O bailado O Primo Basílio, adaptado do livro com o mesmo nome, vai percorrer algumas cidades portuguesas no próximo ano de 2020. A obra de Eça de Queirós surge retratada em II atos pela coreografia de Fernando Duarte e Solange Melo. O espetáculo de dança vai também viajar para o outro lado do Atlântico para ganhar vida num palco de Nova Iorque.

A adaptação da obra literária portuguesa era um antigo desejo de Fernando Duarte. Natural de Lisboa, o bailarino estudou na Academia de Dança Contemporânea de Setúbal e, em 2018, fundou a Dança em Diálogos, assumindo também a sua direção artística. Nesse ano, ganhou Prémio da Dança Anna Mascolo, da Mirpuri Foundation, com o bailado Murmúrios de Pedro e Inês. Em 2019, o corógrafo apresentou Tudo Quanto Vi – um poema coreográfico para Sophia, por ocasião do centenário da escritora. Agora, é a vez de O Primo Basílio dar um passo de dança.

Gerador (G.) – Antes de mais, como é que surgiu esta ideia de fazer o bailado d’O Primo Basílio?

Fernando Duarte (F. D.) – A ideia já era antiga. Era um antigo desejo meu ter uma obra, particularmente de Eça de Queirós, adaptada a bailado. Na minha carreira de bailarino, tive contacto, quer como intérprete, quer como espectador, com bailados narrativos com estas características. Ou seja, não pude só ter o privilégio de dançar os grande clássicos do século XIX, que hoje em dia são muitos conhecidos e estão em cena, como a partir do meio do século XX houve um renascimento deste modelo de bailado narrativo em que se começou a adaptar obras narrativas conhecidas do público. Daí que é normal ver muitas versões de A Dama das Camélias, Anna Karenina… Portanto, sempre pensei: “Porque é que em Portugal nunca ninguém pensou em fazer isso mesmo com o nosso património literário tão rico?” Quando eu e a Solange Melo começamos a nossa estrutura, que é a Dança em Diálogos, iniciamos com o bailado Murmúrios de Pedro e Inês, que é uma narrativa sobre a famosa história de D. Pedro e D. Inês de Castro, e pensamos que seria o momento ideal para levar avante esta antiga ideia que eu tinha e que só agora pudemos ter o apoio e os meios necessários para concretizar.

G. – Podemos dizer que O Primo Basílio não é a obra mais conhecida do Eça de Queirós. Porquê esta escolha?

F. D. – Para já, por ser um ponto de partida. Não só acreditamos, como também não queremos que este tipo de criação fique só por aqui como uma espécie de monopólio nosso. Muito pelo contrário. Nós queremos lançar uma semente e esperar que outras propostas surjam de outras plataformas artísticas. Achamos que O Primo Basílio não é o romance mais conhecido: esse pedestal pertence a Os Maias. Achamos é que Os Maias é um romance muito mais complexo e que necessitaria de meios e de uma conceção do qual nós não estaríamos aptos a fazer. Mas quando houve a adaptação a cinema d’Os Maias, de João Botelho, pudemos ver que houve uma grande afluência às salas de cinema. Eu tenho a convicção de que o público gosta de ver esta corporificação dessas figuras imaginárias das obras literárias. Daí que o bailado é um meio bastante apetecível para o público ver essa corporificação das personagens de um romance. Pareceu-me que O Primo Basílio, tendo em conta o seu ambiente mais familiar e restrito a um núcleo central de personagens, se calhar seria o romance perfeito para ser o bailado-piloto deste género de adaptação para bailado.

