No processo de investigação e escrita da reportagem “No Palco da Cultura Drag, Canta-se o Orgulho de Sermos Nós Mesmxs” todos os caminhos pareciam ir dar a Deborah Kristall. Figura incontornável do transformismo em Portugal, Fernando Santos veste-se quase todas as noites de Deborah Kristall para, no Finalmente Club, dirigir os shows. Quem lá vai para assistir diz que é inesquecível, quem se junta ao Lugar às Novas vê-o como um exemplo.

Eu devo toda a minha carreira artística e todos os momentos que eu tive até hoje em palco, mas também em trabalhos de fotografia, ao Fernando Santos, que foi o meu condutor para eu chegar aqui. Para eu querer isto. Foi ele o grande condutor, realmente”, dizia-nos Simão Teles [Symone De Lá Dragma] em entrevista, ainda antes do nosso encontro com Fernando. A generosidade caracteriza Fernando tanto quanto Deborah Kristall — como assentava já a Susy Flower e Deborah Snake, os nomes que foi tendo para a mesma personagem sempre em construção. 

Combinámos encontrar-nos na Praça da Alegria, num final de tarde de verão pontuado por chuva passageira que nos obrigou a ir mudando de poiso. Sem maquilhagem e de cabelo curto, Fernando trouxe Deborah no olhar e na mente; por muito que se encontrem apenas em palco, há pontos que os ligam para onde quer que possam ir. Se dissesse ao miúdo de 17 anos que, em 2020, o seu nome seria clássico na História do transformismo em Portugal, talvez não acreditasse; mas, a verdade é que o é. 

Fernando Santos tem muito de Deborah Kristall, mas não é apenas Deborah Kristall. Na sua alma de artista, que tem “desde que nasceu”, há ainda espaço para muito mais que possa vir. Mas onde quer que vá, o legado da sua personagem assenta na “autenticidade de uma fadista”, e na “bravura de uma flamenca”, que ninguém pode tirar. No fim de tarde que hoje eternizamos num lugar virtual, conversámos sobre a liberdade de sermos quem queremos ser, a americanização da cultura drag e a importância de manter a distância.  

Gerador (G.) – Quando conversei com o Simão [Symone de Lá Dragma], ele partilhou comigo que o Fernando teve um papel muito importante na sua entrada para o transformismo. Gostava de lhe perguntar a si, ainda que já tenha falado sobre o início de tudo noutras entrevistas por diversas vezes, se também teve alguém a dar-lhe a mão quando começou.
Fernando Santos (F.S.) – Sem dúvida. Aliás, fui convidado por um rapaz, que já era um homem, e que tinha vindo do Ultramar há uns anos, que se chama Perdigão, e que toda a gente conhece por esse nome. Foi a primeira pessoa a convidar-me para atuar num bar, que hoje é a segunda sala da discoteca Trumps, e que na altura era uma casa separada — eram dois espaços separados por uma parede no meio. Eu fui convidado aí para ir trabalhar numa casa na Amadora, que tinha acabado de abrir (o Fórmula 1), e que consistia numa discoteca com um espetáculo de transformismo, travesti — que era o que chamávamos na altura. E foi com esse Perdigão que eu comecei a fazer o que não sabia fazer; não tinha a mínima ideia, fui convidado por ser um miúdo de 18 anos, muito bonitinho (porque com 18 anos todos somos bonitos). 

Tive algumas dificuldades a começar, porque não me adaptava muito bem ao facto de ter de fazer uma coisa que não tinha sido preparado para fazer, mas depois mudou, com o tempo e com a insistência das pessoas — sobretudo com algumas pessoas do público. Algumas pessoas conseguiram ser visionárias, porque para mim era muito difícil acreditar que ia conseguir fazer alguma coisa de bom nesta área e, contrariamente àquilo que eu julgava que poderia acontecer, resultou. Isto passado alguns anos, claro; não foi logo um ou dois anos depois de ter começado. 

