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Fernando Terra: “Promovemos a poesia estando simplesmente com a pessoa e melhorando o seu momento de finitude”

Palhaço, ator, músico, formador. Fernando Terra tem um currículo vasto e destaca-se por criar iniciativas que primam pelo bem-estar social. O programa Rugas de Riso, fundado pelo artista em 2012, tem como objetivo recorrer à arte do palhaço para intervir junto de idosos e/ou pessoas com demência. Estivemos com Fernando Terra e parte da sua equipa para descobrir um pouco mais sobre este projeto e de que forma procuram alegrar os dias de quem se encontra em cuidados paliativos ou em processo de finitude. Tivemos também a oportunidade de assistir a algumas das atuações dos Senhores Palhaços, conseguindo captar a reação dos utentes que se encontram internados na ASFE Saúde.

Fernando Terra. Créditos: David Cachopo | GERADOR

Criado por Fernando Terra, o programa Rugas de Riso é uma iniciativa pioneira em Portugal. Atua desde 2012 em lares e instituições de acolhimento para idosos com demência e/ou em cuidados paliativos. A sua principal missão é a de transformar estes ambientes, “promovendo o bem-estar, a alegria e a poesia, sem infantilizar o idoso”. Para tal objetivo, os Senhores Palhaços intervêm junto dos utentes e tentam criar conexões através da música, de brincadeiras ou de uma simples conversa.

No mês de julho, acompanhámos Fernando Terra e dois dos Senhores Palhaços da equipa Rugas de Riso - a Senhora Dona Gertrudes, interpretada pela atriz Mariana Moreira, e o Senhor Palhota, interpretado pelo ator Filipe Palhais - numa das suas visitas regulares à Associação de Socorros da Freguesia da Encarnação (ASFE SAÚDE). Esta é uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), na qual se encontram internadas pessoas idosas ou dependentes que, por motivo de doença, incapacidade ou outro impedimento, não podem assegurar a satisfação das suas necessidades básicas ou atividades de vida diária.

No dia da nossa entrevista, Fernando Terra guiou-nos pelo espaço da ASFE e apresentou-nos a alguns dos enfermeiros que ali trabalham. Esta é apenas uma das mais de 50 unidades de saúde onde atuam os Senhores Palhaços do Rugas de Riso. Alguns dos outros espaços localizam-se em Mafra, Lisboa, Torres Vedras, Oeiras e até nos Açores.

Visita do Senhor Palhota e da Senhora Dona Gertrudes à ASFE Saúde. Créditos: David Cachopo | GERADOR

Fernando Terra nasceu e cresceu em Belo Horizonte, no Brasil, onde também tirou um curso de Teatro. Em 1999, imigrou para Portugal, mais concretamente para a cidade do Porto, onde realizou um workshop de palhaçaria. Segundo as suas palavras, esse foi “um mês intensivo”, no qual o ator percebeu que a arte de palhaço “não tinha nada que ver com o teatro”. Em Portugal, chegou a atuar em ruas e a fazer espetáculos para crianças, o que, mais tarde, o motivou a dedicar-se às atuações para idosos.

O currículo de Fernando Terra é extenso. Além de ter fundado este programa social, é também membro da Operação Nariz Vermelho desde 2008, já lançou três álbuns de música com temas originais e dá formações internacionais de Palhaçaria e Teatro Cómico, nomeadamente em Itália, há mais de 10 anos.

Ao longo da nossa visita à ASFE, somos acompanhados por Terra, mas também pela coordenadora do Serviço de Animação Sociocultural, Sandrina Pinheiro, que já pertence a esta unidade de saúde há 15 anos. O espaço está dividido em 11 alas, cada uma com o nome de uma flor diferente. O Gerador teve acesso à Ala das Rosas e à Ala das Túlipas.

Os Palhaços Senhora Dona Gertrudes e Senhor Palhota começaram as visitas aos quartos dos utentes por volta das 11h30 da manhã. Nem todos os pacientes permitiram a nossa entrada, nem mesmo a visita dos palhaços por estarem a descansar. Contudo, na Ala das Túlipas conhecemos o senhor Franclim Gomes dos Santos, de 83 anos, o senhor José Raimundo, de 63, e ainda o senhor Manuel Rodrigues que, deitado na maca 226, não se poupou nas palavras:

(Manuel Rodrigues) - «Se eu perguntasse que língua é que se fala no México, o que é que vocês me respondiam»?

(Senhora Dona Gertrudes, virando-se para o Senhor Palhota) - «Olha, eu dizia espanhol, não sei! O que é que dizias»?

(Senhor Palhota) - «Eu dizia mexicano».

(Manuel Rodrigues) - «Não, mas não é, não é. É castelhano. Vão lá dizer aos mexicanos que eles falam espanhol [risos]».

