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Existem diferenças psíquicas resultantes do sexo com que nascemos?

Os estereótipos criados pela sociedade em relação à aparência e psique de um homem e de uma mulher são claros. De acordo com eles, temos a perceção de fácil distinção entre estes dois géneros (esquecendo que existem mais, como é o caso das pessoas não-binárias) ao ver uma pessoa passear na rua, e é até comum tratarmo-las de forma distinta de acordo com esses mesmos estereótipos. Logo ao quarto mês de gravidez, muitas famílias começam a imaginar um trajeto limitativo para o ou a bebé por causa do seu sexo. Ouvimos dizer que as mulheres são mais sensíveis e os homens mais agressivos. Normalmente, elas são mais focadas na escola, mas eles é que chegam a chefes de empresas. É um processo bola de neve, em que fica difícil distinguir quais são realmente as divergências definidas pelos cromossomas de cada sexo, que pode, ou não, corresponder ao género de cada pessoa, e quais as que são decididas pela sociedade. É isso que tentamos compreender nesta reportagem.

© Imagem via PxHere

Nota prévia: Nesta reportagem, iremos utilizar as palavras “homem” e “mulher” no sentido biológico dos termos, ou seja, e respetivamente, pessoas que nasceram com o sexo masculino e pessoas que nasceram com o sexo feminino, já que o texto se vai dedicar às diferenças entre as pessoas dos dois sexos, e não entre géneros.

Em primeiro lugar, onde se originam as diferenças entre homens e mulheres?

Voltando um pouco ao que é ensinado na escola quando somos novos, mas que facilmente esquecemos, a diferença resume-se a um único cromossoma. Cada ser humano é composto por milhões de células, cada uma constituída por um núcleo, por sua vez, formado por 23 pares de cromossomas. Ora, é dentro dos cromossomas que se encontram os genes, que vão determinar as nossas características e constituição: grande ou pequeno, estreito ou largo, moreno ou louro, etc.

Dos 23 pares, apenas um corresponde a cromossomas sexuais, que determinam o sexo biológico. Quem possui dois cromossomas X é do sexo feminino e quem tem um cromossoma Y e outro X é do sexo masculino. Os outros 22 pares, não sexuais, vão determinar as características comuns à espécie humana não ligadas ao sexo.

O Gerador conversou com Susana Isabel Sá, especialista em biomedicina, que explicou como funcionam as diferenças resultantes do sexo. «No desenvolvimento normal, o menino vai produzir uma gónada masculina – um testículo – e, daí, a testosterona, e imediatamente esta hormona [a principal hormona sexual masculina] vai atuar no sistema nervoso central, que está em desenvolvimento, e vai mudar o cérebro, isto logo muito cedo no desenvolvimento».

Susana considera que o cromossoma Y tem capacidade para moldar o cérebro, já que algumas áreas deste órgão «imediatamente vão ficar ativadas com a testosterona», tais como a «memória espacial».

Em média, «o cromossoma Y traz o pacote genético para construir um homem, nomeadamente o seu cérebro, que vai desenvolver umser humano mais robusto, maior, e com maior aptidão na questão espacial porque tem uma região cortical muito maior (mesmo tendo em conta a proporção do tamanho do seu corpo)». Além disto, a testosterona também causa uma maior propensão para a agressividade.

Já nas mulheres, o estradiol (a principal hormona sexual feminina) acaba por causar melhores fluência verbal, sentido de ouvir (por causa do córtex auditivo) e cuidado maternal, enumera a investigadora na área do dimorfismo sexual em animais.

Posto isto, «não há muitas mais características vindas do cromossoma, as diferenças não são assim tão grandes que se consigam perceber», diz a professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Aliás, quando questionada acerca de quais as diferenças, resultantes do sexo, no cérebro que vão moldar o comportamento das pessoas, sem a educação na equação, responde prontamente: «Basicamente quase nada!» E acrescenta que, quando se fala em animais, é muito fácil perceber que há um determinado tipo de marcadores morfológicos, mas no que diz respeito ao ser humano «a diferença morfológica não é tão grande assim».

