo que não apareça.”

Pauliana Valente Pimentel já teve vários modelos de iPhone (hoje terá o iPhone 6, mas não está certa), e com eles fotografou todas as 77 imagens da nova exposição, sem pensar que um dia houvesse exposição. “Gosto de fotografar quando estou a trabalhar, como um making of de cada projecto, e gosto de situações familiares, como se o telemóvel fosse um diário. Não fotografo para o Instagram a pensar que estou a fazer um projecto fotográfico. Isto é um diário, é uma coisa minha, sou eu, é o meu olhar.”

De resto, a selecção de imagens, intuitiva, já se disse, não teve em consideração o número de likes ou o tipo de comentários recebidos na rede social, e a organização do espaço expositivo foi feita sem atender à sequência cronológica que o Instagram impõe. Baseia-se essa organização em pequenas narrativas que as imagens lhe permitem criar hoje, independentemente da data e local originais. Estão agrupadas por estética, enquadramentos, linhas, cores, formas. Recriam narrativas a posteriori, são como novos contos feitos de parágrafos de vários contos antigos.

Pelo discurso e pelo cuidado que põe em cada projecto, dir-se-ia que Pauliana Valente Pimentel tem uma exigência alheia à necessária dimensão comercial do seu trabalho. Integrou o colectivo de fotógrafos portugueses Kameraphoto, publicou pela Pierre von Kleist, em 2015 recebeu o prémio de Artes Visuais da Sociedade Portuguesa de Autores, pelo trabalho “The Passenger”, e no ano seguinte foi finalista do Prémio Novo Banco Photo, com a série “Quel Pedra”. Já esteve representada pelas galerias 3+1 e Salgadeiras, tem obras em colecções institucionais, como seja a da Fundação Calouste Gulbenkian ou da Fundação EDP.

Nos próximos meses prepara-se para a estreia lisboeta da série “O Narcisismo das Pequenas Diferenças”, a acontecer em fins de Setembro no Arquivo Fotográfico Municipal e com publicação de um livro homónimo. Ainda antes do fim do Verão fará uma residência artística a convite do espaço Maus Hábitos, no Porto, a que se seguirá uma mostra.

Nesta manhã fria de Fevereiro, com uma mão a segurar o monte de impressões provisórias que ameaça voar, ela faz um balanço. “Foi muito bonito rever todas as imagens de sete anos da minha vida, dá-me uma certa nostalgia, mas encaro esta exposição como o fechar de um ciclo. Até mesmo para a minha filha e para o Vicente. Estão a deixar de ser crianças e a entrar na pré-adolescência. Sim, para mim é um fechar de ciclo, não sei agora o que virá.”

*As fotografias usadas para ilustrar esta entrevista não têm legenda, pois a autora optou por não lhes dar uma numeração, legenda ou data.

Texto de Bruno Horta
Fotografias  de Pauliana Valente Pimentel

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