No seu último filme Mulheres do meu País, Raquel Freire apresenta-nos a história de 14 mulheres no século XXI, com o intuito de pensar a condição feminina em Portugal. O filme, que contou com o apoio da Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade é, também ele, “um olhar sobre o mundo” da realizadora que nos pretende evocar para uma discussão mais profunda sobre o rumo que pretendemos para o país.

Nesta entrevista concedida ao Gerador, é possível entender como está bem patente uma marca de ativismo no trabalho desta romancista, argumentista e realizadora, que nos últimos anos nos apresentou Dreamocracy, documentário ambientado no período da troika e da austeridade no nosso país e o romance Trans Iberic Love. Começou a filmar em 1999 com Rio Vermelho, mas foi com Rasganço, em 2001, que se notabilizou. Vinte anos depois, o percurso de Raquel é multidisciplinar e marcado pela urgência de certas temáticas fraturantes. Uma construção de mundo com preocupações sociais e, acima de tudo, uma “visão emancipatória do que é ser pessoa”.

Ao longo desta conversa, ficamos a conhecer melhor a perspetiva da autora, que procura agora dar voz àqueles que também a merecem, não porque esperam uma ovação em pé, mas porque é preciso fazer-nos pensar sobre o país que queremos apresentar às novas gerações. Essa luta contínua pela transformação da sociedade é, realça,“um exercício de felicidade”, que dá trabalho mas que deve ser indissociável da nossa consciência.

Este sábado, dia 30, Raquel Freire será uma das convidadas de uma conversa acerca da liberdade que junta ainda os realizadores Joana Linda e Miguel Gonçalves Mendes. Intitulada 3 Realizadores falam sobre Liberdade, integra-se na iniciativa 45 anos do 25 de Abril, e decorre na Galeria Verney, em Oeiras, a partir das 18h.

Gerador (G.) – No teu filme mais recente – Mulheres do meu País –, decides contar a história de 14 mulheres portuguesas no século XXI, dando-lhes voz e projeção. Além disso, e nos últimos anos, enquanto realizadora tens enveredado por filmes mais documentais, debruçados sobre algumas das mais importantes preocupações sociais da nossa época. O cinema é hoje uma arte que para ti deve estar reservada para a urgência de darmos voz a este tipo de histórias?
Raquel Freire (R. F.) – O cinema, para mim, é sempre um olhar sobre o mundo, em que dás sempre voz ao que te apetecer. Neste caso, decidi fazer um filme sobre como é que as pessoas do meu país vivem, sendo condicionadas por fora e por dentro do seu próprio corpo, por fatores como o género, raça, classe social ou identidade sexual. Olhando para a forma de como isso as condiciona no dia-a-dia e de como é que elas lutam contra essas desigualdades para se emanciparem, de formas completamente diferentes, que nem sequer são reconhecidas socialmente. O cinema dá-nos essa oportunidade de olhar para o mundo e pensares como é que o podemos mudar. E porque a emancipação não tem de ser o grupo das feministas todas juntas a desfilar nas ruas. A emancipação é uma coisa que cada pessoa não binária faz e temos de ter consciência de que está em nós. Nós vivemos num mundo racista, sexista, desigual e, portanto, essa luta é interna. Se tivermos consciências destas duas vertentes, se conseguirmos olhar para dentro e depois para aquilo que queremos que o mundo seja. Fiz isso neste filme como fiz nos outros. Há pessoas atualmente que sentem que estas injustiças são estruturais e que nos afetam a todos. A Lúcia, uma das mulheres do filme, é discriminada por ser negra, mas não é só ela. Todas as mulheres negras são discriminadas. Todas as mulheres migrantes são discriminadas. Há uma série de opressões que ela teve de superar para que se pudesse emancipar, para poder ensinar a filha a não ser discriminada da mesma forma. Isto sempre aconteceu na minha obra. Agora acontece através do documentário porque a ficção exige meios, e eu não os tive para filmar no meu país.

