Quando Alexandre Farto começou a assinar como Vhils talvez não fosse evidente que em poucos anos o seu nome estaria por todo o lado — dos murais às galerias de arte, das conversas entre pares às opiniões de especialistas, das redes sociais às capas de jornais e revistas. Por todo o mundo.

Não ter média para entrar na faculdade em Portugal abriu-lhe uma porta do destino para seguir para Londres, estudar no Central Saint Martins e começar a deixar a sua marca nas ruas e bares londrinos. Daí até ser convidado por Banksy para integrar uma exposição foi um estalar de dedos e logo se abriram os olhos para os rostos que falavam pelas comunidades em que se inseriam e, de alguma forma, comunicavam pela forma e conteúdo — em Inglaterra, em Portugal, na China ou no Brasil.

Desde então, tem feito um trabalho de consolidação no mundo das artes e mostrado que o caminho de um artista independente na era capitalista nem sempre é o mais óbvio. No ano de 2013 cria a galeria de arte Underdogs, projeto que divide com Pauline Foessel e que se tem distinguido pelo apoio a artistas de street art. Dois anos depois, em 2015, juntou-se a Pedro Pires para criar a Solid Dogma, uma unidade criativa cujos objetivos são “criar valor cultural”, “aumentar o poder social” e “aumentar a exposição e o impacto das marcas”, fazendo ponte com os mundos físico e digital.

No ano seguinte, a necessidade de ser e fazer mais levou-o a juntar os elementos do hip hop, movimento em que sempre se inseriu, num festival e assim surgiu o Iminente. De Oeiras para Monsanto, reúne desde 2016 velhas referências e novas descobertas num projeto que se assume disruptivo e para todos.

Um dia antes da abertura do Iminente, no Panorâmico de Monsanto ainda em preparativos, Alexandre Farto aka Vhils conversou com o Gerador sobre o estado da arte: a sua e a que podemos dizer que é um pouco de todos nós.

 Gerador (G.) – O Iminente acabou por se tornar numa referência dentro da cena do hip hop — e digo hip hop porque de facto vocês reúnem os diferentes elementos dentro do movimento, mas a música acaba por ter um peso maior. Que lugar é que a música ocupa na tua vida?
Vhils (V.) –   É parte essencial. Eu cresci na Margem Sul, na Arrentela, e sempre tive muito envolvido com o hip hop, foi aquilo que me fez começar a pintar no início. Trabalhei muito com o Chullage e estive envolvido em projetos de hip hop tuga e foram sempre uma referência para mim, não só na música, como no graffiti, na dança, no DJing... todo o circuito de pessoal com quem eu me dava estava muito ligado e isso esteve sempre na génese daquilo que eu faço. Para mim também foi uma porta de entrada para conhecer outros tipos de música, porque o hip hop tem muito na sua essência uma ideia de reutilização e apropriação de clássicos e procura de novas melodias e nova formas de expressão. De certa forma, foi a minha ponte para este universo de outras coisas de que também gosto, e para um festival que se tornou numa reunião de vários projetos e pessoas. Mas há sempre uma relação entre aquilo que eu faço e com a música em geral.

G. – A tua relação com o Chullage já vem de outros tempos. Há mais pessoas que tragas contigo desde esses tempos – sejam referências que se mantêm ou aqueles que continuam a partir pedra contigo?
V. – Estando ligados profissionalmente ou não, há sempre uma ligação muito forte entre mim e essas pessoas. A arte urbana em Portugal sempre foi um circuito que lutou muito, e no início havia um sentimento de união muito grande graças à ostracização que havia com estes artistas.

