Uma exposição da artista franco-marroquina Yto Barrada, que cruza as memórias da sua própria família com o trabalho da etnóloga francesa Thérèse Rivière (1901-1970), abre ao público esta sexta-feira, dia 8 de fevereiro, no arranque da programação de 2019 do Espaço Projeto da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Em “Moi je suis la langue et vous êtes les dents”  (“Eu sou a língua e vós os dentes”) – excerto de um caderno anotações de Thérèse Rivière, que estudou o povo berbere Chaouias nas montanhas do Aurès, na Argélia, entre 1934 e 1936 -, Yto Barrada apresenta um conjunto de fotografias, filmes e telas forradas a tecido, num trabalho que entrelaça memórias colectivas e individuais.

De acordo com a curadora, Rita Fabiana, o título da nova exposição faz referência a um apontamento sobre “magia” encontrado num dos num dos muitos cadernos de apontamentos da etnóloga francesa em que a artista se inspirou. A frase terá sido dita por uma anciã berbere aos homens da família e significa que ela “detém a língua e, portanto, tem o poder, enquanto os dentes surgem como uma referência ao ato de resistência, conceitos associados à violência colonial e à transformação”, acrescentou a curadora.

Ao reapropriar-se das práticas de Rivière, Yto Barrada dá inicio a um processo de construção crítica da memória que, a partir da sua narrativa pessoal acaba por abordar temas como a Guerra de Independência Argelina ou o movimento de Black Power, emergente durante os anos 60 nos Estados Unidos da América.

A exposição inclui ainda dois filmes. Um de 14 minutos, intitulado “Hand-me-downs” e que remete para as roupas que passam de irmãos para irmãos, numa narrativa geracional de histórias familiares. Com narração de Yto, o filme conta a história da sua família no feminino, a partir do relato biográfico da mãe, desde o seu nascimento em Marrocos até à sua juventude em Paris.

Segue-se um filme, com cerca de meia hora, que remete para um relato biográfico da mãe nos seus anos de estudante socialista, durante uma viagem de descoberta pessoal pelos Estados Unidos da América.

A exposição de Yto Barrada vai estar patente no edifício da Coleção Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), até ao dia 6 de maio. Seguem-se as mostras da portuguesa Filipa César, sobre a gentrificação nas Ilhas Bijagós e do cabo-verdiano Irineu Destourelles, que reflete sobre a sua própria condição de diáspora e das suas experiências sociais em espaço urbano, a partir de cidades como Lisboa, Mindelo e Londres.7

Texto e fotografia de Ricardo Ramos Gonçalves

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