G. – E nessa altura já havia esta coisa das madrinhas e dos padrinhos, dentro do que era o transformismo?
F.S. – Já, dentro do pouco que havia. E o pouco já era muito, porque em 1974 foi o 25 de abril e logo um ano depois, quando as pessoas começaram a sentir que aquilo era de verdade, que não se voltava atrás, começou a haver transformismo. Não é como algumas pessoas dizem, que muito antes já havia. Claro que vestir-se de mulher no Carnaval, toda a gente poderia vestir-se naquela época, mas profissionalmente só se pôde começar a fazer no pós- 25 de Abril. No ano de 1975, sem dúvida, foi quando as pessoas tiveram a certeza de que estavam à vontade para fazer o que queriam. O Scarlatti Club abriu, e foi para sempre o melhor bar nesta cultura LGBT, e depois abriram outros satélites à volta, como o Finalmente, o Trumps, ou o Memorial, que era gay friendly. Mas nunca se podia assumir o transformismo, a não ser nos carnavais. Entre 75 e 80 foi o semear de toda esta cultura, e daí para a frente foi o assentar; fazer realmente com que tudo crescesse e florescesse. Foram os anos de ouro do travesti, transformismo, drag queen

G. – Pois, o nome foi mudando. Esse é um sinal de que o próprio movimento foi mudando com o tempo? 
F.S. – Eu penso que não… o travesti é a palavra correta, porque tudo aquilo que se traveste é o que se veste do que não é. Nós vestimo-nos de mulher, que não somos. E é a palavra que também mais soava, porque era a palavra parisien. Era o Paris, Travesti — isto tem canções, inclusive. Nós não estávamos tão ligados aos Estados Unidos quanto hoje, a capital da Europa e do Mundo era mais Paris do que Nova Iorque. E o travesti vem daí. Depois, de repente, surgiu o transformismo para dividir o travesti de rua, da prostituição, e o travesti de palco que não tem relação com a prostituição. E então, surgiu a palavra transformismo para salvar um bocadinho o artista, para não ficar tudo colado e as pessoas saberem quem contratar. O drag queen veio com a explosão americana do RuPaul e com estes programas fabulosos dele, que têm subido as audiências deste campo.

G. – Antes de falarmos do fenómeno RuPaul, gostava de ir um bocadinho mais atrás. O Fernando, em várias entrevistas, já falou do seu pai, inclusive numa que deu ao Aurélio Gomes para o canal Q, e mencionou o facto de o seu pai ter sido um artista e lhe ter passado sensibilidade. Sempre teve espaço para ser quem queria ser, em casa?
F.S. – Uma vez disseram-me uma coisa que eu achei muito interessante e que me ficou muito marcada, que foi que eu tenho a humildade de alguns nomes portugueses (que não tenho a coragem de dizer o nome porque pode parecer pretensioso). Mas eu acho que tenho é a humildade dos portugueses, porque nós não somos uma cultura muito pretensiosa, sentimo-nos pequeninos, e como tivemos aqueles anos todos de ditadura, obrigaram-nos a sentir pequenos. Eu nunca tive espaço, porque nunca tive intenção. Nasci artista, e isso é a única coisa que eu me imponho, porque é verdade; mesmo em miúdo, fazia coisas que as pessoas diziam que era de artista, só que por pouca sorte a minha mãe não achava graça, porque se não eu tinha sido mesmo um ator no teatro ou na Revista. Sobretudo na Revista, porque eu acho que tem muito mais ligeireza para mim, porque gosto de saltar de coisa para coisa, e aquilo não é propriamente fazer uma peça dramática. Eu acho que tinha sido um ator de Revista, porque cantava bem e era capaz – como sou, hoje – de cantar, dançar e representar, por isso acho que em musicais ou em Revista teria ficado. E havia dezenas de pessoas que diziam “este miúdo devia ir para o teatro”, mas para a minha mãe era a última coisa que queria, porque como tinha mais duas filhas, o rapaz era o que ela esperava que fizesse o papel… do rapaz que ela queria ter, pronto. Para bem ou para mal, aconteceu exatamente aquilo que ela não esperava: eu fui artista à força, era o meu destino.

