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Fernando Galrito: “A única barreira do cinema de animação é a nossa imaginação”

A MONSTRA | Festival de Animação de Lisboa está de regresso para a 22.ª edição, que está a decorrer até ao dia 26 de março. Este ano, o tema é “Animação e Cultura” e são comemorados os cem anos do cinema de animação portuguesa. Ao Gerador, Fernando Galrito, diretor artístico e membro fundador do festival, falou sobre a “inquietação” dos artistas, os destaques da programação e o futuro desta forma de expressão artística.

Texto de Débora Cruz

Fernando Galrito. Fotografia cortesia de Manuel Simões

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O cinema de animação faz parte da vida de Fernando Galrito há mais de quatro décadas. Realizou o seu primeiro filme com oito anos e, desde então, ficou “enfeitiçado” com a magia desta arte. “Os meus amigos dizem que eu sou um bocado como o Obélix, também caí no caldeirão da poção mágica e não consigo sair de lá”, conta.

O realizador é natural de Samora Correia, em Santarém, e é doutorado em Animação pela Universidade Politécnica de Valência, mas tem também uma licenciatura em Antropologia. No seu doutoramento, centrou a sua investigação na relação e interação entre corpo, performance e imagem em movimento mediada por sistemas digitais e analógicos. Atualmente, é professor na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha.

A MONSTRA nasce no ano 2000 e Fernando Galrito define-a como “um espaço de transdisciplinaridade onde cineastas, músicos, artistas plásticos, arquitetos, designers, se encontram à volta do cinema de animação”. Nesta edição, estão representados 50 países entre os 423 filmes programados e o AnimaCPLP vai dar destaque às produções dos países de língua portuguesa.

Em entrevista ao Gerador, via online, o diretor artístico falou sobre o centenário do cinema de animação português, celebrado este ano, a nomeação do filme Ice Merchants para os Óscares e alertou para a importância da iniciativa privada investir na cultura e no cinema de animação.

Gerador (G.) — Já se dedica ao cinema de animação há mais de três décadas. Em que momento da sua vida se começou a interessar por esta forma de expressão artística?

Fernando Galrito (F. G.) — Eu diria que há mais de quatro décadas [risos]. A pergunta é difícil e fácil ao mesmo tempo, eu fiz o meu primeiro filme de animação, foi riscado na película, tinha oito anos de idade, ou seja, neste momento, tenho 62 anos. Como diria um político há uns anos, é só fazer as contas [risos]. Por isso, acho que nessa altura as coisas ficaram mais ou menos muito resolvidas sobre, pelo menos a questão da imagem em movimento, a questão do cinema, etc. Depois, também cresci perto de algumas máquinas, como as de projetar, e relativamente cedo tive uma câmara de filmar: primeiro, uma Double 8, que é um sistema que muito pouca gente ouviu falar; depois, uma Super 8 que, sei lá, talvez os seus pais se lembrem [risos]; depois, de 16 milímetros, e depois entrámos também na época do vídeo. Digamos que desde muito cedo a questão da arte em geral, mas muito especificamente do cinema de animação em particular, sempre esteve muito próxima da minha infância. Se calhar, foi muito cedo que isso ficou resolvido na minha cabeça, que era isto que eu queria fazer e é disto que eu gosto. Às vezes, costumo dizer que o cinema de animação é uma espécie de vírus: quando se entranha, é muito difícil de sair. Os meus amigos dizem que eu sou um bocado como o Obélix, também caí no caldeirão da poção mágica e não consigo sair de lá [risos].

