Pedro Pode começou na música pelo hip-hop, rap e até metal. Hoje, tem dois álbuns lançados com o alter ego de S. Pedro, não pela religião, mas porque o santo “era um gajo como outro qualquer”. Esteve na banda doismileoito como líder, mas em 2017 lançou-se a solo com O Fim.

Não se recorda com exatidão há quantos anos entrou na indústria musical, mas sabe para onde quer ir. Este ano apresentou o segundo álbum, Mais Um. Para o futuro, promete mudanças nas redes sociais: “Estou a pensar investir no Youtube já no início deste ano, porque me apercebo da promoção que hoje em dia se faz e chega a muita gente.”

Gerador (G.) – Quem é o S. Pedro e como se iniciou no mundo da música?

S. Pedro (S. P.) – Então, comecei… não sei há quantos anos foi, talvez há 16, 17 ou 18 anos. Tinha uma banda na altura, como toda a gente, e dava mais prioridade à bateria. Não sei porquê, mas gostava mais da bateria. Toquei em bandas de vários géneros, principalmente rockalhadas e não sei o quê. E houve um dia em que descobri a capacidade de gravar as coisas por pistas, sabes? Podia tocar todos os instrumentos e, partir daí, comecei a achar que era produtor. Achei mágico o facto de poder tocar um instrumento e tocar, a seguir, um outro instrumento comigo mesmo e carregar no play… Achei isso um máximo. A partir daí, comecei a querer tocar melhor os diversos instrumentos. Depois apareceram os doismileoito e, antes disso, tinha tido uma banda de rap aqui do Porto. Por motivos estranhos e quase desconhecidos, a banda acabou. Então, fiquei com uma série de músicas dos doismileoito, porque era eu que compunha, e decidi que iria começar a canalizá-las para outro projeto qualquer. Dei-me o nome de S. Pedro, comecei a tocar e está a correr bem.

G. – Sobre o nome S. Pedro, foi uma escolha baseada na religião ou há outra explicação?

S. P. – EntãoÉ daquelas coisas que nem sabes porquê, porque há várias explicações e, depois, quando começo a explicar, acho que expliquei mal. Mas sim, se calhar por causa da religião – não que eu seja um gajo religioso – mas por causa da história da religião e de Cristo. S. Pedro era um gajo como outro qualquer, que é aquilo que eu acho que sou.

G. – O teu primeiro álbum foi editado em 2017 e dá-se pelo nome de O Fim. Este trabalho representa o fim de alguma fase?

S. P. – Não, no primeiro disco dei esse nome porque era um fim daquele tipo de abordagem que eu fazia às minhas músicas, assim muito intimista, sensível e deliciada, porque eu gostava de tratar as minhas músicas dessa forma. Ao chamar-lhe O Fim, foi o fim dessa abordagem e dessa estética que eu tinha muito nessa altura. E ainda tenho, porque é muito normal tratar as músicas dessa maneira. Mas para S. Pedro, achava que tinha de dar uma voltinha.

G. – Este ano lançaste o álbum Mais Um. O que é que representa este trabalho para ti? É só mais um?

S. P. – O álbum representa… Sei lá… É um disco muito pretensioso. Sei que não existe um disco bom demais, mas acho que é um disco bom demais. Podia ter feito do disco uma coisa mais minha… Não é muito bom eu estar a dizer isto, eu não estou a dizer mal do meu disco, mas é a pressão do segundo disco. Como o primeiro chegou a ser disco do ano para alguma malta e chegou a estar nos tops, fiquei um bocado pressionado. Eu acho que pus a carne toda no assador neste álbum. Devia ter posto mais uns pimentos e uma douradinha, em vez de meter só carne.

G. – Algumas das tuas músicas chamam-se Apanhar Sol, Passarinhos, O Mundo, Estrelas e Cometas, Amores de Inverno… És uma pessoa ligada à natureza?

