Mário de Carvalho, escritor, abre a terceira edição da Festa do Livro da Amadora, que vai celebrar o livro e a literatura durante três dias, de 14 a 16 de setembro, na Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos. Em “Trocar umas ideias com”, Luís Caetano vai conduzir uma conversa em volta da obra de Mário de Carvalho onde promete falar com o escritor sobre os muros que derrubou, os que assistiu serem derrubados e muitos outros temas. O Gerador foi ter com Mário de Carvalho para ficar a saber o que tem a dizer sobre a literatura, a queda de muros, a conversa que vai acontecer no próximo dia 14 de setembro, pelas 18h, e outros tantos assuntos que surgiram.

O escritor, nascido em Lisboa, licenciou-se em Direito e viu o serviço militar interrompido pela prisão. Desde cedo, esteve ligado aos meios da resistência contra o salazarismo, acabando por ser condenado a dois anos de cadeia e ter de se exilar mais tarde. Após a Revolução dos Cravos exerceu advocacia e, após o lançamento do seu primeiro livro – Contos da Sétima Esfera –, tem praticado vários géneros literários como o romance, novela, conto, ensaio e teatro.

Num início de tarde aquecido pelo sol de verão, Mário recebe o Gerador no seu escritório para uma conversa descontraída e amigável. Ao entrar no prédio ouve-se uma porta a abrir no andar de cima. A senhora que estava à entrada diz que o senhor Mário já deve estar à espera, porque acabou de abrir a porta. Já no seu escritório, com paredes coloridas com quadros, oferece um copo de água e tira uma folha de papel, dizendo que, às vezes, enquanto fala gosta de fazer uns desenhos. Dá-se início à conversa.

Gerador – Quais são os dilemas, enigmas e perplexidades do ofício do escritor?

Mário de Carvalho – Isso dava para um longuíssimo texto só com esse tema. Um escritor, e eu posso dizer isto sem parecer pretensioso, com este estatuto e com esta idade já passou por tudo. Às vezes, aparecem-nos à frente surpresas grandes. Como por exemplo um livro pelo qual não tínhamos grande entusiasmo e expetativas à partida e que se torna num sucesso. Um conto que se faz despretenciosamente também, entre outros contos, e que vamos verificando que vai sendo lido e relido por gerações sucessivas. Isto são boas surpresas. Os enigmas têm muito a ver com os próprios problemas que a vida coloca. Tantas vezes tem acontecido serem evidentes as saídas para uma situação num texto. Às vezes é o sono que a resolve. Ao fim de alguns dias a almofada encontra-nos uma solução. Outras vezes, a solução para o tal dilema não é encontrada e o texto fica de lado. E não são raros os textos que estão abandonados, porque a dada altura perderam força, não se encontrou uma solução. Os dilemas que colocava não foram resolvidos. Por outro lado, e ainda voltando a esta altura da vida escrita, há toda uma literatura por detrás de nós que nos desafia. Nós quando escrevemos estamos confrontados com toda uma literatura que tem oito séculos. Temos de nos bater com todos eles. Mas também quando já avançámos algum tempo na escrita temos de nos bater connosco próprios. Portanto, trata-se, para mim, de acrescentar alguma coisa à literatura que já existe, e que é poderosa e tem uma longa vida, mas também acrescentar alguma coisa àquilo que nós próprios fizemos. A dada altura a repetição dos nossos tiques característicos, que resultam, de certo modo, da idiossincrasia que todos os escritores têm e que os leva até a apreciar os outros de maneira um bocadinho distanciada e  reservada. Portanto, entre parênteses – eu não escreveria assim, não é? (risos) É o que muitas vezes se pensa mesmo de pessoas que se admira muito. Bom, mas temos também de nos bater e confrontar connosco próprios e com aquilo que já fizemos, com o cuidado de não nos repetirmos, com o cuidado de sermos outros e diferentes, e com o cuidado de responder a um grande desafio que é, no fundo, seduzir. Trazer o leitor connosco e surpreender.