G. – E voltando à música, há alguns rostos icónicos que fizeste que estão ligados com a música portuguesa – como o Zeca Afonso ou a Amália Rodrigues. Sentes que teres começado a ir buscar essas figuras ilustres da cultura portuguesa fez de ti uma espécie de herói nacional que melhor representa a portugalidade?
V. – Não sou a melhor pessoa para falar sobre isso, mas a minha ida para Londres, em 2007, foi um passo importante, e foi a partir daí que comecei a ter mais visibilidade no trabalho que comecei a fazer. Estar lá — e depois ser convidado para a exposição do Banksy — permitiu-me não só ter visibilidade, mas também dar um salto naquilo que já fazia. A partir daí a ideia foi tentar primeiro criar o meu meio, passar a minha mensagem; mas ao mesmo tempo preocupei-me também em fazer projetos em que conseguisse englobar outros artistas – e isso é tão ou mais importante do que o trabalho que eu vou fazendo. Como é óbvio há um respeito enorme por todo o percurso, e o Zeca Afonso é um dos artistas de intervenção de referência em Portugal, assim como a Amália, mas esse foi um trabalho de colaboração. Mas acho que todos os artistas portugueses de alguma forma refletem a portugalidade; a portugalidade também passa pelos problemas que os artistas portugueses carregam para a sua arte.

Representar melhor a portugalidade nunca foi propriamente a minha missão, de todo, mas não posso controlar aquilo que as pessoas pensam de mim.

G. – E tu tens feito várias colaborações, inclusive com marcas como a Super Bock e a SEAT. Sentes que as marcas são os mecenas do século XXI? Qual é a tua relação com as marcas?
V. – Bem, a minha relação com as marcas nunca foi fácil, mas é uma parte que é impossível de não lidar com. O apoio estatal, especialmente para todas estas culturas emergentes, é muitas vezes débil, e o diálogo que existe com estas instituições é muito fraco — e isto vai do tempo que leva a absorver o emergente a essas instituições aperceberem-se do que está a surgir.

Houve um momento em que tive de perceber o que é que fazia sentido para mim, mas também para os projetos em que me meti e trabalhava. E para os conseguir fazer e ter sustentabilidade para isso – porque muitos destes projetos não tinham financiamento e não tenho maneira de conseguir sequer cobrir as despesas sobre isso, ter um atelier e ter as despesas todas que tenho—, tornou-se uma parte integral de todo esse processo. Claro que as marcas ganham com isso, mas os artistas também ganham por terem condições e isso é sempre um jogo que tem de se fazer, mas sem dúvida que sem o apoio das marcas talvez não conseguíssemos fazer um festival destes, que envolve os artistas, ser o mais justos possível com eles. Tal como por exemplo, eu, às vezes, tenho de fazer coisas com marcas para depois conseguir fazer projetos que me interessam e, sim, sem dúvida, que é um processo similar à ideia de mecenas. E acho importante existirem esses apoios, tal como acho importante as marcas perceberem quando trabalham com um artista a postura que devem ter também — e normalmente com as marcas com que eu trabalho, tento que respeitem o meu lado artístico e dos artistas em geral. Espero que respeitem a sua integridade, aquilo que eles dizem, a liberdade que têm de ter. E esse apoio das marcas permite que nós artistas, por vezes, tenhamos o nosso espaço de trabalho e condições. Por isso é uma relação win-win mas não sei bem quem win no final.

Na zona central do Panorâmico de Monsanto ultimavam-se os preparativos para o Iminente

G. – Ainda existe a ideia de que o artista consegue viver só da arte? Tu próprio criaste projetos que acabam por integrar o universo Vhils, mas que tratam coisas diferentes. Que camadas de Vhils há na Solid Dogma e na Underdogs? Este modelo de artista-empresário é o que consideras melhor para conseguires viver a criar, neste momento?
V. – Este não é o único modelo. Há vários caminhos e cada artista escolhe aquele com que se sente mais confortável. Há uma falta de apoio enorme e a forma que eu arranjei para fazer aquilo de que gosto passou por uma luta e uma batalha interna, tal como muitos artistas que trabalham com a Underdogs. Fazer aquilo que amas é algo que te leva a refletir e, se calhar, a aceitares que a única maneira de conseguires é arranjares um compromisso entre aquilo que são os teus ideais e aquilo de que precisas para te sustentar, para teres uma equipa e fazeres o teu trabalho. Porque no final de contas o que me interessa, mais do que o meu trabalho artístico, é o impacto que ele pode ter também nas comunidades com que trabalhamos (eu e a minha equipa). É esse o jogo e balanço que muitas vezes se tem de fazer, mas que pode ficar em jogo com esse modelo que tem existido. Sinto que isso vem também de uma série de lacunas que existem no meio artístico para conseguir identificar, apoiar e criar visibilidade para a nova geração de artistas que muitas vezes são confrontados com esta realidade de que se não consegues fazer esse compromisso, não te consegues sustentar. E principalmente falando num percurso em que durante um bom período de tempo o trabalho não era aceite nem reconhecido, nem era visto como trabalho válido, é algo que te faz lutar, encontrar esse compromisso e soluções.