G. — Mas tem também uma licenciatura em Antropologia... 

F. G. — Sim. Em França, estudei cinema e fiz também muitas coisas ligadas ao cinema de animação. Depois, quando regressei a Portugal, diria que como sempre gostei de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, senti que tinha as noites um bocado livres. Então, fiz Antropologia e foi talvez a segunda grande boa decisão da minha vida, porque ajudou-me imenso, não só nas coisas todas que a gente faz no dia a dia, mas ajudou-me também a perceber as outras culturas, a aceitá-las, a aceitar as suas diferenças e, ao mesmo tempo, a ser aquilo que eu acho que nós deveríamos ser todos: mais tolerantes perante os outros, perante a diferença, e nas coisas que não estão bem, podermos ajudar de uma forma construtiva a que as coisas sejam melhores, tanto connosco, tanto naquilo que nos rodeia, como naquilo também que nós vamos encontrando ao longo da nossa vida e das pessoas que encontramos. Felizmente, por causa do festival, por causa do nosso trabalho, temos a sorte de viajar imenso pelo mundo inteiro. O facto de ter estudado Antropologia ajudou-me imenso a entender as outras culturas, a aceitá-las e, ao mesmo tempo, a dialogar com elas: esta é a minha forma de fazer, mostrem-me a vossa forma de fazer, porque eu também quero aprender com elas. A melhor forma de nós andarmos não é uns atrás dos outros, mas é de braço dado, diria eu, e construirmos um mundo em conjunto.

G. — Tendo em conta essa perspetiva, articula muitas vezes o cinema de animação com a sua formação em Antropologia? 

F. G. — Sim, é verdade que o cinema de animação, e eu falo das primeiras experiências, nem lhes chamo filmes, que eu fiz... O cinema de animação pode ser uma arte muito solitária, é uma arte em que nós podemos fazer quase tudo sozinhos, se tivermos algum jeito para a música ou para os efeitos sonoros. Mas ao mesmo tempo, quando a gente quer evoluir, ela é também uma arte do coletivo, em que temos que partilhar com os outros as nossas ideias, aceitar as deles e construir os trabalhos em conjunto. Nesse aspeto, o sabermos aceitar o outro e sabermos dialogar também foi muito importante. Para além de cinema de animação, fiz muitas peças em que... Estou a lembrar-me de coisas que fiz com o Stefan Jurgens, um coreógrafo alemão que vive em Portugal há muitos anos e com o qual fiz muitas coisas, e sempre soubemos, digamos, dialogar e construir as coisas em conjunto. Ele falava sobre as minhas imagens em movimento e eu ia para o palco dizer aos bailarinos dele como é que achava que os movimentos deviam ser. Não sou coreógrafo, nem sou bailarino, ou seja, não estudei coreografia, mas temos uma sensação do que é que pode ser o movimento. Nessa questão, sempre dialogámos muito entre nós e sempre aceitámos muito as propostas um do outro, mesmo naquilo que é a arte do outro, quando decidimos coisas em conjunto. Isso é interessante, porque se calhar o ter estudado Antropologia também me ajudou, sei lá, a perceber essas coisas... A perceber que a construção da vida — e a arte não deixa de ser também uma criação, uma experimentação para uma criação que nós desejamos que seja cada vez melhor e diferente — é também um diálogo, não é? E se soubermos dialogar e aceitar o outro pela sua diferença e o outro também nos ajudar e também nos aceitar, é a forma mais equilibrada de construir coisas em comum e em conjunto.

G. — E é precisamente o diálogo e a interação entre imagem, performance e o corpo que o apaixonam pelo cinema de animação? 