Pegando neste mote, Susana atenta que jamais se pode estudar o ser humano sem aportar a psicologia. «Há tanta coisa associada à nossa realidade que tem que ver com a cultura e a socialização que, de uma forma ou de outra, mesmo que eu tenha uma maior aptidão – que venha da minha carga genética – para determinada coisa, a verdade é que a forma como eu interajo é que muda muito depois.» A docente afirma mesmo que «a forma como as crianças brincam acaba por influenciar mais a morfologia do cérebro que temos quando somos adultos do que a influência que tem a forma como nascemos».

Também Luís Lopes Pinheiro, psicólogo clínico e da saúde, com quem o Gerador conversou, admite que é «efetivamente difícil» dizer quais são as distinções que vão surgir psiquicamente por causa do sexo. Nos anos 2000, explica, havia estudos a apontarem para «diferenças a níveis cerebrais» entre os dois sexos. «O problema é que retiraram o fator do género e da educação para o género, e esta educação afeta muito a nossa estrutura mental e capacidade de realizar tarefas

O mestre em psicologia, pela Universidade do Minho, descreve um exemplo clássico: «Se as crianças brincarem muito com legos, desenvolvem uma coisa que é a capacidade visuoespacial (que tem que ver com a construção), que é uma área cognitiva que é muito estimulada nos rapazes, e isto futuramente está muito relacionado com os cursos de engenharia.»

Efetivamente, a cultura teve mesmo capacidade de modificar o cérebro ao longo dos séculos. Segundo Susana, só pelo sexo, à partida, os homens têm as áreas envolvidas na orientação espacial mais desenvolvidas e têm mais noção da tridimensionalidade das coisas, e isto «provavelmente advém do nosso desenvolvimento enquanto humanidade», porque eles, sendo mais fortes (em média), precisavam de ter uma ideia de onde estavam os animais para caçar e, então, acabaram por desenvolver um sistema nervoso central que lhes permite ter estas regiões do cérebro mais desenvolvidas, explicita a doutorada em neurociências.

De acordo com o seu raciocínio, se observarmos a época das espécies anteriores à nossa, como o homo erectus e o homem de Neandertal, verificamos que «o cérebro das mulheres, como teriam muitos filhos, se desenvolveu no sentido de um maior cuidado maternal e de uma maior gestão emocional». A questão aqui é que, como aponta Susana, de certeza que haveria homens com menor aptidão para caçar, mas que, pela pressão dos pares, acabavam por ir, e mulheres que sairiam para caçar, mas eram reprimidas por isso. «Ou seja, o que foi acontecendo é que ‘as mulheres-modelo’, mais bem preparadas para cuidar, e ‘os homens-modelo’, mais bem preparados para caçar, acabaram por ser preferidos na espécie nesta evolução. O ser humano é muito cultural, e já nessa altura também o era.»

É como se vê ainda hoje: se uma menina tiver mais tendência para andar empoleirada nas árvores, muitas vezes vão logo chamar-lhe ‘maria-rapaz’ e, se os pais reclamarem com ela em casa, se calhar já não vai desenvolver essa característica da forma que poderia, exemplifica Susana.

Ou seja, é preciso atentar que mesmo as características morfológicas distintas se referem à «maioria dos casos, e não a todas as pessoas». «Os ratos de laboratório são todos muito iguais, as pessoas não são iguais, são normalmente todas diferentes», salvaguarda a investigadora. «Aliás, o principal fator que modula o cérebro são efetivamente a cultura e os estímulos externos

Susana Isabel Sá, especialista em biomedicina. © Fotografia disponível no site CINTESIS

Também Luís deixa claro que é a combinação entre a questão genética e a ambiental que faz com que tenhamos determinados comportamentos. «Quando falamos das diferenças entre os sexos, à partida elas existem, mas são mesmo muito condicionadas pelo meio e por aquilo que fazemos. A questão ambiental vai estimulá-las ou não.» O psicólogo afirma mesmo que «o fator cultural se sobrepõe a qualquer alteração que seja, à partida, biológica ou genética».

