Em outubro do ano passado, Diogo Lopes, músico e ex-baterista dos Caelum, vestiu uma nova camisola para sair à rua, a essa camisola deu o nome de SYRO.

Diogo vive e respira música. As suas primeiras memórias são musicais a andar pela casa a bater em tudo o que reagisse sonoramente. Contudo, a decisão final de que era da música que queria viver remonta aquando um walkman, com uma cassete que em ambos os lados apenas tocava a canção “In The Air Tonight” do Phil Collins, o levou a um concerto dos The Musical Box, banda canadiana de tributo oficial, a quem os Genesis doaram todo o o backline e instrumentos usados ao vivo e os adereços de indumentária característicos dos concertos da banda. A personificação de Phil Collins pela banda tributária fê-lo ter aulas de música, workshops e masterclasses, levando-o à escola de jazz do Barreiro e mais tarde ingressou no curso de Jazz e Música Moderna na Universidade Lusíada. A par do percurso académico, Diogo começou cedo a sua carreira profissional. Com 16 anos, co-fundou a banda Caelum, vencedora da primeira edição do concurso EDP Live Band, ganhando um contrato discográfico com a Sony Music Portugal. Em outubro do ano passado, Diogo apresentou-se a solo com o single “Deixa Passar”, assinando com o alter ego SYRO, que faz parte da banda sonora da telenovela da TVI, Valor da Vida.

Num final de tarde, num café recolhido da cidade de Lisboa, o Gerador conversou com o artista sobre o seu percurso, a sua mudança de projeto e sobre o futuro.

 “Deixa Passar”, primeiro single de SYRO, banda sonora da telenovela da TVI Valor da Vida.

Quisemos saber mais sobre esta mudança de baterista de uma banda vencedora de um concurso de bandas, para compositor e cantor a solo, ao que Diogo respondeu que “o tema ‘Falta-me a Força‘ teve algum hype, que nos deu alguma visibilidade. Mas a certo momento comecei a sentir necessidade de ter o meu próprio espaço de expressão e identidade a solo. É muito bom fazer música com mais malta para um grupo. Neste caso específico, eram 4 cabeças em que o produto final é o culminar das mesmas. Comecei a sentir necessidade de que o produto final tivesse mais de mim e por isso criei o SYRO”.

O que mais inspira Diogo é o mundo que o rodeia. Nas suas canções está um esforço de compreensão do exterior: “Sou uma pessoa muito atenta e gosto de ver para além do que a minha visão me oferece e refletir um pouco sobre o que está à minha volta. É o que gosto de passar nas minhas canções”. Ao contrário do que possa parecer, numa primeira escuta do seu primeiro single, “Deixa Passar”, o fundamento da letra não se limita ao clichê de um romance falhado, “apesar de passar por isso, no fundo a mensagem principal do tema remonta a um período mais negro da minha vida, em que me vi fechado na minha caixinha negra. Inicialmente, era uma mensagem para mim mesmo. Deixa passar, eventualmente as coisas ganharão uma leveza natural, por muito difícil que agora pareça, com o tempo as coisas tornam-se mais simples. Foi uma mensagem pessoal que depois passou a ser pública através da canção.”

Diogo, enquanto compositor, pretende apenas transmitir honestidade, e no seu texto são transparecidos os seus pensamentos. Ao falar do significado da letra por detrás do mais recente single, “E agora”, conta-nos de que se trata de uma “mensagem de consciencialização para todos os pais quanto à educação dos seus filhos. Que tudo o que fizerem durante esse período vai ser um fator preponderante nessa criança, que eventualmente deixará de ser criança. E não se trata de um apontar de dedos aos meus pais. Apesar de serem divorciados, tenho uma relação muito forte com eles. O meu pai até me ajudou a escrever esta mesma letra, o que é uma coisa muito bonita. É uma mensagem universal e uma consciencialização que quero que chegue a todos os pais e não só aos meus.”

O segundo single de SYRO, “E Agora”, tem também participação do pai de Diogo. “Um dia, estava a precisar de uns retoques na letra e, numa sessão de estúdio, o meu pai passou e acabou por me ajudar nas palavras que faltavam. E isso é engraçado porque apesar de estar, a nível profissional, ligado ao meu pai, durante muitos anos recusei a ajuda dele, como os miúdos que cortam o cordão umbilical e depois querem provar que conseguem por eles próprios.”

Com apenas duas canções, tem tido uma receção, através das redes sociais, bastante positiva. Segundo o próprio: “o melhor tipo de feedback que posso receber é as pessoas reconhecerem que não existe plasticidade no que escrevo”.

