Guardo para mim a sua morte como sendo digna de romance (se é que a morte pode ser romantizada), por entre as árvores, numa tarde de verão, a meio de um passeio, junto da sua casa de férias. Assim a desenhei na minha cabeça. Sem sofrimento, sem negritude, sem solidão. Era o ano de dois mil e nove. 

Procurei instintivamente, na altura, uma carta que recebi sua. Quando a reli neste verão de agora, a data original que encontrei no selo do envelope, fez barulho: vinte e oito de Junho de dois mil e seis. No lugar do remetente dizia Teatro Rivoli, riscado com uma linha preta diagonal, tendo por baixo o seu nome: Isabel Alves Costa. Por dentro, cinco páginas de escrita à mão em folhas azuis clarinhas, agora amarelando com o tempo nas margens. Adivinho na sua letra o seu chegar a casa, o sentar à mesa, o escrever de uma vez só o que a velocidade da caneta permitiu: “gosto muito de cartas” começa, com “g” minúsculo. “Dantes escrevia muitas. As pessoas escreviam-se.” Percebo pelo que diz que fui eu a primeira a escrever (o que será agora feito dessa carta? O que acontece às cartas que escrevemos?) - “Talvez o que vou escrever te pareça um disparate, pensei: podia ter sido eu a escrever aquela carta, se houvesse um alguém a quem eu gostasse de escrever para me dizer o que me dizes. Começaria assim, com o mar. E procuraria bocadinhos de poemas, ou de textos, ou de ideias para introduzir na carta, como tu fizeste. Podia ter sido eu.” 

O cansaço do seu longo dia não lhe permite fazer das cinco páginas mais cinco, mais dez, mais muitas que fossem uma conversa por inteiro, mas dentro dela vai contando pequenas histórias que são exemplos de encontros que vão dando sentido aos caminhos da vida. Fala do seu livro autobiográfico: “Escrevi-o em francês (…) acabei-o e meti-o na gaveta. Escrever um texto autobiográfico é como arrumar a casa. Decidir o que guardamos e o que deitamos fora. Limpar e colocar os objectos em determinados sítios. Escolher as fotografias que queremos que estejam em cima da estante, a ordem dos livros (…) Arrumar a casa. Olhar para ela e dizer esta é a minha casa e está arrumada. A partir dali, recomeço - a casa não é um museu - a desarrumar. E uns anos mais tarde vou olhar à volta e achar que preciso de parar e voltar a arrumar. Doutra maneira.” Duvidava, mais adiante, se seria interessante para os outros escrever sobre si, no entanto descobriu: “há sempre um ‘nós’ dentro de mim”. 

É através, precisamente, desse livro “O desejo de teatro”1 que conheço um pouco do seu percurso, por si desenhado: o Porto onde nasceu; o bairro burguês onde viveu a infância; os afectos familiares; a escola primária só para raparigas; a educação artística incutida pelos pais; o cheiro inesquecível do Teatro Experimental do Porto; as Festas d’Agonia em Viana do Castelo; as marionetas que a sua mãe amava; o liceu repressivo só para raparigas, suas batas obrigatórias, e as calças compridas interditas a raparigas, a companhia de rapazes interdita a raparigas; as conversas com os amigos sobre mudar o mundo; as matinés clássicas de cinema, a poesia, os debates; os anos 60 do regime fascista; a fuga à polícia; a descoberta dos “heróis do partido comunista, da revolução soviética, da luta dos camponeses alentejanos e da Catarina Eufémia, assassinada pela Guarda Republicana quando marchava à frente de uma manifestação em Baleizão…”; a leitura dos livros proibidos pela censura; o Zé Mário Branco preso pela P.I.D.E.; a vida de exílio em Paris aos dezassete anos; os seus vários empregos em laboratórios e armazéns; os filhos; a Universidade, o grupo de teatro amador e o encontro com o João Mota; o Maio de sessenta e oito; a entrada na Lecoq; o Abril de setenta e quatro; o trabalho militante; Guimarães; Aveiro; o teatro, a investigação, o ensino; o doutoramento na Sorbonne. Uma vida extraordinária.