F. G. — Sim, o cinema de animação é uma arte apaixonante por várias razões. Por um lado, ele engloba dentro de si todas as outras artes. Costumo dizer que para além das outras artes todas, ou seja, temos a música, temos, de alguma forma, a dança, temos as artes plásticas, temos tudo o que tem que ver com o lado artístico e depois temos mais uma arte que as outras artes não têm, que é a arte do movimento. No cinema de animação, nós podemos construir movimentos que não são possíveis de construir de outra forma, se não em animação. Eu posso esticar o braço e cumprimentá-la, eu posso ser diferente, posso ser esticado, posso construir mundos que não existem através do desenho, através do recorte, através da areia, através da tinta. Todas as coisas são animáveis, até o digital, e essa capacidade que há de tudo ser possível dá, por um lado, uma liberdade muito grande ao criador, mas ao mesmo tempo também o coloca sob uma grande pressão, porque se eu posso fazer tudo, então, de alguma forma, tenho que balizar esse tudo. Isso também traz outra questão, que acho que é fundamental a qualquer vivência, que é a questão do pensamento. Pensarmos as coisas, fazermo-las em função desse pensamento, dessas estratégias, dessas linhas que nós vamos construindo, ainda que possa haver alguma durante o processo, alguma criatividade ou alguma espontaneidade na criação. De qualquer modo, há algumas linhas que a gente traça inicialmente e que elas também, de alguma forma, balizam por um lado, mas também nos deixam espaço à expressão. Nesse aspeto, o cinema de animação é, sem dúvida, uma arte muito livre, com muitas possibilidades. Diria que a única barreira do cinema de animação é a nossa imaginação, tudo o resto é possível. Então, uma arte que, apesar de ter os constrangimentos que tem, que é o facto de levar muito tempo a fazer, nós estamos sempre a falar que 25 imagens sobre um ecrã equivalem a um segundo, e como o cinema de animação é feito ao frame a frame, ou seja, imagem por imagem, nós estamos sempre a falar que para fazer um segundo de movimento sobre o écran, temos que fazer 25 desenhos, 25 intervalos, sejam eles em digital ou analógico, sejam eles em qualquer técnica que estejamos a usar. É uma arte em que aquela máxima de 1 % de inspiração e 99 % de transpiração se aplica, mas esses 99 % de transpiração podem não ser uma rotina e podem ser de uma criatividade constante a cada imagem que se constrói.

G. — Dizia há pouco que não são 30, mas mais de 40 anos dedicados ao cinema de animação, portanto já se associava a esta arte há cerca de 20 anos quando decidiu fundar a MONSTRA. Quais foram as suas motivações? 

F. G. — Nós [os membros fundadores da MONSTRA] tivemos muitas ligações com vários festivais, nomeadamente com o Festival Cinanima, em Espinho, onde estivemos na primeira edição. Tinha 16 anos na altura, em 1977, e antes disso já fazíamos coisas, já fazíamos experiências. Nessa altura, ganhámos um prazer ainda maior de o fazer em França, com muitos amigos, e as coisas consolidaram-se ainda mais. Fizemos oficinas um pouco por França e pela Europa, na altura em que se fazia ainda em película, nós tínhamos um camião com seis câmeras, levávamos película a preto e branco e nos sítios onde a gente chegava fazia-se tudo. Fazíamos os desenhos, filmávamos, mas também revelávamos a película a preto e branco, ficava pendurada nos locais a secar e no dia seguinte aparecíamos com o projetor e as imagens que no dia anterior eram só desenhos fixos, transformavam-se em movimento quando projetadas no ecrã. Todo esse fascínio também foi consolidando este gosto pelo prazer, não só de fazer, mas também de ensinar a fazer. Então, quando regressámos houve um projeto muito interessante, chamado CITEN, na Fundação Calouste Gulbenkian, onde ficámos durante 19 anos a fazer formação em cinema de animação e depois também a coordenação do curso. Enquanto coordenadores, também levámos a formação para outras áreas, como a banda desenhada, as marionetas, a escrita criativa, etc. Foi um momento muito interessante, onde num Portugal onde não havia formação, a Fundação Gulbenkian e alguns espaços no Norte do país, como no Porto, eram os únicos sítios em Portugal onde se podia experimentar fazer cinema de animação. Isso foi um momento muito importante também para nós percebermos a falta de formação, a falta de ver coisas novas. Entretanto, fazia parte de um grupo chamado Expresso Oriente, com o qual fazíamos muitas intervenções artísticas em que o cinema de animação era uma parte e, uma vez, na Bienal de Cerveira, onde fizemos uma intervenção, dissemos que teríamos de consolidar o nosso trabalho e fazer uma coisa que se repercutisse durante algum tempo. Então, este grupo de cinco pessoas: eu, mais no cinema de animação, havia um antropólogo, havia uma cantora do coro da Gulbenkian, havia uma professora e havia o Rui Viana, que era um pintor e escultor, decidimos que a melhor coisa para falarmos de todas as artes era fazermos um festival de cinema de animação. No ano 2000, nasce a MONSTRA, na altura, criada e dirigida e feita por este grupo de cinco pessoas que depois, pouco a pouco, também foram indo para outras áreas e eu acabei por ficar sozinho e há 23 anos que vamos fazendo o festival. Ele é o resultado da necessidade de partilhar com os outros estes encontros artísticos, por um lado, e por outro lado, também o facto de termos a sorte de viajarmos muito, de vermos muitas coisas e de acharmos que é interessante, importante e até mesmo fundamental, partilhar com os outros aquilo que nós vemos e que temos a sorte de ver. Dessa forma, o festival é um pouco essa mistura também, que é nós vermos muitos filmes e, pelo menos de uma parte deles, o festival ser uma montra - nós podemos partilhar isso que fomos vendo com os outros e decidirmos que esses podem ser os melhores filmes dos muitos que vemos para partilhar. Por outro lado, também é um espaço de transdisciplinaridade onde cineastas, músicos, artistas plásticos, arquitetos, designers, se encontram à volta do cinema de animação, também para cada ano mostrarem e criarem outras obras onde este diálogo, assim como o diálogo entre nós pessoas, o diálogo entre as artes também é importante, porque ele é a génese do cinema de animação.