“E Agora” segundo single de SYRO

Recentemente, SYRO assinou com a RedMojo, a mesma editora e produtora de Virgul e Blaya, fazendo com que o processo criativo se tornasse mais “eficaz”. Comparando com o processo do projeto anterior, Diogo diz que “são duas realidades diferentes. Com a banda fechavamo-nos em estúdio e era um bichinho de cada um e, às vezes, as sessões duravam um ou dois meses. Desde que entrei [na RedMojo] houve toda uma nova realidade de produção e songwriting, em que eu não tinha essa vivência.” Diz ainda que com a RedMojo “é mais fácil avançar com os detalhes que podem ser resolvidos noutro dia, enquanto que com a banda parávamos muito tempo”.

SYRO acrescentou ainda: “é um centro de produção em massa e muitos artistas recorrem à RedMojo porque precisam de canções. Eles começam com writing camps, em que se for num dia há uma sessão matinal de quatro horas, em que tens quatro a cinco salas e em cada sala há um produtor, que , se houver dúvidas, decide o caminho da canção e está mais ligado ao instrumental, à progressão de acordes, etc.”

Detalhou-nos ainda o processo de criação de uma música na editora: “para cada canção há dois ou três compositores, mais o artista que vai fazer letras e melodias. Separa-se o processo em produção e songwriting. [Na RedMojo] tens a sessão matinal e a sessão da tarde, também de quatro horas, e em cada uma dessas sessões tem de sair um conceito, tema, para no final do dia, na listening session, toda a gente que trabalhou naquele dia ouvir os resultados. O artista, o manager ou a label em si, vai decidir os temas que agarram mais. E só depois é que o artista, às vezes, começa a trabalhar diretamente na canção. Muitas vezes, o artista fez parte das sessões, como é o meu caso.” Depois de escolhidas as canções e conceitos resultantes destas sessões é que todos, incluindo o artista, começam a trabalhar a canção a fundo. Resumindo o trabalho na RedMojo, SYRO explica que “o songwriting é a pessoa, a produção é a camisola que vestes na pessoa. Ou seja, a canção, por si, existe. Imagina que estás a cantar o ‘Dona Maria‘, podes tocar isso numa guitarra, ao piano, etc. Mas a canção está lá e conhece-la, porque tens a letra e a melodia. Os instrumentos e acordes escolhidos para pôr na música é um trabalho de produção. É o produtor que escolhe a camisola que veste por cima da melodia e letra.”

Apesar de não deixar de ser um trabalho em equipa, SYRO faz questão de preservar a sua identidade: “é uma coisa que faço questão de manter em tudo o que faço. Porque é assim que as pessoas conseguem, à posteriori, distinguir-me de outros artistas. Mesmo que aquele artista mude um bocado a sua estética, tu percebes que aquilo é dele.”

A entrada na RedMojo, trouxe a SYRO muito mais que um novo processo criativo: “se há coisa que aprendi durante este tempo é que é indispensável ouvir e perceber, porque achamos sempre que as canções são as nossas crias e quando alguém de fora nos diz que não podemos vestir essa camisola às nossas crias, é importante tentar perceber o porquê de alguém nos dizer isso. Tentar, mesmo que à partida não se consiga entender. Aprendi a ouvir, porque no fundo estamos todos a trabalhar para a melhor versão possível.”

Para além de ter sido escolhido como artista “most wanted” pela MTV em 2018 e artista revelação no mesmo ano pela Figueiratv, o seu primeiro single, “Deixa Passar”, foi escolhido para fazer parte da banda sonora oficial da telenovela da TVI Valor da Vida. O músico confidenciou-nos ainda que “o single não era para sair em 2018, estava previsto para o início de 2019. Depois de descobrir essa notícia, decidi agarrar a oportunidade e disponibilizei o áudio na altura em que a novela estreou e só depois é que foi feito o vídeo.”

