A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (MPGDP) surgiu pelas mãos de Tiago Pereira, em 2011, com um canal no Vimeo e acabou por se expandir para a rádio, a televisão e um palco no Bons Sons. O que, inicialmente, podia aparentar ser um projeto simples, que desafiava músicos portugueses a tocar em lugares inesperados, foi crescendo e ganhando uma consciência social cada vez maior. Ao longo de oito anos, Tiago foi viajando de campo em campo à procura de uma memória que trouxesse cantigas, romances, contos, músicas, danças e práticas sacroprofanas para o universo digital com o intuito de criar um arquivo que evite um revisionismo do passado e relembre os portugueses dos modelos sociais que foram deixando para trás e que a música pode ajudar a recuperar. O Gerador foi falar com Tiago sobre a importância da música portuguesa no panorama nacional, as relações interpessoais que se vão criando na MPGDP e o piquenique que está a organizar em Viana do Castelo.

Gerador (G.) — A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (MPGDP) é um projeto com oito anos. De onde é que surgiu esta vontade, na altura, de criares algo deste género?

Tiago Pereira (T.P.) — O início de tudo vem antes do início. Eu gravava música ao ar livre, já há muito tempo, e fazia filmes em que juntava tradição oral com animação infantil (que fazia nas escolas) e tentava fazer pontos geracionais. Os anos de 2009 e 2010 foram de mudança; fiz muitos projetos com os cantautores da altura. A Flor Caveira e a Amor Fúria estavam em pleno, o B Fachada estava a lançar-se, a Márcia a aparecer, o Jorge Cruz ainda pré-Diabo na Cruz e começa a haver todo esse movimento de pessoas a cantar em português, que era uma coisa que não se via em número há muito tempo.

Eu decidi fazer um filme com o B Fachada e levei-o para Trás-os-Montes e gravei-o a cantar em todo o lado; a cantar com as velhinhas, elas a cantarem com ele, o Fachada e as velhinhas a cantarem uns para os outros. Nessa altura, as músicas dele (B Fachada) eram quase todas nomes de mulheres e eu pedi à Adélia Garcia para lhe ensinar uma música, que acabou por ser a “Filomena” — que é um romance que tem mais de 500 anos e nem sequer se chama “Filomena”. Quando o B Fachada veio para Lisboa e começou a cantar essa música as pessoas achavam que era dele e que tinha sido criada na semana anterior, quando a música tinha mais de 500 anos.

 

A partir daí, começou a haver uma dinâmica de tentar perceber o que é o coletivo e o individual e discutir a questão do que é a tradição oral contemporânea, se na verdade acaba por o ser sempre porque vai acompanhando os tempos. Ao mesmo tempo, fui convidado para fazer um filme para os 15 anos da d’Orfeu, que é uma associação em Águeda formada por quatro irmãos que têm todos ligações à música bastante diferentes: um faz parte dos Danças Ocultas, outro que tem projetos como os Toques de Caramulo, outro ainda que é completamente experimental e o quarto que está ligado à Orquestra de Águeda. Baseando-me nos seus pares, pensei um filme que não se focasse apenas naquilo e fosse mais global. Questionei pessoas como o Carlos Guerreiro dos Gaiteiro de Lisboa ou o Nuno, que tinha sido um dos fundadores da Banda do Casaco e que tinha tido editoras a vida toda, e até o meu pai.

Esse filme chamava-se A Música Portuguesa se Gostasse dela Própria. Estávamos em janeiro de 2011 e saiu um grande artigo na Notícias Magazine sobre este movimento de cantar em português e entrevistaram-me a mim, como entrevistaram o Manel Fúria ou o B Fachada. No dia em que o artigo saiu — 15 de janeiro de 2011 —, decidi que era bom ter um espaço virtual onde toda a gente pudesse estar representada, e disse que, a partir do dia a seguir, ia gravar pelo menos cinco músicos por semana. A Joana Barra Vaz fundou comigo o projeto, entretanto começaram a entrar outras pessoas também, e passámos dos cinco vídeos por semana (que dissemos que íamos gravar) para um total de mais de 300 no fim do ano. Em setembro, a Joana saiu do projeto, em novembro, fizemos uma espécie de festival no qual durante 11 meses ia haver 11 concertos da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, com convidados que podiam ir das adufeiras de Monsanto ao Samuel Úria ou aos Capitães da Areia.

