A Sara Fernandes falou com as Moçoilas, que assim se baptizaram porque são umas moças engraçadas que dão voz à Serra Algarvia há 24 anos. A última formação que Margarida Guerreiro, Teresa Silva e Inês Rosa partilharam, no meio de muitos risos e sorrisos, foi o recente desafio com a famosa cantora de jazz Maria João. Publicamos aqui algumas das palavras que trocaram, aqui mesmo ;-)

Gerador – As Moçoilas são habitualmente associadas ao “Canto da Serra” e ao “Canto do Algarve”. Será que este canto é das mulheres?

Maria Guerreiro A Serra não quer dizer Algarve. A serra é a Serra do Caldeirão, que tem uma ribeira, que é a ribeira do Vascão, abaixo da ribeira do Vascão é Algarve e acima é Alentejo… mas a serra também é alentejana, toda aquela zona de Almodôvar e Mértola têm uma proximidade imensa com Martilongo, Vaqueiros e Giões.

Inês Rosa – No Alentejo temos muitos mais homens a cantar que mulheres. Por exemplo, quando fomos a Pão Duro cantar, os homens cantaram muitos temas alentejanos e as mulheres, por sua vez, cantaram temas que tinham a ver com o nosso repertório.

MG. – São as mulheres que cantam no Algarve e os homens cantam no Alentejo. Por isso é que eles se casaram uns com os outros (risos). As cassetes que ouvimos são quase sempre cantadas por mulheres. Agora estamos a explorar uma que é bastante antiga e são sempre mulheres. Há uma (cassete) que é cantada por um homem («Ó minha laranjinha… és minha…») mas a gente nunca vai cantar essa! Elas cantam coisas dos amores, e que «te encontrei e que me entresteci e que tu não olhaste para mim», aquelas coisas complexas, porque as mulheres complicam! Expressam muito o amor.

IR. – Os homens quando entram nas cassetes, entram à força! É forçado. As intervenções não são muito interessantes para o nosso repertório.

MG. – Nunca se ouviu falar do homem algarvio endiabrado, mas elas sim! Elas são levianas, perigosas…

Teresa Silva – E muito malandrecas! Há sempre muitas frutas à mistura (risos)… há sempre uma horta, um nabo, um cacho…

MG. – Sempre tudo muito suculento!

IR. – As mulheres do Algarve são brincalhonas!

MG. – E atrevidas!

IR. – Eles estão amochadinhos… estão ali!

G. – O vosso repertório tem temas originais, outros pilhados dos vossos autores favoritos, mas os principais são músicas tradicionais. Como é que vocês recolhem estas “serranias”?

MG. – Isto tudo começou com uma cassete que foi feita pelo Hélder Raimundo (professor universitário interessado pela cultura popular) e pelo Daniel Vieira (um homem dedicado às artes – pintura, fotografia, música, teatro e cinema), e que a punham a tocar nas primeiras feiras da Serra. Não havia gente a cantar! O Algarve não se ouvia! Não se escutava! Havia o “Corridinho do Algarve”, ligado ao litoral e ao barrocal, ligado aos acordeões, mas não havia as expressões serranas. A origem das Moçoilas vem deste movimento de reconhecimento e valorização da Serra. Depois um dia foi preciso ir a um local representar a região do Algarve; juntámos umas moças e fomos representar a região a Santarém em 1994. Ouvimos as cassetes e reportámos tal e qual. Foi para isso que nos juntámos, nós não sabíamos em que é que aquilo ia dar… mas depois achávamos os ensaios muito giros, e o público também achava tudo muito giro, e continuámos por aí fora! Surgimos de uma necessidade, e fomos o início de qualquer coisa porque a partir daí outros grupos começaram a fazer a mesma coisa, o que é muito bom!

IR. – Temos também temas nossos feitos para a peça Catarina (Eufémia) a convite da ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve. Foi um trabalho muito curioso a partir das letras do Jacinto Lucas Pires e que era um texto que não tinha uma estrutura nada fácil para musicar. Eu acho que até foi este desafio, que nos foi lançado, que nos fez perceber que nós as três conseguíamos fazer muita coisa juntas, porque até esse momento tínhamos estado a trabalhar o repertório que as Moçoilas já tinham. Foi em 2016, no ano em que nos juntámos à Margarida.

TS. – As Moçoilas têm um som, uma identidade. Nós conseguimos misturar-nos com os outros mas não nos diluímos.