(Senhora Dona Gertrudes) - «Opa! Ainda bem que me diz isso, que eu estava a pensar ir lá para a semana»!

Manuel Rodrigues com o Senhor Palhota e a Senhora Dona Gertrudes na ASFE Saúde. Créditos: David Cachopo | GERADOR

Assistimos a uma conversa de mais ou menos dez minutos entre os dois Senhores Palhaços e o utente. Este, por sua vez, com o tubo de oxigénio colocado no nariz, soltava longas expirações para conseguir falar calmamente. Contou ter tido uma carreira musical no passado, com especial enfoque nas músicas mexicanas, e com a qual ficou conhecido pelo seu nome artístico: El Mano Rodrigues. Apesar das falhas na voz, tivemos a oportunidade de o ouvir cantar pequenos trechos de dois dos seus originais.

(Manuel Rodrigues) - «Vocês podem ter muito boa disposição, mas 80 anos são 80 anos. Vou fazer-vos outra pergunta: o que é que o homem inventou em primeiro lugar e que perdura até aos dias de hoje»?

(Senhor Palhota) - «Opa, essa é uma pergunta difícil».

(Senhora Dona Gertrudes) - «O que é o homem inventou que perdura até hoje…»

(Senhor Palhota) - «Deve ter rasteira»

(Manuel Rodrigues) - «Não, não tem. É verdade».

(Senhora Dona Gertrudes) - «É a “verdade”! Ah, muito bem. Ele inventou a verdade»!

(Manuel Rodrigues) - «Não, não».

(Senhora Dona Gertrudes) - «A “mentira”?»

(Manuel Rodrigues) - «Não… o que é que produz os sons musicais? É a vibração. E foi isso mesmo que o homem inventou em primeiro lugar. Foi a música. Foi a calibragem entre a vibração dos sons. Ela sempre esteve em todo o lado, embora, naquele tempo, o homem não pensasse assim».

(Senhora Dona Gertrudes) - «Ah, pois é! Tem toda a razão! E olhe, eu queria aprender a música do México. Cante lá um bocadinho para nós».

(Manuel Rodrigues) - «Eu vou cantar parte de uma música minha, pode ser»?

(Senhora Dona Gertrudes) - «Pode, pode! Nós queremos ouvir».

(Manuel Rodrigues) - «Sabem que o cantor Pedro Infante (1917-1957) morreu num acidente de avião? Ele foi um dos maiores cantores mexicanos. Então, quando ele morreu - estava eu no auge da minha carreira musical - escrevi uma canção sobre a morte dele. É pena já não ter a voz que tinha antes. Mas então é assim:

(Manuel Rodrigues) - «Fiz carreira de cantor e, em África, fui dos mais bem pagos. Percorri todos os países da África Austral» (atualmente conhecida como África Meridional).

(Senhora Dona Gertrudes) - «Olha, viste»?

(Manuel Rodrigues) - «Eu punha as pessoas a chorar. Vou cantar outra»:

Saímos do quarto do senhor Manuel Rodrigues e prosseguimos com a visita pela unidade de saúde. Os Senhores Palhaços entram e saem dos quartos dos utentes, conversando rapidamente com eles, somente para lhes alegrar o dia. A maioria destes idosos encontra-se em situação de vulnerabilidade clínica, mas também social, não tendo muitos familiares que os possam visitar. Daí a importância deste programa.

O Rugas de Riso é uma iniciativa gerida pela Associação Cultural MELECA, também criada por Fernando Terra, juntamente com a sua esposa Rosana António, em 2013. Está sediada na Ericeira e foca-se nas vertentes artísticas da música, do espetáculo, da literatura, do ensino, do cinema e do artesanato. Para além disso, foi também a associação fundadora da Academia de Teatro – composta por alunos de diferentes faixas etárias - e do Núcleo Profissional de Teatro – constituído por artistas já habilitados para atuarem para o grande público em palcos, escolas, ao ar livre, em festivais e/ou eventos públicos e privados.

Para falarmos um pouco melhor sobre estes projetos, Fernando Terra, que usa o nome de Senhor Kazú para atuar enquanto palhaço, leva-nos para uma pequena sala da ASFE Saúde e iniciamos a nossa entrevista.

Entrevista a Fernando Terra. Créditos: David Cachopo | GERADOR

Dizes que no workshop de palhaçaria que fizeste no Porto, percebeste que essa arte nada tinha que ver com o teatro. Porquê?

