Rodrigo Gomes nasceu em Faro em 1991, estudou Escultura na Universidade de Évora, fez uma pós-graduação em Arte Sonora na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, onde também tirou um mestrado em Arte Multimédia. Em 2017, ganhou o Prémio Sonae Media Art e, em 2018, os Prémios Novos. São estas as informações que rapidamente conseguimos encontrar sobre Rodrigo numa pesquisa rápida no Google. Na tentativa de descobrir mais, marcámos uma entrevista no espaço que mais diz sobre si: o ateliê.

Abriu a pequena porta verde que dá acesso ao ateliê na Ajuda, que partilha com Mariana Gomes, pintora e sua irmã mais velha, e fez uma pequena visita guiada pelos dois pisos que o compõem. Logo na entrada, o espaço de Mariana — que também “está a preparar uma exposição” — e, mais à frente, a sala onde trabalha Rodrigo, que acabava de preparar a exposição “Mamografias por Satélite”, para inaugurar na sexta-feira, no dia 4 de maio, no The Room – Video Project. No piso superior, uma espécie de sótão com um teto em madeira que ia sendo rasgado pelos raios de luz natural — o lugar onde põe em prática as ideias que concebe na pequena sala do piso de baixo.

Enquanto ia falando com entusiasmo do seu percurso nos últimos tempos e da ressaca do Prémio Sonae, encaminhou a entrevista para a sala onde as ideias são exploradas, com desenhos e outras imagens, dispostos nas paredes a encontrar-se com partes de peças escultóricas da sua autoria.

 

Gerador (G.) – Há pouco falavas no prémio Sonae. No vídeo de apresentação da tua peça, dizias que o teu percurso na arte multimédia começou de forma experimental. Em que momento é que percebeste que era arte multimédia que querias fazer?

Rodrigo Gomes (R.G.) — Eu fui-me apercebendo disso porque antes de ir para a faculdade fiz um curso técnico na ETIC – Design de Comunicação e Multimédia – e depois no ensino superior entrei em multimédia, em Évora, só que a verdade é que o curso já ia muito ao encontro do background que eu já tinha. Comecei a interessar-me pela escultura — pela matéria e por a moldar —, e aí fui-me apercebendo de certos aspetos ligados ao som e ao vídeo que podia incluir na própria escultura e, se calhar, dar uma certa fisicalidade ao som, por exemplo.

A primeira peça que fiz em multimédia foi uma coluna que tinha camadas com imagens que, com a vibração sonora, criavam uma espécie de ilusão ótica. Fui alimentando estas questões, mas a certa altura lembro-me de que houve um professor que me disse que eu não precisava de incluir vídeo ou som numa escultura porque a própria escultura já fala por si. Depois desse feedback, senti um bloqueio.

Ao acabar a faculdade, vim para Lisboa e comecei a experimentar coisas e a fazer aquilo que na faculdade me diziam ser demais ou me tinham tentado impedir de fazer. Trouxe comigo o que aprendi em Évora, como a possibilidade de experimentar e moldar diferentes materiais. E que mais tarde me valeu o Prémio Sonae.

G. — Que deve ter sido um momento importante no teu percurso…

R. G. —É engraçado lembrar-me do momento em que me ligaram a dizer que eu tinha sido o vencedor: estava no Museu do Chiado a ouvir a minha irmã e, quando me ligaram a dizer isso, fiquei a tremer; nem queria acreditar.

Quando me candidatei ao prémio Sonae estava a trabalhar noutra coisa ao mesmo tempo e não me conseguia focar totalmente na conceção da peça. Decidi despedir-me para me focar apenas no meu trabalho artístico e conseguir dedicar-me totalmente.

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G. — É curioso estares a contar que te despediste para te dedicares apenas ao trabalho artístico que querias desenvolver com um foco total. Sentes que é difícil ser-se um artista emergente em Portugal, na medida em que é quase impossível viveres apenas da tua arte?