G. – Tive um professor de Escrita Criativa que me disse algo muito semelhante ao que acabou de dizer. Dizia que não há temas na literatura que ainda não tinham sido tratados, mas o que faz o grande escritor é a forma como se fala desses mesmos temas.

R. – Sim. Muitas vezes os temas que temos pela frente são banais. Mas veja o que um autor como Tchékhov, um espantoso ficcionista, faz com gente banal como os funcionários públicos de então. Ou Gogol, que é um escritor extraordinário, e também trata de gente comum. Lendo As Almas Mortas, ou os inúmeros contos do Gogol, é gente comum que lá está com uma perspetiva muito pessoal e imaginativa do autor. Dando-lhe a tal volta e enquadramento que torna aqueles contos fascinantes e diferentes.

G. – Aquando da publicação de um livro, um escritor vê a sua estória como terminada ou esse é só o começo de novos caminhos e deambulações, ou seja, são os contos ou romances vagabundos?

R. – São vagabundos, são. Neste sentido, e isto passa-se comigo, atenção que estou a dar uma opinião. Não sei como os outros escritores e autores encaram isso. Já ouvi dizer que há autores que gostam de lamber a cria, como os animais. Vão sempre lendo e relendo os seus livros. Conheço casos, que são conhecidos da língua portuguesa, em que os autores vão sempre refazendo os seus livros. Em cada edição refazem, retocam e nem sempre melhoram. É o caso do José Cardoso Pires, por exemplo, que revê sempre os seus livros. Mas há outros autores como eu que deixam que o livro vá à vida. A partir do momento em que um livro é publicado, para mim, prefiro não lhe mexer mais e fica praticamente esquecido. Vai à sua vida, faz o seu caminho e vou pensar noutras coisas. E, às vezes, esqueço. Na Madeira, um simpático professor primário andava atrás de mim, porque tinha lido os Casos do Beco das Sardinheiras e estava a perguntar – ‘mas este fulano, o que é que ele queria?’. Como se eu conhecesse as minhas personagens, como se eu me lembrasse daquelas personagens que foram criadas no momento para aquela circunstância. Muitas vezes esqueço-me do que está para trás. Fica pronto, arrumado, entregue ao leitor e aos circuitos próprios. Não penso mais neles. E mais ainda, quando por qualquer razão extraordinária sou obrigado a pegar num dos meus textos normalmente isso incomoda-me. Olhe, aparece a tal frase, ‘eu não escreveria assim’ (risos). Hoje, eu que já não sou a mesma pessoa, já não escreveria aquilo daquela maneira, por um lado. Por outro lado, acontece descobrir erros que podiam ter sido evitados, que a minha própria revisão deixou passar e isso é sempre desagradável. Mas mesmo no teatro não gosto de ouvir ler as minhas palavras. Aqui há anos fizeram uma homenagem muito simpática em Penafiel, na Escritaria. Recordo-me que havia um grupo de jovens que vinha recitar os meus textos. Lembro-me que isso me incomodou. Obviamente que não disse nada, porque as pessoas estavam a ser de uma simpatia extrema. Mas incomodou-me ouvir as minhas palavras.

