Escrever sobre a &etc é escrever, obrigatoriamente, sobre o seu editor, Vitor Silva Tavares. Embora tenham existido casos, um tanto ou quanto semelhantes no panorama português, nenhuma outra editora teve a mesma ligação afetiva como a da &etc a essa figura tutelar da edição de vanguarda em Portugal.

É no princípio dos anos 60 que Vitor regressa a Portugal – após um período vivido em Angola como jornalista – para dirigir a também célebre editora Ulisseia, onde começa a publicar autores, com “traços que vão estar posteriormente na &etc”, explica Emanuel Cameira, sociólogo e professor universitário.

Mais tarde, em 1967, Vitor vai para o Fundão, a convite do escritor José Cardoso Pires, onde surge a marca &etc, nome dado ao suplemento de artes e letras do Jornal do Fundão. Aí são publicados 26 números em formato de desdobrável, em que colaboram autores como Luiz Pacheco, Manuel de Lima ou Luiza Neto Jorge. Somente em 1973, já depois de regressar a Lisboa, é que a &etc evolui para revista autónoma, até se transformar, um ano depois, em editora, tendo o livro Coisas – com textos de Virgílio Martinho, Pedro Oom, entre outros autores – sido o primeiro título editado.

Primeiro como Publicações Culturais Engrenagem e mais tarde como Edições Culturais do Subterrâneo (a partir de 1991), a &etc passou a publicar ininterruptamente até 2015, tendo mantido o seu caráter inovador e alternativo, designadamente no formato de“falso quadrado”, em que cada criador podia impor a sua própria conceção artística.

Para Emanuel Cameira, mais do que um “projeto visceral”, a &etc era “um modo de vida”, descrevendo Vitor Silva Tavares como um “verdadeiro gatekeeper”, por onde passaram todos os grandes movimentos literários que existiram durante o percurso da editora.

“A &etc tinha uma marca d’água diferente, relacionada com a história de vida do editor e com o período específico em que começa. Os títulos editados funcionam como comentário face àquilo que se estava a viver. Há, por isso, exemplos concretos de como a ação da editora era política, não sendo necessariamente panfletária ou partidária”, sustenta.

Também Paulo da Costa Domingos, poeta, editor e antigo colaborador de Vitor Silva Tavares na &etc, corrobora a visão desse caráter político, agregado a um certo ideário de resistência. “A circunstância de existência da &etc foi sempre muito colada à vida quotidiana. Se tentar perceber o que estava a acontecer no país à data das publicações, todos os livros são publicados como resposta a uma situação histórica do momento”, realça.

Na lista dos mais de 300 títulos publicados pela editora constam nomes de autores portugueses, tais como Alberto Pimenta, João César Monteiro, Álvaro Lapa, António José Forte ou Herberto Helder. Antonin Artaud, Rainer Maria Rilke, Sade, Breton ou Nâzım Hikmet foram também alguns dos autores estrangeiros editados.

Pelo caráter indissociável face ao seu principal fundador e editor, a &etc termina aquando da morte de Vitor Silva Tavares, em setembro de 2015.

Este artigo foi originalmente publicado no número 26 da Revista Gerador, disponível numa banca perto de ti ou em gerador.eu.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.