G. – Como é que se adapta um livro a um espetáculo de dança? Como é que é o processo?

F. D. – A dança vive sempre com esse grande desafio. A dança tem um grande potencial expressivo e comunicativo da linguagem verbal e da palavra. Nesse sentido, essa adaptação tem de ser sempre muito bem cuidada e ponderada para que o público entenda a história. Claro que, ao pensarmos n’O Primo Basílio, somos conscientes de que é uma obra que está disseminada pelo conhecimento do público. Aí facilita a transmissão. A adaptação faz-se por perceber quais são as linhas de força que há e de que forma a dança permite que a narrativa se suspenda e haja um momento em que não há uma narrativa contínua – da mesma forma como nos romances, em que existem partes descritivas. Todos esses momentos dos romances literários ajudam a que a dança use o seu potencial expressivo para provocar a tal emoção que o romance provoca. A linguagem verbal, de texto e a palavra permitem provocar uma emoção, mas certamente que não terá a mesma potencialidade que tem a dança para a comunicação do corpo. É esse equilíbrio que nós tentamos encontrar, e acho que a história, não só como está a ser contada, é percetível, como também cria a mesma emoção. A música também ajuda imenso. A música é de dois artistas portugueses, Luís de Freitas Branco e Fernando Lopes-Graça. Quase que me atrevo a dizer, e perdoem-me a falta de modéstia, que as músicas foram compostas para este bailado, embora que, na altura em que os compositores as fizeram, não imaginariam que iriam partir da partitura para o baliado d’O Primo Basílio.

Teaser do espetáculo

G. – O Primo Basílio vai ser apresentado em várias cidades. É importante para a organização levar o espetáculo a outros locais? Podemos dizer que a descentralização foi uma prioridade?

F. D. – Foi e é. Um dos objetivos primeiros principais da Dança em Diálogos é a pluralidade de apresentação pelo território. Apesar de estarmos sediados em Lisboa, a maioria dos nossos espetáculos acontece fora de Lisboa. Aliás, é a segunda vez que nós vamos estrear um bailado em Braga. É mesmo uma oferta descentralizada que queremos proporcionar porque se fala de uma coesão territorial e eu acredito numa coesão cultural em que todas as pessoas tenham este encontro com todas as formas de arte. Portanto, para nós, é um objetivo fundamental e uma alegria poder concretizar esta digressão, de norte a sul do país.

G. – O espetáculo também vai ser apresentado em contexto escolar. Considera que os municípios e as escolas deveriam apostar mais em levar a cultura aos mais novos?

F. D. – Eu tenho dificuldade em formar uma opinião, porque para isso teria de ter um conhecimento mais profundo do campo. Neste caso, com Braga, falamos com o município porque, para além da estreia do bailado, queríamos muito fazer uma residência artística alargada em contexto escolar, ou seja, com alunos que não tivessem contacto com a dança artística especializada. Braga aceitou logo. Tanto Braga como Castelo Branco, para onde iremos a seguir, abriram muito as portas e a própria escola está entusiasmadíssima, as turmas estão preparadas e vai ser uma semana de grande criação. Não é um workshop de dança. Eu costumo dizer não vamos lá para ensinar dança, nós vamos lá passar uma ferramenta para que eles continuem a desenvolver o seu lado criativo e o seu lado original.

G. – Tendo em conta a sua experiência, os portugueses são recetivos a espetáculos de bailado?

F. D. – Eu considero que sim. Como bailarino, sempre senti que o público português é um público ávido pela dança. Eu acho que o público em geral gosta de dança e interessa-se muito pela dança. Felizmente, de norte a sul do país, com os nossos trabalhos Murmúrios de Pedro e Inês”, e certamente agora, espero eu, temos ficado muito agrados e, acima de tudo, muito entusiasmados. Para mim, como intérprete e coreógrafo, os melhores elogios que posso receber como criador é quando dizem “que pena que o espetáculo tenha acabado tão cedo” ou “se começasse de novo viria outra vez”. É esse tipo de elogios que temos recebido, o que vem demonstrar que não só o público aprecia a dança, como está à espera de mais e boa dança. E que estejamos aqui para dar reposta a essa vontade.

G. – Quais são as expectativas para a digressão de 2020?

F. D. – Temos já estas cidades de Braga, Castelo Branco, Famalicão para o final do ano, Alcobaça no verão e ainda em Nova Iorque. Mas como já percebemos a engrenagem em termos de programação e de comunicação entre os vários equipamentos e estruturas que apresentam este tipo de espetáculo, sabemos que demora o seu tempo. O bailado tem de acontecer, tem de crescer e tem de se dar a conhecer para que vá encontrar novos pontos de atuação. Não tenho dúvidas, e não nos preocupa que não seja no imediato porque aquilo que estamos a criar é uma peça de repertório, e uma peça de repertório é uma peça em que é preciso que tenha uma longevidade e não se resuma apenas aos momentos pós-produção. É preciso que tenha potencial para ser exibido durante o futuro.

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia cedida pela organização

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