G. – O que tem de ser, tem de ser. 
F.S. – Claro! 

É no Finalmente Club que Deborah Kristall atua há 20 anos / Fotografia cedida por Fernando Santos

G. – Lembro-me que nessa mesma entrevista com o Aurélio Gomes falava sobre a importância do nome para um transformista, e o Fernando já teve vários. Este processo de construção do nome, de alguma forma, tem que ver com a construção da personagem que se quer ter? A mudança de nome também representa alguma mudança nessa persona?
F.S. – Sem dúvida. Quando comecei não sei quem é que me pôs Susy Flower, mas depois no ano de 84 lembro-me que estava com dois colegas com quem trabalhava numa casa aqui ao Campo Santana (éramos um trio), esse ano foi uma loucura — tanto é que trabalhei com as duas pessoas com quem gostei mais de trabalhar até hoje —, e foi aí que mudei de nome. Eu e esses amigos fizemos um grupo muito interessante, e quando percebemos que já não sabíamos mais o que fazer, decidimos que os nossos nomes também deviam mudar. E eu, no meu caso particular, foi porque também começava a haver muitas Susys: era Susy Scott, era Susy Sweet, Susy Laverne… era uma série de Susys! E houve um dia em que mudámos todos; eles mudaram os apelidos, e eu mudei na totalidade. Disse: “eu vou chamar-me Deborah Snake”, houve uma grande gargalhada e eles perguntaram “mas porquê Snake?” Eu respondi “é para assustar” [risos], porque na altura havia aquela rivalidade de trabalho, umas vezes mais saudável do que outras. E depois curiosamente, em 1991, numa casa em que eu estava a trabalhar no Norte de Espanha, em Zaragoza, havia um apresentador de espetáculos que, muito aflito, me confessou ao segundo dia que era a pior coisa que lhe podia acontecer, porque tinha uma superstição com a palavra snake e era o nome que lhe custava mais a apresentar, num espetáculo que ainda era grande e tinha vários artistas. Eu tinha um contrato de três meses e pensei – “não vou sacrificar o homem durante três meses”. Nessa altura, eu andava muito interessado com a energia dos cristais, porque gosto muito de pedras, e andava a ler imenso sobre a matéria. Então, pensei no nome cristal, que ainda por cima tinha a vogal aberta — KristALL. No dia a seguir fui ter com ele e disse-lhe. “a partir de hoje não me apresentas mais com aquela palavra que tu não gostas, porque eu agora sou Deborah Kristall”, e o homem fez-me uma festa. E eu gosto que essas coisas aconteçam, que as pessoas fiquem felizes, para que o meu trabalho também corra bem. Quando cheguei a Portugal, já não mudei.

G. – Até hoje. Nessa altura, sobretudo nos anos 80, também surgiram muitos clubes que já não existem hoje… o Fernando sente que, a certa, altura, o movimento LGBT começou a distanciar-se dos transformistas, ou a agir como se estes não fizessem parte do movimento? Pergunto-lhe isto porque tem sido, já há alguns anos uma discussão recorrente: pensar que o movimento LGBT vai além de podermos gostar de quem queremos, mas nem sempre se representar todos os membros do movimento de forma interseccional.
F.S. – Eu acho que cada cabeça, sua sentença. Há sempre um preconceito sobre qualquer coisa, e, quando não há, parece que se tem de ter só para chatear.  Há pessoas que têm este espírito de contradição que é muito aborrecido. Para mim, acontecem ciclicamente algumas transformações, e eu senti isso quando apareci, senti depois em meados dos anos 80, nos anos 90, e continuo a sentir agora. Há pessoas que ainda têm muito pouca empatia por outras pessoas e por outras formas de estar na vida. Não sei porquê, às vezes até sinto que é uma coisa rara: porque a mim, nem cor de pele, nem credo, nem religião fazem diferença. O importante para mim é respeitar o outro ser; isso para mim é fundamental. E que me perdoem, mas levo-o como uma bandeira hasteada. Agora, se é transexual, se é bissexual, se é homossexual, se é o que quer que seja: desde que me respeite, como eu faço por respeitar os outros também, não há mais nada que importe. 

Mas para lhe responder diretamente, não sei se é algo que esteve sempre presente ou se é agora que acontece mais ou menos. Até porque também nos anos 80 havia os próprios gays contra gays, só por questão de diferença de idades, por exemplo. Embora por um lado achassem muita graça, se tivessem algum ciúme, já era um caso para levar a uma situação muito mais difícil do que é hoje. 

