Tenho tido carta branca para escrever sobre o quiser aqui pelas crónicas e vejo neste espaço, que vou tornando meu, uma janela quinzenal onde partilho de forma pessoal coisas ou perspectivas muito minhas. Não sei tudo, pelo contrário, não diria que só sei que nada sei, mas sei que sei muito pouco e hoje partilho convosco a minha profunda ignorância em relação a mais uma matéria…

Até ao início deste ano, provavelmente não saberia indicar com precisão num mapa onde ficava o Iémen, qual a sua capital, tipo de cultura, situação política, económica ou social. Shame on me, ignorância total e completa sobre a situação grave que enfrenta a população deste país…

O Gustavo Carona terá sido a primeira pessoa a falar-me do Iémen e da guerra civil existente em Dezembro de 2016, quando o conheci. Para quem não conhece, o Gustavo Carona é um médico humanitário, um verdadeiro missionário de coração e acções gigantes que conheci devido ao seu trabalho também muito presente em Allepo na Síria, através dos Médicos Sem Fronteiras. Conhecemo-nos no âmbito de um concerto solidário, “Por Allepo”, e fizemos algumas acções de divulgação juntos, o que nos proporcionou longas conversas sobre o arriscado trabalho médico feito nas regiões, muitas vezes, esquecidas do nosso privilegiado mundo ocidental.

Ainda assim, o meu nível de ignorância e talvez até de alguma indiferença perpetuou e só recentemente, neste ano de 2020, comecei a entender um pouco do que lá se passava. Análises políticas à parte, mas para contextualizar, o Iémen vive a maior crise humanitária do mundo segundo dados da ONU. É um país no Médio Oriente que vive num conflito armado desde 2015, guerra civil esta que levou ao colapso do sistema de saúde, infraestruturas básicas, escassez crónica de provisões em que se calcula que 80% dos 24 milhões de habitantes necessitam de assistência humanitária, mais de 100.000 pessoas morreram, milhões estão à margem da fome e, agora, oito milhões de crianças estão fora das escolas, devido à guerra e à pandemia da covid-19. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) declarou estado de emergência para as crianças iemenitas que lutam para sobreviver dia após dia.

Iémen, um país que sofre uma verdadeira crise humanitária dentro de outra que nos é mais transversal, desta pandemia e eu nada sabia? Eu não sabia absolutamente nada!

Curioso como num tempo de crise em que a cultura tem tido sérias dificuldades de sobrevivência, mais uma vez, numa iniciativa solidária se juntem músicos sem hesitar para sensibilizar, angariar fundos para os Médicos Sem Fronteiras. E tudo isto por iniciativa de uma grande mulher do teatro, televisão, cinema, a Cláudia Semedo, que decidiu dar um basta à indiferença e arregaçou as mangas para dar visibilidade e voz à grave e para muitos escondida, longínqua e nem sempre fácil de criar empatia, situação que se vive no Iémen. Num tom mais emotivo e menos informativo, comove-me este uso inequívoco da arte que mesmo desamparada, age sem se deter para cumprir um dos seus maiores propósitos que é usar a arte como arma de amor, arma de sensibilizar, intervir mesmo sem canções de intervenção. Arte que é a voz daqueles que não têm voz!

Posso ou podemos até fingir que nada disto está a acontecer, e que não está ao nosso alcance fazer alguma coisa para ajudar, ou então podemos escolher continuar a trabalhar para fazer o que está dentro e/ou fora do nosso alcance e dizer, SIM! Estamos aqui Iémen. Dizer Sim, estamos aqui Iémen é escolher não ficar indiferente e provavelmente com um pequeno gesto mudar a vida de uma criança iemenita, por exemplo. Sejam a voz dos que não têm voz com pequenos ou grandes gestos mas sejam, o que que quer façam não deixem o vosso amor esfriar!

Podem juntar-se ao concerto que traz nomes como Ana Moura, Branko, Capicua, Carlão, Chulage, Dino D’ Santiago, Márcia, Mayra Andrade, Sara Tavares e eu a exercer o dom da ubiquidade, no dia 12 de Dezembro no Capitólio em Lisboa. Se não puderem ir e e quiserem contribuir, podem fazer um donativo para SWIFT Code: CAIXESBBXXX / IBAN Code: ES57 2100 3063 99 2200110010 que reverte total e integralmente para os Médicos Sem Fronteiras.

“Não há nada mais duro do que a suavidade da indiferença.”
Juan Montalvo

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico 

-Sobre Selma Uamusse- 

De origem e nacionalidade moçambicana, residente em Lisboa, formada em Engenheira do Território pelo Instituto Superior Técnico, ex-aluna da escola de Jazz do Hot Club, mãe, esposa, missionária e activista social,  Selma Uamusse é cantora desde 1999. Lançou a sua carreira a solo em 2014, através da sua música transversal a vários estilos mas que bebe muito das sonoridades, poli-ritmias e polifonias do seu país natal, tendo apresentado, em 2018, o seu primeiro álbum a solo, Mati.  A carreira de Selma Uamusse ficou, nos últimos anos, marcada pelas colaborações com os mais variados músicos e artistas portugueses, nomeadamente Rodrigo Leão,  Wraygunn, Throes+The Shine, Moullinex, Medeiros/Lucas, Samuel Úria, Joana Barra Vaz,  Octa Push etc. pisando também, os palcos do teatro e cinema.

Texto de Selma Uamusse
Fotografia de Rafael Berizinski
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