S. P. – Sim, tu também és, não és? Somos todos, obrigatoriamente.

G. – Mas a natureza é um ponto de partida para as tuas músicas? É uma fonte de inspiração?

S. P. – Eu nunca tinha pensado nisso… Eu acho que tenho na natureza a maior certeza que existe. Para mim, deus é a natureza. Se existe uma força maior, é a natureza. Se calhar não te comprometes muito com um nome de uma música ligado à natureza. Não sei se foi por isso ou não. Mas sei que sou uma pessoa ligada à natureza e tento manter a minha pegada ligeirinha, apesar de tudo. Mas não sou propriamente um abraçador de árvores ou militante do Green Peace.

Música Apanhar Sol

G. – No site da Valentim de Carvalho, és apresentado como “um tipo honesto e criativo”. Como é que é esse teu processo criativo?

S. P. – Escrever as letras costuma ser uma coisa muito penosa e dolorosa, até. Eu considero-me uma pessoa muito musical. Espero não estar a ser arrogante a dizer isto, mas considero-me uma pessoa com bastante musicalidade. Então, para mim, para criar as músicas, tenho alguns recursos, sei como chegar lá. Se tiver algo na cabeça, sei como fazer. Então, muitas vezes, a letra… Opa, sou um gajo que não lê livros, ponto. Às vezes, a minha única referência, é aquilo que está dentro da minha cabeça ou numa realidade muito próxima, como os meus amigos, famílias ou as minhas relações pessoais. É por isso que as minhas letras podem ser tão rudes e honestas demais, porque, na realidade, não me baseio na poesia e romance de ninguém. É sempre numa coisa muito minha. Tenho essas duas partes da música e da letra. Não interessa muto o que vem primeiro. E pronto, tenho um estúdio, enfio-me lá e chamo o pessoal da banda para tocar comigo. Às vezes, sou eu que desenrasco os instrumentos. É um processo muito fluido.

G. – Olhando para o panorama musical português, estamos bem servidos em termos da qualidade musical?

S. P. – É uma fase em que há muita gente a compor para muita gente e os temas das músicas estão a ficar todos muito generalistas. Parece que ninguém está a falar de ninguém específico, está toda a gente a falar do amor, felicidade… Então, acho que falta uma abanadela. Mesmo os palavrões que o pessoal põe na música: às vezes põem um “merda” mas parece o “merda” mais educado do mundo, foi estrategicamente usado. Não sei, acho que está tudo muito polidinho. Não sei se é por imposição nas rádios, se estabelecem algumas limitações e desenvolvem algumas estéticas das músicas que passam nas rádios. Mas depois há uma procura cega de todas as bandas que, para terem de passar em determinada rádio, têm que obedecer àqueles parâmetros, àquela estética, àquela temática… Mas a história prova-nos que sempre que houve uma estética instituída, apareceu alguém que a quebrou e, quem a quebrou, furou. É isso que eu acho que se passa. Existe muito a cena de que “ai, se o Rui Veloso morrer, temos de arranjar um próximo Rui Veloso”. Em Portugal, existe muito isto. Existe uma série de artistas que representam um estilo e não há ramificações. Sempre que desparece um artista de renome, tem de parecer alguém para colmatar esse buraco, porque senão os fãs desse artista ficam sem saber o que fazer. Eu acho que as rádios ainda pensam que os ouvintes são estúpidos e que não têm capacidade para procurar as bandas que gostam.

G. – É fácil ser-se músico em Portugal?

S. P. – Se arranjares um ponto de equilíbrio, é fixe, mas facilmente entras em desespero. Financeiramente as coisas podem ser mais complicadas. No meu caso, como tenho o estúdio e tenho andado a fazer alguns trabalhos de produção, composições para outras pessoas, e isso tudo, até consigo manter a minha sanidade e a questão financeira fora da minha cabeça.

G. – Já há planos para 2020?

S. P. – Sim, vou ser altamente ativo nas redes sociais, que é uma coisa que eu não faço, principalmente no Youtube. Estou a pensar investir no Youtube já no início deste ano, porque me apercebo da promoção que hoje em dia se faz e chega a muita gente.

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia de Andreia Teixeira

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