Nenhuma mudança, reforma ou revolução se tornaria efectiva no meio social sem uma transformação interna de cada indivíduo. Se não prestarmos atenção, independentemente da sociedade ser socialista, capitalista, democrática, monárquica ou anarquista, teremos sempre os mesmos problemas quotidianos envolvendo a violência generalizada, o abuso de recursos, a guerra, a exploração de pessoas, o egoísmo, a inveja, o rancor, o ódio e a cobiça… Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma. São factos fatais. Têm de vir, tinha de chegar. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade. Decerto que os horrores da revolução e da mudança são medonhos. Decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, o amor, sofrem dolorosamente com a passagem dessa, desta hecatombe humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regimes, com as tiranias, com os abusos, com a falta de empatia são maiores ainda.

Nunca mais seremos os mesmos.Percebes agora o que significa ser ameaçado por esta força que nos coloca na dúvida do amanhã e que faz tremer a terra… ou a nossa existência! Caos, lixo, e mais caos, vazio, tudo vazio, onde um simples movimento agita-nos as entranhas, onde os silêncios das profundezas emergem do interior do nosso corpo, para nos colocar a reflectir sobre o todo, sobre as inconclusões do passado, as incertezas do presente e os desejos, mal definidos e impossíveis de prever, do futuro próximo. Tudo em nós é agora novo, diferente.

Consegues ver, agora? Sim?… Consegues?! 

Estamos ainda no início de tudo. O caminho será longo, mas necessário, e a nossa persistência é urgente. Este caminho implica, de formas diversas, a capacidade de transmutação do próprio ser humano, cujo reflexo material é a transformação do homem de chumbo em homem de ouro. Apodrecer para renascer – a dissolução do corpo é a fixação do Espírito.

Este acontecimento significa uma viagem ao interior de nós próprios, ao mais profundo do ser humano. É o conhece-te a ti mesmo. Não nos elevaremos até nos despojarmos de todas as camadas mal compreendidas. Todos os sofrimentos converter-se-ão nas mais perspicazes consciências. O núcleo interno, sólido e rico em amor e compaixão, brilha e irradia o seu raio de calor, onde tudo se irá transmutar em camadas e camadas de esperança.

Ritmos desacelerados que nos fazem oscilar e arrasam vidas, paradigmas, economias, aldeias e cidades. Ritmos que quebram o que se dava como instituído, a vida. E tudo isto em nome de uma renovação? Tudo em nome de uma nova, e absoluta, vivência? Nada ficará no mesmo sítio. Tudo está a ser posto em causa, tudo está em movimento abrupto, mas não vale a pena ter medo. O mundo mudou e com ele a consciência. Aqui está o momento certo.

Continuemos. Só mais alguns metros. Não acreditas naquilo que os olhos te descrevem? No que os ouvidos te dizem? Sim, estás apavorado! Eu sei, também estou, é normal… No fundo, o nosso coração não esperava outra coisa. Vamos descer, chegámos, finalmente, ao momento que tudo transforma e nos traz compaixão, consciência empática, consciência de uma nova forma de viver e de nos relacionar com tudo. E tudo será diferente.

Dá a volta. Devagar. É muito maior do que pensavas, não é? É tão grande como a Natureza. Escuta o seu interior. Não concordas comigo? Um silêncio magnífico. Ah, vai ser mesmo incrível poder pensar e viver neste silêncio. Talvez fosse agora o fim do ‹mistério› ou da nossa viagem conjunta, mas não! Estás a lutar contra as lágrimas e um acesso de tosse? Não, não olhes para mim. Não tenho nada nem nenhum caminho para te indicar. Volta-te. Ninguém nos salva, serás tu a ter de fazer tudo. O pensamento mecânico e individualista já não é a nossa identidade.

Portanto, o melhor que podemos fazer, enquanto não temos um conhecimento perfeito do nosso novo caminho, e do nosso novo caminho com os outros, é conceber um princípio de perplexidade, viver em perplexidade, obrigando-nos a escolher sempre o caminho do conhecimento e não da ignorância. Precisamos dos outros como espelhos para o nosso conhecimento, para o “conhece-te a ti mesmo”. “O conhecimento é trágico mas torna-nos, a todos, mais humanos”.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Vasco Araújo

Vasco Araújo, nasceu em Lisboa, em 1975, cidade onde vive e trabalha. Em 1999 concluiu a licenciatura em Escultura pela FBAUL., entre 1999 e 2000 frequentou o Curso Avançado de Artes Plásticas da Maumaus em Lisboa.  Desde então, tem participado em diversas exposições individuais e colectivas tanto nacional como internacionalmente, intregando ainda programas de residências, como Récollets (2005), Paris; Core Program (2003/04), Houston. Em 2003 recebeu o Prémio EDP Novos Artistas. O seu trabalho está publicado em vários livros e catálogos e representado em várias colecções, públicas e privadas, como Centre Pompidou, Musée d’Art Modern (França); Museu Colecção Berardo, Arte Moderna e Contamporânea, (Portugal); Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal); Fundación Centro Ordóñez-Falcón de Fotografía – COFF (Espanha); Museo Nacional Reina Sofia, Centro de Arte (Espanha);  Fundação de Serralves (Portugal); Museum of Fine Arts Houston (EUA), Pinacoteca do Estado de S. Paulo (Brasil).

Texto de Vasco Araújo
Fotografia da cortesia de Vasco Araújo
gerador-gargantas-soltas-vasco-araujo