Isso fez também com que eu e a Pauline com a Underdogs quiséssemos criar uma plataforma que, para além de fazer arte no espaço público, tivesse um espaço expositivo e uma loja em que pudéssemos criar um sistema de sustentabilidade para os artistas com quem trabalhamos, que de outra forma não teriam uma galeria que os representasse. Apesar de terem todo o valor que têm, nenhuma das galerias nessa altura conseguia olhar para eles como artistas válidos. E, por isso, sinto-me confortável com esse espaço e acredito que há muito poucas alternativas hoje em dia. Há a ideia romântica do artista que vive só da arte que quer fazer, claro, e é superimportante, mas também há todo um outro lado que fica perdido.

G. – Mas tem havido esse crescimento nos últimos tempos. Aliás, a street art cada vez mais tem sido uma forma de tentar tornar não-lugares em lugares. Na prática, existem ecos dessas obras nos sítios que habitam ou achas que é uma ideia paternalista a de que uma obra de street art consegue mudar um lugar?
V. – Eu acho que o percurso feito por uma série de artistas e curadores até aqui mostrou o potencial que a arte tem no espaço público nas comunidades onde ele é feito, e há uma série de projetos como o Walk&Talk que têm a arte urbana na sua génese e que se percebeu o impacto positivo que isso tem para trabalhar o não-lugar. Eu acho é que já estamos num caminho inverso disso, numa sobrexposição, em que há um impacto negativo que a arte no espaço público pode ter, que conduz à gentrificação, por causa de todo o valor e atenção que consegue trazer a esses sítios. Em centros urbanos como Lisboa e Porto isso já se sentiu e acho que é uma discussão que se deve ter até dentro da comunidade artística, mas também mostra todo o valor que essa arte e que o ativismo cultural pode ter em termos de impacto nos sítios onde são feitos. Ao trabalhar essa arte noutras zonas mais periféricas, acho que trazer essa energia para esses sítios é sempre um ganho – não só para essas zonas como para as próprias comunidades, até por trazer esses artistas a conhecer uma realidade que muitas vezes não conhecem.

G. – Mas sentes que a repercussão que esses projetos podem ter passa por levar mais pessoas a esses lugares, mesmo que não mude propriamente o panorama cultural do sítio?
V. – Há aí outro risco, que é a apropriação do próprio movimento para criar situações em que as necessidades não estão completas junto da comunidade, e depois faz-se um projeto com um impacto estético completamente válido, mas que nunca pode ser só. Tem de haver um investimento naquilo que é base na cultura e essas falhas não podem ser contrabalançadas com obras de arte urbana. Muitas vezes os projetos que são feitos nesse sentido acabam por chamar a atenção para essa falta de estruturas nos meios culturais nas periferias, e há artistas que falam sobre isso. Há um projeto que fizemos no Rio de Janeiro em que a ideia é mesmo chamar a atenção para essa fricção que existe e muitas vezes a falta de atenção que há para as vozes dessas pessoas. Esse é um trabalho mais pessoal, que vou fazendo como Vhils, e o objetivo é mesmo dar atenção a essas tensões e falhas, não só nas estruturas culturais, mas também nas falhas nas necessidades básicas que muitas vezes tens nesses sítios.

G. – Achas que tens conseguido?
V. – Eu gosto de pensar que sim, mas não consigo fazer propriamente uma análise factual. Sinto o impacto positivo que tem, mas não há uma forma métrica de dizer. Ainda assim tive vários projetos em que senti isso.

