Em 2011, Cecília Henriques e Raimundo Cosmo fundaram a Plataforma 285, um coletivo multidisciplinar com o intuito de criar espetáculos de teatro. Esta iniciativa conta atualmente com doze criações e leva, este mês, até à Appleton – Associação Cultural um novo projeto que nasce sobre a cenografia de algo que nunca aconteceu, Passevite. O espetáculo foi construído como refúgio, lugar propício a uma calma existência, onde ali poderíamos permanecer, escolhendo a hipótese de estarmos à beira, mal plantados, pensado para ser o grito de uma geração.

Sentados no chão onde Passevite ganha vida e se apresenta ao público, Bruno José Silva, artista visual convidado pela Plataforma 285 e encarregado da cenografia e da imagem de divulgação do espetáculo, tal como Rodrigo Vaiapraia, responsável pela música e cocriador, juntaram-se a Cecília e Raimundo, intérpretes, para nos desvendarem o conceito por detrás de Passevite numa conversa que relata e exemplifica as dificuldades por detrás da criação e produção teatral atualmente.

Apesar de Rodrigo, Cecília, Raimundo e a produtora Raquel Bravo terem sido os primeiros a irem em residência, fazem também parte da ficha técnica do espetáculo Tiago Nunes, responsável pelos vídeos e áudio, Sara Gerinhas, encarregada da iluminação e da direção técnica, Beatriz Vasconcelos da comunicação, Patrícia Silva que se encarregou das vozes-off, em que uma delas é interpretada por Filipe Sambado, e ainda Mafalda D’Aragão a quem foi dada a tarefa de assistir Raquel Bravo na equipa de produção. “Em geral, na Plataforma, nós funcionamos de forma horizontal, portanto, quase todas as pessoas que entram nos projetos estão em cocriação. Ou seja, a produção não faz só produção, faz muitas outras coisas, mas também criação”, explica Raimundo sobre o funcionamento de um projeto na Plataforma 285. “Pomos vários projetos em mesa e está toda a gente em cocriação. Parte das ideias vem de toda a gente. A direção artística aqui o que faz é ouvir todas as ideias e encontrar uma forma de todas estas cabeças, todos estes universos, fazerem sentido no projeto”, acrescenta.

Passevite “é um espetáculo que surge de dois outros espetáculos não terem acontecido”, afirma Raimundo. Conta-nos que tudo começou em 2016 com um grande projeto, Happy Ending, que previa uma enorme festa da espuma. Contudo, apesar das coproduções que estavam previstas, “a lógica cultural do país assenta em fazer, em parceria, estas coproduções com uma data de programadores ou de salas ou de espaços pelo país, e essas coproduções caíram a uma certa altura, impossibilitando esse primeiro espetáculo”. Cecília relembra que, mais tarde, decidiram reduzir esse mesmo projeto “numa versão mais low budget”.

A redução do projeto, seguindo a lógica inicial, foi desenhada para pensar “sobre estas lógicas de ser portátil, de se adaptar a vários espaços, e porque é que os projetos têm de ser [numa devida forma], não no sentido prático da coisa, mas no sentido concetual? Porque é que uma ideia tem de ser adaptável a todos os públicos? Porque é que uma ideia tem de ser adaptável a todos os espaços? Porque isso às vezes não é interessante”, afirma o cofundador da Plataforma. Para Raimundo, quando um projeto é pensado para um devido espaço, o projeto perde uma parte da sua essência, quando transferido para um outro espaço e é desejável que assim seja. “Era um ato democrático, era um espetáculo em que as pessoas estavam dentro da piscina connosco, seminuas e estávamos em pleno diálogo. E foi aí que surgiu esta ideia de fazermos um texto a 6 mãos”, acrescenta.

Entretanto, em cooperação com a associação cultural O Espaço do Tempo, no tempo que passou desde a residência e os períodos de ensaios, Raimundo perdeu a vontade de fazer o projeto: “Aconteceu ir numa viagem onde muitas das exposições que vi, ou quase todos os espaços que visitei, tinham uma piscina. Aconteceu que aqueles artistas, naquele sítio, estavam a trabalhar sobre as mesmas coisas, e aquilo teve um eco em mim, como artista, e, de repente, eu já não queria trabalhar sobre aquilo [o projeto]. Voltou a acender uma chama que o projeto tinha, mas aquela não era a forma”, e, curiosamente, tanto Cecília como Rodrigo sentiam-se da mesma maneira, fazendo com que Passevite seja uma peça construída por cima de um projeto morto, ou seja, “são três espetáculos que foram todos escortinhados e aqui estão: dois como memória, um como efetivo”, finaliza Raimundo.

