Rita Martins começou a dançar com apenas 8 anos. Talvez por isso o breakdance já seja tão seu e os movimentos saiam do seu corpo de forma tão natural. Atualmente, está à frente da First Steps Porto, uma batalha para principiantes e, no fundo, uma ode aos elementos do hip hop.

Foi com Lisete Carvalho e DJ Godzy, que era Bboy na altura, que começou a dançar, a correr os eventos de hip hop e as batalhas de dança. Também com eles se iniciou neste projeto, ainda a meio da sua adolescência. Ficou responsável pela banquinha da comida na primeira edição e, quando entrou para a faculdade, dedicou-se à comunicação do evento. Quando Lisete se afastou do evento, decidiu assumir o leme da batalha com Raquel, que também já integrava a equipa do evento. Entre Lisete, Rita e Raquel havia mais do que a First Steps em comum: com mais três elementos, formavam as Loud Crowd , uma crew de Bgirls do Porto.

Numa conversa informal, na redação do Gerador, Rita explicou como tudo surgiu e o evento se foi expandindo. Mesmo com o fim das Loud Crowd, os laços reforçaram-se e a First Steps continuou em força. Porque, afinal, “uma crew não acaba porque se deixa de dançar”.

 

Gerador (G.) — Já estás na First Steps desde 2011…

Rita Martins (R.M.) — Na altura, ainda não se chamava First Steps, chamava-se Famalicão Battle porque foi feito lá. Tinha o apoio da câmara municipal e de uma escola de dança que havia lá, na qual a minha amiga Lisete Carvalho, na altura minha professora, dava aulas. Mas como éramos todos do Porto a nível de logística era complicado. Por isso, decidimos mudar e, em 2013, fomos para o Porto. Aí, sim, começamos a ter um projeto mais estruturado.

Tudo começou com a competição de dança para primeira batalha de jovens, e tivemos também um writer a pintar. Mas ainda era muito inicial.

G.— Em 2012, houve uma paragem na First Steps?

 R.M. — Sim, nesse ano não houve evento e depois, em 2013, é que voltamos e fomos para o Porto.

Famalicão não era o local mais central, com acessos difíceis; no entanto não é difícil fazer evento em locais remotos, agora é mais fácil. Mas foi mais porque nessa altura também estávamos ligados ao Lar Nossa Senhora do Livramento, que foi o local que acolheu, em 2013, o evento e foi para elas [as meninas do lar] que foram nesse ano os fundos angariados. Por isso, foi natural para nós, não foi algo muito pensado.

G.— Porque é que decidiram fazer um evento destes para jovens?

R.M. — Porque não existia; e continua a não existir. Existem batalhas de dança para pessoas que já batalham há muito tempo. Normalmente até são abertas a toda a gente, mas as pessoas que estão a começar — normalmente crianças — ficam muito envergonhadas, não conseguem, têm medo, e não participam. E muitas vezes a evolução é mais prolongada, porque quando estás a competir com pessoas da tua altura, da tua idade, tu sentes mais a rivalidade; dá-te mais estímulo. Quando é contra adultos é normal que se pense “nunca vou chegar lá”. É um incentivo diferente. E na altura em que nós criámos a First Steps não havia algo deste género. Já existia uma em Portugal que fazia batalhas para todos e dava uma side battle às crianças, daí termos decidido fazer um apenas para jovens e com todos os estilos que normalmente as batalhas de adultos têm — breakdance, top styles, que inclui hip hop, popping, lopping, house — e depois um espaço de cypher para adultos. Ainda que tenhamos pensado o evento para jovens, também não temos limites de idade. Podes estar a iniciar com 40 ou com 4, és sempre bem-vindo.

G.— Desde o começo que vocês têm um cariz solidário muito presente. Isso deve-se ao facto de terem começado com o lar de que falavas há pouco?

R.M. — Este é um evento que pretende apenas fazer crescer a comunidade hip hop. Num nicho pequeno ao nível da dança, estimular os jovens para que, daqui a 10 anos, haja pelo menos 20 pessoas a dançar em Portugal — o que já é uma perspetiva muito boa a nível de batalha. A parte financeira não é o principal para nós. Temos este objetivo cultural e o objetivo social que acabou por ficar e fazer sentido uma vez que precisávamos de ter entradas pagas para pagar algumas despesas, mas não queríamos o restante para nós. Se temos oportunidade de ajudar o lar ou outra instituição que precise, vamos fazê-lo. A Lisete desde o início que sabia o que queria, mas deixou as coisas fluírem.