Em 2012, decidi concentrar-me mais na tradição oral — não querendo dizer que eu não gravo outras coisas — e em dar espaço à música a que normalmente não é dada voz e que nem toda a gente conhece, porque não está nos circuitos urbanos nem marcada nos media.

G. — A forma como apresentas o conteúdo também foi mudando ao longo destes anos. Em que ponto é que sentiste a necessidade de criar narrativas que acompanhassem a música?

T.P. — A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, para já, não é um fim nem nunca tem fim. Nunca é um fim em si mesma — é sempre um ponto de partida para se estar a imaginar coisas e trabalhar a partir do mesmo tema —, e, portanto, estive sempre a imaginar histórias e produtos. O primeiro objetivo era tornar aquilo num programa de televisão e conseguimos isso, em 2015, quando fizemos uma série documental de 26 episódios de música tradicional do país para a RTP2, mas também tinha passado para a rádio no ano anterior (2014) com o programa Povo que Canta na Rádio, que depois passou para Povo que Ainda Canta, mais tarde para Povo que Volta a Cantar, e agora tenho outro na Antena 2 que já se chama A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria.

Disto também vêm os Sampladélicos, que pegam na música que eu gravo, começam a desconstruir e dão concertos; performers como a Cátia Terrinca a cantar uma música que a avó lhe cantava, na banheira enquanto toma banho e bate com o chuveiro no peito. A MPGDP sempre teve coisas inventadas porque aquilo é um espaço para se ser criativo. Mas quando criamos é sempre porque o projeto não pode estagnar.

O Povo Que Ainda Canta –  Adélia Garcia

G. — Na biografia que tens no site da MPGDP dizes que te consideras um “ativista, defensor da memória coletiva e tradição oral”. Que caminhos é que achas que conseguiste desbravar até aqui?

 T.P. — A pior pessoa para responder a essa pergunta sou eu, porque se não parece que me estou a vangloriar de uma coisa que nem sei bem. Acho que, nestes últimos onze anos, há uma aproximação visível aos instrumentos tradicionais e a uma certa lógica mais abrangente de ver o país, e isso não fui só eu que consegui. Há toda uma conjuntura que tem muitas razões de ser; mas neste momento tens por exemplo o Salvador Sobral que se apaixonou pelo rajão e que tem o André Santos, que é madeirense, e toca com ele. Mas já tínhamos tido a mesma questão antes com os Deolinda com o rajão e a braguinha, a tocar com violas de arames, o B Fachada e os Diabo na Cruz a tocar braguesa; e isso, de certa forma, fez com que as pessoas começassem a olhar para os instrumentos tradicionais de outra forma, que antes eram vistas até com algum preconceito.

À medida que as pessoas foram conhecendo esse universo — e aí eu posso ter tido algum papel —, o preconceito diminuiu. Nesse sentido, a MPGDP teve um papel preponderante porque de certa forma democratizou o acesso a todas estas coisas. Se o Giacometti saiu com o Público em 2010, havia muita gente que não conseguia ler aquilo porque era de uma leitura complexa e de repente a MPGDP começa a apresentar a música portuguesa de outra maneira. Houve sempre cuidado nos enquadramentos, de forma a tornar o conteúdo acessível, mas dando sempre a dignidade que as pessoas que gravávamos mereciam.

 G. — Como é que vocês encontram essas pessoas que vão gravando?

 T.P. — Cada vez mais é uma rede enorme, mas também fazemos pesquisa para saber o que podemos gravar. Agora, por exemplo, vamos para Sever do Vouga, onde temos algumas pessoas a fazer pesquisa para nós e que já tinham feito o mesmo para nós em Viseu, quando os Sampladélicos foram tocar ao Jardins Efémeros.

Sempre tivemos pessoas que pesquisavam para nós, quando não éramos nós mesmos a fazê-lo, e claro que seguimos a rede que nos vai dizendo “vai gravar aqui” ou “vai gravar ali”. Essas pessoas, que nos vão dizendo onde ir, são muito importantes.

G. — É frequente ver pessoas mais velhas nos vossos vídeos. Isso acontece inevitavelmente ou é uma decisão vossa?

T.P.— O que eu gravo é a tradição oral que está guardada nas pessoas que trabalhavam no campo na segunda metade do século XX, o que significa que estamos a falar das pessoas que conseguem ter uma memória ativa e decorar coisas e nasceram, no máximo, até 1950. A partir da década de 50, já começam a não trabalhar no campo, nascem nos grandes centros urbanos e, por muitas condicionantes gráficas, económicas, sociológicas e outras, as pessoas não têm mais essa memória. As pessoas que gravo têm essa memória porque maior parte delas não iam à escola e tinham que decorar para manter as coisas ativas no cérebro e muitas outras pessoas tinham essa capacidade aliada a uma memória física. A televisão não tinha uma carga muito grande, a Internet não existia, e as pessoas decoravam. Por isso, esta tradição oral, que está relacionada com a memória coletiva e com a capacidade de memorizar, vai-se transformando.

Hoje em dia, as pessoas das novas gerações não sabem coisas de cor. Quantas músicas é que tu sabes de cor? Pois. As senhoras que eu gravo sabem 100, 200, 300 músicas de cor e basta-lhes ver a primeira frase para se lembrarem de todas as estrofes e todos os versos. Hoje quem sabe coisas de cor são os profissionais — os cantores, os músicos, os atores e outras pessoas que tenham de decorar texto obrigatoriamente, e é natural que fiquem com ele na cabeça porque tiveram que o decorar. E estas pessoas que gravamos na MPGDP sabem de cor, porque decoraram de forma natural e orgânica e, quando desaparecerem, esta tradição oral vai desaparecer também. Por isso é que eu digo que sou uma espécie de Robin dos Bosques: não porque roubo aos ricos para dar aos pobres, mas porque quero que as pessoas que cantam para elas próprias, e têm a música como o seu paradigma inicial e como o seu motivo primordial, tenham um lugar ao lado do Conan Osíris, do B Fachada ou do António Zambujo.

A música não pode ter hierarquias nem fronteiras, porque é uma coisa que faz parte de nós enquanto seres humanos — cantamos logo que nascemos e choramos, e, a partir daí, cantamos na banheira, no carro, para adormecer as crianças; cantamos a toda a hora. A sociedade cada vez leva mais o cantar para uma coisa profissional e, por isso, existem os concursos que levam esta prática para uma vertente profissional onde se tem que estar afinado por um diapasão, bem-vestido, maquilhado, em cima de um palco. E as coisas não podem ser assim.

Além de achar que sou uma espécie de Robin dos Bosques, também digo que tenho síndrome de Noé porque quero salvar tudo isto que vai morrer um dia, e eu quero, pelo menos, registar sempre as pessoas que cantam para si próprias. Não quero mesmo que isto se perca e é como se eu tentasse fazer força no sentido contrário do que a sociedade está a seguir. Não podemos mesmo esquecer-nos de que cantar é uma coisa nossa e que toda a gente tem essa capacidade, nem existe cantar bem ou cantar mal. O importante é que se tenha prazer nisso.

“O Meu Lindo Pescador”, pela Olívia “Paleca” Borges 

G. — Quando vocês vão gravar alguém criam algum tipo de relação com as pessoas? Em alguns vídeos, nota-se o à-vontade dessas pessoas à frente da câmara…

T.P. — Eu acho que um dos grandes mitos da MPGDP é que aquilo é só chegar lá e carregar no botão. Há uma questão muito empática, que tem que ver com a forma como estás com o outro. No fundo, aquilo é uma troca e essa parte humana de chegar lá e conseguir ter alguém a cantar para uma câmara passa por pensarmos como é que podemos criar a empatia.

Sempre houve muitas gravações em Portugal, mas há coisas que a MPGDP consegue e que pouca gente conseguiu até agora, precisamente porque eu e outras pessoas da equipa, com o tempo, aprendemos a ir criando essa empatia e conseguir que as coisas aconteçam com naturalidade. Às vezes, as pessoas estão a lidar com as suas inseguranças e os seus fantasmas e não é fácil, mas é um trabalho que se vai construindo.

G. — Na MPGDP, têm uma assistente social na equipa. Qual é o papel dela no projeto?

T.P. — O papel dela é gravar som e fazer muitas outras coisas, mas eu acho que cada vez mais faz sentido, isso porque muitas vezes fazemos esse papel. Há muito serviço social na MPGDP. Há muitas vezes em que ficamos com as pessoas a fazer algumas coisas depois das gravações, ou vamos para o meio do campo gravar com as pessoas porque sabemos que vai ser lá que vão estar mais à vontade. E eu acho que uma assistente social no projeto é superimportante, porque cada vez mais a MPGDP quer chegar a outros pontos, como o combate do alzheimer através da música, por exemplo. Nós sabemos que o que estamos a fazer tem um lado social muito forte, mas também é cognitivo e, de certa forma, aumenta as capacidades cognitivas. Se o projeto puder melhorar a vida de certas pessoas e contribuir para que esta relação entre a música e a memória sejam mais solidificadas em Portugal, porque não?