Questionado para avaliar, de 1 a 10, a influência que o sexo tem na nossa psicologia, o especialista em sexologia, pela Ordem dos Psicólogos, apontou o número 3. «Cada vez mais nós caminhamos para perceber que as diferenças entre os sexos são mais a nível cultural do que propriamente sexual

Ciência protagonizada por mulheres ao serviço da desmistificação

Até agora, já deu para perceber que pairam vários mitos na nossa sociedade, aos quais iremos voltar mais à frente, mas parte do conhecimento científico que tem desmistificado estas questões provém de mulheres que aspiram à igualdade de género, que só poderá ser atingida com o pleno conhecimento acerca das capacidades das pessoas dos distintos sexos.

A neurobióloga Georgina Rippon considera que o cérebro tem género, mas é um género «definido pelo mundo», e não pelos cromossomas. Em 2020, a cientista britânica explicava à RTP que, tendo em conta que «o cérebro é alterado pelas experiências que tem e pelas atitudes com que se depara», a sociedade marcada por géneros «altera o cérebro de formas muito específicas». Georgina é especialista em neuroimagiologia, a disciplina que se dedica ao desenvolvimento de técnicas que permitam a obtenção de imagens da estrutura e/ou da atividade do cérebro ou de outra zona do sistema nervoso.

Atualmente, a ciência já conseguiu entender que, por exemplo, atividades que tenhamos com tarefas espaciais – tais como os legos (já aqui mencionados) –, desde tenra idade, «podem, de facto, moldar o cérebro», esclarece Georgina. Ou seja, contrariamente ao que se pensou durante séculos, a cognição espacial (neste caso) e a consequente sugestão de uma melhor aptidão para ciências não é algo intrínseco ao cérebro masculino, mas sim uma consequência de terem sido treinados para esse tipo de tarefas, considera a bióloga feminista.

Deixa claro que acredita haver «diferenças de sexo no cérebro», mas estão associadas sobretudo às «características dos papéis masculinos e femininos no processo reprodutivo» e aos papéis sexuais que cada um vai desempenhar, e não associadas a capacidades cognitivas.

Também a neurocientista Daphna Joel tem dedicado grande parte da sua vida a desacreditar a existência de um cérebro masculino e um cérebro feminino. Em conjunto com a jornalista Luba Vikhanski, a investigadora publicou o livro Cérebro e Género – para lá do mito do cérebro masculino e feminino (de título original Gender Mosaic), em 2019. Como é descrito no site The Gender Mosaic, da Universidade de Tel Aviv – dedicado ao projeto de Daphna –, o livro apresenta «um olhar provocador» acerca do que a neurociência de ponta nos diz sobre género, sexo e cérebro.

A psicóloga israelita garante que não existe qualquer «explicação biológica nítida» para as variadas diferenças de comportamento que verificamos no dia a dia entre homens e mulheres. A ideia, passada de gerações em gerações, de que as mulheres são mais sensíveis e os homens mais agressivos devido a distinções no tamanho de certas regiões do cérebro, ou devido às hormonas, é falsa, de acordo com Daphna.

Ainda segundo o que se lê no site, a psicóloga baseia-se nas mais recentes evidências científicas para explicar que cada cérebro é uma «mistura única – ou um mosaico – de características ‘masculinas’ e ‘femininas’» e que esses mosaicos não se mapeiam ordenadamente em duas categorias. A professora na Universidade de Tel Aviv diz mesmo que o cérebro é «o órgão não-binário ‘mais entusiasmante’ que provavelmente encontrarás num laboratório».