G.— E este ano já decidiram quem vão apoiar?

R.M. — Nós, este ano, mudámos um bocadinho o formato. Apoiámos o lar durante dois anos, e apoiámos durante alguns anos também o Marco, que era um rapaz muito próximo de nós e que teve um acidente. Este ano, decidimos adaptar um bocadinho a ação, tentando conciliar o nosso objetivo cultural com esta dimensão. Então abrimos uma open call para projetos sociais que contemplem atividades relacionadas com o hip hop. Existem bastantes grupos mais informais que têm algum tipo de cariz e desenvolvem atividades para acompanhar algum tipo de formação. Recebemos algumas candidaturas e dentro dos padrões que procurávamos acabou por ficar o Projeto de Prado, em Braga, que trabalha com jovens da comunidade cigana de Vila Verde. Esses jovens, que por acaso já vão ao evento há dois anos, fizeram um grupinho de dança que na altura estava no Projeto Ciga Giro, que era um complemento à formação deles. Eles conseguiam sempre uma carrinha e um técnico para os levarem lá e, este ano por acaso, candidataram-se, até porque não iam conseguir ir ao evento porque lhes cortaram os fundos que tinham até agora. Ficaram sem aulas de dança porque já não tinham dinheiro para o professor, nem para a carrinha, nem para os técnicos. Portanto, este ano são eles que vão ser apoiados.

Para Rita, a First Steps funciona como espaço de experimentação 

G. — Dizias que no início só tinham um evento de dança, mas que o foram alargando aos outros elementos do hip hop. Sentes que os elementos estão cada vez mais dispersos?

 R.M. — Sim, o nosso evento acabou por se ir expandindo, apesar de sempre termos tido a presença do grafíti. Este ano vamos ter um segundo concurso, que é o concurso de grafiti. Nós temos tido workshops, atuações, o mural dos tags, para haver sempre uma relação entre as vertentes, mas, este ano, conseguimos uma competição dedicada, o que já é um bom passo, mesmo para colmatar essa divisão — que não é obrigatoriamente má. Há uns anos, havia mais crews e que não eram só compostas por bailarinos ou por writers, eram compostas por um de cada elemento. Isso era muito bom e atualmente já quase não existe, mas acho que as vertentes se dividiram para crescer. Às vezes, fala-se desta divisão como algo que foi mau, mas acho que não é totalmente negativo: separaram-se para evoluir e agora podem voltar a unir-se, podem tentar crescer juntas.

Este ano, também queríamos ter uma competição de beatbox, mas vai haver a Competição Nacional de Beatbox e não foi possível, para não nos sobrepormos. Às vezes, é difícil unir tudo num só evento, mas vai sendo possível. Nestes últimos tempos, tem havido um esforço para haver essa união.

G. — Se pensarmos que o hip hop nasceu nas ruas é engraçado pensar que atualmente o vosso evento se passa no Museu Nacional de Soares dos Reis. Como é que funciona essa união de dois mundos aparentemente distantes?

 R.M. — É espetacular, mesmo! Temos o maior orgulho em dizer que estamos no museu. A primeira edição, em Famalicão, foi na rua; depois, foi no recinto do lar; a seguir, na Casa da Música, onde assumimos mais o nosso cariz cultural. A Casa da Música tinha tudo para dar certo — e deu —, mas o espaço não trazia o ambiente que queríamos para as pessoas. A Casa da Música é lindíssima, e adorámos estar lá, mas, no ano seguinte, conseguimos uma reunião com a diretora do Museu, a Dra. Maria João.

G. — Mas foram vocês que se lembraram do Museu Nacional de Soares dos Reis?

R.M. — Fomos. Nós começámos a pensar em espaços culturais e primeiro até nos lembrámos do Palácio de Cristal, e mesmo ao lado do Palácio de Cristal é o museu. Quando conseguimos a reunião com a Dra. Maria João percebemos a pessoa extraordinária que ela é, quando nos disse sem medo: “Vamos a isso!” Até à data, a First Steps nunca tinha ocorrido num espaço tão imponente, onde habitualmente há muito silêncio e calma; mas foi um sucesso. No final da primeira edição lá, a Dra. Maria João veio ter connosco e disse-nos: “Eu tenho uma coisa muito importante para vos contar. Ouvi um jovem a falar com um colega, a dizer que nunca tinha vindo a um museu e que estava a gostar muito.” Isso é espetacular: levarmos uma cultura de rua a um espaço que habitualmente fica para segundo plano nas vidas dos participantes.

