A ciência da ‘patafísica foi inventada pelo poeta e dramaturgo francês Alfred Jarry (1873-1907), sendo espécie de anti ciência do imaginário e do impossível ou, antes, uma ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções, uma ciência que procurava estudar os contornos espirituais de um território. As práticas expositivas – ou a curadoria – que marcam os finais da década de 1960, acompanhando a emergência das vanguardas, perseguiram este conceito, expandiram-no e agregaram-no à utopia de uma geração no campo das artes plásticas e visuais, em particular, mas no meio artístico e cultural em geral, que começa a desenhar, entre a ação e o protesto, um novo modelo social. O termo “utopia”, deriva do original grego e significa “não-lugar”. Contudo, Thomas More (1478-1535) irá aludir ao conceito como “eu-topia”, ou seja, “bom-lugar”. A questão é aprofundada por filósofos que retomam o pensamento de Platão sobretudo para o problema da relação ideal entre o cidadão e o Estado. No século XX, esta fratura prossegue e temos, de um lado, a utopia da reconstrução, o augúrio de um contrato social, a concentração urbana; e do outro lado temos a cidade que regressa à natureza, a fusão do pitoresco e do sublime; ate chegarmos às utopias mais ousadas como a cidade flutuante, espacial ou digital, a cidade subterrânea, a cidade de plástico. O problema é fundamental para o futuro da arte no contexto ideológico. O pensamento utópico não é uma aproximação crítica à realidade, mas quase a reflexão e o lamento pela sua imperfeição. O objetivo é encontrar uma estrutura artística que consiga inserir-se numa justa dimensão social: o risco é a profecia por si mesma. O sonho da razão que produz monstros.[1]

Por estes dias, conclui percurso a primeira fornada de alunos da Licenciatura em Artes Visuais, curso da Escola de Arquitetura, Arte e Design da Universidade do Minho. O grupo levará para sempre consigo, como marca de uma aprendizagem (possível) um número em excesso de meses que, por obra e graça da pandemia, os confinou a dar os primeiros passos no meio artístico sem o essencial do coletivo partilhado em espaço, das tecnologias que se experienciam para lá dos ecrãs, das intermináveis sessões zoom e dos quartos feitos apanágios da ansiedade que poucos conseguiram esconder. Não obstante, cruzaram-se os nossos caminhos e tive o enorme privilégio de a sala de aula de todos os meus desejos os ter, à distância e in loco, neste ano de 2021. Juntos, inauguramos neste dia 30 de junho de 2021, nos Espaços Criativos, em Brito, Guimarães, uma exposição-instalação que assinala o fim deste tempo inicial tão interrompido e sinuoso. O conceito curatorial não tinha como evitar a ‘patafísica, evidenciando a dimensão experimental e errática destes três anos de licenciatura e dando largas à manifestação do inconformismo pela impossibilidade que foi regra. Terminarmos este primeiro ciclo de ensino superior a expor algo é concretizar uma utopia, não nos privando da inquietação, do desagrado, da felicidade, da dúvida e da falha. No fundo, nesta ESCOLA DA ‘PATAFÍSICA, os meus queridos alunos vão usar e abusar dos clichés pandémicos, explorando conceitos como distanciamento e contágio, sinalética e anarquia, palavra e ação, laboratório e experiência. Usamos e abusamos dos contrários e dos complementos, num exercício que pretende questionar, acima de tudo, qual o modelo de ensino superior artístico que queremos, qual o sentido da insistência nas disciplinas, o porquê da ausência das ciências sociais e humanas nas artes e como construir um modelo de ensino superior artístico que não molde, não castre, mas abra horizontes, expanda formas de ver e de sentir.

Entro com entusiasmo em mais uma semana que tem na resiliência e no trabalho as palavras de ordem, que fará de sonhos, concretizações e que dirá do passado ao presente que o futuro se faz, mais do que nunca, das causas impossíveis, dos inusitados e dos contrassensos que teimamos em tornar lugares, em bons-lugares de querer ficar.

[1] ARGAN, Giulio Carlo e FAGIOLO, Maurizio – Guia de História da Arte. Lisboa: Editorial Estampa, 1992. Páginas 157 a 158.

-Sobre Helena Mendes Pereira-

Helena Mendes Pereira (n.1985) é curadora e investigadora em práticas artísticas e culturais contemporâneas. Amiúde, aventura-se pela dramaturgia e colabora, como produtora, em projetos ligados à música e ao teatro, onde tem muitas das suas raízes profissionais. É licenciada em História da Arte (FLUP); frequentou a especialização em Museologia (FLUP), a pós-graduação em Gestão das Artes (UCP); é mestre em Comunicação, Arte e Cultura (ICS-UMinho) e Doutora em Ciências da Comunicação (ICS-UMinho), com uma tese sobre a Curadoria enquanto processo de comunicação da Arte Contemporânea. Atualmente, é diretora geral e curadora da zet gallery (Braga) e integra a equipa da Fundação Bienal de Arte de Cerveira como curadora, tendo sido com esta entidade que iniciou o seu percurso profissional no verão de 2007. No âmbito da educação e mediação cultural orienta, regularmente, visitas a exposições e museus de Arte Contemporânea, tendo já lecionado o tema em várias instituições de ensino. Integra, desde o ano letivo de 2018/2019 o corpo docente da Universidade do Minho Leciona, desde setembro de 2018, na Universidade do Minho, nomeadamente no Instituto de Línguas e Ciências Humanas (Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue) e na Escola de Arquitetura (Licenciatura em Artes Visuais), como Professora Convidada. É formadora sénior e consultora nas áreas da gestão e programação cultural. Publica regularmente em jornais e revistas da especialidade, tais como o quinzenário As Artes entre as Letras, nas revistas RUA e MINHA. Com mais de 13 anos de experiência profissional é autora de mais de 80 projetos de curadoria, tendo já trabalhado com mais de 200 artistas, nacionais e internacionais, onde se incluem nomes como Paula Rego (n.1935), Cruzeiro Seixas (n.1920), José Rodrigues (1936-2016), Jaime Isidoro (1924-2009), Pedro Tudela (n.1962), Miguel d’Alte (1954-2007), Silvestre Pestana (n.1949), Jaime Silva (n.1947), Vhils (n.1987), Joana Vasconcelos (n.1971), Helena Almeida (1934-2018), João Louro (n.1963), entre tantos outros. Tem larga experiência em estudos de coleções, produzido e publicado extenso trabalho crítico sobre arte e artistas contemporâneos, onde se incluem catálogos e outros resultados de investigações mais profundas sobre artistas e contextos de curadoria. É membro fundador da Astronauta, associação cultural com sede e Guimarães. Tem publicados dois livros de prosa poética: “Pequenos Delitos do Coração” e “apenas literatura e não outra coisa qualquer”.

Texto de Helena Mendes Pereira
Fotografia de Lauren Maganete
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