Vhils é o curador principal do festival que criou em 2016

G. – Apresentas no Iminente uma obra num novo médio. Vais sentindo a necessidade de te reinventar, para que não haja uma saturação do teu próprio trabalho?
V. – Apesar do trabalho mais conhecido ser o das escavações a entranhas de edifícios, há todo um outro universo que trabalho – seja os posters de publicidade, a recuperação de material de demolição, a utilização de néon...estou sempre nessa pesquisa de materiais porque, para mim, muita da mensagem do trabalho está no próprio processo, no ato de fazer algo. Este é um novo caminho, que hei de mostrar na altura certa, mas que toca também no que estamos a falar, nos desafios do movimento de street art com todos estes estímulos de imagens, de informação digital, do poder da imagem em detrimento do texto, do simples em detrimento do complexo, da polarização de opiniões que vem muito com o acesso fácil e a massificação da informação. E este trabalho vem falar sobre isso: sobre o uso da imagem e a sobrexposição que temos, e como isso nos torna muitas vezes inócuos e anestesiados ao impacto de uma coisa que se calhar víamos há dez anos e nos chocava, mas agora passa-nos ao lado, porque de vermos tantas vezes nos torna completamente indiferentes. Isso acarreta muitos desafios à sociedade e ao mundo em que vivemos. Interessa-me a ponte entre a forma de comunicar das novas gerações e o poder que isso tem em descomplexificar problemas que, muitas vezes, têm muitos pontos de visão e merecem umas três ou quatro páginas para refletir sobre o assunto, mas acabam por se resumir a uma imagem com um texto pequeno, através dos quais se consegue tirar uma elação direta sobre esse assunto. Esta peça também está ligada a uma ideia de identidade num contexto urbano em que vivemos, e este trabalho é o inicio desse percurso de pesquisa que estou agora a começar.

G. – Essa questão dos estímulos lembra-me da importância que Hong Kong ocupou na tua vida. Esta cidade acabou por se tornar o teu atelier por excelência, nos últimos tempos?
V. – Hong Kong é quase o extremo da urbanidade que vivemos. Aquilo que vivemos hoje, se calhar, lá é o que se vai viver daqui a 5 ou 10 anos. Ao ver o extremo da metrópole conseguimos perceber todos os novos desafios que isso traz, e sem dúvida que se tornou num sítio importante para mim. Apesar de ter feito projetos noutras cidades, foi uma das que mais me tocou e continua a ser o meu atelier de influência, que vem também nesse sentido de apropriação do espaço público, de publicidade, ou de muitas coisas de que a cidade, em si, é feita­. É um sítio em que o extremo da eficiência é quase o oposto ao lugar da produção artística. Sentir estas tensões, que agora estão ainda mais evidentes, preocupa-me, e são coisas que estão prementes depois no trabalho que também vou fazendo. Por isso, Hong Kong acaba por ser quase um tubo de ensaio em que eu gosto de refletir exaustivamente.

G. – E já expuseste em Hong Kong várias vezes. Tendo em conta que na sua génese a street art nasceu também como reação à falta de representação dos seus artistas em espaços museológicos e galerísticos, qual é o valor simbólico que existe para ti em estares nestas instituições?
V. – Eu nunca separei o espaço de dentro do de fora. O sítio onde comecei e onde a minha intervenção faz mais sentido é a rua — é onde para mim faz todo o sentido trabalhar —, mas também é importante fazer esta transição para museus e galerias e trazer o meu trabalho para toda uma outra dimensão, e ter uma intervenção que não se consegue no espaço público. No espaço público há uma relação com a pessoa que é, muitas vezes, de surpresa, de passagem; é um trabalho que tem de ter um certo tipo de discurso que muitas vezes não consegue ir à profundidade que é pretendida. Daí ser muito importante para mim todo o trabalho que faço em galeria ou em instituições, porque aí consigo ir mais a fundo e explorar tudo aquilo de que quero falar. Ao mesmo tempo, todo o lado de trabalhar dentro da instituição também cria novos públicos e maneiras de comunicar que, à partida, não conseguiria no espaço público, por isso estou confortável com os dois lugares.