Até para o museu acaba por ser ótimo, porque acaba por conseguir atrair novos públicos, que, à partida, não iriam lá. Este ano, o museu até ofereceu duas visitas guiadas, para os pais dos participantes poderem ir lá e ter contacto com o espaço.

G. — Vocês têm a parte da competição, com as batalhas, mas tens vindo a referir também uma componente mais lúdica. Sentes que, de alguma forma, a First Steps acaba por ser um espaço para ver os futuros talentos do hip hop ou é muito mais um espaço de experimentação?

R.M. — A competição é ótima porque é mais uma forma de incentivo, sempre. Por exemplo, os prémios que nós damos aos participantes são brindes como chapéus, livros, alimentos saudáveis, brindes de parceiros. E até os nossos parceiros tentamos que estejam dentro de uma determinada ética que queremos associar ao evento, e que, como mensagem subliminar, pode passar uma boa mensagem aos jovens. No fundo, este evento é educativo a vários níveis, e a competição acaba por ser um pretexto para eles alinharem. Não tem um cariz nada pesado. Mas de facto esse termo de “espaço de experimentação” adequa-se muito a nós; queremos ser um espaço onde não se tenha medo de arriscar, ganhando ou não, tendo ou não brindes. E, no fundo, é mais um convívio e uma oportunidade para todos se conhecerem ou voltarem a encontrar. É um ambiente muito informal e onde há uma relação intergeracional, porque só assim é que há crescimento; tanto eles aprendem ao ver-nos a dançar, como nós aprendemos ao vê-los com toda a garra que levam para ali.

G. — E como é que fazem a seleção dessas pessoas mais velhas que vão integrar um painel de jurados nas competições?

 R.M. — Grande parte dos bailarinos de freestyle portugueses estão a viver fora do país neste momento, por isso o nosso leque de opções não é muito alargado. Mas, este ano, tivemos um novo critério, achámos que fazia sentido convidarmos bailarinos que nunca tivessem estado na condição de jurados. Dançam há muito tempo, sabem perfeitamente do que estão a falar, mas nunca tiveram a oportunidade de avaliar alguma competição (até porque grande parte das vezes são sempre as mesmas pessoas, como em todo o lado). Acho que está a resultar muito bem, porque tanto é a primeira vez para quem está a dançar como para quem está a jurar — é um espaço de experimentação e de erro para ambos. Mas não há que ter medo de errar, seja em que posição for.

Relativamente a DJ, trabalhamos com um DJ desde o primeiro ano, o Godzi, porque ajudou a organizar o evento desde o início. A nível de grafíti, contamos com o Kyote desde o primeiro ano e, este ano, vai ser o responsável pela competição de grafíti — que também se destina a pessoas que estão a começar a praticar agora. Os MCs e Beatboxers vamos convidando pessoas pela disponibilidade delas, e, este ano, até foi o pai de uma aluna que nos propôs porque veio com ela ao evento no ano passado e gostava de participar com o DJ dele e o back vocal, e ficou ele. Acaba por ser sempre o que faz sentido.

G. — E quais são os vossos próximos passos?

 R.M. — Este ano, vamos dar um grande salto a nível de condições. Fazemos isto com recursos limitados e, muitas vezes, à base do apoio dos parceiros, não temos as colunas XPTO que eram necessárias, o piso de chão flutuante — esses pormenores técnicos. Temos tido a sorte de arranjar as condições suficientes, mas vamos sempre tentando melhorar nesse sentido.

E há um projeto que é ainda embrionário, mas que vou partilhar contigo. Queremos deixar de ser um evento pontual e passar a dar um acompanhamento anual, com vários eventos dedicados a várias vertentes. E o objetivo será sempre o mesmo: incentivar as novas gerações na prática do hip hop.

 

A 7.ª edição da First Steps está agendada para o próximo sábado, dia 13 de julho, no Museu Nacional de Soares dos Reis. Podes acompanhar as atualizações da batalha até ao último momento, aqui.

 

Texto de Carolina Franco
Fotografia de Rafaela Ramos
A First Steps e o Gerador são parceiros

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