Quem também se entusiasmou com as questões de género na ciência é a filósofa Cordelia Fine, o que a levou a escrever três livros científicos que acabaram por ser largamente premiados. A académica britânica dedica o seu trabalho à análise das explicações, científicas e biológicas populares, dadas para as diferenças de comportamento entre as pessoas dos distintos sexos e para as desigualdades no local de trabalho. Em reconhecimento do seu esforço na compreensão dos estereótipos de género, na contestação das perceções de género e no preenchimento da lacuna que existia no discurso público acerca deste tema, Cordelia foi galardoada com a Medalha Edimburgo para a ciência.

No seu livro de 2017 Testosterone Rex: desfazendo os mitos das nossas mentes marcadas pelo género, Cordelia baseia-se na biologia evolutiva, na psicologia e na neurociência para refutar o consolidado mito de que o sexo biológico é uma força fundamental no desenvolvimento humano. A crença de que as divisões entre homens e mulheres surgiram apenas da natureza e não são parte da cultura é falsa, pelo que a psicóloga apela a uma sociedade mais igualitária baseada no pleno potencial humano das pessoas dos distintos sexos.

Também na sua anterior obra literária, Ilusões de género: a real ciência por trás das diferenças sexuais, Cordelia já desacreditava a existência de diferenças padronizadas entre os cérebros de mulheres e de homens. Em vez desta ideia, a escritora traz uma explicação totalmente diferente para as famosas dissimilaridades no comportamento: o facto de as nossas mentes serem continuamente influenciadas pelas suposições culturais sobre género. Desta forma, a evidência por detrás de alegações como «os cérebros masculinos não estão programados para a empatia» e, por sua vez, os femininos «não são feitos para consertar carros» não se baseia na condição sexual, mas sim na sociedade, como a escritora desvendou neste texto, segundo o que é resumido pela editora W. W. Norton.

Apenas observando o cérebro, mesmo de um adulto, será impossível determinar o sexo

 O estudo científico Diferenças sexuais no cérebro humano adulto, publicado em 2017, concluiu que as diferenças entre os cérebros de homens e de mulheres eram tão pequenas que, apenas observando este órgão, seria impossível para os cientistas determinarem o sexo de uma pessoa. O trabalho que analisou 5216 participantes, aproximadamente metade mulheres e metade homens, foi resumido no site Quartz por uma jornalista especializada em ciência. É, pelo menos aquando da sua publicação, a maior pesquisa feita acerca das diferenças de sexo na composição física do cérebro.

Os participantes, todos acima dos 40 anos, foram submetidos a uma ressonância magnética estrutural, uma técnica capaz de analisar os neurónios e as conexões entre estes, possibilitando aos cientistas uma imagem das várias regiões do cérebro.

Os investigadores conseguiram assim descobrir que, em média, os cérebros dos homens tinham um tamanho maior, mas as mulheres tinham sub-regiões corticais mais grossas. Estas regiões são partes constituintes do córtex cerebral, a secção do cérebro associada à inteligência, memória, entrada sensorial, aprendizagem e à tomada de decisões.

Apesar de o estudo, da Universidade de Edimburgo, ter comprovado que os cérebros dos dois sexos têm estruturas e tamanhos distintos, é preciso atentar que estas diferenças não provam que mulheres e homens se comportem de forma desigual. O principal autor da pesquisa deixa claro que o texto apenas descreve as diferenças, não dando para tirar conclusões acerca das causas dessas diferenças. Na realidade, um determinante significativo na maneira como pensamos e interagimos uns com os outros são os diversos fatores ambientais e sociais.

O artigo do jornal Quartz compara ainda o tamanho e a composição dos cérebros com o tamanho dos narizes, já que são características que dependem de distintos fatores genéticos e que podem tomar as mais variadas formas. E nem sempre os homens têm narizes e cérebros maiores do que os das mulheres.

Um outro aspeto interessante consequente deste estudo é que os cientistas deram conta de uma grande variação nos tamanhos de diferentes regiões cerebrais entre homens – o que vai ao encontro de evidências anteriores que já pareciam apontar mais variações físicas e mentais entre homens do que entre mulheres – ao passo que nas mulheres os cérebros tendiam a ser mais similares entre elas.