Trailer do novo filme de Raquel Freire, Mulheres do meu País

G. – Ao todo, dás voz a 14 mulheres portuguesas, todas elas diferentes seja pela profissão que têm, cor de pele, condição social, entre outros fatores. O que é que podemos aprender com estas mulheres e em que medida é que é fundamental que elas tenham uma voz ativa na sociedade portuguesa?
R. F. – Podemos aprender sobre como é que se nasce em Portugal, em diferentes sítios, desde a aldeia mais pobre e longínqua até aos maiores centros urbanos. Há muitas mulheres neste filme, jovens, que não tiveram acesso mínimo à educação quando cresceram. Essa é uma das realidades que temos de enfrentar. O país tem essas desigualdades. Com este filme, quis mostrar como é que estas desigualdades estão todas estruturadas, isto é, que pelo facto de seres mulher é tão ou mais relevante que a cor da tua pele, origem económica, família onde nasces… Tudo isto para nos questionarmos de que, se vivemos em democracia, devíamos ser capazes de construir um respeito pelas diferenças e uma igualdade de oportunidades. Como é que nós, com o país que temos, temos pessoas como a Lúcia que não tem acesso à nacionalidade portuguesa, mas que é, provavelmente, das pessoas que mais trabalha para que este país continue a funcionar todos os dias? Também serve para vermos como é que estas pessoas lidam todos os dias com várias desigualdades e como é que lutam pela felicidade. Para mim, o cinema tem esse poder transformador, para aprendermos a ser parte da solução. O filme termina com a mulher mais velha e a mais jovem, uma a dizer «o que eu preciso é dos meios para ter liberdade», e a mais jovem diz querer apenas «a possibilidade de poder sonhar». Todas as pessoas em democracia deviam poder sonhar. A mesma jovem do meu filme que diz «eu vou ser sempre discriminada por ser mulher, negra e de um bairro, portanto, sei que nunca vou ser respeitada aqui». Isto é um testemunho que tem de nos fazer pensar. Temos de nos perguntar se é isso que pretendemos do nosso país. Para mim, neste momento, a minha forma de construir um mundo feminista passa por isto também, por esta visão emancipatória do que é ser pessoa.

G. – Uma visão que, como dizes, se constrói a partir de um diálogo entre essas mulheres e que deve passar uma mensagem de reflexão para nós espectadores.
R. F. – Queríamos que entre elas houvesse um diálogo para se escutarem e debaterem ideias sobre a forma como cada uma luta perante as desigualdades. Umas, com uma bofetada de luva, outras, com um pontapé na porta. Temos situações ali de vida ou morte. Assim, percebemos como é que cada uma daquelas mulheres conseguiu vencer as injustiças e de como ainda o estão a fazer. Nós temos sempre de ir lutando pelos nossos direitos. Faz parte da vida e é bom! É um exercício de felicidade. E que o mais importante é fazermos as nossas escolhas e não deixarmos que não as façam por nós. Sem isso, o que é que me guia a mim, por exemplo, como cineasta ou artista?

G. – Como é que selecionaste essas vozes?
R. F. – Este projeto surgiu há 15 anos com as mulheres da minha vida. Tive o privilégio de nascer numa casa de mulheres feministas e foi a minha avó e mãe que me deram o livro As mulheres do meu país (1948). Cresci com aquela bíblia e quando conheci a Lúcia, uma das protagonistas, decidi que queria fazer este trabalho de reflexão, adaptado ao século XXI. O livro da Maria Lamas é um retrato sociológico e antropológico de como se vivia naquele tempo, mas eu queria ir mais além. Quando vejo uma mulher negra de Cabo Verde como a Lúcia, que era ama do meu filho e que era discriminada à minha frente, penso «mas ela é uma mulher do meu país; está aqui algo de muito errado para estarmos no século XXI a ter de passar por estas situações». Neste aspeto, a Lúcia foi o meu ponto de partida; ela que faz parte do meu círculo de afetos. Para mim, fazer um filme feminista significa que, enquanto artista contemporânea, deva perceber quais são as condicionantes de hoje que organicamente mudam a forma como filmas. São elas que falam, não sou eu, o que dá muito mais trabalho. Tenho de fazer um tipo de questionário e um tipo de partilha com elas que lhe permita essa partilha delas para comigo.

