Nunca me esqueci do olhar de encantamento e estupefacção daquela criança. Agarrada a mim, como quem acaba de encontrar um abrigo, ela perguntou: “Essa roupa é tua?”.

Lembro-me perfeitamente do casaco que vestia, de usar umas calças ligeiramente largas em estilo boca de sino, e sei que estava de ténis, único tipo de calçado que os meus pés conheciam naquela época.

As minhas memórias dizem-me ainda que a menina não deveria ter mais do que 8 anos, que eu estaria algures entre os 24 e os 25 anos, e que nos conhecemos durante uma reportagem que estava a fazer num bairro de maioria negra, situado nas periferias de Lisboa.

Na altura o olhar intrigou-me, mas passaram-se décadas até conseguir captar o seu significado, a intenção por detrás daquela pergunta, e o porquê daquela experiência me ter ficado gravada.

Foi a primeira vez na vida que senti a importância da representatividade: para aquela menina, negra como eu, a minha presença trazia novas possibilidades de existência.

Porque mais do que confirmar que aquela roupa me pertencia, a miúda estava interessada em perceber como é que uma pessoa parecida com ela tinha chegado ao lugar onde eu me encontrava.

Recuo a essa experiência, e recordo-me de observar que, ali à volta, todas as mulheres negras ocupavam lugares de subalternidade, enquanto uma mulher branca liderava as operações, inseridas num projecto social para crianças e jovens.

Eu era a única negra a fazer algo que destoava naquele cenário: andava de um lado para o outro a fazer perguntas, tomava notas, e não seguia ordens. Pelo contrário, volta e meia tinha pedidos muito específicos, e eles eram todos satisfeitos. Fosse da mudança de cenário para a fotografia, de mais um testemunho, ou da confirmação de dados que ainda tinham de ser verificados.

Mais de 15 anos depois desse encontro o olhar daquela menina permanece em mim. Não apenas no que recordo, mas também no que vivo de cada vez que outras meninas negras se sentem vistas e ouvidas pelo simples facto de estarem na presença – rara, demasiado rara – de outra mulher negra com poder de decisão.

Por reconhecer o efeito inspirador e transformador desses momentos, e por acreditar que é preciso forçar acessos para ocupar espaços historicamente pilhados, sempre que tenho a possibilidade de formar equipas faço-o preferencialmente com profissionais negros.

Faço-o não apenas por saber, por vivência própria, que temos menos possibilidades na disputa de posições com pessoas brancas – à falta de dados, sobram os casos que o corroboram, como o de Amélia Costa Injai –, mas também por reconhecer o potencial multiplicador de um novo acesso.

Um que seja, à letra do que Toni Morrison ensinou: “Eu digo aos meus alunos: ‘Quando conseguirem obter esses empregos para os quais foram treinados de forma tão brilhante, lembrem-se que o vosso trabalho real é que, se forem livres, têm que libertar alguém. Se tiverem poder, então o vosso trabalho é darem poder a alguém’”.

Procuro fazê-lo diariamente e conscientemente, sustentada pelo olhar e pela curiosidade daquela menina negra de oito anos, e inspirada pelas lições de Toni Morrison que me ficaram tatuadas.

Regresso a elas entre encontros com estudantes do Ensino Secundário, realizados no âmbito do projecto DeliberaEscola, promovido pela associação Fórum dos Cidadãos, e financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Pelo segundo ano no terreno, esta é uma das iniciativas que tenho o privilégio e a felicidade de integrar, acompanhada pela professora, formadora e consultora educacional Georgina Angélica, com quem aprendo mundos sobre Pedagogia.

Mais do que isso, vejo mudança a acontecer nos mundos que facilitamos juntas. Uma mudança para todos, inclusive para quem se habituou desde muito cedo a não se ver como parte. É o caso da I., adolescente negra que, com uma única frase, nos recorda a importância da representatividade: “O facto de as formadoras serem duas mulheres negras fez-me sentir bastante segura”. Isto (também) é poder.

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre a Paula Cardoso-

Fundadora da comunidade digital “Afrolink”, que visibiliza profissionais africanos e afrodescendentes residentes em Portugal ou com ligações ao país, é também autora da série de livros infantis “Força Africana”, projetos desenvolvidos para promover uma maior representatividade negra na sociedade portuguesa. Com o mesmo propósito, faz parte da equipa do talk-show online “O Lado Negro da Força”, e apresenta a segunda temporada do “Black Excellence Talk Series”, formato transmitido na RTP África. Integra ainda o Fórum dos Cidadãos, que visa contribuir para revigorar a democracia portuguesa, bem como o programa de mentoria HeforShe Lisboa. É natural de Moçambique, licenciou-se em Relações Internacionais e trabalhou como jornalista durante 17 anos, percurso iniciado na revista Visão. Assina a crónica “Mutuacção” no Setenta e Quatro, projecto digital de jornalismo de investigação, e pertence à equipa de produção de conteúdos do programa de televisão Jantar Indiscreto.

Texto de Paula Cardoso
Fotografia de Aline Macedo
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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