Nota introdutória

Vou-me focar na religião Católica, porque, para além de ser a que vivi, é a que está na base da construção da mentalidade da sociedade portuguesa. Neste texto, e segundo a minha visão, Deus não tem género. 

Fui educada segundo a religião católica. No entanto, os meus pais ensinaram-me o essencial de outras religiões. Em Erasmus, tive uma unidade curricular chamada Theory, em que estudámos várias religiões e doutrinas (de uma perspetiva ateísta, logo imparcial), incluindo o primeiro “tratado religioso” conhecido no mundo, a Epopeia de Gilgamesh. Não me posso alongar sobre isso agora, mas aconselho vivamente a pesquisarem, se for do vosso interesse. É o primeiro registo do conceito de Ressurreição, por exemplo. 

Embora eu acreditasse em Deus, houve sempre várias coisas que me fizeram comichão na Igreja, mas fui tolerando. 

O meu primeiro grande momento de rotura aconteceu com um cântico. Uma das estrofes incluía, “somos todos filhos do pecado”, afirmação que, para mim, para além de ser mentira, é horrível. Há uma ideia tradicional de que o “pecado do sexo” é um mal necessário e perdoado, porque é para continuar a espécie. Este acontecimento traz-nos o primeiro grande problema da Igreja.

Primeiro capítulo: O pecado original

A Igreja tem uma doutrina para controlar comportamentos, maneiras de viver, como se houvesse um manual para se ser boa pessoa. Se houvesse um manual único de ética, bem que estudar Ética na faculdade teria sido bem mais fácil (e bem mais redutor). Além disso, parece que a Igreja é obcecada pelo sexo, o “pecado original”. Mas será que o pecado original foi fazer sexo?

Tradicionalmente, considera-se que o pecado original, que destruiu a santidade da Humanidade, foi o sexo, representado pela maçã. Recordemos a história de forma reduzida: Deus criou a Terra, o homem, Adão, e a mulher, Eva. Deu-lhes árvores, das quais podiam colher e comer os frutos de todas, menos de uma, uma macieira, que era a árvore do Conhecimento. Certo dia, apareceu uma serpente que convenceu Eva a colher uma maça das proibidas. Passemos agora para as transcrições bíblicas e comentários, para não acharem que eu estou para aqui a inventar. Reparemos que a Bíblia é considerada, pelos crentes, em grande parte metafórica.

Génesis, 2: 9-10

“No meio do jardim estava a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal.”

Génesis, 2: 15-18

“O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden, para nele trabalhar e para o guardar. E deu-lhe estas ordens: «Podes comer do fruto de qualquer árvore, menos do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Deste não podes comer de maneira nenhuma. No dia em que dele comeres, ficas condenado a morrer.»”

Ou seja, a partir do momento em que comessem o fruto, seriam reduzidos à sua condição humana mortal. Até lá … 

Génesis, 2: 25-26

“Tanto o homem como a mulher andavam nus, sem sentirem nenhuma vergonha por isso.”

Adão e Eva não comiam daquela árvore porque não queriam morrer e respeitavam Deus. Até que a serpente (símbolo da tentação) apareceu a Eva:

Génesis, 3: 4-6

“A serpente replicou-lhe: «Não têm de morrer. De maneira nenhuma! O que acontece é que Deus sabe que no dia em que comerem desse fruto, abrir-se-ão os vossos olhos e ficarão a conhecer o mal e o bem, tal como Deus.»

A mulher pensou então que devia ser bom comer do fruto daquela árvore, que era apetitoso e agradável à vista e útil para alcançar sabedoria. Apanhou-o, comeu e deu ao seu marido que comeu também. Nesse momento, abriram-se os olhos de ambos e deram-se conta de que andavam nus. Coseram então folhas de figueira, para com elas poderem cobrir a cintura.”

O pecado original não foi, como vemos, sexo. Sexo nunca foi pecado. Querer saber tanto quanto Deus, a ambição desmesurada e não ter temor a Deus é que sim. 

Quando realmente Adão e Eva têm sexo, nem sequer é o evento principal da passagem, mas antes a rivalidade entre os filhos, Caim e Abel. A única referência ao “pecado do sexo” é esta:

“Adão teve relações com Eva, sua mulher, e esta ficou grávida.” Feito. Simples. Prático.

Desta forma, apenas neste primeiro capítulo, já conseguimos ver que uma coisa é Deus, outra coisa é a Igreja. A Bíblia não é obcecada por sexo, a Igreja tende a ser. Apela à virgindade como pico de pureza de casal, de devoção a Deus e ao Amor. Com todo o respeito: LOL. 

Falemos do casamento tradicional. O vestido branco é sinal de pureza. O véu posto pelo caminho da Igreja, só tirado em frente ao marido, é sinal de que se “guardou” para o marido. O facto de a noiva ser entregue (sim, como um testemunho) pelo pai para o futuro marido é uma representação de patriarcado: passa de ser pertença de um homem-pai, para ser pertença de um homem-marido. À mulher faz-se muita mais pressão para ser virgem até casar do que ao homem. Além disso, a Igreja não considera na sua narrativa pessoas não binárias, pessoas trans ou pessoas não hetero. Se Jesus viesse à Terra e visse como a Igreja ainda está, ficaria super irritado e faria uma cena no templo (não seria a primeira vez, que ele é cá dos meus, não fica calado).

* pequena nota *

A Virgindade é uma construção social. O hímen existe para nos proteger de infecções enquanto somos crianças. Com a adolescência, com o aparecimento do corrimento, o hímen deixa de ter uma função fisiológica.

Tenha-se, ainda, em conta que a Bíblia foi escrita por homens no seu contexto histórico, inspirados por Deus (segundo a religião), e ainda assim a Igreja e o conservadorismo português estão mais atrasados, no geral, do que a própria Bíblia.

*

Fim da Primeira Parte.

A Parte II desenvolverá a desigualdade de género na Igreja; o que terá de mudar para haver igualdade; o lado positivo da Igreja (vá); e a minha conclusão em relação à pergunta que motivou este artigo: Feminismo e Religião são compatíveis?

Concluo referindo que este é o meu testemunho. Só posso falar por mim. Acredito que outras pessoas se sentirão representadas neste texto e que talvez tal lhes traga algum alento.  

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Clara Não-

Clara Não é ilustradora e vive no Porto. Licenciada em Design de Comunicação, pela Faculdade de Belas Artes do Porto, e fez Erasmus na Willem de Kooning Academie, em Roterdão, onde focou os seus estudos em Ilustração e Escrita Criativa. Mais tarde, tornou-se mestre em Desenho e Técnicas de Impressão, onde estudou a relação fabular entre Desenho e Escrita. Destaca-se pela irreverência e ironia nas ilustrações, onde reivindica a igualdade, trata tabus da sociedade e explora experiências pessoais.  Em 2019, lançou o seu primeiro livro, editado pela Ideias de Ler, intitulado Miga, esquece lá isso! — Como transformar problemas em risadas de amor-próprio.  Nas horas vagas, canta Britney.

Texto de Clara Não
Fotografia de Another Angelo
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