G. – Tal como referiste, este documentário é inspirado na obra As mulheres do meu país (1948), de Maria Lamas. De que forma é que estabeleces um diálogo com esse livro e adaptas à condição das mulheres portuguesas do séc. XXI?
R. F. – Serviu apenas de inspiração. O tipo de trabalho que ela fez e o seu ponto de vista é diferente. Por exemplo, uma mulher como a Alice não estaria no livro da Maria Lamas, porque é transgénero. Esta é uma visão adaptada ao presente. O que me inspirou no livro foi a atitude e a coragem. Ela que vai pelo país fora a recolher informação, escreve o livro e depois tem de se exilar em Paris. Nos dias de hoje, em que vemos tantos direitos ameaçados, o livro serve para nos lembrar que devemos ter um ponto de vista e um olhar sobre o que é que significa ser do género feminino em Portugal e como é que se vencem as desigualdades. Além disso, o ponto de vista dela é mais sociológico. O meu tem outras condicionantes e, claro, porque procuro a mesma multitude mas no século XXI, o que acarreta mais abrangência.

G. – Tendo em conta os teus últimos filmes, concordas se disser que tens criado um diálogo muito intenso com o tempo presente e o que ela acarreta?
R. F. – Acho que é muito mais pertinente mostrarmos que não há um pensamento único hoje em dia. Mas vivemos num momento de totalitarismos a vários níveis. Felizmente, em Portugal, temos uma maioria parlamentar que respeita os direitos das minorias ou das maiorias oprimidas como as mulheres, mas é uma exceção na Europa e temos de ter essa consciência. O resto da Europa está a avançar no sentido de um totalitarismo e de valores que são de retrocesso a todos os níveis. Quando sentimos que estamos neste ciclo histórico, é fundamental mostrar que se pode viver de outra forma. Porque senão caímos no risco de toda a gente pensar que tem de se submeter ao medo. Neste momento, para mim, é muito pertinente mostrar as diferentes formas que temos de viver com liberdade, seja como for.

“Felizmente, em Portugal, temos uma maioria parlamentar que respeita os direitos das minorias ou das maiorias oprimidas como as mulheres, mas é uma exceção na Europa e temos de ter essa consciência”

G. – Como é que vai ser feita a distribuição do filme? Falou-se num livro e numa série da RTP. O que nos podes contar sobre isso?
R. F. – O filme vai ter antestreia nos oito distritos de onde são provenientes as mulheres que participaram com testemunhos. Depois, o filme vai passar em festivais, sendo que já está a ser solicitado em vários sítios, inclusive lá fora. Mais tarde, o filme vai para os cinemas. O contrato ainda não está feito e temos deter consciência da dificuldade que é neste momento apresentar um filme português nos cinemas. Os contratos que se conseguem são mínimos, de duas semanas, só com um horário. Portanto, olhando para isto, eu estou a tentar ter uma forma mais alargada de distribuição. Depois disso, há outros interesses, nomeadamente por parte do Ministério da Educação que pretende que o filme passe em escolas e universidades. Além disto, dizer ainda que a RTP já comprou o filme. Quanto ao livro, esse era um projeto inicial que eu tinha com a Sofia Branco, presidente do Sindicato de Jornalistas, mas não tivemos ainda tempo. No entanto, posso afirmar que deste filme surgirá, provavelmente, um romance de ficção, que poderá ter muitas das histórias destas mulheres e outras que não estão no filme, que partilharam, mas que quis preservá-las por respeito.

G . – Regressando um pouco à premissa presente na primeira questão, ao longo do teu percurso tens escolhido realizar projetos – cada vez mais documentais –, ligados a diversas problemáticas sociais. Lançaste um livro, Trans Iberic Love, depois o documentário Dreamocracy, e agora este Mulheres do meu País. Que tipo de diálogo estabeleces com estes objetos?
R. F. – A minha vida tem um propósito e isso implica que eu, enquanto artista, não tenha uma postura passiva. Tenho de olhar à volta, ver o mundo como ele está, não me deixar assoberbar pela dor, pela precariedade – que é um flagelo para nossa geração – e de pensar no cinema como agente de transformação. É uma relação de amor, de paixão. No caso dos meus filmes, acontece-me que depois de estar feito, deixa de ser meu e tenho um olhar profundamente crítico em relação a esse objeto. Nos primeiros anos consigo olhar apenas criticamente, depois já me consigo rir dos defeitos e das falhas e claro, tenho também um período de nojo em que não consigo mesmo ver.