G. – Considera que a sociedade de hoje é o reflexo de um Portugal desencantado?

R. – Há um Portugal desencantado, não há dúvida. Há um certo tipo de comportamentos, atitudes e formas de exercício do poder que se julgava terem sido arredadas. No entanto, nós vemos que semelhantemente ao que acontecia no tempo do fascismo, antes do 25 de abril, continua a grande corrupção em força. Mas vemos também uma outra coisa, que infelizmente vai bater na mesma tecla, que é a grande falta de respeito pela cidadania e pelo cidadão. E se nós considerarmos as grandes empresas que neste momento são protegidas pelo Estado e com quem o cidadão está em contacto diariamente, refiro-me àqueles monstros das empresas das telecomunicações, dos seguros, os bancos, há, de facto, um abuso sobre os direitos de cidadania que não têm sido cuidados. Isto pode ser um dos motivos do tal desencanto, ou seja, era de esperar que uma sociedade democrática não viesse a recuperar os mesmos vícios que tinha a sociedade anterior no que respeita à consideração pelo cidadão, pela cidadania e pelos direitos do indivíduo, por um lado. Por outro lado, há imensas situações de pobreza e miséria que nós, da minha geração, pensávamos que seriam removidas e ainda não o foram. Não podemos é ignorar a enorme diferença que há entre os tempos que vivemos e os tempos anteriores. Não há comparação nenhuma e não é admissível que venha alguém dizer que é a mesma coisa. Não, não é a mesma coisa. Mas há vícios e defeitos grandes na nossa sociedade que podem e devem ser evitados, combatidos e que, de certa maneira, são herdados ainda do passado.

G. – Foi um preso político da PIDE. É possível pegar nessa experiência e fazer humor com as desilusões e desgraças desse tempo?

R. – É sempre possível fazer humor com tudo. Penso é que nunca se deve fazer humor com a desgraça, miséria e pobreza dos outros. Agora, estas situações de prisões e tal também tinham momentos caricatos, digamos. Apenas num livro, chamado Apuros de Um Pessimista em Fuga, uma novela que já deu dois filmes, falei da minha experiência passada. Também no filme de José Barahona, “Quem é Ricardo?”, que é uma curta-metragem que de certo modo exemplifica os interrogatórios na PIDE. Mas de uma forma geral não tenho falado sobre isso, porque evito o mais possível a autobiografia reconhecível. Digo isto, porque me estou a lembrar da frase do José Luís Borges – ‘Todos os livros são autobiográficos, só que uns começam com era uma vez uma princesa e outros com nasci em tal data’. Não quero que a minha autobiografia esteja presente, ou seja visível nos livros. Procuro ocultá-la o mais possível. O romance também é a arte do disfarce, do engano, do ludíbrio.

G. – Durante a sua vida foram muitos os muros que derrubou e os que assistiu serem derrubados e esse vai ser um dos temas para a sua conversa com Luís Caetano na Festa do Livro da Amadora. De que forma é que a literatura nos permite derrubar estes muros?

R. – A afirmação não é minha (risos), mas podemos dizer que a posição do autor, do romancista e do ficcionista, de forma geral – o escritor, é, à partida, uma posição de resistência. Trata-se sempre de opor ou contrapor ao mundo que está em volta, outro mundo. Mas também todos os vícios, defeitos são postos a nu, não é? Portanto, o desconforto, embora não expressamente, com o fascismo, a situação que se vivia na altura, por exemplo, está presente em livros como O Delfim do José Cardoso Pires. No fundo, é a história de um casal que vai fazer uma viagem e vai dialogando. De qualquer maneira, temos presente como fundo o país de então. Um país em que um velho corre atrás de um perdigoto, porque vai ser a alimentação dele. Por isso, ele corre sofregamente atrás do perdigoto e isso é qualquer coisa que confrange. Está presente esta visão crítica sobre o mundo de então. Agora pergunta em que medida ajuda a derrubar muros? Os muros são derrubados por muitos fatores, mas a consciência e incomodidade com o mal, digamos assim, podem também ser divulgados e aprofundados em contacto com as grandes obras literárias.

G. – A Festa do livro da Amadora fala-nos de um percurso com as contradições e complexidades do nosso tempo em que cada vez estamos mais próximos, mas em que os muros se voltam a erguer e, então, surge a solidão e os ódios ganham palcos maiores. De que forma vê estas contradições e complexidades do nosso tempo?