G. – E as mulheres que dão corpo e voz às Moçoilas? Quem são elas?

IR. – Comecei a aprender música muito pequenina e tenho tido um percurso musical muito diversificado. Comecei pela música clássica e depois entrei em negação com a música clássica e fui ao Entrudanças e pensei: «porque é que passamos tanto tempo a olhar para estas pautas?! Se há gajos que não sabem tocar música e divertem-se tanto ou mais!» Decidi: «Não quero saber nada da música clássica!» E fui para o Andanças aprender as músicas e depois entrei um bocado naquele mundo. Fiz parte de dois grupos de baile. Foi um pouco o desconstruir do meu percurso ligado à música clássica e ao Conservatório. Depois fui estudar para ser professora de música, e neste momento sou professora de música. E estou nas Moçoilas!

TS. – Não sou algarvia, mas já cá estou há mais de 20 anos… Sou do concelho de Ourém, de Caixarias. Vim para cá aos 18 anos. Comecei por estudar música em Tomar, depois quando vim para Faro estudar economia, inscrevi-me no Conservatório em Faro e continuei os meus estudos. Trabalhei uns anos na banca, e isto dá-me vontade de rir porque agora não faço nada disso! Agora trabalho com crianças, há uns oito anos que faço aulas de expressão musical nos infantários e creches. Depois também tenho uns projectos de música para a infância e depois andei pelo canto coral, pelo jazz, faço teatro, e agora as Moçoilas.

MG. – Fui-me tornando, no percurso da minha vida, construtora/produtora de cenários. Na maior parte deles, entro! Não produzo para os outros, aliás eu entro em todos (risos)! Em termos de música estudei piano quando era pequenina, antes de o Conservatório existir, porque eu já sou muito velha! Estudei com a Dona Célia Magalhães e tinha metade da aula de piano e metade da aula de poesia com o marido, o Dr. Magalhães. Era muito rico! Depois começou o Conservatório e andei lá um ano mas odiei! Pois estava habituada àquele mimo. E disse à minha mãe que queria ir para o Karaté e fui! Depois fui para o coro aos 9 anos, chorei no primeiro dia… mas depois já não chorei mais! Adorei aquilo! Até porque conheci o Algarve inteiro, aliás conheci a Serra nessa altura! Mais tarde comecei com as bandas de rock, fiz parte dos Etecetra, depois foram os MFA – Maltinha Fixe do Algarve, a banda Nóia e depois andei pelo jazz.

G. – Em Janeiro, a Maria João juntou-se às Moçoilas no ciclo “O Longe é Aqui” e deram um concerto promovido pelo Cine-Teatro Louletano. Como foi este encontro?

IR. – Foi muito grandioso. Em relação à Maria João e a todos os músicos houve aqui um acolhimento muito natural, sincero e simples. Não houve esforço. Foi muito generoso.

MG. – Rimos muito! Muitas histórias, muitas anedotas! Foi muito divertido. Ainda hoje me sinto feliz, foi assim uma sensação de vibração muito grande. Achei incrível que a maior parte do feedback que recebi tenha sido: «vocês emocionaram-me. Foi muito belo».

TS. – Ao recebermos esta proposta ficámos «uau!», porque nós as três temos uma grande admiração pelo trabalho da Maria João e quando alguém se lembra de juntar o nosso trabalho com o dela, sentimos que tivemos muita sorte mas que estávamos preparadas para isto. Foi a altura certa.

G. – Após o recente desafio, espera-vos algum transatlântico?

MG. – No primeiríssimo ciclo das Moçoilas fomos ao Brasil e ao Canadá… há muitos anos atrás (20 anos)…

TS. – Mas nós (Teresa e Inês) não fomos! E queremos ir aos Açores e ao estrangeiro! O nome desta revista já diz qualquer coisa (risos)…

MG. – Convidem-nos!

Esta entrevista surge na sequência da rubrica Autoridade Local da Revista Gerador, onde vamos à procura daquilo que de melhor se faz na cultura portuguesa. Mas quem somos nós para o dizer? Pedimos, por isso, ajuda àqueles que sabem mesmo da região onde vivem.

A rubrica da Autoridade Local “Moçoilas, O Canto da Terra” está integrada na Revista Gerador de março. Pede a tua Revista Gerador de março aqui.

Entrevista por Sara Fernandes, a nossa autoridade local no Algarve
Ilustração de Jaime Ferraz

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