G. – E porque o movimento LGBT se relaciona sobretudo com uma questão de identidade, gostava de convocar uma frase que o Fernando diz recorrentemente: “de homem não passamos, a mulher não chegamos”. Na entrevista que fiz à Ana Cristina Santos, a socióloga falava na “expressão de género” que, a seu ver, é o território onde se movem transformistas/drag queens. Como é que olha para isto?
F.S. – Eu digo isso porque aconteceram algumas situações ao longo do meu percurso artístico, em que algumas pessoas acreditaram mesmo no seu personagem. Acreditavam que eram, e vivenciavam, o seu personagem, e isso levou-as a fins dramáticos. O facto de eu dizer isso é quase um alerta, como que a pedir que as pessoas tenham uma reflexão e que percebam que das duas uma: ou a pessoa sente que precisa de se transformar e que passa a transexual ou, no nosso caso, se é o artista e depois consegue deixar a pele da personagem no camarim. Se mistura isso mal misturado, infelizmente, com base nos casos que conheço, é dramático. É por isso que quero alertar para que não se iludam, e que o facto de ficarem umas mulheres muito bonitas, ou que as pessoas que vos vêem vos digam que, de facto, fazem mulheres fantásticas, sabem que tudo aquilo é um conjunto de ilusão de ótica criado pelo guarda-roupa, pelos adereços, pelas luzes, pelo som, pelo momento em si, pela hora, pela magia que conseguimos transmitir enquanto artistas. Mas quando tudo aquilo acaba, “quando as luzes se apagarem e quando eu me despintar”, “foge do meu camarim, não fiques dentro de mim”.

Na canção “Vista de Camarim”, citada por Fernando, Simone de Oliveira fala sobre a relação entre intérprete e personagem

G. – E sente que a ditadura da beleza imposta às mulheres passou também para o transformismo? Ainda que agora até se comece a desconstruir…
F.S. – Eu acho que não [se começa a desconstruir], pelo contrário. Para mim, que estou a chegar a uma idade em que a beleza faz outro sentido no espelho, é diferente. Mas de qualquer das formas, acho que quando comecei, artisticamente, acabavam por dar valor não só ao facto de a pessoa ser muito bonita. Claro que me diziam – “és um miúdo muito bonito e podes fazer muito melhor” — não ficava só por –  “és a mais linda de todas, não te preocupes”. E acho que isso é algo que está a acontecer muito hoje: as pessoas exigem de um homem que supere as mulheres. Eu não acho bem. Para quem vai ver um espetáculo, deve querer ser um surpreendido com qualquer coisa simpática de ver, porque se alguém quer ir ver um desfile de beleza vai ver a Miss Universo. 

G. – E o “Lugar às Novas”, mais do que uma rampa de lançamento, é também um sítio para pensar em conjunto todas essas questões; para dar ferramentas a quem começa para se poder questionar do caminho que quer seguir? 
F.S. – É sobretudo para experienciar. Monetariamente ganham muito pouco, mas têm a sua oportunidade de estar em cena e de ver o quanto têm liberdade ou não, qual é a sua possibilidade, qual é o seu potencial. E isso é bom, acho eu. Mas há agora um compromisso com o que vêem do RuPaul (Drag Race) e o querer chegar lá, ou ultrapassar. Eu vejo muito pouco para não me influenciar, porque se não começo a achar que um vestido com três mil pedras é muito pouco, porque eu já gostava de ter com seis mil para superar aquilo; ou vejo aquele boneco que se desconstrói em pétalas de rosa, e que eu tenho de fazer igual mas com pássaros a sair da cabeça. E daqui a pouco estamos num exagero que não conseguimos controlar. Não há espaço, não é a mesma realidade; a realidade portuguesa não tem nada que ver com a americana, somos um país muito pequenino. 

G. – Sei que o cinema ocupa um lugar muito importante para si, não só pela sua relação direta com a área, mas também por referências que foi tendo ao longo da sua vida, e que viu pela primeira vez numa tela. 
F.S. – Sem dúvida. 

G. – Acha que o audiovisual pode representar esse lugar de pertença? Por exemplo, para pessoas mais novas que estão a entrar no transformismo e que ainda não sabem que há mais gente como elas.
F.S. – Claro que sim! O cinema, as séries, os programas que se possam fazer, independentemente de serem portugueses ou não, são sempre importantes. Claro que depois podemos filtrar o que realmente nos interessa e chegar à nossa realidade, mas é sempre bom ver. Eu digo isto do RuPaul, mas não perdi o espetáculo no Tivoli BBVA, para já porque tinha muita curiosidade de ver se realmente era assim algo de tão extraordinário ou não.  Aquilo tem uma grande produção e tudo o que foi conseguindo ser criado ao longo do tempo, e está a melhorar cada vez mais. Mas como em qualquer profissão que se comece, quanto mais informação e bases onde se sustentar houver, melhor. Ou então fazer um personagem seu, não baseado em nada nem em ninguém, e aí o mérito também é totalmente seu. 

G. – O Simão [Symone de Lá Dragma] falava disso, de como há uma espécie de geração RuPaul.  
F.S. – As make ups, tudo isso acaba por ficar muito idêntico e depois quem vê uma ou duas, parece que acaba por ficar satisfeito. Em Portugal não temos poder económico ao ponto de superar o que vemos, portanto quando se faz são umas imitações. A facilidade de comprar coisas na Internet, também ajuda muito! Quando eu comecei era completamente diferente. 

G. – Era o que lhe ia perguntar, se o panorama nesse tempo era muito diferente.
F.S. – Meu Deus… hoje entramos na Internet e é como se estivessemos na Walt Disney e fossemos umas crianças. Depois vemos coisas que nem sonhávamos que existiam! A gente quase não acredita que seja possível que, num clique, tenha aparecido tanto mercado.

G. – E ao mesmo tempo também sair dos circuitos habituais. Se antes os shows de transformismo viviam mais à noite, hoje já existem programas de televisão, espetáculos durante o dia e brunches. Acha que a lógica de vida capitalista também foi entrando nesta cultura, ou é apenas um modo de subsistência como outros?
F.S. – Eu acho que sim, é um modo de subsistência. E é um espetáculo que está sempre atual! Quando está enraizado em vários pontos do Mundo, acaba por ser uma coisa que é mais comercial…

A versatilidade é uma das características de Deborah Kristall / Fotografia cedida por Fernando Santos

G. – Há pouco o Fernando falava de como Paris era a capital e que hoje todas as atenções se viram para a América, e existe o fenómeno RuPaul. Acha que também já não se bebe tanto da cultura portuguesa para os shows?
F.S. – Eu pessoalmente acho que não, mas cada pessoa faz aquilo que acha melhor. Toda a gente faz a ponte que quer com o mundo, e tem liberdade para o fazer. Acho que tudo é viável desde que seja para construir e para melhorar o seu projeto profissional. O RuPaul foi um ponto alto, e também tem todo o mérito, mas antes também se falava de na Tailândia haverem homens que se pareciam exatamente como mulheres, e quem podia ia lá.

G. – Exato, os lady boys. E acha que Portugal é um país que respeita o transformismo?
F.S. – Eu acho que Portugal está naquele ponto em que não sabe bem para que lado é que há-de cair. Está ali no fiel da balança a tentar perceber o que é que vale a pena apoiar, e o que é que não vale a pena apoiar. A situação agora infelizmente piorou, e não sabemos a que é que isto nos pode levar. Estávamos num bom caminho, havia uma abertura muito maior – havia mais associações, havia mais defesa, havia mais proteção; pelo menos parecia isso e fazia-me acreditar que sim. Mas sinceramente não sei o que pode vir, e o que pode acontecer.

G. – Ao envelhecer, o Fernando sente que tem quase a missão de dar essa proteção a quem entra, e de passar o seu conhecimento?
F.S. – Se me solicitarem, sem sombra de dúvida. A qualquer pessoa. Ainda há uns dias estive a fazer um ensaio com um ator que vai começar uma série para a RTP em que vai fazer um transformista, e que me disse – “Fernando, tens de me ajudar, eu vou interpretar um transformista e queria perceber como é que farias isto”. Estivemos a ensaiar uma tarde e ficámos de, no próximo fim de semana, ensaiar de novo. E é um ator de teatro, que poderia não precisar de ajuda, sabe perfeitamente interpretar. 

