A comemorar 70 anos de existência, a célebre marca de rebuçados Dr. Bayard transporta o peso de uma certa tradição que, para alguns de nós, podia parecer mera lembrança do tempo que facilmente associamos com o dos nossos avós. A verdade é que, passados todos estes anos, prevalecem de espírito intacto e sabor refinado os famosos rebuçados que já entraram no nosso imaginário coletivo e bem português. Ao mesmo tempo, a marca tem vindo a percorrer um caminho de revitalização, aproximando-se do perfil das novas gerações.

Daniel Matias, diretor de Comunicação da empresa e um dos herdeiros do património do rebuçado tem sido responsável pelo trabalho que tem ajudado a modificar a imagem da marca, de nome francês, mas com carimbo nacional, em especial junto das gerações mais novas. Nos últimos anos, investiram na criação de um site, numa loja online onde se encontram diversos produtos de merchandise e na sua presença nas redes sociais.

Em entrevista ao Gerador, o responsável refere que essa estratégia tem sido compensadora, visto que bloqueia a possibilidade de existir um generation gap. “Estamos a conseguir chegar às pessoas que queríamos, na faixa entre os 25 e os 34 anos. Por outro lado, e com algumas parcerias, como a que desenvolvemos com o rapper Mike EL Nite, chegámos a pessoas ainda mais novas”, explica.

Uma história que se inicia durante a Segunda Guerra Mundial
Foi durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45) que muitas famílias de refugiados chegaram a Portugal vindos dos vários cantos da Europa. Uma dessas famílias era a de Dr. Bayard, médico francês, que ao chegar a Lisboa conhece Álvaro Matias, fundador da marca de rebuçados e que nessa altura trabalhava numa mercearia.

Nesse período mais conturbado e por falta de condições económicas, o avô de Daniel Matias terá ajudado o médico francês com alguns produtos da mercearia. Como forma de agradecimento e, antes do seu regresso a França, Dr. Bayard deixaria a receita de onde iriam surgir os famosos rebuçados, com propriedades medicinais.

Numa pequena lata metálica, apenas com ingredientes, mas sem quantidades, o avô de Daniel Matias começaria por aperfeiçoar a receita dos rebuçados que iria depois vender em farmácias, cinemas ou simplesmente num sistema de porta a porta.

Ao perceber o êxito que o rebuçado tinha junto das pessoas, Álvaro Matias decide industrializar a marca que, mais tarde, se viria a fixar na Amadora, onde até hoje mantém a sua produção.

Da produção à comunicação: o posicionamento de uma marca icónica
Por dia, produzem-se na fábrica da Amadora cerca de 800 mil rebuçados, direcionados, quase exclusivamente para o mercado nacional. Açúcar, glicose e mel são os ingredientes de base de uma receita secreta que, de acordo com Daniel Matias, leva depois um xarope de plantas medicinais, que contém limão e canela.

“Só o meu pai [José António] é que sabe a receita na totalidade. Está guardada num cofre a sete chaves e quando achar que é pertinente vai partilhar com os filhos”, conta Daniel Matias.

No mercado, é possível encontrar duas qualidades diferentes de rebuçados: os mentolados e os peitorais, estes segundos os mais tradicionais e vendidos pela Dr. Bayard.

Ao longo de 70 anos, a empresa manteve a sua produção de forma contínua, sendo hoje facilmente reconhecida como uma das mais icónicas marcas portuguesas. Não obstante, nos últimos tempos, foi preciso reinventar a forma como a marca comunicava. “Durante algum tempo, estive no estrangeiro a estudar imagem e som e, quando voltei foi com o intuito de mudar a comunicação que estava um pouco descurada”, explica Daniel Matias.

Pegando numa identidade já vincada no mercado, a Dr. Bayard destaca-se atualmente pela sua presença nas redes sociais como o Instagram, mantendo-se fiel ao core do seu produto. Sendo uma marca portuguesa, os responsáveis têm recorrido, por exemplo, à utilização de provérbios ou de outros elementos tradicionais portugueses. “Desta forma, podemos brincar com esses elementos, mantendo o core da marca, e criando uma paralelismo na ideia de se passar de geração em geração”, conta o responsável.

“O que me apercebi desde logo é que muitos conhecem os rebuçados, mas não conhecem a sua história. Há muita gente que não sabe que os rebuçados são da Amadora, por exemplo, nem como são feitos. Neste sentido, e depois de ouvir o feedback de alguns amigos, pensei numa forma de desconstruir a marca com o intuito de melhorar a sua comunicação”, acrescenta.

Outra das apostas tem sido feita ao nível do merchandise. “Peguei nas redes sociais e criei a loja, disponível no site da marca, em que fizemos as embalagens metálicas e adicionamos mais itens, como os sacos de panos, as canecas e as garrafas térmicas. Fazemos em quantidades variadas e gostamos de ter produtos mais exclusivos para manter a chama acesa”, realça o neto do fundador.

Por outro lado, a Dr. Bayard tem também apostado nalgumas parcerias locais, ao apoiarem a corrida São Silvestre da Amadora ou através do patrocínio das camisolas do Clube de Futebol Estrela da Amadora.

A nível mais nacional, a marca ficou também recentemente mais conhecida depois do lançamento da música do rapper português Mike EL Nite, Dr. Bayard. “Não estávamos à espera de uma receção tão positiva e mesmo o meu pai que não conhecia, hoje em dia ouve muito falar disso, novamente por gerações mais jovens”, explica.

Para este ano de celebração, estão já pensadas algumas campanhas de ativação de marca, parcerias e campanhas com influencers. No fundo, a marca quer continuar a produzir o seu produto, não descurando na comunicação. “Um dos nossos receios era que houvesse um generation gap e que a cadeia se quebrasse. Se as coisas forem bem feitas garantimos que essa corrente não se quebra”, finaliza.

A Dr. Bayard foi uma das marcas parceiras do Gerador na 2.ª edição dos Prémios Insties Gerador que decorreram recentemente, na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras. Nesta edição, a instagramer @hey.luisa foi a grande vencedora da categoria Dr Bayard Melhor Arte.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Andreia Mayer

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