Enquanto o ator de teatro coloca máscaras para se transformar em outra pessoa que não é, o palhaço tira todas as máscaras para mostrar o que ele é. O palhaço não é uma personagem. O palhaço é o melhor que você tem. Ele é o exponencial do seu ridículo, daquilo que você pensa, daquilo que você acha que deveria fazer naquele determinado momento e que acaba por não fazer [noutras ocasiões], porque foi colocando máscaras ao longo da sua vida. O palhaço tira tudo isso! Pode dar uma prenda para um palhaço e ele perguntar: “O que é que eu vou fazer com isso”? [risos]. E aí vem o riso, porque é a verdade! Portanto, isso é o que me fascina na arte do palhaço.

Mas sentias que tinhas essas barreiras emocionais antes de seres palhaço?

Eu acho que eu tinha… muitas delas. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que não as tinha, porque não passava em castings nenhuns, nem para publicidades nem nada. Em determinado momento, sempre havia alguém que me dizia assim: “Olha eu não quero palhaço, eu quero trabalho de ator”. Eu chegava a fazer espetáculos de teatro lá no Brasil e, como ficávamos meses em cartaz, lá no meio da temporada, dava por mim a eliminar a “quarta parede do teatro” (convenção de que, na arte do teatro, existe uma “parede” imaginária que separa os atores do público). Começava a olhar para a plateia, começava a me relacionar com alguém da plateia, tipo trocar comentários ou determinados olhares. Sempre fiz coisas que me levavam mais para o mundo do palhaço. Um espetáculo de palhaço não é o mesmo todos os dias, já o de teatro sim. Essa falta da mesmice é o que me agrada. Por mais que haja rotina, eu posso sempre colocar coisas a mais, coisas que vêm de dentro. Se um ator de teatro deixar cair um copo no meio do espetáculo, ele vai improvisar algo rapidinho para poder continuar a cena. O palhaço, se for preciso, entra para fazer um espetáculo inteiro sobre uma coisa, mas se tiver deixado cair um copo ao início, se calhar, todas as cenas dali para a frente serão sobre o copo caindo!

Como surgiu, então, o projeto Rugas de Riso?

O Rugas de Riso surgiu em outubro de 2012, no Lar Mansão Santa Maria de Marvila – que agora já não funciona enquanto instituição para idosos. Eu pensei: “Se faço isto para criança, também consigo fazer para idoso”. Na minha primeira visita ao lar, eu achava que iria ser exatamente a mesma coisa. Mas não. Eu cheguei lá com alguns truques na manga, com umas músicas, mas percebi que não era assim que ia funcionar. Não adiantava eu cantar uma música do António Zambujo (cantor português) para uma senhora que tivesse alzheimer, se ela era do tempo do Carlos Paião, por exemplo. Não adiantava eu falar para as pessoas sobre as atualidades, porque eu tinha de trabalhar com as memórias ativas delas. Por mais que elas até entendessem, não era do seu interesse. Foi aí que eu comecei a adaptar o figurino à época em que aquelas pessoas viveram – 1950, 1960 – e tudo começou a melhorar.

Em Portugal, não existiam grupos que fizessem este tipo de trabalho para idosos. Só no estrangeiro, como no Canadá ou na Áustria, por exemplo. Mas nenhum deles encaixava bem na realidade portuguesa. Como eu já cá estou há muitos anos, foi fácil ir à procura do que pudesse fazer sentido para este projeto. Apesar do sotaque brasileiro, eu me sinto muito de cá, porque já vivo em Portugal há 25 anos! É mais de metade da minha vida. Aí, eu comecei a entender que o universo do idoso é muito mais subtil, muito mais poético, muito mais profundo e que as pessoas não têm paciência, talvez por se tratar de um adulto ou porque não têm preparo, logo acabam por o infantilizar. Eu cheguei a levar instrumento de brinquedo para o Lar [Mansão Santa Maria de Marvila]. Entrei no primeiro quarto e pensei: “O que é que eu estou fazendo com isso na minha mão”? Nesse momento, eu enfiei aquilo no bolso e nunca mais tirei.

Entrevista a Fernando Terra. Créditos: David Cachopo | GERADOR

Um ano depois, surgiu a Associação Cultural MELECA.

Sim, em 2014, eu e a Rosana [António] – a minha esposa – achámos que já tínhamos feito um certo número de visitas aos lares e que, para podermos continuar, deveríamos oficializar as coisas. Decidimos então criar uma associação que abrangesse o Rugas de Riso, mas também outras iniciativas. Foi assim que surgiu a MELECA – Música, Ensino, Literatura, Espetáculos, Cinema e Artesanato. A associação tem três frentes fortes, que são: o Rugas de Riso, a Academia de Teatro, da qual fazem parte 40 alunos dos 6 aos 18 anos, e o Núcleo Profissional de Teatro, que promove espetáculos em auditórios, escolas e festivais. Portanto, a MELECA nasce como uma espécie de umbrella [guarda-chuva] que abrange essas três frentes.

Entretanto, já se passaram 10 anos de Rugas de Riso. Como descreves este período de tempo?

