Ontem lembrei-me de ti, lembrei-me… aliás lembrei-me muitas vezes… isto está a começar. Preferia que já tivesse começado. Tanta coisa por acabar e mais uma vez vamos começar.

Antes de tudo, era bom ter uma outra voz, sem princípio, uma voz que nos precedesse, que não nos falasse ou antecipasse! Que essa voz nos levasse… uma voz que nos carregasse às costas a meio de uma frase, de uma dúvida, e não nos obrigasse a começar, a nascer, a dar início a outra história.

– Não, não é temor. É talvez algo muito mais terrível… Medo.

Meu caro amigo, ainda estás aí? Preciso de te escrever, porque agora não te vejo, mas já não somos os mesmos. Desde há alguns meses que sei que tudo iria ficar diferente. Os tempos são outros. Nós já só vivemos numa qualquer memória. Por isso, vou escrever-te em pensamentos, porque tu tens sempre curiosidade em saber tudo.

É o meu respeito pelas forças da Natureza que me deixa falar contigo em pensamentos, um calafrio perante a vontade de destruição, essa vontade arrepiante, majestosa nas suas metamorfoses. Tu objectarias que os sofrimentos das pessoas decidem o que é belo ou medonho. Com certeza. O sofrimento é uma medida justa. As pessoas esqueceram, porém, que não são nada, nada, perante as forças cósmicas, perante a nossa própria vontade. A verdade é que os nossos melhores momentos, com frequência, ocorrem precisamente quando estamos desconfortáveis, quando não nos sentimos contentes ou realizados, quando lutamos e buscamos alguma coisa. Quando tentamos… já vai…

Sabes, algo em nós nos diz que alguma coisa para breve estará em transformação, sinto que tudo está a obrigar-nos a deitar fora, ninguém me disse isto, nem a voz, é físico, somos nós.

Faz dois meses que li que a Humanidade é, agora, confrontada com uma decisão difícil: evoluir ou morrer. Uma percentagem relativamente pequena da Humanidade, mas em franca expansão, já está a romper com os antigos padrões mentais egocêntricos e a despertar para uma nova consciência. Não percebi bem o que queriam dizer com isto, mas talvez seja algo relacionado com o mundo. Há cada vez mais pessoas confusas por não saberem onde se encaixam, qual é o seu propósito e, inclusivamente, quem são. Fazem parte do todo sem saberem. Não são livres, nunca se libertaram.

Alguma coisa começa agora a acontecer. Ansiedade, desconforto nas entranhas, muita agitação na mente e, sobretudo, bastante medo.

(Paragem para respirar)

Começa a fazer sentido? Talvez não ainda. «Diz o que sentes, sente o que pensas, pensa o que quiseres.» Uma parte significativa do sofrimento da vida é o sofrimento provocado por constantemente discernir – ou escolher –  aquilo por que somos responsáveis e aquilo por que não somos. Os acontecimentos da Natureza são absolutamente fantásticos, vês a mudança, o monstro está a acordar, já começou o processo, nos últimos meses os acontecimentos são bastante claros, mas ainda não acordámos, ainda estamos com medo, ainda estamos no velho pensamento, somos resistentes a qualquer mudança.

Nunca poderemos sentir-nos em paz devido a algo que aconteceu no passado. Ouvimos as histórias que as pessoas contam, que podiam ter todas o título “Por que razão não posso sentir-me em paz agora?”. O ego não sabe que a nossa única oportunidade de nos sentirmos em paz é, precisamente, no agora. Ou talvez saiba e tenha medo de que nós o possamos descobrir. Afinal de contas, a paz significa o fim do ego.O nosso pensamento emocional tornou-se a nossa identidade e, por isso, ficamos presos às antigas emoções, visto que estas fortalecem a nossa  identidade, tornando-nos incapazes de nos conectarmos em co-relação.

Estamos a tremer, mas não sabemos bem porquê, as nossas pernas, os braços, as entranhas, tudo estremece. – Pára, pára com isso. – As emoções não são quem nós realmente somos. – Pára, pára, por favor, pára! – O monstro está a despertar e, com ele, todos nós, vamos ser arrastados para a mudança, para o novo paradigma que vai começar. Não é temor, nem terror, é medo. Medo do desconhecido, do que não é certo, do que não controlamos, daquilo que vamos ser e deixar de ser, daquilo em que nos iremos tornar. Mas será o medo o que realmente importa neste processo? O reconhecimento do corpo de dor tem de ser seguido pela aceitação. – Por favor! Pára! Pára o processo, já não quero este caminho… Tenho medo.

– UOU!!!!!! – Começou agora aquilo que já não se pode parar, é agora a grande oportunidade. O monstro acordou, temos de acordar, continuamos com medo, medo do que aí vem, para onde vamos, do que vamos perder. Já não sabemos quem somos, vamos estar confusos durante algum tempo. O nosso corpo está em ebulição, o nosso cérebro rebenta de confusão e a nossa identidade parece que se perdeu. Começou a purga, começou o processo, a limpeza! Será possível o retrocesso?  – Pára! Pára! –  Será o destino natural e inevitável do Homem a sua destruição? Quando deixarmos de acreditar que devemos ou temos de saber quem somos, o que é que acontece à confusão que nos domina? A maior parte das pessoas não consegue conceber qualquer significado quando a sua vida, ou o seu mundo, está a cair aos pedaços. O monstro acordou! E com ele uma nova consciência, a nossa, a minha…  – UOU!!!! O nosso estômago.

Estamos enjoados… agoniados… lançamos vapores internos de antigos pensamentos, emoções mal compreendidas assentes na velha ordem, no poder instaurado. Vomitamos aquilo que dominámos mas nunca percebemos. Lixo, e mais lixo, e mais lixo! Lixo de todos os tipos vem à tona, aos pensamentos, ao corpo e toldam o nosso campo visual, a nossa existência, a nossa essência. Sempre era verdade! Os temores tornaram-se realidade. O processo é real e positivo, apesar da resistência e do sofrimento é necessário para a nossa evolução interna e externa. Agora é a grande oportunidade, este é um novo início, um novo princípio!

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Vasco Araújo

Vasco Araújo, nasceu em Lisboa, em 1975, cidade onde vive e trabalha. Em 1999 concluiu a licenciatura em Escultura pela FBAUL., entre 1999 e 2000 frequentou o Curso Avançado de Artes Plásticas da Maumaus em Lisboa.  Desde então, tem participado em diversas exposições individuais e colectivas tanto nacional como internacionalmente, intregando ainda programas de residências, como Récollets (2005), Paris; Core Program (2003/04), Houston. Em 2003 recebeu o Prémio EDP Novos Artistas. O seu trabalho está publicado em vários livros e catálogos e representado em várias colecções, públicas e privadas, como Centre Pompidou, Musée d’Art Modern (França); Museu Colecção Berardo, Arte Moderna e Contamporânea, (Portugal); Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal); Fundación Centro Ordóñez-Falcón de Fotografía – COFF (Espanha); Museo Nacional Reina Sofia, Centro de Arte (Espanha);  Fundação de Serralves (Portugal); Museum of Fine Arts Houston (EUA), Pinacoteca do Estado de S. Paulo (Brasil).

Texto de Vasco Araújo
Fotografia da cortesia de Vasco Araújo