G. — No comunicado, escreveu que através do tema deste ano, Animação e Cultura, a MONSTRA evidencia “a inquietação assente na história da animação em Portugal, através de estéticas e olhares variados”. Que inquietação é esta? 

F. G. — Eu acho que não há criatividade, não há criação, sem inquietação. A criação, em todos os momentos da História, a criatividade, as artes... Há um lado da filosofia, diria eu, que é quase uma espécie de estrada que ajuda não só a lançar caminhos, como a abrir portas para fazer pequenas e grandes revoluções. A história da arte, em muitos momentos, foi a vanguarda e abriu portas para muitas outras coisas e para nos fazer perceber que nós podemos olhar o mundo de outra forma. A cultura que nos rodeia evolui muito ao longo dos anos... Nós começámos por pintar e gravar nas pedras, hoje utilizamos tecnologias variadas para diversas coisas, mas também continuamos a gravar nas paredes, não com as mesmas tecnologias, mas de qualquer modo há algo que ficou desse tempo. Em termos de pensamento e em termos de transformação, a arte tem sido sempre importante para transformar o mundo e para o fazer evoluir no sentido mais humano e mais progressista. Se não houver uma inquietação, nós não conseguimos fazer isso. As pessoas que não são inquietas ficam sentadas muito tempo em casa, à frente do ecrã ou a fazer sempre a mesma coisa, não é? As pessoas que são inquietas fazem umas coisas, mas a partir de determinado momento querem fazer outras, querem dar saltos em frente e os saltos são mais altos ou mais baixos conforme o momento, mas há essa inquietação para fazermos coisas. Às vezes, ligo esta inquietação com aquela música do José Mário Branco: não é numa direção ou não é noutra, é naquela que eu quero fazer e naquela que eu quero criar. A minha inquietação é uma e a dos outros artistas e dos outros criadores é outra inquietação e todos juntos vamos trilhando uma estrada que é uma estrada de diferença, uma estrada em que cada um olha mais à frente e que também traz outros olhares. O grande mentor da Revolução Francesa, o grande filósofo, disse que a grande diferença entre o tempo passado e o tempo futuro é que dantes havia alguém que pensava por nós, ou era o rei ou um Deus superior ou um enviado de Deus, e a partir da Revolução Francesa, o Immanuel Kant disse: 'Não, cada um de nós tem capacidade de pensar pela sua cabeça'. Eu acho que é essa inquietação que todos nós devemos ter a todo o momento, não só enquanto criadores, não só enquanto artistas ou filósofos, mas também cada um de nós no dia a dia, porque essa inquietação é fundamental, não só para acontecer aquilo que eu posso dizer que aconteceu comigo e com muitos de nós, que é o facto de ter feito sempre, durante toda a sua vida, aquilo que gostava, com uma paixão muito grande e isso é fundamental para não só fazermos bem e melhor, mas essencialmente também para sermos felizes. Quando as pessoas são felizes, se calhar querem fazer menos guerras, querem fazer mais coisas e construir em conjunto e não destruir. Acho que é por aí que nós temos que ir e é essa inquietação contra a destruição e contra o medo, é uma inquietação pela construção e pelo fazer melhor, pelo fazermos em conjunto que temos que ir. Se não formos inquietos, ficamos parados e há alguém que decide por nós e isso é sempre mau.