Ou seja, e como também afirma Luís, as maiores diferenças que vamos tendo entre as pessoas dos distintos sexos «são puramente com base nas nossas construções sociais». «O que acontece muito é que os mitos relacionados com o sexo ficam cruzados com os mitos de género», então surgem aquelas propensões automáticas que as pessoas acham que estão relacionadas com o sexo, mas que não estão, alerta o sexólogo.

Luís Lopes Pinheiro, especialista em sexologia ©Fotografia da sua cortesia

Então, quais são os maiores mitos? Luís enumera três.

O primeiro é «o grande mito de que os homens conduzem melhor do que as mulheres» por causa de alguma particularidade cerebral. «Se formos ver os dados de sinistralidade em Portugal, verificamos que os acidentes são muito mais realizados por homens do que por mulheres». Certo que entra na equação a educação para o perigo que o género masculino tem, mas não explicará tudo.

Efetivamente, analisando os dados oficiais da sinistralidade rodoviária em Portugal, neste caso o relatório anual de 2018 da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), verifica-se que, dos condutores intervenientes em acidentes, 38 187 eram do sexo masculino e 15 756 do sexo feminino. Ou seja, 71 % contra 29 %.

Para avaliar a expressividade destes números, fomos à procura de dados sobre o número de homens e mulheres que conduzem. No Anuário Estatístico do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), relativo ao mesmo ano, é possível observar que, dos 6 575 332 condutores com carta de condução válida, 3 777 590 eram do género masculino e 2 797 742 do feminino, o que equivale, respetivamente, a 57 % e 43 %.

Concluindo, há mais homens intervenientes em acidentes do que mulheres, mesmo tendo em consideração a proporção de pessoas de ambos sexos com carta de condução. Mais precisamente, dos homens com carta, 1,01 % foram intervenientes num acidente, ao passo que, das condutoras possuidoras de carta, 0,56 % intervieram em acidentes.

O segundo mito é «a ideia de que as mulheres estão mais propensas a serem mais sensíveis, emocionais e empáticas». Luís considera que as pessoas passam este tipo de ideias para a parte da biologia e da genética, quando «a grande maioria é resultado da nossa socialização e da educação para o género».

Temos, ainda, segundo o psicólogo, «o mito de que os homens, devido à testosterona, têm maior tendência a ser violentos e dificuldade de controlo de impulsos». Ora, isto não é real, pois «está mais do que provado» que as questões da impulsividade estão muito mais relacionadas com a educação para o género do que com uma impulsividade biológica, afirma.

E mesmo que valores elevados de testosterona estejam relacionados com níveis mais altos de agressividade e irritabilidade, são as regras sociais que permitem aos homens, regra geral, extravasarem esta impulsividade e que consentem em que eles atinjam certos limites, alerta o sexólogo que trabalha na área da identidade de género. «A partir do momento em que ensinarmos os homens a gerir estas emoções, não haverá espaço para isto passar para o campo real», pelo que a agressividade poderia ser mediada por uma educação igualitária.

Distinções na estrutura do corpo, sim, mas muita diferença de indivíduo para indivíduo

Existem diferenças fisiológicas (relativas ao funcionamento dos órgãos), sim, entre os dois sexos. Segundo o que explica um artigo do segmento “conselhos desportivos” do site da loja Decathlon, os desempenhos femininos correspondem, em média, a 90 % dos desempenhos dos homens em disciplinas como atletismo, ciclismo e natação. A justificação científica está nas tais diferenças fisiológicas.

Uma delas é a frequência cardíaca. Como o coração da mulher é, geralmente, mais pequeno, para um esforço físico semelhante a frequência da mulher será mais elevada, pelo que o cansaço será sentido mais rapidamente.

Relativamente à massa muscular, esta representa, em média, 35 % da massa global de um homem, contra 28 % no corpo de uma mulher; já a massa gorda ocupa mais espaço nela do que nele, pelo que elas acabam por ter, geralmente, menos força e resistência.

