O imaginário em torno da figura de um maestro é muitas vezes colorido pelo fascínio da sua, quase sempre, excentricidade tocada pelo génio. No entanto, raras são as figuras da música clássica que se tornam referência no universo da música popular. Em Portugal, quando se fala em maestro, um dos nomes que nos invade o pensamento é Rui Massena – um divulgador incansável da música erudita, premiado internacionalmente, maestro convidado da Sinfónica de Roma, a figura que ajudou a transformar Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura num sucesso, mas também um músico e compositor de enorme sucesso popular.

Começando a sua jornada pública enquanto compositor com Solo, passou por um segundo disco, Ensemble, onde conservou a sua tranquilidade e acrescentou uma envolvência orquestral. Este ano chegamos ao seu terceiro disco de originais – III – lançado no passado dia 3 de novembro pela Universal Music. Para este disco, Rui mantém a vontade de não fazer distinções entre géneros musicais, assim como a certeza de que consiste num grande avanço para si, por misturar o mundo acústico com o eletrónico. Gravado em duas cidades, Berlim e Porto, este disco continua a ser pautado pela tranquilidade que caracteriza o maestro, podendo ser visto como terapêutico por conter a emotividade que o faz vibrar, ao mesmo tempo que lhe acrescenta um novo vocabulário em que nos brinda com jogos de ilusão sonora que resistem a Um Lugar, à preguiça, a Nós, ou até a uma árvore.

Esta resistência é também marcada pela procura de atrasar o tempo. É na procura de novos léxicos e vivências em livros, idas ao cinema, em conversas sobre amor ou no fascínio da descoberta de novos mundos e histórias que servem de anestia ao mundo real que Rui se permite fixar momentos, que mais tarde vê desaguarem na criação de músicas que nos cuidam a alma. Foi no sofá amarelo da Universal Music, em Lisboa, que o Gerador falou com o Rui Massena sobre o disco III e o que o move enquanto músico, mas fundamentalmente enquanto pessoa. Transportando um sorriso nos lábios, o bom humor afinado e um olhar amigo, a comunicação musical começa.

Gerador – É difícil figuras da música clássica tornarem-se referência no universo da música popular, mas tu conseguiste. Consegues identificar o que tornou isso possível?

Rui Massena – Não. Passei de intérprete dos compositores da história da música a criador, a compositor. Portanto, hoje faço aquilo que sonho, aquilo que penso, aquilo que o meu imaginário cria em termos musicais.

G. – Não fazes distinções quanto a géneros musicais e, por isso, não defines o teu novo disco. Na música não importa etiquetar o trabalho dos artistas, mas sim deixar fluir a música em si?

R.M. – Sim, acho que essa é uma expressão bem inteligente. A música ou toca, ou não toca as pessoas que a ouvem. Acho que a música que eu faço pode, por ventura, ter mais alguma dificuldade em chegar às pessoas. Mas quando chega, se tocar as pessoas, passa a ser a música delas, também. É música instrumental, música sem letra e sem voz. A voz é o piano. Se alguém se sentir identificado por poder construir a sua história com esta música fico muito satisfeito.

G. – Porque, para ti, a música é um veículo para chegares às pessoas e de comunicação entre elas?

R.M. – Mais do que nunca, tenho a consciência disso. Mais do que nunca, tenho a consciência de que a música em si não chega. Chega a relação que eu construo com as pessoas através da música. Seja com quem estou a tocar, seja com quem me está a ouvir. Acho que é disso que se trata sempre: comunicar.

G. – Achas que essa comunicação que crias através do piano é terapêutica?

R.M.- Espero que sim. Para mim é. Começo sempre por mim. Faço os discos para mim, para me aperfeiçoar, para conhecer novas linguagens e eu quero que os meus discos tenham este lado terapêutico. Terapêutico, não no sentido de curar alguém porque isso seria um desígnio demasiado alto, mas no sentido de que eu gosto que o disco tenha uma componente calma e tranquila. Sendo assim, gosto que quando alguém põe o disco a tocar se sinta bem com ele.

G. – O que faz do disco III um grande avanço para ti?

R.M. – A perceção da linguagem da eletrónica, da linguagem dos nossos dias, e a capacidade de a misturar com o universo acústico. Entre os dois, criar um mundo onde não percebes a diferença, onde acaba um e onde começa o outro. A construção deste gosto pelo digital e eletrónica tem-me feito feliz.

Capa do disco III de Rui Massena

G. – Como surgiu essa ideia de começares a explorar esta vertente?

R.M. – Há muitos anos que gosto de música eletrónica. Gosto sobretudo dos sons sintetizados e da sua mistura, que me pica.

G.- Achas que essa é uma das tendências musicais que vivemos hoje, a exploração da mistura do acústico com o eletrónico?

R.M. – Acho que é a tendência dos nossos dias. A arte documenta o seu tempo. Documenta o tempo presente. Portanto, a música que faço não é feita há duzentos anos. É feita hoje e hoje vivo com estes sons, com a capacidade de muitas máquinas para os processarem e tento utilizá-los na minha música.

G. – Quando escolheste o estúdio para gravar o teu disco tiveste a preocupação em escolher um que te oferecesse um piano ao nível de um carro de fórmula 1 (em Berlim). O que é que isto quer dizer?