O livro não chega a falar do tempo em que nos conhecemos e em que ela era já a “primeira e última directora artística do Rivoli Teatro Municipal do Porto” como escreveu Inês Nadais. Lembro a sua voz rouca, a sua cara sempre jovem muito branca, os seus encontros no seu sempre preferido Guarani e da sua Maria Vassílievna Voinítskaia no Tio Vânia encenado por Nuno Carinhas, em 2005 - que me disse ter menos medo de integrar depois de ter publicado a sua “narrativa biográfica”. 

É da sua personagem que fez, tremendo ainda de nervos e de respeito por Chekhov, que vem o título desta crónica: “Pareces acusar de qualquer coisa as tuas anteriores convicções… Mas a culpa não é delas, é tua. Esqueceste-te de que as convicções por si mesmas não são nada, apenas letra morna… Era preciso fazer as coisas.”2 A Isabel fazia as coisas. E gostava de cartas. É preciso ser lembrada.

Penso, não sei porquê, na Rainha Santa Isabel - talvez lhe escrevesse sobre ela numa carta em resposta à sua. Falo de uma representação em especial que está na Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, no Chiado. Ela é maior que as outras figuras ali representadas, está mesmo perto da porta de entrada, espreitando a rua. É muito jovem, de caracóis negros e mãos expressivas abertas, coroada, corada, olhos de menina generosa e esperta. De vez em quando vou lá acender uma vela quando acho que tenho um milagre a pedir. A Isabel gostava de rosas. 

1 Costa, Isabel Alves; O desejo de Teatro; Edições Afrontamentos; Porto; 2003
2 Tchékhov, Anton; O tio Vânia; (trad. António Pescada); Campo das Letras; Porto; 2005

-Sobre Sara Carinhas-

Nasceu em Lisboa, em 1987. Estuda com a Professora Polina Klimovitskaya, desde 2009, entre Lisboa, Nova Iorque e Paris. É licenciada em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estreando-se como actriz em 2003 trabalhou em Teatro com Adriano Luz, Ana Tamen, Beatriz Batarda, Cristina Carvalhal, Fernanda Lapa, Isabel Medina, João Mota, Luís Castro, Marco Martins, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Nuno Carinhas, Olga Roriz, Ricardo Aibéo, e Ricardo Pais. Em 2015 é premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores de melhor actriz de teatro, recebe a Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de teatro e o Globo de Ouro de melhor actriz pela sua interpretação em A farsa de Luís Castro (2015). Em cinema trabalhou com os realizados Alberto Seixas Santos, Manoel de Oliveira, Pedro Marques, Rui Simões, Tiago Guedes e Frederico Serra, Valeria Sarmiento, Manuel Mozos, Patrícia Sequeira, João Mário Grilo, entre outros. Foi responsável pela dramaturgia, direcção de casting e direcção de actores do filme Snu de Patrícia Sequeira. Foi distinguida com o prémio Jovem Talento L’Oreal Paris, do Estoril Film Festival, pela sua interpretação no filme Coisa Ruim (2008). Em televisão participou em séries como Mulheres AssimMadre Paula e 3 Mulheres, tendo sido directora de actores, junto com Cristina Carvalhal, de Terapia, realizada por Patrícia Sequeira. Como encenadora destaca “As Ondas” (2013) a partir da obra homónima de Virginia Woolf, autora a que regressa em “Orlando” (2015), uma co-criação com Victor Hugo Pontes. Em 2019 estreia “Limbo” com sua encenação, espectáculo ainda em digressão pelo país, tendo sido recentemente apresentado em Londres. Assina pela segunda vez o “Ciclo de Leituras Encenadas” no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

Texto de Sara Carinhas
Fotografia de João Silveira Ramos
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