G. — E para além dessa inquietação, esta edição da MONSTRA também é marcada pela celebração do centenário da animação portuguesa. Talvez numa coincidência feliz, a primeira nomeação para um Óscar de uma produção portuguesa, coincidiu com o centenário. O que significa esta nomeação para o cinema de animação portuguesa? 

F. G. — É um grande orgulho e acredito que, antes do mais, é um grande orgulho para o João Gonzalez e para o Bruno Caetano, que é produtor do João. Depois, naturalmente, para todos nós que fazemos parte desta comunidade, é um orgulho também muito grande e sentimo-nos ao lado dele a voar, como as personagens do seu filme, com esta nomeação. Essencialmente, vem trazer uma realidade que quem está mais ligado ao cinema de animação já conhecia e já percebia, mas que quem está mais longe, talvez não tivesse tanta sensibilidade para isso, que é: mais tarde ou mais cedo era isto que ia acontecer. Aliás, há três anos, a Regina Pessoa, acho que não estou enganado, ganhou um Annie. Ela não estava na shortlist para os Óscares, mas estava na shortlist para os Annie e foi a vencedora, ou seja, é o segundo Annie que o cinema português tem para o cinema de animação. Apesar de tudo, o Ice Merchants, O Homem do Lixo, A História Trágica com Final Feliz, A Suspeita, estou a dar alguns exemplos de filmes feitos por vários realizadores e realizadoras portuguesas, já ganharam grandes festivais, como o Cartoon d'or, ou seja, prémios europeus e que, para nós, enquanto pessoas ligadas ao cinema de animação, têm até um peso maior do que o Óscar, porque as pessoas que votam são pessoas muito ligadas ao cinema de animação, são pessoas que conhecem muito bem o meio e as técnicas e os prémios que dão são prémios com conhecimento aprofundado. Às vezes, o Óscar é dado por um conjunto de pessoas da academia, onde há naturalmente muito boa gente, conhecedora profunda do que é o cinema de animação, mas também há muita gente que vota mais tendo em conta o conselho do filho, da avó, etc, porque conhece menos e conhece mais o lado da indústria e menos o lado da animação. De qualquer modo, ele tem o peso que tem e por isso mesmo nos enche de orgulho e, ao mesmo tempo, há este lado histórico, como dizias. É interessante que 100 anos depois do primeiro filme de desenho animado português que nós conhecemos, há um filme português nos Óscares. Isso é interessante e ao mesmo tempo traz-nos para uma exposição que estamos a programar na Cinemateca Portuguesa que tem mesmo esse nome, “100 anos da animação portuguesa”, e quem vier ver a exposição vai poder olhar esse trajeto centenário de muitos e bons filmes, de muitas e grandes obras, com uma sensibilidade enorme, muito ligadas à nossa cultura e que demonstra que apenas há um problema aqui: o facto de nós termos pouca capacidade, se calhar, de divulgação daquilo que nós fazemos de muito bom e a maioria das pessoas não conhecer. Eu acredito que quando as pessoas começarem a ver aquilo que é o cinema de animação português e começarem a ver as obras, vão começar a perceber porque é que o Ice Merchants está nos Óscares e outros filmes até já podiam lá ter estado também.

G. — Nesta edição, entre os mais de 400 filmes programados e os cerca de 50 países representados, verifica-se um destaque de produções de países da CPLP. O que é que espoletou este estreitar de vínculos entre estes países? 

