Falamos de Violência Contra Mulheres. Falamos de “Mulher violada em festa”, “Mulher assediada no trabalho”. Onde fica aqui o agressor? Onde está o agressor implicado nesta construção frásica? Falamos de violência de género como se fosse algo que acontecesse à mulher do nada como “que chatice, apanhou uma constipação.” Não, não foi algo que simplesmente lhe aconteceu, foi algo que alguém lhe fez. A vítima é a parte passiva. O agressor é quem provoca a acção. Não é simplesmente “violência contra mulheres”, são “homens que exercem violência sobre mulheres” “Violência de género exercida por homens”. Toda a gente tem amigas mulheres que foram vítimas de assédio, mas quase ninguém sabe de amigos que assediaram mulheres. Que engraçado, como os agressores são anulados da história, não é?

A vítima continua a ser culpabilizada por factores externos a si. Mulheres de burca são violadas. Mulheres com imensos saiotes dos séculos passados eram violadas. A roupa não é desculpa.

Quando alguma pessoa vem publicamente dizer que foi assediada há x anos, é sempre atropelada com comentários sobre a demora da denúncia. Um trauma não prescreve (ao contrário de um crime infelizmente, mas isso é outra história). Lidar com uma situação de assédio é extremamente complicado, ainda por cima quando se tratar de uma situação profissional, em que a vítima foi assediada por uma pessoa com maior poder hierárquico.

Aquando a partilha de Sofia Arruda sobre o assédio que viveu, não faltaram comentários horríveis a culpabilizá-la. Felizmente houve também uma grande onda de apoio. Cada vez mais surgem testemunhos de mais abusos sexuais. Num circuito tão pequeno de espetáculo, como é o português, as poucas pessoas que têm verdadeiro poder, têm muito poder nacional. Não faltam formas de ameaçar e silenciar as vítimas, que têm medo das represálias profissionais e pessoais. Duvida-se logo da vítima, e dá-se sempre o benefício da dúvida à pessoa poderosa (então se for um homem…). A carreira da mulher fica muitas vezes manchada, mas quanto ao homem, ai, temos de aprender a distinguir o profissional do pessoal.

Aproveito para dizer que estou-me nas tintas para os excelentes edifícios que o Taveira desenhou. O mundo continuava a girar sem eles. No entanto, a vida das alunas que ele abusou ficou para sempre marcada. Pior ainda, ele nunca foi julgado pelos crimes, havendo provas. A frase tão conhecida dos vídeos que gravou com as alunas que abusou — “Dói? Estudasses!” — tornou-se uma piada banalizada. Até t-shirts se fizeram. E justiça? Este é só um exemplo de extremo abuso de poder. Se devemos deitar abaixo os edifícios dele? Não. Se deixam de ser exemplos arquitectónicos? Não, mas devemos dar mais atenção a profissionais mulheres. Quantas arquitectas mulheres portuguesas conheces? A quantas arquitectas não lhes foi dada a oportunidade de desenharem grandes edifícios por serem mulheres? Tendo em conta que a maior parte das pessoas licenciadas são mulheres, podemos comprovar que há misoginia sistémica na área.

Além disso, continua a haver imenso sexismo nas forças policiais. Se foste assediada por um polícia, inclusive enquanto estavas a fazer queixa de assédio (sim, acontece, tive acesso a vários testemunhos), decora o nome do polícia e a zona em que se encontrava e desloca-te a uma esquadra próxima para fazer queixa. Podes ainda contactar a CIG.

Precisamos de responsabilizar os homens pelos seus atos e criar pessoas conscientes, independentemente do género. Há tanta violência de homens contra mulheres, que se criam pré-receios justificáveis. Proponho um exercício simples:

Perguntem a um pai de uma rapariga de 10 anos se preferia deixar a filha sozinha com uma mulher desconhecida durante uma tarde, ou deixar a filha de 10 anos sozinha com um homem desconhecido durante uma tarde. Qual seria a sua escolha?

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As mulheres são julgadas pela sua aparência, como se fosse o que importa mais. A decência. Ai, a performatividade de ser mulher. Não importa o que pensas, importa o que acham de ti, a imagem que projetas. Emilie Pine, em “Notes to Self”, conta um episódio que aconteceu após uma palestra sua sobre violação. Conta a autora que o primeiro comentário veio de um homem que era Chair of the Faculty. Disse — “Para mim é difícil conciliar a sua aparência e a sua forma de estar com a temática. Bem, a Emilie é… não quero usar a palavra ‘bonita’, mas…”* Emilie continua a explicar como o tom da conversa foi definido por esse comentário, e de como ela não foi levada a sério. Foi julgada pela sua aparência, antes de tudo, não pelo conteúdo da própria palestra. No parágrafo seguinte, a autora culpabiliza-se. Pensa o que deveria ter feito, o que deveria ter dito, como qualquer uma de nós faria, como eu já o fiz. Na verdade, o problema não tem nada que ver com ela, mas com a conduta sexista daquele homem.

Por outro lado, as mulheres são as maiores polícias da decência: “ela já não tem idade para aquela roupa”, “aquilo não é para o corpo dela”, “tem algum jeito aquele decote, parece que vai para a esquina”. “Estava mesmo a pedi-las, com aquela atitude/decote/roupa”. Esse policiamento da “decência”, foi algo que foi ensinado de mãe para filha ao longo dos tempos. (A parte histórica deste facto fica para outra crónica).

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— Bem-vindas e Bem-vindos ao noticiário da manhã, aqui nas Manhãs Esclarecedoras com Clara Não.

Hoje, mais uma vez, foi comprovado que a roupa não fala, não tem cérebro sequer, logo não pode pedir nada. Entretanto, recebi agora a confirmação, oh mesmo agora, por intercomunicador, que as nádegas e os seios também não comunicam por código morse, por isso também não podem pedir nada. O consentimento somente pode vir da voz da pessoa. Que curioso, não é?

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Copiem isto e descodifiquem em www.invertexto.com/codigo-morse.

Anseio pelo dia em que ser criada mulher não seja ser criada com culpa. Anseio pelo dia em que viver como mulher não é viver com medo.

Nota final: A violência, o abuso sexual, a violação, são sempre maus, aconteçam entre que géneros ou orientações for.

* “I don’t want to use the word ‘cute’ but…” p. 186

**Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Clara Não-

Clara Não é ilustradora e vive no Porto. Licenciada em Design de Comunicação, pela Faculdade de Belas Artes do Porto, e fez Erasmus na Willem de Kooning Academie, em Roterdão, onde focou os seus estudos em Ilustração e Escrita Criativa. Mais tarde, tornou-se mestre em Desenho e Técnicas de Impressão, onde estudou a relação fabular entre Desenho e Escrita. Destaca-se pela irreverência e ironia nas ilustrações, onde reivindica a igualdade, trata tabus da sociedade e explora experiências pessoais.  Em 2019, lançou o seu primeiro livro, editado pela Ideias de Ler, intitulado Miga, esquece lá isso! — Como transformar problemas em risadas de amor-próprio.  Nas horas vagas, canta Britney.

Texto de Clara Não
Fotografia de Another Angelo

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