G. – E é algo que acaba por fazer também no Finalmente, dar a mão a quem o solicita. É engraçado porque, apesar de o Finalmente ser um espaço que se associa muito a si – a Deborah Kristall acaba por ser a cara do clube -, a sua relação com o espaço foi sendo mais distante  ou mais próxima. Hoje em dia o Finalmente é uma segunda casa ou efetivamente A casa para si?
F.S. – Não é a segunda casa, é mesmo a casa. Tenho toda a liberdade para fazer o que eu quero, como quero e quando quero, e isso é muito importante. Sou eu que crio os espetáculos, a parte artística está à minha inteira responsabilidade. Dá-me muita liberdade para criar, mas também não é tão fácil como parece porque também tenho de lidar com as condicionantes com que a casa se apresenta: o espaço em si, o tipo de público que o frequenta, o horário em que trabalhamos. A primeira vez que trabalhei lá foi durante dois meses, em 1984, e achei que nunca mais voltava; em 1993-94 voltei e saí de novo em 1996; em 2000 voltei e continuo até agora, quase há 20 anos. 

A cultura espanhola é uma referência recorrente nos shows de Deborah Kristall

G. – E é preferível ter um palco pequeno com liberdade para fazer o que quer, em vez de ter um grande com mais limitação criativa?
F.S. – Os palcos grandes não me assustam nada. Há pessoas que dizem – “é um palco tão grande, o que é que eu vou fazer ali?” Mas eu, muito pelo contrário. Dá-me liberdade de trabalhar, e ao menos lá podemos ter tudo. Mas claro que depende do tipo de limitação… se tivesse alguém a dizer “vai fazer isto” uma vez ou duas, e que eu não achasse graça ao que me mandassem fazer, então preferia trabalhar no Finalmente e fazer o que me apetecia, do que num palco muito grande e não poder transformar nada e andar sempre limitado àquilo que alguém quisesse, a não ser que fosse alguém que eu admirasse muito. Porque também se pode dar o caso (e seria muito bom para mim) de um dia ser dirigido, ao fim destes anos de experiência de trabalho. 

G. – No começo desta conversa falávamos sobre o Fernando ter nascido para ser artista. Além deste caminho que é o seu, sente que há outros que gostava de ter seguido na vida?
F.S. – Ah, isso são os segredos! [risos] Claro que gostava… eu em miúdo gostava muito de ser advogado, achava que tinha muito que ver com a minha personalidade. Podia ser tantas outras coisas! Mas acho que iria sempre fazer um bocado de teatro na vida, se não pudesse fazer nos palcos. É bom quando temos essa capacidade na nossa profissão, como acontece com um advogado; no fundo está a fazer um personagem, a defender uma coisa. Quando acaba um julgamento, relaxa, e aquilo passou. É como outras profissões, tantas outras — ainda que umas mais parecidas com a teatralização do que outras. E se a partir de hoje não pudesse fazer mais isto [ser transformista], não era uma coisa que me preocupava. 

G. – Mas mesmo que não pudesse fazer mais, ia existir sempre Deborah no Fernando?
F.S. – Agora não deve ser muito fácil tirar isso… é uma coisa que já está cá dentro. A Deborah Kristall é uma personagem que já faz parte de mim, embora com uma distância de humor. Consigo sorrir com isso, porque é um personagem que me leva muitas vezes a rir. Mas como foi tão intenso na minha vida, e também fui obrigado muitas vezes a viver essa personagem com dramas tão fortes na minha vida, tem muita importância. Apesar de ser uma personagem, é uma personagem que tive de viver em momentos de angústia, de dor, de sofrimento, com a perda das pessoas mais importantes da minha vida (como é o caso do meu pai e da minha mãe, que faleceram um ano a seguir ao outro, e de amigos), com problemas de saúde… e ter de estar em palco a fazer rir — porque ainda por cima tenho esse papel, que sem querer entrou na minha vida, de chegar ao final e interagir. Porque podia chegar ao final e dizer – “estiveram convosco, senhoras e senhores, Samantha Rox, [Jenny] Larrue, adeus e boa noite, até amanhã à mesma hora, cá estaremos”, fechar a cortina e acabou — e faço-o quando estou mais aborrecido com a plateia —, mas todos os dias chamo pessoas ao palco, brinco, faço um entretenimento, faço perguntas, as pessoas saem divertidíssimas. Por isso, quando se está bem disposto e tudo na vida nos sorri, é fabuloso; quando estamos em dor profunda, é muito difícil. Mas se um dia, por algum motivo, tenho de deixar, ficará uma saudade, claro.  

