1. Apropriação: interior intimo meo.

O movimento de apropriação de uma obra é determinante. Não tanto para “fazer meu” um qualquer objecto artístico, mas o “fazer-me eu” diante dele. É essa a apropriação maior: cada um apropriar-se de si mesmo, como algo por vir e a fazer-se. A relação com a obra – ou com o trabalho de um artista – pode ser um tempo propício e um modo inesperado de construção de si. Nesse sentido, as manifestações artísticas são um laboratório existencial onde não se olha apenas para qualquer coisa que nos é exterior, mas que nos é própria. Esse trabalho é extimidade: exterioridade íntima (Lacan). Para o artista, porque cria algo exterior a partir do que lhe é próprio e íntimo – com o seu trabalho dá a sua forma ao mundo. Para o receptor, porque encontra fora, na exterioridade, algo que experimenta como seu, sobre si, interior e próprio. Mais íntimo que o seu próprio íntimo, retomando as palavras de Agostinho sobre Deus.

2.Distanciação: superior summo meo

Para que a apropriação possa acontecer, tem de se respeitar sempre a paradoxal distanciação. A interpretação de uma obra implica um jogo entre distanciação e apropriação. A distanciação dá-nos a consciência de que uma obra é distinta quer do seu autor, quer do seu receptor. Nenhum dos dois a pode possuir em absoluto. A distanciação define a fundamental autonomia da obra de arte. O trabalho do artista deixa de lhe pertencer. A criatura mata o seu criador e emancipa-se. Não depende, já, da sua biografia ou intenções. Tal como desrespeita todos os intérpretes e críticos – e as grandes obras sabem pôr em causa o que sobre elas se diz. Afinal, as obras é que julgam os críticos.

Há, ainda, uma outra forma de distanciação, importante na recepção da obra: uma distanciação do sujeito em relação a si mesmo. O receptor tem de sair de si – o que exige um despojamento (por vezes, um trabalho difícil) e uma recusa em impor uma leitura redutora à obra. É necessário esvaziar-se para poder acolher o diferente – e não reduzir o diferente ao mesmo. “Eu, leitor, só me encontro quando me perco”, escreveu Paul Ricoeur – de quem eu sou leitor e devedor: não dele, mas dos livros que escreveu e que já não lhe pertencem. É preciso tornarmo-nos discípulos das obras. Perder-mo-nos das certezas e seguranças, dos preconceitos e dos hábitos, para encontrar um outro em nós. Um outro si. Outrar-ser com a ajuda do trabalho de outros.

3.Mediações

O trabalho dos artistas permite responder melhor ao célebre repto “conhece-te a ti mesmo” – e nesse “ti” está também o mundo, o horizonte de possibilidades em que vivemos, a nossa circunstância, os outros e a sua influência em nós. Contrariamente à pretensão de um conhecimento imediato de si próprio, enredado em ilusões, preconceitos e hábitos, a arte e as manifestações culturais são a mediação necessária para o reconhecimento pessoal de cada um e da comunidade que somos (ou que projetamos e sonhamos): é preciso sair de si em direção a essas manifestações culturais que são um depósito da humanidade, para que o auto-conhecimento possa acontecer – em vez de ficar a olhar para o seu umbigo.

4.Espelho

Proust sabia que o leitor, ao ler um dos seus textos, estava, na verdade, a ler-se a si mesmo: o texto era apenas uma lente, uma lupa, que permitia ao leitor uma melhor leitura de si. A saída em direção à obra tem como movimento consequente o regresso a si, já não o mesmo – as grandes obras exigem uma refiguração desse si. Ao limite, podemos escutar a terrível voz que Rilke ouviu num torso grego: muda a tua vida!

Aquilo de que nos podemos apropriar diante de uma obra não são apenas as suas características formais ou temáticas, a sua contextualização cultural ou histórica – e ainda menos o pertencer-nos como objecto. Devemos, acima de tudo, procurar o nó que nos liga a ela. O nó que somos – ou o que podemos vir a ser. Ela torna-nos capazes; abre possibilidades antes imprevistas e desconhecidas; alarga o “horizonte de possibilidades” a que chamamos “mundo”; inaugura um si mais vasto. A obra deve quebrar o espelho em que nos revemos como imagem já fixa, o espelho em que tudo é à nossa semelhança, em que projectamos os nossos preconceitos sobre o mundo, ou sobre as obras, para propor um modo novo de olhar. A obra pode até cegar, para que à cegueira sobrevenha uma visão mais nítida.

5.Trabalho íntimo.

O trabalho dos artistas fica a trabalhar em nós. A trabalhar-nos. Por isso lhes sou tão grato!

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Paulo Pires do Vale-

Filósofo, professor universitário, ensaísta e curador. É Comissário do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, desde Fevereiro de 2019.

Texto de Paulo Pires do Vale
Fotografia de Tomás Cunha Ferreira
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