R. G. — Há dois lados. A realidade é que antes do Prémio Sonae eu tentava chegar a algum lado e ninguém queria saber, mas criar e explorar as minhas peças era o que eu sabia que queria mesmo fazer. Ia fazendo isso quando tinha tempo livre, porque precisava sempre de me dedicar mais ao meu emprego. Com o prémio Sonae — no qual eu me inscrevi por muita insistência da minha mãe, no último dia de inscrições —, ganhei outra projeção, o que, por um lado, foi muito bom para mim, mas, por outro, é mau porque mostra como infelizmente estamos todos dependentes deste sistema. É preciso ter reconhecimento através de uma plataforma que seja uma rampa de lançamento para nós, o que é bom para quem os ganha — como foi o meu caso —, mas deixa um pouco à margem os que não saem vencedores. Há muitos outros artistas com todo o mérito e que merecem reconhecimento, mas existe sempre este bloqueio artístico, de um modo geral, que torna as coisas mais difíceis. Mas de quem é a culpa? Se calhar, é de tudo o que se foi criando e se foi alimentando; e se alimenta ainda.

G. — O facto de teres uma irmã artista e o apoio da tua mãe, como contaste há pouco, também te deve ter dado um incentivo extra para persistires.

R. G. — A Mariana, a minha irmã, sempre foi uma grande inspiração para mim. Ela é mais velha, tem um background diferente ligado à pintura e, se calhar, o meu lado artístico foi muito desenvolvido pela motivação que ela me dava. Eu sabia que era isto que queria, mas claro que a minha família me foi alertando e questionando: “É mesmo isso que tu queres?” Mas eu sabia que sim, que era isto, porque não conseguia sequer ver as coisas de outra forma. Já tinha tentado no Design, e é uma grande pressão e depressão. É diferente. O contacto com o teu mundo interior e a exteriorização desse mundo, até as relações que vais criando com os objetos que vais construindo e alimentando.

Fui recebendo sempre questões e tive momentos de bloqueio, mas nunca impedimentos por parte da minha família. O que acontecia era mostrarem-me as coisas como elas são — cada vez mais complicadas —, mas sempre com o incentivo para eu seguir o caminho que eu quisesse realmente. Aí comecei a ir à procura.

É curioso porque à medida que nos vamos interessando mais por algo, vamo-nos relacionando mais com esse meio, se realmente for mesmo esse foco que queremos. É preciso ter foco e paciência e aprender a gerir tudo o que vemos e ouvimos, quando começamos a entrar neste mundo.

G. — E achas que ainda é preciso ir para grandes cidades para ter sucesso enquanto artista?

R. G. — Eu tive que vir para cá para que isso acontecesse porque em Portugal há dois focos principais, na arte: Lisboa e Porto. E aqui em Lisboa há um foco muito forte no contexto artístico e vais criando relações em vários aspetos — com a música, com a dança, com o teatro, com o cinema. Vais conhecendo pessoas de várias áreas porque também há muito mais movimentação cá. Se estiveres em Évora, por exemplo, também podes ir tendo esse contacto, mas de forma passageira. Estando num sítio em que isso acontece apenas de forma passageira, tu só podes estar de passagem também. Mas mais tarde ou mais cedo, Lisboa acaba por ser um lugar de passagem para os artistas também, da maneira como as coisas estão atualmente.

G. — É uma possibilidade na qual tens pensado para ti?

R. G. — Penso, claro. A minha primeira experiência nesse sentido vai ser na Bienal da Polónia (WRO 2019 Media Art Bienale), que é uma das principais da Europa em Media Art. Vou levar este vídeo que já tinha sido mostrado no Fuso, que eu gostei de fazer e senti que foi importante para mim porque foi a primeira peça que eu fiz depois do Prémio Sonae e que acabou por pegar (em parte) nas pontas soltas que eu tinha deixado nessa escultura que me tornou vencedor.

Esta vontade de ir para a fora é mais uma necessidade de conhecer outras realidades e me relacionar com aspetos diferentes dos que tenho cá, mais do que uma procura por valorização. É mesmo uma questão de experiência pessoal e, quem sabe, encontrar oportunidades diferentes das que tenho cá.

O que acontece com muitos artistas que vivem lá fora — principalmente em Londres, Berlim e Nova Iorque — é que passam a ser reconhecidos cá dentro por esta capacidade de extensão do que conseguem fazer também noutros lugares. Mas claro que isso depende do incentivo e das possibilidades de cada um.

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G. — Há um assunto muito presente no teu trabalho que acaba por ser comum nas reflexões que podem ser feitas lá fora ou cá dentro. No mesmo vídeo de apresentação do Prémio Sonae, de que te relembrei no início, dizes que se sente cada vez mais uma espécie de “esquizofrenia das imagens”. Onde é que fica o artista multimédia no meio dessa esquizofrenia?