R.M. – Quer dizer que, sendo o piano a voz, é a mesma coisa que teres de tratar a tua voz. Que a tua voz seja a melhor possível e que, para mim, quando toco, aquilo possa cantar aquilo que quero. No fundo, que quando toco, quando primo as teclas, o som do piano seja aquele que eu quero. Quando eu primo as teclas do piano, que a voz seja um Frank Sinatra, estás a ver? Seja um Pavarotti. É isso.

G. – O que mais te surpreendeu quando começaste a desvendar esta linguagem desconhecida?

R.M. – O desassossego. É o que eu vivo. A dificuldade que tenho em criar do nada. Enquanto maestro interpretava obras que estavam feitas. Tinha muito trabalho a fazê-lo, mas agora tenho de construir essas obras. É um mundo diferente. A identidade é muito diferente de interpretar. A identidade é ser.

G. – Como é que lidaste com esse desassossego?

R.M.- Vou lidando, vou-me habituando e percebendo. A cada momento ele é diferente, porque tenho desejos diferentes. Tenho sempre desejos diferentes, de criar, perceber coisas diferentes. Como o mundo está em mudança e eu estou em mudança, a relação é entre o meu ‘eu’ e o mundo. A mudança.

Rui Massena

G. – Se juntarmos a descoberta destas novas palavras, através da eletrónica e da conjugação das duas vertentes, e desta voz que é o piano à atua determinação em tirar uma hora e meia de cada dia para dedicares à leitura, sentes que essa é uma das coisas que fazes que te permite ir beber mais palavras que depois musicas doutra forma?

R.M. – É giríssima essa tua pergunta, maravilhosa e isso diz muito de ti também. Sim, acho que me preciso de anestesiar em relação ao mundo real, muitas vezes. A forma que tenho de o fazer é ler, tocar e compor, ir ao cinema, falar de amor, porque o mundo real é muito duro. Então, o que tento fazer é ir buscar novas linguagens, novas perceções do mundo, novas perceções do ser humano, novas histórias. É por isso que gosto de o fazer.

G. – É uma coisa que surge a posteriori? Ou seja, vives as coisas, depois chegas a casa e quando estás sozinho surge-te esse momento que é transformado em música? Ou consegues, quando estás a viver a situação, isolá-la e perceber que aquele é o momento que vais musicar?

R.M. – Não, é mais o contrário. Já aconteceu e só depois dei conta que ele aconteceu. Sou mais sentir do que pensar. Reflito mais a seguir do que durante o processo.

G. – Consegues nomear uma conjugação sonora original neste teu terceiro disco de que te orgulhes particularmente?

R.M. – Sim. Na faixa três, o “Resistir”, o momento em que tenho um sintetizador e um vibrafone a tocar e ninguém percebe qual é a diferença entre um e outro. E não é com os mesmos sons.

G. – Para onde queres ir agora, enquanto compositor?

R.M. – Agora estou a entregar este disco (III) às pessoas, a partilhar com elas. Mas não é como compositor, é como pessoa. Quero entender o que me mobiliza, o que me apetece fazer. A nossa verdade não pode ser tirada deste processo. Temos de estar bem enquanto pessoas para compor. Estou sempre à procura de perceber qual é o meu momento enquanto pessoa e, depois, enquanto compositor. Continuo a compor. Já estou a compor para um próximo disco. Componho não só para discos. Componho diariamente e estou à procura de me desafiar, de perceber novas evoluções. Para onde posso ir, que caminhos posso conhecer. É como se tivesses uma terra e fosses com uma faca de mato pela floresta a abrir caminho para conhecer um novo.

Rui Massena

G. – Portanto, aquela ideia de que o criador tem de estar triste e deprimido para criar é um mito? É preciso estar bem.

R.M. – Para mim é preciso estar bem. Preciso de estar estável emocionalmente para poder criar. Claro que a vontade de criar no século XIX é muito diferente da do século XX. E a do século XXI é muito diferente da do século XX. Ou seja, neste século parte da vontade de criar, para mim, vem de atrasar o tempo. Atrasar a rapidez com que a história se está a processar. Por isso é que estes discos são terapêuticos para mim. Os meus três discos são feitos em quatro anos e têm uma vontade comum: atrasar o tempo. Fazer-me sentir mais calmo, viver a vida tranquilamente.

G. – Numa entrevista disseste que estás sempre à procura de duas coisas: estar bem e ser útil à sociedade. Depois de nos mostrares este último disco, essa procura está satisfeita, ou calma?

R.M. – Acho que os momentos mais perfeitos que tenho são depois dos concertos. O momento a seguir ao concerto é de absoluta paz, quando corre bem. É o momento mais lúcido da minha vida. Depois, ser útil à sociedade é porque eu acredito que estou da lado das pessoas que querem construir essa sociedade melhor. O que significa, não dizer sempre que sim, mas propor coisas novas. Acho que não estou em paz. Estou…

G. – No desassossego?

R.M. – Nesse desassossego, sim. Acho que já estou à procura doutra coisa qualquer. Sou feliz na procura.

Entrevista de Andreia Monteiro
Fotografias promocionais do artista

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal clica aqui.