Curiosamente, esta afirmação ecoava nas noites dos idos 80 em que a farra ia longa e os sentidos falhavam. O “estar todo queimado” implicava o consumo de substâncias “motivadoras”, o exagero nas ditas, o elevado ritmo imposto a um corpo que pensávamos imortal, e tudo isto não implicava consumo desenfreado de drogas recreativas. Por muitas vezes, a alegria, o fazer parte, a euforia e a liberdade eram também catalisadoras para “noites longas”.

O estar todo queimado significava a derrota física e mental, nestes casos, ou o ficar alheado da realidade, em muitos outros. Também se usava quando alguém estava perdido na e para a vida, devido ao uso de estupefacientes destrutivos.

Passadas três décadas estamos mesmo “todos queimados” mas o conceito é diferente, as razões também e, naturalmente, as causas, por muito que se queiram abafar, têm muitas vezes o mesmo final. Ou conclusão, como preferirem.

Estamos extenuados. Os motivos são tantos que esta crónica chegaria ao fim do seu espaço sem a totalidade das referências. O pior é que estamos cientes de tudo e pouco ou nada podemos fazer devido a questões de vária ordem.

Encontrámos até um estrangeirismo simplicista: “burnout”. E todos se apressaram a explicá-lo: “é uma síndrome de desgaste profissional”, “trata-se de exaustão física, por vezes emocional”, “é o corpo a dizer que não aguenta mais”, e muitos eteceteras.

O burnout é de facto tudo isto, mas muito mais. Começa na mais tenra idade com o que se exige aos mais novos, os exames, a ocupação dos tempos livres, a estratégia para o futuro, os resultados, o ainda presente “ter de tirar o curso que os pais nunca tiraram”, ser doutor, ser cientista, ser top of the tops.

Logicamente que, ao criar gerações cujo objectivo é uno, algo vai falhar porque, pasme-se, somos todos diferentes, mas vivemos embrulhados numa manta de retalhos a que chamamos “educação e formação”. Já sabemos que a escola actual é perversa pois ensina matéria que não serve o tal futuro que se almeja. E que tal esta noção logo ao pequeno-almoço? Como se pode ir para a escola com vontade de aprender as dinastias e as aritméticas?

E, mais importante que tudo o resto, como podemos saber se estamos em burnout?

Os cientistas e médicos elaboraram uma longa lista de sintomas, desde sermos negativos, a estarmos cansados física e emocionalmente, não encontrarmos vontade para fazer isto ou aquilo, termos dificuldade de concentração, energia, sentirmo-nos incompetentes, gastos e fora do contexto e, depois de muitos outros chiliques, chegamos ao ponto extremo do isolamento.

Pergunto agora a todos se não passam por estes sintomas em alguma parte da vida ou até mesmo do dia? Principalmente quando fomos e estamos sujeitos a uma crise pandémica global que alterou profunda e negativamente a nossa existência, planos e possíveis futuros?

Conhecer os sintomas, percebê-los, acolhê-los e viver com eles é parte da solução. Pela internet, existem muitos “testes” para perceber se sofremos deste mal e, curiosamente, também existem programas que prometem ultrapassar este fastio. Mas o facto de estarmos exaustos, e neste caso felizmente, também nos impede de seguir à risca tanta banha da cobra.

Não vou dourar a pílula: o burnout pode matar. E é preciso ter o máximo cuidado em perceber, primeiro, porque chegámos a este estado e, segundo, conseguir encontrar um tratamento positivo e eficaz que, muitas vezes, obriga a uma mudança radical da vida e dos seus hábitos. As tais coisas que nos “faziam felizes”.

O estar exausto, sentir vontade de desistir de tudo, a procura pela solução rápida que termine o sofrimento atroz em que nos encontramos, é, infelizmente, um traço comum da sociedade em que vivemos.

Desde a honra nipónica que termina no mais violento dos actos à tomada de doses absurdas de medicamentos prescritos que nos corroem a existência, procuramos uma saída rápida para o mal. Mas, no nosso íntimo, sabemos bem que o caminho é longo e obriga a uma paragem. Sim, uma paragem!

O burnout acontece a profissionais de todas as áreas. E como profissionais que são, têm de ser defendidos. Mas aqui entra outro problema que é o custo dessa pausa. O “patrão” não está para isso, muitas das vezes, o que nos obriga a ter de adiar o que é obrigatório ONTEM.

Parem. Perguntem à família e amigos o que nos difere do que fomos. Quais são os sinais e as mais ligeiras mudanças. Falar é bom, é obrigatório, principalmente e numa primeira fase, com quem nos conhece e ama. Só depois, já munidos de algumas certezas, podemos ir ao médico para obter ajuda eficaz.
E quanto mais eficaz, mais rápido será o tratamento.

PS: cuidado com o que se lê na internet. Não acreditem em tudo o que lá está.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho