Quando acordei, no dia 29 de abril, a primeira coisa que fiz foi abrir o Instagram. Não é costume ir às redes sociais assim que acordo, mas de vez em quando acontece. Nesse dia, a primeira publicação que me apareceu foi da Vânia Beliz, sexóloga que já tinha entrevistado para uma reportagem do Gerador, e mostrava a capa da revista sábado dessa semana. “Eu fui assediada” — estava escrito em maiúsculas, centrado. Num breve texto, a Vânia contava que se ia juntar a outras mulheres que conseguiram contar as suas experiências de assédio. Não sei, ainda hoje, explicar como me senti quando vi esta capa. Posso apenas garantir que foi uma sensação de empoderamento tão grande que me apeteceu escrever a cada uma daquelas mulheres a agradecer. Como se, de forma simbólica, a união delas representasse que era apenas o começo.

Na peça da Sábado, há mulheres mais e menos conhecidas, algumas seguram um papel onde se lê o lugar em que foram assediadas na situação que decidiram partilhar, outras não. Este movimento surge depois da atriz Sofia Arruda ter dito em entrevista a Daniel Oliveira, no programa “Alta Definição”, que tinha sofrido de assédio num canal televisivo. A rejeição trouxe-lhe anos sem trabalhar no canal onde esse episódio aconteceu, altura em que provavelmente houve quem se questionasse por onde andava a atriz. “Será que desistiu da televisão?”, poder-se-ão ter questionado. Depois da partilha de Sofia, uma série de outras mulheres mostraram a sua solidariedade no Twitter e a hashtag #metoo começou a ser partilhada.

A capa da Sábado lembrou-me, inevitavelmente, a capa da New York Magazine que foi para as bancas na última semana de julho de 2015, e que reunia 35 mulheres que alegadamente tinham sofrido de assédio por parte do comediante Bill Cosby. A última cadeira estava, simbolicamente, vazia. Dois anos depois desta capa, em 2017, a hashtag #metoo popularizou-se pela primeira vez após a atriz Alyssa Milano ter convidado, a partir de um tweet, todas as mulheres que já tivessem sido sexualmente assediadas ou violentadas a comentar “#metoo”. O movimento surgiu em consequência de acusações feitas a Harvey Weinstein, um dos produtores mais influentes na indústria cinematográfica de Hollywood, tornando-se viral e trazendo à tona uma série de outras acusações.

Quando o movimento #metoo despontou nos Estados Unidos da América, mas também na Europa (vale a pena recordar o momento em que 82 mulheres, entre elas cineastas e atrizes como Agnès Varda, Ava DuVerney, Cate Blunchett e Kristen Stewart, marcaram a sua posição em Cannes, em 2018), em Portugal não se sentiram grandes ecos. Algumas partilhas foram sendo feitas de forma voluntária, sobretudo através do Twitter, sem atingir um nível de empoderamento que gerasse contágio, mas é importante não as esquecer. As revelações de Sofia Arruda, feitas num programa televisivo acompanhado há anos por muitas famílias portuguesas, foi o momentum. Até esse momentum chegar, outras mulheres foram tentando abordar a questão, deixando sementes para o movimento que começa, agora, finalmente a surgir. E sim, é apenas a ponta do iceberg.

Ser mulher pressupõe ter de lidar com o assédio desde muito cedo. Dependendo do contexto em que cada uma cresce, aprendemos (muito pouco) a lidar com a opressão, não sabemos o que fazer se alguém toma a liberdade de invadir o nosso espaço, ficamos em pânico. Se durante o processo de crescimento temos a sorte de encontrar ferramentas para aprendermos a defender-nos, talvez possamos sentir que dali em diante mais nada nos acontecerá. Mas não depende só de nós. Quando falo com amigxs sobre situações em que me vi quase encurralada e deixei andar, é frequente repetir que “a certa altura, houve um confronto entre o que me estava a acontecer e quem eu achava que era”. Acho que me convenci que sendo uma mulher feminista, havia situações que não poderia tolerar, mas tolerei; e enquanto mulher feminista, consciente do que não posso nem quero tolerar, senti que estava a falhar comigo mesma. A questão é que por muito que tenhamos ferramentas para pensar, nem sempre temos consciência ou força para agir. E isso não faz de nós menos “nós”. Não faz de mim menos “eu”.

Depois da revista Sábado ter ido para as bancas, os vilipendiosos comentários nas redes sociais e os ainda mais humilhantes artigos de opinião publicados em jornais de referência, trouxeram-me a confirmação do porquê de este movimento não ter chegado mais cedo a Portugal — mas também do porquê de, até há bem pouco tempo, eu sentir o confronto comigo mesma perante aquilo em que acredito e as situações por que passei. Homens cis brancos pediam nomes de abusadores porque “é preciso formar cavalheiros que tenham uma vaga noção de erotismo e sedução, e não marialvas com a cabeça no porno”. Se o nome de Sofia Arruda não estivesse no artigo em questão, teria ido confirmar a data. Mas não foi preciso; era mesmo mais um homem a dizer o que é preciso fazer para que a mudança seja efetiva, depois de uma mulher ter corajosamente trazido o assunto para o panorama mediático.