R. G. — Disseram-me há pouco tempo uma coisa que me fez pensar, porque nunca tinha pensado nisso. Na nova exposição que tenho agora — “Mamografias por Satélite” —, tenho um folheto que diz algo como “Mamografias por Satélite. A nova Via Rápida. Bem-vindo ao maravilhoso século XXI.” Quando eu mostrei isto ao produtor da exposição, ele começou-se a rir e disse: “Isso é mesmo uma coisa da tua geração.” Eu comecei a relacionar-me com a Internet em 97/98 e havia sempre o mito de que a mudança de milénio ia trazer algo novo, uma coisa maravilhosa, e, em 2001, há um boom e começa a sentir-se uma exposição das imagens ainda mais massiva, principalmente com os atentados do 11 de setembro e toda a exposição que a comunicação social fez disso. É o poder da imagem e a absorção alienada que nós fazemos dessa mesma imagem.

Hoje em dia, até a nossa relação social é feita através de plataformas como o Instagram e o Facebook, em que também se criam personalidades que não sabemos se são verdadeiras ou falsas. Tudo isso gera uma cadeia de controlo que me faz questionar muitas vezes para onde é que estamos a ir. Parece que o Orwell e o Huxley estavam mesmo certos.

O meu papel enquanto artista multimédia não é ir contra isso, ignorando ou isolando-me disso. É a nossa realidade e precisámos de perceber de que forma é que podemos tirar partido dessas ferramentas. Acho que o papel de qualquer criador — seja um artista ou um escritor — é criar com responsabilidade, sabendo que existem determinadas preocupações e que pode pegar nelas com um propósito.

G. — A tua nova exposição, “Mamografias por Satélite” também parte de uma história real e bastante peculiar.

R. G. — Eu lembro-me perfeitamente de quando ouvi essa história. Eu vivia em São Bartolomeu de Messines, em 2002, e começaram a comentar na vila que uma suposta médica ia fazer mamografias por satélite. Telefonou para entre 30 a 60 mulheres para lhes apresentar uma nova tecnologia da NASA que tinha acabado de chegar a Portugal e que queriam fazer uma experiência para a testar nessas mulheres. A médica sabia ao pormenor os nomes e outros dados pessoais dessas pessoas a quem telefonou e quando combinava com elas dizia algo do género: “O satélite da NASA vai passar na sua zona por volta de X horas e lançar um raio que faz a mamografia.” E houve mulheres que foram para a janela, para as casas de banho do mercado e até para a única cabine telefónica da vila, e mostraram o peito. A médica chegava a telefonar outra vez e a dizer: “olhe, tem de massajar o peito, o satélite não está a captar bem.” Veio a descobrir-se que a senhora estava com uns binóculos a observar e a masturbar-se. É impressionante pensar nesta história, que tem um lado risório e completamente surreal, como tem um lado bastante preocupante.

Um dia estava a jantar com uns amigos em Messines e estávamos a rir enquanto relembrávamos esta história. Foi aí que pensei que tinha de fazer alguma coisa a partir desta narrativa porque foi uma coisa que eu vi acontecer e que toca num dos pontos que eu vou abordando no meu trabalho: a inocência das pessoas perante a evolução tão rápida da tecnologia, que acaba por ser difícil de acompanhar e de avaliar o que é real ou não.

G. — Há quem ache que o papel do artista é ser ativista e há também quem acredite que uma coisa não implica nem tem de implicar a outra. Achas que o papel do artista passa por ir descodificando o tempo em que vive?

R. G. — Essa é uma questão que difere de artista para artista e com o trabalho de cada um. Ao mesmo tempo, acho que há preocupações que são comuns a todos — sejam de que geração forem — e que, sim, pode passar pelos artistas irem ajudando a descodificar o seu tempo.

 

Rodrigo Gomes terminou a visita pelo ateliê onde a tinha começado, no piso superior

Voltámos ao piso superior para um retrato. Eram quase 20h00 e a luz natural já não rasgava com tanta força a madeira do teto. Enquanto arrumava o espaço, Rodrigo continuava com naturalidade a conversa que lá tínhamos iniciado às 18h30, como que a acrescentar as pontas soltas que por lá tinham ficado (como vai fazendo com as suas peças). Despediu-se e relembrou que “Mamografias por Satélite” fica patente até ao dia 31 de maio no The Room – Video Project.

Sabe mais sobre o Rodrigo Gomes, aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografias de Andreia Mayer

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