Começo com uma afirmação óbvia: todos temos o dever de votar. Em todas as eleições, em qualquer dia, independentemente das nossas opções políticas. E, por isso mesmo, irei votar hoje.

Mas compreendo bem quem sentir receio em votar durante este domingo, por causa de um vírus mortal que nos persegue. Perdoem-me, mas hoje uma abstenção, ou melhor, um voto na abstenção, pode ser entendido como um voto de protesto.

É mesmo fundamental fazer esta eleição neste momento?

As eleições são oportunidades únicas, a maior concretização da democracia, e, por isso, não merecem ser violadas como hoje. Obrigar a população a votar no pico do maior surto de doença e morte que há memória em Portugal é simplesmente absurdo. E, na minha opinião de leigo, desafiador da constituição, já que atenta à vida.

Uma eleição pode alterar, por completo, uma sociedade. Basta reparar no que aconteceu no último sufrágio dos Estados Unidos da América. No meio de uma pandemia, a importância de fazer aquela votação era crítica para uma comunidade inteira. Eu percebo essa necessidade. Mas, o que mudaria se as nossas eleições presidenciais decorressem daqui a um mês?

Será que teríamos outro Presidente? A nossa sociedade ficaria no limbo? Haveria alguma decisão importante que deixaria de ser tomada? Mudaria algum aspecto no nosso dia-a-dia?

A democracia não se protege quando tapamos os olhos e os ouvidos em relação ao contexto e simplesmente fazemos uma birra para cumprir calendário. Pelo contrário, envergonhamos a democracia, porque pomos o procedimento cego à frente do bom senso clarividente.

A democracia não se preserva quando pedimos a milhões de cidadãos que corram perigos desnecessários no preciso momento em que não devem, quando se impulsiona pessoas em grupos de risco a sair de casa. Pelo contrário, desonramos a democracia porque damos uma mão à ameaça.

A democracia não se salvaguarda quando estamos confortáveis em que, segundo o Jornal de Notícias de ontem, 45 mil portugueses estejam impedidos de votar por estarem infetados. Pelo contrário, humilhamos a democracia quando simplesmente olhamos para o lado.

A democracia não se defende quando nos desligamos do povo que nos diz, em várias sondagens apresentadas durante a semana passada, que preferiria o adiamento das eleições. Pelo contrário, perturbamos a democracia quando a voz de todos deixa de ser relevante.

A democracia não se fomenta quando sabemos que estamos a criar as condições para ter uma abstenção assustadora e recordista. Pelo contrário, degradamos a democracia quando preenchemos os requisitos para que as pessoas tenham razão em afastar-se.

Admito que sempre fui a favor de existir uma percentagem mínima de votantes para que uma eleição seja válida. Não sei que percentagem seria essa, mas diria que pelo menos metade dos eleitores deveriam ser necessários para determinar os destinos de uma nação. Seria muito estranho que apenas 5% ou 10% dos eleitores decidissem o futuro. Mas não seria igualmente descabido se fossem somente 20% ou 30%?

Estará um Presidente diminuído se a abstenção ficar vizinha dos 70%? Não na letra da lei, mas sim na opinião comum. E será, com certeza, um argumento que regularmente cairá no colo do Presidente da República que exercer o próximo mandato.

Espero que aprendamos. Votem em segurança.

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à gestão de marcas, tanto na Vodafone, onde começou a trabalhar aos 22 anos, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 com vontade de fazer cultura para todos.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo ao estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como ao desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo