Ex.mo Pai Natal
FIN-96930 Círculo Ártico
Rovaniemi - Finlândia

Ex.mo Pai Natal (desculpe o formalismo, mas nos tempos que correm chamar-lhe Querido pode colocar-me problemas), quero que saiba que dirigir-me a si não corresponde a nenhum ato de discriminação para com as mães natais, os/as/x humanos natais sem género, os que ainda não se decidiram ou que estão em transição.

Faço, também, esta declaração prévia: Natal não é só quando um homem quiser. Natal é, evidentemente, quando um/uma/x humano/a/x quiser.

Ex.mo Pai Natal, infelizmente, o Natal é ainda um evento discriminatório, pois refere-se, de forma ostensiva, ao nascimento de um menino. Quer dizer, de um rapaz. De alguém do sexo masculino, de género binário.

Ex.mo Pai Natal, esclarecidas estas matérias essenciais, envio a minha lista de pedidos:

  • um presépio vivo para colocar no meio da praça lá à frente de casa e de que possa beneficiar toda a vizinhança;
  • com um menino, uma menina e vários tipos de humanos/humanas/x com sexo/género/ou coisa assim pouco definido ou a caminho de definição. Depois, para além do burro e da vaca, por favor, coloque lá toda a fauna da Arca do Noé para que ninguém fique de fora (apesar do meu protesto por Noé ser homem);
  •  uma equipa de veterinários/as/xx verificar a boa condição de todos/as/xx animais da Arca e de nutricionistas/os/xx para recomendar o melhor tipo de alimentação para cada um/a/x;
  •  uma equipa da/do/XX ASAE para verificar o estado sanitário da Arca;
  • uma equipa do/da/XX Instituto Ricardo Jorge que confira a conformidade da qualidade do ar;
  •  uma equipa do/da/XX Laboratório Nacional de Engenharia Civil avaliar o estado das infraestruturas do Presépio/a/x;
  • uma equipa da/do/XX Inspeção Geral de Finanças para conferir o estado das contas dos fornecedores;
  • uma equipa da/do/XX Polícia Judiciária para verificar a trabalho da equipa da Inspeção Geral de Finanças;
  • um/a/x procurador geral adjunto para controlar a equipa da Polícia Judiciária;
  • um/a/x juiz civil para acompanhar todos os atos das autoridades civis, mais um juiz militar e um juiz do canónico, só por causa das tosses;

Ao mesmo tempo, peço que apresente queixa retroativa até ao tempo dos factos (aproximadamente, dois mil anos atrás), queixa contra os pais da criança/o/x recém-nascida/o/x conforme os relatos bíblicos, por o/a/x terem deitado/a/x numa manjedoura em cima de palha. Queixa porque assim as vacas não podem ter o seu legítimo sustento. Queixa por não ter sido avaliado o risco de incêndio. Queixa ainda porque o menino/a/x está seminu e poder ser aproveitada a sua imagem de forma ilícita. Queixa por não ter havido proteção dos dados e se ter sabido que a criança/o/a não é filho/a/x do José (presume-se que estejamos a falar de um homem, o que já é por si só um ato discriminatório e merecedor de queixa adicional) mas de um tal de Espírito Santo.

Este último aspeto merece-me particular reparo.

Ex.mo Pai Natal: fui procurar informações sobre o Espírito Santo (aquelas que não estão protegidas por direitos dos mais diversos, claro) e encontrei a seguinte nota dada por um tal Lucas (a/o/x): “O anjo respondeu-lhe: O Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do Deus Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, o que vai nascer é santo e será chamado Filho de Deus.” Fiquei perplexo, pois apercebi-me de que, apesar de haver algumas referências adicionais ao Espírito Santo, elas não são muito esclarecedoras.

E um certo João, vem dizer que “o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque Ele vive convosco e estará dentro de vós.”

Antes deles, um certo Isaías, a propósito de uma previsão (sem valor científico) que faz sobre factos futuros (para sermos inclusivos com a linha do tempo, não podemos exluir a possibilidade das previsões sobre factos passados), diz que “O Espírito de Deus repousará sobre ele, o Espírito que dá sabedoria e entendimento, o Espírito que traz conselho e poder, o Espírito que proporciona o verdadeiro saber, o amor”.

Coisas inquietantes… Saber, Verdade, Amor.

Palavras complicadas, Ex.mo Pai Natal. Não sei se as deva conjugar no masculino, no feminino ou em género neutro.

Por via das dúvidas, peço que apague estas palavras de todos os dicionários do mundo. Este é mesmo o último pedido que lhe faço este Natal, mas talvez o mais importante. Não se esqueça de apagar o Saber, a Verdade e o Amor, está bem?

Bom Natal, Pai Natal e Próspero Ano Novo! Cumprimente por mim, se faz favor, a Mãe Natal, os filhos e filhas natais (independentemente do género, credo, etnia, ou qualquer outro elemento que possa de alguma forma semear a possibilidade vaga de corresponder a um ato de condicionamento cultural, social, económico, político, físico, moral ou outra coisa que me tenha esquecido de referir), as renas/os/xx os/as/xx elfos e todo o/a/xx do ecossistema polar.

Peço-lhe que guarde o Saber, a Verdade e o Amor num saco lá no fundo da sua fábrica de brinquedos, na prateleira dos produtos fora de moda, sem se esquecer de lhes juntar um relatório preliminar sobre o meu estado de alma.

Sinceramente seu (quer dizer, seu não),

Jorge

Post scriptum: fiz uma série de referências à necessidade de proteção da diversidade humana baseada na livre expressão dos géneros. Mas agora que penso, seriamente, no assunto, soa-me a ironia homofóbica, abjeta e de condicionamento cultural. Peço, por isso, que apague todos os pedidos anteriores, e que apague também este pedido para apagar.

Deixe só a folha em branco, sim?

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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