G. – E qual é para si o expoente máximo daquilo que é ser transformista, mesmo com a instabilidade que possa existir na vida e no público?
F.S. – Eu acho que é exatamente representar aquele papel o melhor possível; dar uma dignidade àquela personagem, que as pessoas tentam quase por capricho tirar-lhe. E eu teimosamente tento dar-lhe essa dignidade, para que as pessoas valorizem aquele trabalho. E isso, se conseguir passar para quem me rodeia, e se conseguir ajudar as pessoas que continuam a fazer transformismo, se fizer com que alguém diga “eu que não gostava nada disto, passo a gostar” ou “gostei, achei interessante”, se fizer sentido e houver uma conexão, melhor. Se não, pelo menos tenho de me defender a mim, pessoalmente, e que o meu trabalho sirva como um modo de vida, como tem sido até à data, e que seja respeitado. Felizmente, tenho sido um privilegiado e tenho de agradecer à vida e ao universo porque pelos sítios que passei, tenho uma espécie de proteção divina. Eu passei por sítios tão difíceis, no norte e no sul do país, fora do país, em sítios em que me podia acontecer tudo. Já atravessei uma floresta no meio de uma carrinha velha para chegar a um cabaret no meio de uma clareira, por exemplo; ou ir para Évora por 15 dias e ficar 4 meses, porque os contratos eram de 15 dias e iam sendo prolongados. Mas houve uma época, durante 8 anos, em que trabalhei com um agente, e foram raras as casas a que eu lhe disse que não queria voltar. Por minha vontade, voltava sempre. 

G. – Ao longo da nossa vida vamos, naturalmente, amadurecendo, e todas essas coisas que aconteceram na sua vida certamente contribuíram para o seu crescimento pessoal. Mas quem é a Deborah Kristall, uma vez que também a personagem foi evoluindo?
F.S. – É uma ótima pergunta. É uma personagem que é versátil, é uma artista de palco com muitas referências e que pode fazer algumas coisas ao mesmo tempo, sobretudo tem uma presença muito latina – sem dúvida! A Deborah Kristal está muito projetada no futuro, mas segura do passado. É um peso pesado [risos], é realmente uma personagem que eu gostava de ver mais e que gostava de encontrar… tenho alguma vaidade, claro, até nesta pergunta, que nunca me tinha acontecido, por ter de avaliar a personagem. Tenho muitos registos, muitas fotografias, e sinto que é uma personagem com muita bagagem e que está preparada para fazer coisas que não se fazem de um dia para o outro, que são os anos que nos levam a aprender. Ter a autenticidade de uma fadista, ter a bravura de uma flamenca, depois passar a uma glamourosa atriz de musical americano… tudo isto junto, não lhe sei dar um nome. 

G. – É Deborah Kristall.
F.S. – É Deborah Kristall [risos]. 

Durante esta semana convocámos novamente as vozes da reportagem “No Palco da Cultura Drag, canta-se o orgulho de sermos nós mesmxs”, publicada na Revista Gerador 31. Podes encontrar a revista em que esta reportagem foi publicada aqui, o primeiro artigo da semana temática (Camel Toe, Stefani Duvet e Symone de Lá Dragma: rostos da nova geração do transformismo) aqui, e o segundo (Ana Cristina Santos: “A cultura drag foi sempre uma componente essencial do ativismo LGBTQI”) aqui

Texto de Carolina Franco
Fotografia cedida por Fernando Santos

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