Hesitei…pensei em escrever sobre sororidade, mas preferi “roubar” intencionalmente o título da crónica de hoje ao nome do inspirador podcast da Vanessa Augusto (Antena 3), Femina, que ouvia pouco antes de começar a escrever e ao blog de teologia feito por e para mulheres, Benditas. Estes são dois lugares de escuta, também para homens, em que as mulheres são protagonistas e onde tenho escolhido ouvir, ler outras mulheres e onde vejo reflectidos lugares de liberdade na expressão do feminino nesta longa caminhada de empoderamento que cada uma vai fazendo à sua maneira seja em que meio for, nestes casos no meio cultural ou religioso, quanto a mim nada incompatíveis.

Dombe é um dos quatro postos administrativos de Sussundenga, um distrito da província de Manica em Moçambique. Nesta aldeia, mais precisamente na “Missão Dombe” aprendi em Junho de 2019 mais sobre ser mulher. Amo mulheres, a condição de ser mulher, a identidade e o ponto de vista no feminino mas um testemunho de vida a mim fala mais que qualquer movimento, hashtag ou discurso eloquente.

Não me recordo do nome da pequena que brincava no recreio do escola com os outros meninos, mas tinha 10/11 anos e quando tocou para os outros meninos entrarem na sala de aulas, ela foi para o tanque lavar a roupa da família, tinha ficado órfã, desistiu da escola para tomar conta dos vários irmãos mais novos, ia cozinhar a seguir, que lição de altruísmo… A Joana ensinou-me sobre coragem, ao relatar sorridente como tinha sobrevivido durante dias, grávida de sete meses, em cima do telhado de um edifício, às duras cheias provocadas pelo ciclone Idai. Conheci o bebé já nascido, na neneca das suas costas embalado num pano. A Inês ensinou-me sobre alegria, com mais de 80 anos, contou-me como ela e o marido tinham estado vários dias em cima de uma árvore, amarrados por uma capulana aos ramos das árvores a dormir e fazer as suas necessidades lá de cima enquanto afugentavam as cobras que competiam o espaço para não caírem para as águas das cheias que inundaram completamente a aldeia. Eu ia entregar-lhe uma bicicleta, e ela soube que eu era cantora e quis mostrar-me os seu dotes musicais a dar os parabéns a todos os que iam receber uma Mozambike – estudantes, agentes polivalentes, activistas da saúde, mães cuidadoras, professores, parteiras…” Macorocoto, macorocoto, aiwandiwa macorocoto”… em poucos minutos, esquecida dar dor, pôs dezenas de pessoas a cantar e a dançar em sinal de gratidão pelo dom da vida. As meninas do Internato Nossa Senhora Rainha do Mundo, voltaram a lembrar-me da importância de continuar a sonhar e permanecer em fé. Carregadas de sonhos apesar das histórias tão pesadas de assédio, violação, abandono, violência, pobreza, onde casamentos precoces são sinal de sobrevivência. Tantas e tantas histórias de resistência, perseverança do Dombe ou das mulheres tão diferentes que falam no Femina que vou partilhando aqui em casa e que me fazem crer que ser mulher é uma bênção mas também um acto de bravura e resistência.

Quando recebi a notícia de que seria mãe de mais uma menina (tenho 2), a alegria da família nuclear foi generalizada… Enquanto à nossa volta muitos torciam para que chegasse um rapaz, o regozijo que houve em termos mais uma mulher na família foi enorme, não há dúvidas, gostamos de homens, mas somos admiradores de mulheres e com isto não quero dizer que todas são maravilhosas, nem que os homens são menos relevantes. Refiro-me antes às incríveis mudanças e lutas físicas, hormonais, culturais que uma mulher sofre desde pequenas e da longa caminhada para liberdade que historicamente têm tido que percorrer que me levam a pensar no belo poema da Maya Angelou, “Phenomenal Woman” do livro “Still I Rise”. Sem romantizar, a benção de ser mulher é uma luta e ela muitas vezes começa em nós mesmas. Há uma prática de culpabilização por termos de ser “perfeitas” para sermos tudo ao mesmo tempo, boas profissionais, boas mães, para não sermos mãe, amigas, cuidadoras, arranjadas, modernas, em forma, saudáveis , interessantes , interessadas, com tempo, espiritualmente despertas, solidárias, activistas… enquanto assédio sexual, violência doméstica, discriminação, desigualdade de género no seio profissional e social continuam a fazer parte do quotidiano Femina…

Neste tempo que estou de esperanças, a minha expectativa nos homens e nas mulheres é a de não ser moldado pelos padrões do mundo, mas antes ser transformado pela renovação da nossa mente para que possamos experimentar o melhor que certamente há para nós. E como uma amiga bem me relembrou uma frase do Saint Exupery: … “one’s freedom is the freedom of the mind”. Benditas sejam, as Mulheres!

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico 

-Sobre Selma Uamusse- 

De origem e nacionalidade moçambicana, residente em Lisboa, formada em Engenheira do Território pelo Instituto Superior Técnico, ex-aluna da escola de Jazz do Hot Club, mãe, esposa, missionária e activista social,  Selma Uamusse é cantora desde 1999. Lançou a sua carreira a solo em 2014, através da sua música transversal a vários estilos mas que bebe muito das sonoridades, poli-ritmias e polifonias do seu país natal, tendo apresentado, em 2018, o seu primeiro álbum a solo, Mati.  A carreira de Selma Uamusse ficou, nos últimos anos, marcada pelas colaborações com os mais variados músicos e artistas portugueses, nomeadamente Rodrigo Leão,  Wraygunn, Throes+The Shine, Moullinex, Medeiros/Lucas, Samuel Úria, Joana Barra Vaz,  Octa Push etc. pisando também, os palcos do teatro e cinema.

Texto de Selma Uamusse
Fotografia de Rafael Berezinski
gerador-gargantas-soltas-selma-uamusse