Os receios da pandemia que agora começam a dar tréguas, até ver, abrem discotecas, tiram máscaras e garantem novas e múltipas possibilidades de enamoramento, quer aconteçam numa noite mais apertada num círculo fechado de muitos corpos e muitos copos, quer em reencontros mais ou menos combinados entre amigos de amigos que forçam que os seus conheçam os dos outros.

Até aqui, nada de especial, dirão desse lado, mas há problemas muito complicados que as novas liberdades reconquistadas trazem a um mundo que se privou delas quase dois anos. E quase dois anos, independentemente da geração, é muito tempo.

Já se menciona o F.O.M.O. (Fear of Missing Out) como uma coisa do passado (foi tema de uma M-Talk do Mental em 2019) que depressa se multiplicou por inúmeros acrónimos, alguns até com bastante piada pela rapidez com que foram criados, exactamente porque definem perfeitamente o sentimento de quem os vivia.

Logicamente que com o passar dos meses, vamos ter muitas expressões mas após uma conversa com oradores que participaram numa M-Talk do Festival Mental em Castelo de Vide, um psicólogo mencionou este novo termo. E ainda não o tinha ouvido e perguntei o significado. Em português, as iniciais levam ao calão grosseiro, de maneira que em vez de escrever o acrónimo Fear Of Dating Again, passo a usar o F.O.P.I. que é menos, enfim, directo e feio, mas que se utiliza na gíria para mencionar o Fear Of Putting In, e isto tanto dá para senhores como senhoras, pois o acto é o mesmo.

Quando se fala de sexualidade há coisas que podem ser tratadas mais directa e objectivamente do que outras, e o FOPI é um dos novos grandes e graves problemas de quem se viu privado de companhia ou encontros mais íntimos, desde que a pandemia se desenvolveu para endemia e todos ficámos com medo de respirar com outros.

O FOPI é o novo receio de quem se esqueceu em como cortejar, ou brincar, de quem criou vergonhas porque engordou ou porque pensa que já perdeu vitalidade, de quem ficou sem vontade, pura e simplesmente, porque a alternativa até não foi tão má como a péssima relação que viveu até então. Enfim, nunca mais saíamos daqui com tanta e mais alguma consequência de uma limitação imposta tanto física como psíquica.

As festas, os grupos, os exageros da adolescência podem mitigar e ultrapassar esta urgência em pertencer novamente a alguém, mas nem todos são iguais. Nem em idade nem em forma de estar ou conviver.

Como, então, conseguir ultrapassar este novo mau momento, esta realidade inoportuna, como reaprender a estar com outros, de forma total, sem medo algum e sem receios ou vergonhas?

Como passar a ser novamente humano e aprender a, e vou escrever, amar?

Pois terá que ser passo a passo ou atirar-se de cabeça, sem qualquer medo. A vida já nos mostrou por diversas vezes que muitos problemas são ultrapassados de forma natural. O tempo, a passagem dos dias, faz parte do processo, assim como a reaprendizagem de estar em sociedade, como sempre fizemos noutras alturas complicadas. Temos é que perceber apenas uma coisa: para umas pessoas vai ser muito difícil voltar a entregar-se sem medo. E é aí que temos de estar presentes para… dar um empurrão.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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