Trailer do filme Dreamocracy de Raquel Freire e Valérie Mitteaux

G. – Achas que há muita gente com acesso aos meios, mas que não se esforça para fazer mais e diferente?
R. F. – Conheço muita gente e cada vez mais pessoas, que são jovens e que dão visibilidade a temas que ainda não foram abordados. Acredito que há cinema bom a surgir, assim como boa literatura, performance e teatro. Em relação à tua pergunta, diria que as nossas elites pensantes têm tido sempre condicionantes e os breves momentos de maior liberdade acabam por ser silenciados. Houve ditadura, depois tivemos um cavaquismo. Por um lado, temos sempre avanços do ponto de vista do pensamento e do ponto de vista social mas, por outro, temos retrocessos. Nós, em 2019, já devíamos ser capazes de como sociedade e país pelo menos ouvirmo-nos mais. Ainda não nos estamos a ouvir. Continuamos a ter umas elites pensantes que não querem ouvir o resto do país, que não recusam os seus privilégios e que não saem da bolha. Quando dizem que não é grave violar um direito humano e há um juiz do Porto que faz isso. Depois perguntam-me porque é que eu faço um filme destes! Mas em que mundo é que este gente vive? Saíam de casa e abram os olhos!

G. – Começaste no entanto por filmar ficção, com Rio Vermelho (1999) e Rasganço (2001). Já não estás ligada a esse tipo de cinema da mesma forma?
R. F. – Antes mesmo de te responder, repara no entanto, que os filmes de ficção que fiz nunca deixaram de ter esse olhar preocupado sobre a realidade, que muitas vezes teve consequências bem piores do que os meus documentários. Tenho-te a dizer que os meus filmes de ficção foram muito mal aceites, não com o público anónimo mas pelas elites. Em Coimbra e no Porto recebi ameaças de morte quando saiu o Rasganço. Com o Veneno Cura (2008) também. Com os documentários isso nunca aconteceu. A verdade é que eu, com as ficções, consigo tocar em pontos que vão ainda mais longe, algo que só com este documentário é que consegui. Ou seja, quando este documentário começar a circular e as pessoas virem uma mulher a dizer «o povo português é muito racista» não lhe vão bater palmas de pé, como aconteceu no São Jorge. Vamos ver como serão as reações.

Agora em resposta à pergunta, eu continuo fascinada com a ficção, mas não o faço porque desde 2011 até agora fui a todos os concursos do ICA (Instituto do Cinema e Audiovisual) – mandei 14 projetos – e nunca consegui apoio. Concorri ao apoio à escrita de ficção com duas longas-metragens; depois concorri à produção, várias vezes e com três produtoras diferentes; concorri às curtas e aos documentários. Nunca obtive nenhum tipo de apoio e em relação às ficções, os comentários do júri eram especialmente graves do ponto de vista político. O júri não pode fazer comentários à realizadora e o meu currículo era sempre considerado abaixo. Nenhuma mulher fica nos 10 primeiros lugares, a não ser eu com o Paulo Branco e a Teresa Vilaverde, uma vez. Isto provoca marcas profundas que impedem que as pessoas se expressem. Terem nos impedido de filmar para darem dinheiro às pessoas que fazem filmes saudosistas e salazarentos tem propósitos políticos e os resultados estão aí. Ao contrário, fazer histórias sobre pessoas que não têm medo dá coragem às pessoas, mas em Portugal ninguém apoia.