Em resposta ao artigo de opinião em questão, uma jornalista, a que tomo a liberdade de chamar de camarada, Joana Emídio Marques, contou uma situação por que havia passado com um editor literário, através da sua conta pessoal no Facebook. Joana Emídio Marques deu um nome, e logo se seguiram notícias, comentários e um desmentido do próprio. É certo que até prova em contrário, todas as pessoas estão inocentes, mas porque será que se fica insistentemente do lado do [alegadamente] agressor e não da vítima? Porque será que, sobretudo quando se trata de alguém influente, se corre a assegurar que tal episódio não mancha a imagem da pessoa em questão?

A situação descrita por Joana Emídio Marques, assim como o testemunho que Helena Ferro Gouveia tinha deixado na edição da Sábado, de momentos constrangedores em situação de entrevista, trouxeram-me o contexto e a força para dizer que #EuTambém. #EuTambém já estive em contextos de trabalho constrangedores, ouvi comentários misóginos e senti que algo não estava certo. Ser mulher jornalista tem muito que se lhe diga, e talvez por isso sempre quis ficar o mais atrás possível, e a única área que me atraiu foi a imprensa. Mas o “não aparecer” não garante necessariamente mais conforto, e perdi a conta ao número de mensagens e comentários que já recebi por parte de músicos, artistas, alguns deles em ascenção, outros não, e também por parte de pares. Enquanto o escrevo, pela primeira vez, sinto um nó na garganta e as mãos tremem-me. Entre os critérios do que é um(a) bom/a jornalista há um certo apagamento da nossa identidade que nunca nos permite falar sobre estas histórias (o jornalista nunca pode ser notícia).

A verdade é que #EuTambém já tive de desistir de uma entrevista por não me levarem a sério e fazerem comentários misóginos, #EuTambém já senti que não me levavam a sério por ser mulher. Mas #EuTambém já me apercebi de que um homem me tentava fotografar na praia, #EuTambém já me senti desconfortável numa consulta médica com um homem, #EuTambém já tive de sair numa estação que não era a minha por me sentir perseguida, #EuTambém já fui apalpada no autocarro ou numa discoteca, #EuTambém já senti as mãos de desconhecidos na minha anca ou na minha cintura. E estando consciente de todas essas situações, tendo algumas delas acontecido cedo de mais, não consigo negar a força deste movimento que vejo começar a surgir. E não quero, nem mais um dia, calar-me, achar que algo está errado comigo.

Numa entrevista que deu ao Público em março deste ano, a socióloga Lígia Amâncio referia que "tivemos uma ditadura com uma ideologia de género fortíssima que nunca foi posta em causa”. Há um rasto desses tempos ainda hoje, e Lígia Amâncio acredita que as mulheres portuguesas “não têm instrumentos nem força para combater esse ideal”. “Todos os problemas que enfrentam dentro da profissão, resolvem-nos individualmente. Acham sempre que a culpa é delas, alguma coisa que não estão a fazer bem”, disse ainda Lígia Amâncio em resposta à pergunta — “As mulheres portuguesas continuam a seguir a ideologia de género salazarista?”. E eu acho que Lígia está certa: as mulheres precisam de se ouvir, de partilhar o que sentem e vivem, para que, percebendo que não estão sozinhas, possam rasgar umas com as outras (e umas pelas outras) o que ainda resta dessa ideologia.

Num movimento tão amplo como este, é importante lembrarmo-nos de que a história de cada mulher traz uma série de camadas do seu contexto e da sua identidade e que teremos mais força se nos unirmos todas. Mulheres cis, trans, brancas, negras, portuguesas, imigrantes, mais velhas e mais novas, mais ou menos conhecidas. As nossas histórias divergem em muitos pontos, e as camadas de opressão são maiores para umas do que para outras, mas juntas temos, efetivamente, mais força. Conscientes dos pontos que nos distanciam, e também dos que nos unem, seguiremos juntas.

A todas as que sentirem que este não é o momento para contarem publicamente as suas histórias: não há problema, #EuTambém estive desse lado até ao dia em que me senti preparada para o fazer. E esse dia foi hoje. 

-Sobre Carolina Franco-

A Carolina Franco é jornalista no Gerador. Nascida no Porto, em 1997, aprofundou o seu interesse e conhecimento na cultura e na arte enquanto estudou na Escola Artística de Soares dos Reis. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Lusófona do Porto, viveu quatro meses em Ljubljana, na Eslovénia, onde teve a oportunidade de ser envolvida pela cultura pós-jugoslava e estudar Ciências Sociais. Entre 2018 e 2019 frequentou a pós-graduação em Curadoria de Arte da Universidade Nova de Lisboa – FCSH. Graças a estas experiências, tornou-se mais interessada no papel da cultura na sociedade em geral e nas comunidades locais – uma relação que procura aprofundar cívica e profissionalmente.

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Carolina Franco
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