Em apenas 7 meses, SYRO viu o seu primeiro single ganhar uma projeção diferente, ao ser escolhido para integrar a banda sonora de uma telenovela da TVI. À questão de se não tem receio de não corresponder às espetativas das pessoas após o sucesso deste single, Diogo partilha que esse receio existe em todas as fases deste processo. “No início, quando ainda não és ninguém, perguntas-te se algum dia irás conseguir. Um bocadinho mais à frente, quando conquistas mais alguma coisa ali, pensas que já conquistaste mais uma coisa. Mas ainda não conquistaste outra coisa. Ainda não cheguei ali, mas também já não estou ali. Esse tipo de dilemas vão sempre existir. Imagina que tens uma canção que foi uma cena doutro mundo e que bateu imenso. Acho que é um bocadinho ingrato para o artista, quando lança uma coisa tão boa, que as pessoas consumiram tanto, porque, tal como estavas a dizer, as pessoas já têm a expetativa em cima. Se calhar, o artista até gosta imenso do próximo single que vai lançar, mas se as pessoas não conectarem tanto, vão pensar – ‘aí! Está em descendência!’ Acho que é mais difícil combater quando chegas mesmo lá em cima, porque se estás mesmo lá em cima ainda é mais difícil dares um passo acima disso. É como te digo, é uma questão de honestidade e de as pessoas continuarem a fazer o seu projeto. Eventualmente as coisas acontecem.”

Para SYRO, o futuro faz-se tranquilamente: “estou a fechar o meu álbum, não tenho datas para lançamentos, talvez um ou dois singles antes. Mas por enquanto estou a trabalhar em canções individuais e quando achar que tenho um bolo completo para lançar, vai sair.”

Diogo Lopes, enquanto SYRO, quer primeiro definir-se e mostrar quem é o SYRO antes de se lançar em colaborações. Entre os vários artistas nacionais fala-nos dos mais diversos géneros: “talvez uma colaboração com o ProfJam, o Mishlawi, Fernando Daniel, o Diogo Piçarra também tem letras inteligentes, a Carolina Deslandes é uma das melhores com que gostaria imenso de trabalhar. Não queria deixar ninguém de fora.”

Para além de músico, Diogo é também consumidor de música e tem o privilégio de ser um influenciado e influenciador da cultura musical, dando-lhe uma visão mais ampla da mesma hoje em dia. “Se há coisa que não faço, é dizer mal de música. Sempre que me apanho num cenário em que alguém desaprecia uma música, discordo sempre. Todo o tipo de música e artista tem lugar no cenário musical e se lá chegaram foi porque havia espaço para eles existirem. Há consumidores para tudo. Se não gosto ou não me apetece ouvir, haverá quem goste e ouça. Há espaço para todo o tipo de géneros musicais e sonoridades.”

Na perspetiva de público, “gostava que as pessoas exigissem mais. Isto remonta ao que já te disse. Acho que os artistas devem colocar honestidade em tudo o que criam, porque a meu ver, é a maneira mais eficaz  de criarem empatia com o ouvinte. Gostava que as pessoas fossem, de um modo geral, mais exigentes com o tipo de conteúdo criado. No meu caso, talvez exigência nas letras. Não digo mal de música, como já referi, mas, às vezes, acho que as pessoas gostam de ouvir conteúdo mais simplista, e não estou a dizer mal, mas gostava que houvesse mais espaço e mais pessoas exigentes para dizer, ‘epá, esta pessoa não está a dizer aquilo que eu quero ouvir, deixa-me procurar outro artista que, se calhar, diga isso’.” Porém, em relação ao seu trabalho refere que apenas se pode manter coerente com o que está a fazer.

Enquanto criador musical, não só para o seu projeto, mas também como compositor de outros artistas, acredita que a maneira de elevar a exigência do público passa pela coerência, mas sobretudo pela criatividade. “Sempre que escrevo para outros artistas, escrevo como se fosse para mim. Mas também tenho de perceber o que é pretendido. Se me pedirem uma letra simples onde falamos de temas clichês, creio que existem formas diferentes de escrever sobre isso. Em todas as formas de arte, principalmente na música, o tema mais abordado é o amor. Em quase todas as canções ouvimos falar de experiências amorosas, mas há formas inteligentes e menos diretas de escrever sobre isso. Há uma banda que admiro imenso por isso. Os Twenty One Pilots fizeram isso com “Car Radio”, e é uma maneira muito inteligente de escreverem as suas letras. Nesse tema, o Tyler, que é o compositor, faz referências metafóricas entre ele e o rádio do carro e conta: eu tinha o meu carro, e era feliz com o meu carro porque tinha um rádio que tocava a música que eu gostava, mas alguém tirou o rádio do carro e agora já não consegue suportar o silêncio sem o rádio. Segundo a minha interpretação, o carro é uma referência a si próprio, e um evento qualquer da sua vida retirou-lhe o rádio do carro, provavelmente, referindo-se ao coração e agora a vida dele já não faz sentido. É uma maneira inteligente de contar uma história, e ser indireto não quer dizer que seja em código morse: um meio termo, de maneira simples com significado de modo a que toda a gente perceba. É para um mim um excelente exemplo.”

Texto de Rita Matias dos Santos
Fotografia de Ana Mendes

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