No caso do Mulheres do meu País, a solução surgiu da forma mais mimosa. Recebi um telefonema da Rosa Monteiro, Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, a dizer «ouvi-te falar de um projeto que tens para um filme inspirado no livro da Maria Lamas. Já sei que tens concorrido ao ICA, mas não tens conseguido. Eu não tenho esse dinheiro, mas se tu quiseres mesmo fazer o filme e me quiseres apresentar o orçamento, podemos tentar, porque é uma coisa muito importante para fazermos neste momento» e assim foi. Fui no dia 23 de dezembro de 2017 apresentar e passado um ano tinha o filme pronto.

G. – Também a tua história podia figurar como parte do novo documentário? Pensaste nisso?
R. F. – Sim, isso é um facto engraçado. As pessoas que estavam a trabalhar comigo, muitas vezes diziam-me isso. Na estrutura que eu montei, passávamos dois a três dias com cada mulher para poder recriar todos os momentos do seu quotidiano. Tinha um questionário preparado que fazia durante duas fases, no inicio e no fim, com questões que eu sabia que, à partida, elas nunca tinha pensado mas que iam provocar diferentes estados emocionais. Eu tive de me expor a isso, assim como elas. Essa entrega foi o grande trabalho e que fez, por exemplo, com que se estabelecessem grandes laços de amizade entre nós. Por tudo isso, essa questão de eu também figurar no filme surgiu muitas vezes. Até no final, a diretora criativa que fez o cartaz queria eu aparecesse na imagem. Insistiram até ao último dia que eu aparecesse com a minha foto e uma pequena biografia. Recusei. Neste caso, acho que apenas estava a fazer o meu trabalho.

Raquel Freire nas filmagens de um dos seus filmes

G. – Sendo também tu uma mulher realizadora, como é que olhas para a tua condição dentro do meio?
R. F. – Queres dizer, no facto de ser uma mulher realizadora, se é mais difícil sê-lo? Não acho, tenho a certeza. Foi há 20 anos que fiz a minha primeira curta-metragem e de tudo o que achei que tínhamos evoluído, vejo muitos retrocessos. Eu filmo a minha primeira curta-metragem Rio Vermelho, numa altura em que os júris do ICA mudavam sempre e que, assim sendo, tinham diferentes interesses. Quando tu tens o mesmo júri durante seis anos, que pertencem às pessoas que vão usufruir desses conteúdos, é corrupção e fraude. Assistimos a isto nos últimos anos e só com grande contestação é que não passou a decreto-lei. Isto é para mim tão claro que desde o inicio, sempre me bati por não ser discriminada de nenhuma forma. Quando era mais jovem achei que conseguia. Por exemplo, hoje rio-me de quando não me deixaram entrar na exibição do Rasganço no Festival de Veneza, porque o chefe dos seguranças não acreditava que eu tinha feito o filme. Resultado como o Paulo Branco não estava, eu simplesmente não pude entrar. Mais tarde pediram-me desculpas. Agora pergunto «isto acontece a algum homem, não o deixarem entrar numa exibição do seu próprio filme num festival internacional?» Quando o filme chegou cá fui também muito atacada. Há por exemplo um crítico que na altura escreveu que eu filmava como um homem e que a minha câmara é um falo, entre outras coisas. Isto tudo para te explicar que se eu ligasse ao mundo exterior e àquilo que recebo por ser mulher nunca faria cinema.

G. – Neste momento, estás de novo a filmar. O que é que nos podes contar dos teus novos projetos?
R. F. – São novidades muito boas. Há um documentário que eu vou terminar agora sobre a Geringonça e chama-se A Exceção Portuguesa. Estou a preparar também a adaptação do romance Trans Iberic Love, com produção internacional, e um documentário chamado Quem manda no tempo para o Teatro GRIOT, sobre o encenador Rogério de Carvalho. O projeto de ficção é sobre uma comuna de mulheres nos anos 80 em Lisboa que depois se mudou para Sintra, que desafiavam as convenções sociais e religiosas da época. Há mulheres ainda vivas mas que não querem assumir, porque passaram por consequências e adversidades. Perante isto, decidi que vou fazer uma ficção.

Entrevista de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias cedidas por Raquel Freire

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal clica aqui.