G. – Aos espaços museológicos muitas vezes associa-se o merchandising que, que eu saiba, nunca fizeste. Há quem acredite que essa é uma forma de aproximação do artista aos seus públicos, e, por outro, há quem pense que é o pico da saturação do seu trabalho. O que é que achas sobre isso?
V. – A ideia de a arte ser acessível e não ser demasiado sofisticada ou conceptual é aquela com que me identifico. A questão da acessibilidade tanto na arte como na cultura é importante, e a arte contemporânea tem um complexo grande em ser acessível e comunicar claramente para o público em geral. Isso interessa-me muito mais do que propriamente criar algo “erudito” e talvez até distante das pessoas. O lado do merchandising não me interessa, de todo, mas as serigrafias e as edições acho superimportantes para juntar novos públicos e para contribuir para a sustentabilidade dos artistas. Prefiro viver num mundo em que os artistas têm autonomia para fazer o seu trabalho – que começa por uma autonomia financeira, mas também se liga com autonomia para fazer o que querem, e terem capacidade para se expressarem com projetos impactantes.

G. – E serem apoiados por quem gosta do trabalho deles.
V. – Sim! E há pouco falávamos do excesso de informação, das redes sociais e de tudo o que essas apps criaram, que não sabemos bem como vão acabar, mas ao mesmo tempo também possibilitaram canais de ligação direto ente artistas e públicos. E eu acho isso superinteressante, porque se criou um espaço de diálogo para as pessoas que seguem o trabalho de um artista e o próprio.

G. – Mas não achas que contribui para que se crie uma ideia de artista estrela?
V. – Sim, com tudo o que de mau possa vir daí, mas essa ideia de artista referência que tem mais influência também pode criar alternativas para que ele pense na responsabilidade que tem para com os outros artistas e os movimentos artísticos. Já que isso acontece, e que é algo que faz parte do sistema e de como as coisas acontecem, pode ser usado como algo positivo.

Alexandre Farto sente que é preciso repensar o impacto da street art nas cidades

G. – Referiste, a certa altura da nossa conversa, que a street art tem vindo a agir num sentido inverso àquele que era suposto. Esse impacto negativo tem que ver com um excesso de produção?
V. – Não necessariamente de excesso. Também não se fala de excesso de publicidade. Falo mais do efeito secundário que uma intervenção pode ter ao gentrificar e mexer com os preços das rendas de uma forma que antes nunca se pensaria que o graffiti ou a arte no espaço público poderia mexer. Acho que isso se inverteu e que a consciencialização sobre esse tema é importante para o movimento e para os artistas, para não acabarmos a fazer o oposto daquilo que queremos – que é valorizar um espaço para as comunidades locais.

G. – Mais do que preocupado com a banalização da street art, estás atento a essa possibilidade de efeito inverso?
V. – Sim, ainda que a banalização também seja um aspeto importante, na verdade. Esse excesso existe sim, mas isso também abre novos caminhos que são muito interessantes, e que têm que ver com a possibilidade de estes artistas serem capazes de trabalhar não só no espaço público. Tal como os artistas plásticos podem pintar, mas também fazer instalações, estes artistas também conseguem e querem fazer outras coisas. Isso tem acontecido com alguns que começaram na rua, mas que estão a fazer um corpo de trabalho que muitas vezes entra em galerias e instituições. E mesmo estando no espaço público estão a apostar noutros meios, como é o caso do Fuel, do Bordalo II, do AkaCorleone. Estão a começar a ter acesso a novas técnicas e materiais que podem não ser os mais óbvios para aqueles que começam num contexto urbano. E é interessante ver como estes artistas com todo o seu background conseguem traduzir trabalho para técnicas que nunca seriam expectáveis. E esses novos caminhos que se estão a criar podem contrabalançar esses excessos no espaço público, e apesar de a parte efémera ser importante, não é a única opção. É bom ver que estes artistas puxam os limites que se esperam deles, porque muitas vezes esse rótulo que se mete fecha o trabalho criativo.

G. – A street art tem-se distanciado da sua essência, ou isso é um mito que se foi proliferando?
V. – Tens artistas que continuam a ser contracorrente mesmo trabalhando com instituições; eles estarem lá não os invalida de pintar comboios ou de fazer o que sempre se associou a essa essência. Mas acho que a essência da street art passa exatamente por os artistas fazerem o que não é expectável deles. Se o que não se espera deles é entrarem num museu, serem respeitados como artistas contemporâneos ou terem o seu espaço na sociedade como outros artistas, essa é a essência.

Para Vhils a essência da street art passa por os artistas fazerem o que não é esperado que façam

Texto de Carolina Franco
Fotografias de Andreia Mayer
O Gerador é parceiro do Iminente

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