F. G. — O AnimaCPLP é um projeto muito interessante e que, na realidade, foi espoletada numa conversa com um amigo nosso, o João Marcelo, que é o representante brasileiro na CPLP e que numa conversa que estávamos a ter sobre como é que podíamos alargar a importância das várias culturas que falam a língua portuguesa também presentes no festival. Então, surgiu esta ideia de fazer o AnimaCPLP, ou seja, um conjunto de filmes que são feitos em Portugal e no Brasil onde há, apesar de tudo, uma maior produção, mas onde também fomos à procura de produções que existem e que já começam a crescer, especialmente em Angola e Moçambique, mas também que começam a aparecer e começam a existir em Cabo Verde, com coisas mais históricas. Pensámos que este embrião, que começa este ano no festival, pode ser um primeiro passo para que, nos anos seguintes, possamos ter as Guinés e Timor também neste grupo dos nove países que têm língua oficial portuguesa. É uma retrospetiva muito interessante, tem vários níveis, porque há países mais desenvolvidos ou com mais hábitos de fazer animação há mais tempo. Estou a lembrar-me do filme do Marão que vamos estrear, no dia 16, no El Corte Inglês, e ele vai estar connosco, é um grande realizador brasileiro. Ele vai falar sobre o seu trabalho e traz consigo a Rosaria, que é também diretora da animação, que é uma grande animadora brasileira. Também poderia destacar, dentro daquilo que é a CPLP, as duas longas portuguesas, Os Demónios do Meu Avô e Nayola, [este último] que tem uma intervenção angolana relativamente forte, visto que todos os atores que dão voz às personagens são angolanos. Acho que é um programa muito interessante que se vem juntar ao programa português, onde temos filmes como o Ice Merchants e O Homem das Pernas Altas, que é uma estreia mundial. Há uma coisa que a animação portuguesa tem de muito interessante, que é o facto de expressar aquilo que é a nossa cultura. Nós não copiamos ninguém, nós usamos aquilo que conhecemos e que sabemos contar muito bem aos outros. Ao contrário daquilo que às vezes a gente pensa, talvez tenha aprendido isso também com Antropologia, as nossas diferenças não são tão grandes quanto isso enquanto cultura. Há pequenas diferenças, claro, e ainda bem, e nós queremos conhecer essas diferenças, por isso o festival tem mais de 50 países presentes, de vários continentes e de várias formas de olhar o mundo, mas todas elas, e é isso também que nos une, todas elas e em todas as culturas nós encontramos muita criatividade, muita sensibilidade, muita poesia e muita coisa para contar e para trocar com as outras. É isso que é interessante também fazer num festival de cinema de animação e de sermos as pessoas que ajudam a escolher e a fazer este programa vastíssimo de 423 filmes.

G. — Numa entrevista à Lusa, lamentou que não existissem mais curtas-metragens, em particular de cinema de animação, nas salas de cinema. Estando mais dependentes de festivais devido à menor presença em circuitos mais comerciais, estes filmes acabam por ser prejudicados e por ter uma vida mais efémera?