Da mesma maneira que um dos próximos passos será fazer A Música Cigana a Gostar Dela Própria, porque a música cigana é supervaliosa e o racismo com as comunidades ciganas em Portugal é muito forte. De certa maneira, a música está guardada neles e para eles, quando faz sentido que aquilo rebente. Acho que a música tem o papel de juntar as pessoas e a capacidade de resolver alguns problemas sociais. Se a MPGDP já tem algumas das ferramentas que é preciso ter, faz todo o sentido que trabalhe para isso também e que tenha uma assistente social na equipa.

“Não vás ao mar Tóino”, pela Idalisa Delgado

G. — Então achas que a MPGDP não só evita um revisionismo do passado, mas também vai tentando construir um futuro?

 T.P. — A memória é uma das coisas mais importantes na vida, é o presente do passado. Só podes fazer um bom futuro com uma boa memória. O que nós estamos a fazer é criar um outro modelo social em que se consiga aprender a ouvir, o que não é fácil porque somos cada vez mais mediados por tecnologia e cada vez somos mais individualistas atrás dos nossos ecrãs e das nossas vidas. Por isso é que também estamos a fazer o piquenique; vamos buscar um dispositivo social que sempre existiu, só que com a fragmentação da sociedade é preciso voltar a criá-lo para juntar as pessoas num evento em que possam ser público e protagonista ao mesmo tempo, sem palcos. As pessoas estão tão habituadas a ter coisas programadas que já se esqueceram do que é poderem ser livres e fazer coisas sem horas definidas. O piquenique é isso: criar um espaço onde as pessoas se juntam, não têm nada programada, dançam, cantam e comem e de repente tudo é possível. A MPGDP cada vez quer mostrar mais que há outros modelos sociais possíveis.

G. — Este já vai ser o segundo piquenique.

 T.P. — Sim! A ideia é que este modelo depois seja replicado e que se comece a organizar mais piqueniques. No de 2018, as pessoas ficaram malucas, falaram dele durante imenso tempo, porque, de facto, foi muito forte. De repente, tínhamos 500 pessoas a cantar e a dançar numa euforia.

Este ano vai ser no Minho, onde todas as pessoas são alegres; todas cantam e dançam com felicidade. Tem o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo, o que é muito bom porque ninguém pode deixar de ir por sentir que não tem possibilidades para isso, uma vez que eles (Câmara Municipal) vão oferecer rojões e caldo verde.

Vídeo promocional do piquenique

G. — E porquê Viana?

 T.P. — Escolhi Viana primeiro porque organizei o piquenique com a Josefina Bouças das Cantadeiras do Vale do Neiva, mas também por uma história muito bonita que existe em Caminha. O Pedro Homem de Melo tinha um programa de dança tradicional nos anos 70 na televisão e havia uma pessoa de Caminha de quem o Pedro gostava muito, que era o Desidério, e eles iam à Romaria de São João de Arga. Nessa altura, havia discos pedidos e já não havia aquela coisa de as pessoas se encontrarem e dançarem porque sim — como nós queremos no piquenique. Então, o Pedro Homem de Melo uma vez disse ao Desidério que lhe dava dois mil escudos se fosse aos discos pedidos para pedir que não toquem nada, e isso aconteceu. De repente, houve um grande silêncio e andaram à procura de quem tocasse concertina para não haver silêncio. Um padre escreveu uma notícia sobre isso num jornal local de Caminha e no ano seguinte não voltou a acontecer, o espaço da romaria voltou a ser como sempre tinha sido e continua até hoje.

Às vezes, é preciso que alguém crie o dispositivo para que as coisas voltem à normalidade porque as pessoas se esqueceram.

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O piquenique A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria está marcado para o dia 7 de abril às 11h00 no Parque da Cidade de Viana do Castelo. Sabe mais sobre este projeto, aqui .

Texto de Carolina Franco
Fotografia de A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria disponível via Facebook

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