Ainda estamos aqui? Ainda existimos?

Já não se sabe quase nada, já não se pode prever nada, no entanto tudo é um espanto, uma novidade… enfim, tudo parece absolutamente novo.

Vou sair, agora! Vou ver o sol ao som do vento, vou atirar-me ao mar, vou abraçar tudo aquilo que posso para me sentir outro… vou-me libertar! Não, não… andamos a pensar demasiado, dizem que é melhor ficarmos quietos, não nos mexermos, até talvez não pensar muito nisto tudo, mas será que tudo isto é certo? Será que tudo isto é a forma de sobre/viver?

A nossa mente está a manipular tudo, ela produz as reações. Os acontecimentos e as suas realidades acerca dos factos não são os mesmos. Estamos a reagir automaticamente. Será que vemos realmente aquilo que está à nossa frente?  Será que compreendemos realmente o momento, e aquilo que somos agora?

A realidade não é o que está a acontecer, é o que nós pensamos que está acontecer. Não experimentamos o que está a acontecer. Não experimentamos o que se está a passar a um nível exterior, experimentamos interiormente aquilo que se passa exteriormente, e, com isso, fechamo-nos em vez de nos darmos a mais uma experiência evolutiva.

A terra é curva. Para além do horizonte, curva. Tudo é curvo. O tempo. O espaço. Tudo!

A direção exigida pela evolução; a direção exigida pela expansão, a direção que a mantém em desenvolvimento. As coisas só podem melhorar, porque somos condição de mudança, cada um é a sua própria mudança. Quem disse isto? Foram vocês? Não há aqui mais ninguém? Mas veio de tão perto, quase parecia… não.

Gostaríamos de  mudar o futuro de forma a duplicar o nosso passado. Ou antes, mudar o futuro tão radicalmente que não se pareça absolutamente nada com o nosso passado.

Isso só seria verdade se fosse apenas a nossa mente. Mas o nosso corpo, a sociedade, o estado obriga-nos a ficar parados.

A verdade não é descoberta, é criada. Não é observada, é produzida.

Os homens olham-se de demasiado perto para se verem tal como são. Como percebem as suas virtudes, e os seus vícios através somente do amor-próprio, que tudo embeleza, são sempre testemunhas infiéis e juízes corruptos de si mesmos.

Significa que toda a gente vê uma verdade diferente, porque toda a gente está a criar o que vê. O lugar de onde se olha determina o que se vê.

É nesta acepção que o indivíduo sincero respeita os factos, atrevendo-se a denunciá-los como se só assim fosse possível defender a verdade, tanto em si mesmo como na vida comunitária.

Pronto, é agora, vamos sair, vamos libertar-nos… até já! Ou ainda não?

(Pausa)

Não tenho coragem, faltam-me as forças. As minhas pernas, o meu corpo, a minha mente não são suficientemente fortes para fazer esta travessia e o pior é que nem sei para onde vou, ainda não sabemos para onde vamos. Não vos quero deixar, mas todos sabemos que temos de procurar algo novo, um novo lugar.

Por enquanto, fico aqui com vocês, mesmo afastados, fico aqui. Mas assim que tiver adquirido uma nova perspetiva, tento de novo. Talvez precisemos todos de pensar melhor acerca de onde será o novo lugar e sobre como queremos que ele seja. Apesar de precisarmos da certeza que todas as coisas mudam para melhor, que todos os desfechos vão ser perfeitos para nos sentirmos seguros e, assim, prosseguirmos o nosso caminho.  Mas de  que é que estamos a falar, que caminho é esse? Para onde é que realmente queremos ir, e como? E…

Sim, a humanidade explode de paixão descontrolada, é tumultuosa de tristeza desgovernada, é sacudida pela ansiedade e pela dúvida. Só os homens sábios, apenas aqueles cujos pensamentos são controlados e purificados, fazem com que os ventos e as tempestades da alma lhes obedeçam. Fazem com que algumas das piores coisas que já lhes aconteceram pareçam ser, na realidade, algumas das melhores coisas que já lhes aconteceram.

Meus amigos!! Já sabemos que a fisicalidade deve ser entendida como ilusória no sentido em que não é onde se está nem o que se é,  mas sim o que a vida nos dá oportunidade de decidir. E, de igual modo, quem nós somos e quem nós escolhemos ser em relação à nossa sorte inacreditável, as dádivas que recebemos, os talentos que nos deixaram criar, as bondades que nos foram concedidas, as oportunidades que nos foram oferecidas, a inteligência que nos foi permitida possuir. Estamos numa ilha e somos uma ilha, prova definitiva de termos chegado ao destino, que se expande na visão do mundo da vida diferente, onde os tabus são destruídos ou substituídos por outros, onde a extravagância segrega uma impressão de libertação, de liberdade.

Toda a vida é decidir. Estou a decidir, estamos a decidir… com cada verdade que adotamos, com cada pensamento que geramos, com cada emoção que expressamos, com cada experiência que criamos. Conhecer outra vez, reconhecer, o que é verdadeiramente libertador.

Olhem!! É agora o momento…

FIM

-Sobre Vasco Araújo

Vasco Araújo, nasceu em Lisboa, em 1975, cidade onde vive e trabalha. Em 1999 concluiu a licenciatura em Escultura pela FBAUL., entre 1999 e 2000 frequentou o Curso Avançado de Artes Plásticas da Maumaus em Lisboa.  Desde então, tem participado em diversas exposições individuais e colectivas tanto nacional como internacionalmente, intregando ainda programas de residências, como Récollets (2005), Paris; Core Program (2003/04), Houston. Em 2003 recebeu o Prémio EDP Novos Artistas. O seu trabalho está publicado em vários livros e catálogos e representado em várias colecções, públicas e privadas, como Centre Pompidou, Musée d’Art Modern (França); Museu Colecção Berardo, Arte Moderna e Contamporânea, (Portugal); Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal); Fundación Centro Ordóñez-Falcón de Fotografía – COFF (Espanha); Museo Nacional Reina Sofia, Centro de Arte (Espanha);  Fundação de Serralves (Portugal); Museum of Fine Arts Houston (EUA), Pinacoteca do Estado de S. Paulo (Brasil).

Texto de Vasco Araújo
Fotografia da cortesia de Vasco Araújo
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