Fazer voluntariado internacional tem-se tornado cada vez mais uma actividade romantizada e muitas pessoas pretendem beneficiar deste tipo de experiência. Existe uma crença de que está ao alcance de todos poupar para o fazer mas, na verdade, esta não é uma realidade acessível especialmente nos moldes perpetuados pelas agências de voluntariado que têm campanhas de marketing estratégicas para justificar os preços elevados que praticam. Mas, por outro lado, também existem crescentes oportunidades financiadas e, por isso mesmo, acessíveis a todas as pessoas para que estas possam fazer voluntariado nacional e internacional. Neste artigo vamos explorar a importância de não pagar para fazer voluntariado e dar a conhecer as alternativas que já existem.

Não pagues para fazer voluntariado!

Importa explorar as motivações para fazer voluntariado e as típicas pessoas que se focam no objectivo egoísta de se auto-descobrirem é um dos principais incentivos que leva à criação de um mercado repleto de oportunidades de volunturismo sem capacidade de beneficiar as comunidades internacionais. Noutros casos, o espírito altruísta de querer ajudar leva algumas pessoas a fazer voluntariado internacional, mas também essa motivação exige uma investigação profunda.

Enquanto tomamos conhecimento das crises humanitárias através das grandes agências que actuam no terreno, também estas, muitas vezes, não se pautam por princípios morais de dignidade, participação e empoderamento. Exemplo disso são os pedidos de financiamento com recurso a estratégias de marketing que retratam os destinatários da acção humanitária como pessoas incapazes e em extrema necessidade com o objectivo principal de aumentar as doações. Em geral, a acção humanitária tem sido marcada por um assistencialismo e dependência desmesurados e o argumento que tem justificado o envolvimento da comunidade internacional nos diferentes contextos é a falta de capacidades e conhecimentos por parte dos actores locais para a implementação de respostas adequadas e suficientes. Enquanto este argumento é válido em múltiplas situações, pois nem todas as comunidades têm a mesma capacidade de acção perante os conflitos, sempre que possível, a intervenção deve ser feita com os meios e aptidões endógenos, o que não acontece como resultado do processo histórico colonialista que reforça que a intervenção deverá ser feita por actores internacionais do Ocidente.

Esta realidade perpetuada pelas grandes agências de acção humanitária legítima as agências de voluntariado a promover projectos de voluntariado internacional com recurso a estratégias semelhantes que levam as pessoas do Ocidente a pensar que têm de ir ajudar as comunidades do Sul Global. Consequentemente, muitos “salvadores brancos” partem no seu ano sabático ou nas suas férias prontos para impor a sua tradição ocidental junto das comunidades onde fazem voluntariado durante meia dúzia de dias. Para além da falta de formação adequada, de retirarem empregos a pessoas locais e da desconsideração das capacidades e recursos endógenos, estas agências envolvem nos projectos de voluntariado pessoas jovens sem qualquer capacidade de intervenção, logo esta acção temporária, mas sistemática mantém situações de dependência crónica.

No caminho para a justiça global

Para além de existir um mercado que lucra através deste volunturismo que trata as pessoas voluntárias como clientes empenhados na procura de uma experiência que lhes irá mudar a vida, mas também a vida do nosso planeta já que o transporte tem um impacto ambiental desnecessário, devemos contrariar a tendência e optar por alternativas para actuar ao nível nacional e internacional de uma forma mais consciente.

Começar pelo nosso bairro é sempre a opção mais viável e algumas oportunidades incluem os programas da juventude do Instituto Português do Desporto e da Juventude que permitem fazer voluntariado em várias áreas, desde a ambiental à social com durações diferentes e sempre com apoio financeiro para custos de transporte e alimentação. Para as pessoas mais ousadas existe ainda a opção de iniciar o seu projecto de solidariedade com o apoio do Corpo Europeu de Solidariedade. Estes projectos devem ter uma duração entre 2 e 12 meses e contam com um apoio de 500€ mensais para implementar actividades com um impacto social e sem quaisquer imposições de áreas de actuação.

Para fazer voluntariado fora do país as oportunidades são variadas e, ao inserirem-se em programas de voluntariado e financiamento de larga escala, não têm quaisquer custos para os participantes e beneficiam de um controlo que garante a qualidade das iniciativas. Estes projectos são desenhados por actores locais que assumem a liderança em todas as esferas no design, implementação e avaliação e, ainda oferecem um programa de formação adequado aos voluntários incluindo preparação sobre o processo histórico do país, formação linguística e avaliações contínuas. Entre estes temos como exemplos os projectos de curta e longa duração do Corpo Europeu de Solidariedade, o Interreg Volunteer Youth e o EU Aid Volunteers.

Por fim, não podemos deixar de destacar os grupos de caminhada que adoptam uma política mais ética ao prepararem um programa anual de formação e angariação de fundos que deverá ser acompanhado pelas pessoas interessadas em participar em iniciativas de voluntariado internacional. Como exemplo destes grupos existe o GASNova, o GASTagus e o GASPorto.

O caminho para uma cidadania activa é longo, exige investigação e preparação, logo não devem ser utilizados atalhos para chegarmos onde queremos, especialmente se isso tem consequências negativas e que mantêm as relações de dependência históricas. Desta forma, é necessária uma transformação profunda no sistema de crenças da nossa sociedade, naquilo que consideramos serem as nossas necessidades de auto-descoberta, no reconhecimento das capacidades que temos e na forma como podemos efectivamente ajudar  os outros, pois é essencial garantir a construção de resiliência e a sustentabilidade das comunidades a longo prazo em detrimento de intervenções pontuais e paternalistas.

-Sobre a Margarida Freitas-

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais, queria mudar o mundo pela diplomacia, mas depressa percebeu que o seu caminho era junto das pessoas a fazer voluntariado nos mais variados contextos, logo adoptou o lema do ano sabático para a sua vida e já andou um bocadinho pelo mundo. Com um desejo de trabalhar em intervenção humanitária, mas com um grande cepticismo sobre as práticas das grandes organizações no Sul Global está a concluir o Mestrado em Estudos de Desenvolvimento no ISCTE. 
Em 2020, juntou 9 amigos e fundou a Associação Youth Cluster com o objetivo de dar as mesmas oportunidades que já teve a outras pessoas jovens residentes em Portugal. Através do seu trabalho na Youth Cluster e, em cooperação com outras organizações, tem reivindicado por igualdade de oportunidades e melhores políticas para a juventude. 
Nos tempos livres adora googlar sobre coisas improváveis.

Texto de Margarida Freitas
Fotografia de Rita Almeida
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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