Outra variação fisiológica que vale notar é o “VO2max” – a capacidade máxima de guardar, transportar e consumir oxigénio durante o esforço físico. Uma vez que a quantidade de hemoglobina é inferior na mulher, os homens têm esta capacidade mais avantajada, pelo que o seu corpo vai conseguir produzir mais energia.

© Fotografia via PxHere

Também Luís afirma que «há diferenças estruturais corporais». A testosterona faz com que haja «um maior desenvolvimento e uma alteração a nível da estrutura do corpo». Nos homens, que «regra geral têm maiores níveis de testosterona», a gordura está mais localizada na zona abdominal, enquanto nelas está mais nas ancas; o estrogénio (hormona sexual feminina) fortalece o cabelo e a testosterona não; o pelo facial é muito mais comum nos homens.

Ainda assim, não se pode esquecer que estes dados são generalidades, ou seja, não se aplicam necessariamente a todas as pessoas de acordo com o seu sexo, havendo muita diferença individual, até porque há mulheres que têm níveis de testosterona acima daquele que é o normativo dentro do sexo feminino, afirma Luís. As características físicas, como aparência, massa muscular e tamanho, têm muita influência da carga e do histórico genético, de todo o genoma, e cada pessoa tem a sua informação genética, não estando apenas relacionada com o cromossoma.

Pode-se, no entanto, concluir que os homens estão em melhor situação (uma vez mais, em média) em termos de massa muscular, potência e resistência, mas há domínios em que as mulheres estão «inequivocamente» à frente dos homens, afirma o artigo da Decathlon. A flexibilidade é um deles, graças às hormonas femininas, que favorecem a lassidão articular e muscular. Outros dois pontos fortes nas mulheres são um «estado mental mais robusto» – «todos os especialistas estão de acordo» – resistindo bem melhor ao stress e à pressão; e um «maior desenvolvimento da estratégia», sendo menos impulsiva, mais calma e tendendo mais a refletir antes de agir, lê-se no texto.

Tendo em conta a existência comprovada de diferenças físicas, questiona-se a justiça na transição de pessoas trans para as competições do sexo oposto ao da sua nascença. Luís concorda com esta transição e explica porquê. «O que me parece é que, a partir do momento em que estejam controlados, em média, os valores hormonais, por lógica deveria ser permitido.»

O maior argumento usado quando não se quer permitir esta introdução são as alterações físicas, principalmente das mulheres transgénero (sexo masculino): têm braços mais compridos, mãos e pés maiores, estrutura óssea maior. «Só que a verdade é que verificamos um conjunto de atletas que já tiveram essa vantagem genética e foi permitida a sua competição», como o caso de Michael Phelps, o nadador que ganhou várias medalhas olímpicas e bateu os mais variados recordes. «Ele tem uma alteração genética que faz com que as mãos e os pés sejam muito maiores do que o que era suposto na média, e isto é automaticamente uma vantagem imensa para a natação.»

Ora, esta alteração genética nunca impediu o norte-americano de concorrer nos Jogos Olímpicos. Avaliando este caso em prol dos seus colegas atletas, também se pode considerar que foi injusto, opina Luís, e «é aqui que entra a questão das pessoas trans». A partir do momento em que é controlada a questão hormonal, «obviamente que deveriam ser autorizados/as a participarem nos modelos de competição do género com que se identificam».

Como em muitas outras áreas, a ciência ainda não conseguiu chegar a uma conclusão consensual acerca da questão de partida para esta reportagem: existem diferenças psíquicas entre pessoas do sexo feminino e do sexo masculino apenas causadas pelo sexo biológico? As explicações parecem evoluir para uma resposta negativa, mas a comunidade científica terá de investigar mais. Também a educação binária para o género tem condicionado as observações científicas, pois influencia significativamente o modo como o cérebro funciona, pelo que os especialistas entrevistados para esta reportagem consideram importante apostar numa educação igualitária, independente do sexo de cada pessoa, de forma a que as investigações científicas consigam chegar a resultados mais fidedignos.

Texto de Francisca Valentim

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