F. G. — Acho que sim, não é uma novidade deste ano, é algo que nós andamos a dizer já há muitos anos. Achamos que as salas de cinema deviam promover as curtas-metragens e a forma de as promover é fazer um pacote que tenha mais ou menos uma hora e meia, o tempo normal de uma sessão de cinema de uma longa-metragem. Não tem que ser só filmes de animação, pode ser até um diálogo entre animação e imagem real e documentário, mas que venha para as salas de cinema. Da nossa experiência enquanto diretores de um festival de cinema, neste caso, de animação, [sabemos que] as pessoas vão ver sessões de curtas-metragens, quatro, cinco, seis, todas seguidas e gostam desse formato, acredito que se a distribuição comercial fizesse formatos desse tipo, quase numa espécie de formato-festival num cinema comercial, que também teria êxito. Ao mesmo tempo teria as duas coisas, que é o facto do cinema português ser mais conhecido do grande público e, ao mesmo tempo, também proporcionar ao público várias histórias, vários diálogos, às vezes até sobre uma mesma temática. Assim, poderíamos saber como é que um realizador de documentário observa uma coisa? Como é que a imagem real ou uma história de ficção com atores ou como é que um filme de animação olha para esta questão? É verdade que há um trabalho de programação que é necessário fazer, é necessário conhecer os filmes, mas nós podemos ajudar e acredito que os meus colegas que fazem outros festivais também poderão ajudar e seria uma forma de as pessoas não dizerem aquilo que nos dizem muitas vezes: 'Passaram filmes fabulosos, mas como é que eu posso ver isto? Onde é que eu posso ver isto outra vez? Onde é que eu posso continuar a ver?'. Por exemplo, o Ice Merchants está nos Óscares e as pessoas querem ver e, felizmente, ele está nas salas e tem feito uma carreira interessante em termos de público. O público gosta destas coisas, o público sabe do que gosta, mas também gosta do que não sabe, e poderia gostar da ideia de ver três, quatro ou cinco curtas-metragens e achar que é uma proposta interessante. A nossa história do cinema está cheia de obras fabulosas, muito vistas e muito respeitadas e premiadas no mundo inteiro, mas nós ficamos tristes que o nosso público só as veja nos festivais. 

G. — O futuro do cinema de animação portuguesa revela-se muito promissor? 

F. G. — Se eu falar da parte do lado de quem faz, dos realizadores, dos argumentistas, dos produtores, acredito que ele é bastante promissor, mas eu acho que às vezes falta-nos também o outro lado dessa sensibilidade. Existe já um bocadinho… Estou a falar das instituições públicas que dão apoio ao cinema em geral e também muito particularmente ao cinema da animação. Naturalmente, o ideal seria termos mais, termos o dobro, e faríamos o dobro dos filmes e teríamos o dobro da qualidade e o dobro dos prémios, mas depois há um outro lado que também nos deixa tristes que é o facto de a indústria, da iniciativa privada que, apesar de tudo... Às vezes, dizemos que o governo fica-nos com muitos impostos, é verdade, mas o que o governo não nos fica de impostos, ficam-nos as empresas, porque ao fim de um mês o nosso salário desapareceu. Uma parte ou uma percentagem, em função daquilo que a gente ganha, é para os impostos, mas a outra percentagem, que até é maior, vai para aquilo que nós compramos e consumimos. Isso faz com que as empresas, ou algumas empresas, tenham lucros fabulosos. Aquilo que nós perguntamos é porque é que estas pessoas que têm estes milhões todos, não põem também uma parte desses milhões na cultura e, neste caso específico, no cinema de animação, ou no cinema em geral? E aí, o que é que a gente conseguiria? Vamos pensar que o governo põe 25 ou 30 milhões, imaginemos que a iniciativa privada põe outros 30 milhões, nós conseguiríamos fazer o dobro dos filmes. Por exemplo, acabámos agora de fazer duas longas metragens, como não há continuidade, ou seja, não há dinheiro para continuar a produzir mais longas-metragens, uma boa parte destas pessoas que ganhou o know how, um conhecimento aprofundado, fez um trabalho muito bom, o que é que está a acontecer? Os ingleses, os brasileiros, os americanos, os australianos levaram essas pessoas todas para trabalhar com eles. Ou seja, nós formámos pessoas, pagamos a sua formação de alguma forma e quem vai tirar partido disso é o exterior. É verdade que isto não é exclusivo do cinema... Agora, imaginemos que temos mais de 30 milhões que vêm da iniciativa privada para fazer cinema: essas pessoas se calhar tinham trabalho, ficavam cá e os filmes que fizéssemos a seguir ainda eram melhores, porque havia um saber adquirido que fazia com que a parte do saber fazer bem animação seria melhor e teríamos de certeza uma história, um cinema, uma cultura muito mais forte, que chegaria a muito mais pessoas e que traria também, acredito que sim, dividendos não só culturais, não só de rentabilidade social e de rentabilidade do prazer da nossa cultura ser conhecida, mas talvez viria também com isso algum retorno económico que poderia compensar o investimento.

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