R. – Esse é outro grande tema, não é? Só para lhe dar uma nota, eu cresci num mundo em que, aparentemente, havia o chamado mundo socialista, havia o mundo dos movimentos de libertação e havia o mundo das lutas das classes operárias dos vários países capitalistas e tudo isto estava em progresso, em movimento. Para a minha geração e para os que pensavam como eu pensava, o desfecho da convergência destes movimentos progressistas era inevitável e iríamos ter, seguramente, através de várias revoluções ou transformações sociais profundas, um mundo melhor. E até, alguns de nós, chegavam a falar em felicidade, num mundo feliz. Nada se passou como nós prevíamos, não é? Portanto, esta conceção tripartida da movimentação social era errada e enganadora. Antes já se pressentia, mas houve um tremendo choque com um derrube de certo muro – o muro de Berlim. A partir daí a derrocada para nós, no meu tempo, absolutamente impensável, inimaginável, daquilo que era a União Soviética foi um abalo enorme. No próprio caminho que os chamados movimentos de libertação tomaram depois de conseguir as independências também não foi aquela progressão para o mundo melhor e para o futuro que nós esperávamos que fosse. Até foram criados, curiosamente, países inviáveis e, às vezes, onde a luta pela independência foi mais cerrada, mais feroz e vitoriosa. Estou a pensar na Guiné Bissau, por exemplo. Entretanto, a classe operária também não era aquilo que nós pensávamos que era. Os principais setores críticos na sociedade portuguesa, se calhar, não é daí que vêm neste momento. E se calhar não é daí que vêm as grandes transformações sociais e, se calhar, não é aí que se desejam as grandes transformações sociais. Portanto, essa classe operária mítica, também do nosso tempo, foi um desapontamento. Isto, embora estando num mundo muitíssimo melhor do que o mundo que nós deixámos, só que também é um mundo cheio de problemas. Não é um mundo em que todos estejamos de mãos dadas, as crianças brinquem alegremente e haja um sol radioso, como nas imagens que na altura se faziam (risos). Não. É um mundo também cheio de, e vou utilizar a sua expressão, dilemas, perplexidades e contradições. Mas é a vida dos homens que sempre foi assim e não se resume ou reconduz ao simbolismo de ideologias. Pode ser teorizada, deve ser refletida e pensada, mas tenhamos a cautela de não simplificar. Isto é a visão do homem que tem 74 anos, porque se estivesse a falar comigo há 50 anos… (risos) de certeza que não lhe diria as mesmas coisas.

G. – Penso que vivemos numa época em que vigora o culto da imagem, muito devido às redes sociais. Pegando na sinopse dos Contos Vagabundos, acha que é ainda desafiante pormos um espelho à nossa frente?

R. – Acho que convém que os espelhos não andem longe. Convém que olhemos as figuras que andamos a fazer para não nos esquecermos de quem somos e como somos. Agora, devo dizer que os espelhos, no que respeita a imagem … não sou alguém que se preocupe muito com isso. Visto-me descontraidamente, não compro roupa, não tenho a preocupação de dar esta ou aquela imagem, ou de querer parecer isto. Apresento-me como sou e não preciso de estar a representar.

G. – Que expetativas tem para o “Trocar umas ideias com”, a conversa conduzida por Luís Caetano na Festa do Livro da Amadora?

R. – Bem, eu já tive várias conversas com o Luís Caetano (risos). No âmbito dele, no estúdio dele, e já me encontrei com ele em várias ocasiões, porque ele acompanha muitas coisas culturais. Houve uma altura em que os escritores se encontravam bastante, porque se deslocavam muito. No tempo do Engenheiro Guterres havia muitas solicitações no estrangeiro e íamos muito lá fora e, curiosamente, conheço a maior parte dos meus confrades a partir dessas viagens, de estarmos juntos nos mesmos hotéis e fazermos os mesmos percursos. Penso que o Luís é uma pessoa querida de todos. Querida, são raros! As pessoas que todos apreciam e de que todos gostam são muito raras. Vou gostar muito de estar com ele. Fiquei muito surpreendido quando soube que era ele que ia conduzir a nossa conversa, porque tenho esta estima e este respeito por ele há muitos anos.

Entrevista e fotografia de Andreia Monteiro
O Gerador é parceiro da Festa do Livro da Amadora

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal clica aqui.