 

Passevite por Bruno José Silva

Cecília afirma que hoje em dia é normal para um artista ter “uma ideia quatro anos antes que só vamos fazer quatro anos depois. E é uma coisa que nós quase não pensamos enquanto criadores, mas temos de estar quase sempre a rebuscar o porquê de querermos fazer aquilo na altura e a tentar aperfeiçoar e modelar a ideia de 2014 para a de 2017. É uma coisa que fazemos porque é assim que funciona”, e é exatamente a questão da validade de uma ideia e pondo em causa a própria programação cultural, que Passevite põe em cena estas questões que os levou a outro sítio. “Esta sensação que nós temos de estar sempre com a cabeça mais à frente do que aquilo que é suposto, que é desejável, tem eco numa outra coisa que afeta toda a gente”, para Raimundo “temos um trabalho de duas horas, depois vamos para um trabalho de mais três horas, e mais um projeto a seguir, e outro aos fins de semana. Às tantas, torna-se humanamente impossível estarmos a cem por cento numa coisa”. A isto, Cecília acrescenta que não há tempo para “as coisas dilatarem, estenderem-se”, que a culpa é “da velocidade dos tempos, das pessoas, de tudo. Não estamos cem por cento em lado nenhum, e também queríamos que isto estivesse, de alguma forma, presente no espetáculo”.

Consequentemente, a falta de coproduções ou de capital, pode por vezes levar ao desfecho trágico de um espetáculo, porém, para Raimundo, o cancelamento de um projeto “não tem grande problema. Ou seja, de que forma é que isso se efetiva na nossa vida, cancelarmos um projeto? Para arranjarmos a forma de fazer o próximo, o problema continuará. Porque temos de estar continuamente a fazer coisas, para estar continuamente a dizer que nós estamos aqui, para mostrar que o nosso trabalho está em constante evolução, para chegarmos a um sítio em que podemos atrair a atenção desta e daquela entidade. E isso é um problema, porque esta forma de estar, em que nem podemos parar, é muito difícil”.

Todas estas constatações estão presentes no espetáculo através das luzes, do vídeo e do som, que formam uma vida própria dentro de um espetáculo que se impõe sobre as cinzas dos anteriores. “É como se eles [as personagens] chegassem a um espaço que não lhes pertence. O espaço é demasiado pequeno, ou demasiado grande para eles, ou seja, não encaixa e eles de uma certa forma tentam”, assim explica Bruno de que modo é feita esta desorientação espacial.

“Aqui temos um espaço onde podemos arriscar e a liberdade de fazermos o que quisermos. Para isso, para além de meter um grande medo, é o que o espetáculo é também, sobre existir espaço e possibilidade no panorama cultural. Nós temos direito ao erro, temos direito a explorar”, reivindica Cecília, ao qual Raimundo acrescenta que se trata muito mais do direito ao erro, “é a necessidade que para fazer um objeto cultural, este tem de ter erro, e do erro estar contido nesse exercício. Fazer um objeto artístico tem de ter erro contido”, que só o erro nos permite continuar e evoluir.

Questionados sobre o espaço, Raimundo diz que não é bem um caso de reivindicação, mas sim de constatar evidências e que é no sentido desta que fazem um espetáculo em cima do outro. Passevite é a forma fixa e final feita sobre as pegadas de dois projetos anteriores, Happy Ending e Glorius Holy Bath.

É evidente que há objetos que precisam de algum espaço físico e no panorama cultural, assim como para Raimundo “há formas de estar, de arriscar, de comprometer, que precisam de espaço físico e também no panorama”. Para Cecília, enquanto não houver o devido espaço para que as coisas floresçam e amadureçam, “nós nunca vamos crescer enquanto seres culturais”.

A constatação passa para o público através duma abordagem que é descoberta aos poucos, até ao fim, tendo em conta que foi pensado segundo desejos, ideias que gostariam de fazer, sítios a que gostariam de ir… tudo é pensado ao pormenor. Para Bruno, a essência de Passevite passa por “ver o próprio espetáculo a acontecer”, o qual o último se impõe sobre a autonomia dos projetos fantasmas. “Dentro das cenas, existem outras camadas para poder ler aquilo fechado no espaço, aberto dentro do universo artístico, ou mesmo aberto a um outro tipo de universo”, explica Raimundo.

A relatividade do projeto estende-se de 2019 a 2021, visto que foi criado com Raimundo e Raquel a concorrerem a apoios dos dois próximos anos, fazendo com que Passevite nascesse e traduzisse essa dificuldade de estar em sítios em que não se está, prever coisas que ainda não se tem a certeza, sem que o tempo se estenda.

Talvez, tal como Raimundo nos sugeriu, um crash na bolsa ou da Internet nos permitisse parar por um segundo e realmente nos deixasse ser seres que vivem com um tempo limitado.

 

Texto de Rita Matias dos Santos
Fotografia de Bruno José Silva

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal, clica aqui.