De aprendizado. Já perdi a conta à quantidade de lares que visitámos. Foram centenas. Tenho tido artistas que vêm, artistas que ficam, artistas que não se adaptam. O que é normal, porque é uma realidade muito diferente da de um palco. As pessoas não pagam para assistir a um espetáculo. Na verdade, é uma interação que chega para elas, eu nem chamo de espetáculo, muito menos de animação. Então, essa interação que chega, feita por palhaços – os quais eu chamo de palhaços humanizadores, porque chamá-los de relacionais é generalizá-los e isso não me faz sentido – é importante para percebermos este nosso processo de finitude. Era aquilo que estávamos a falar há pouco. Como é que a gente sai dos nossos 20 anos e acaba numa cama olhando para o teto? A vida é um momento. Se calhar, se você for escarafunchar, essas pessoas que estão agora olhando para o teto, foram superativas, foram diretores, militares, pilotos de avião. É assustador.

Ao longo desses anos, percebi que esse tipo de projeto não pode acabar. Não tou me achando a última coca-cola do deserto, mas os projetos que trabalham o lúdico dentro do contexto clínico, eles estão ali, porque o staff do lar ou do hospital não tem tempo! Não tem tempo para brincar, percebe? Eles trabalham com a doença das pessoas, não podem simplesmente parar e cantar uma música para os utentes.

E como funcionam estas parcerias entre o Rugas de Riso e os lares onde atuam?

Antes a gente propunha o trabalho. Agora já temos procura, o que é maravilhoso. Mas, neste caso, é preciso um suporte para que eu consiga pagar aos profissionais, porque nós não trabalhamos com voluntariado. Não é preconceito, mas a carga de energia e de compromisso que a gente pede não é fácil de encontrar num voluntário. E é preciso ter base artística, sim. Então, precisamos sempre que o projeto seja financiado por alguém, seja pelo próprio lar, por uma câmara municipal ou, às vezes, pode ser através de um dos nossos projetos, intitulado “Adote um Lar”, no qual empresas ou pessoas se juntam para oferecer, a um lar da sua escolha, uma visita mensal, semanal ou quinzenal do Rugas de Riso.

Visita do Senhor Palhota e da Senhora Dona Gertrudes à ASFE Saúde. Créditos: David Cachopo | GERADOR

Para além da base artística, dirias que os palhaços do Rugas de Riso também têm de ter uma base emocional forte?

Eu acho que é preciso a pessoa ter sensibilidade para poder entender onde é que as coisas se adequam. Não podemos ter palhaços super artistas, porque esses colocam a arte à frente da humanização. E esse é um projeto no qual a gente tem que pôr a humanização na frente. Se aquela senhora quer falar da vida dela por cinco minutos para a gente, eu não vou ficar fazendo malabarismo para ela, não vou ficar cuspindo fogo, não é? [risos]. E é preciso saber escutar como um palhaço, o que é muito difícil, porque você se aproxima do quotidiano de um segundo para o outro. Às vezes, basta alguém dizer: “Olhe, eu estou aqui e o meu filho morreu”. E como é que o palhaço responde a uma coisa dessas? Nós treinamos e somos acompanhados para podermos responder através do palhaço, sem ser com deboche [desprezo], sem ser com gozação [gozo].

Como é que se responde a uma coisa dessas?

Às vezes, com um simples olhar ou gesto. Evitamos fazer aquela cara de velório que as pessoas “normais” fazem no seu quotidiano. Se uma senhora se virar para o Senhor Kazú - que é o meu palhaço - e contar algo do género, se calhar eu respondo: “Ah! [interjeição]. A sério? E como é que foi”? Ou então, para não falar do filho que morreu, posso perguntar: “Mas tem mais filhos? E onde eles estão?”. Enfim, há várias formas de lidar com isso.

Como é que se “promove o bem-estar, a alegria e a poesia sem infantilizar o idoso”?

Você pode ver que a “alegria” não está em primeiro plano. O “bem-estar” é o fundamental, as pessoas têm de se sentir bem no lugar onde elas estão. A gente faz isso, para já, não ensaiando nada, porque a gente vai chegar e vai encontrar a pessoa como ela está naquele momento. Ela, depois, nos dá elementos para a gente poder trabalhar. Nós trabalhamos a memória ativa dessa pessoa, ou seja, os momentos em que ela tinha uma vida mais autónoma. Estou a falar de 30, 40 ou 50 anos atrás. Então, quando uma pessoa diz: “Ah, eu tenho as mãos todas assim, porque eu trabalhei numa plantação”, nós podemos perguntar: “E o que é que costumava plantar? E o que é que dava mais dinheiro? E costumava cantar enquanto trabalhava”? Assim, o utente começa a reviver as memórias que tem. Isso traz, para a pessoa, um sentimento de utilidade, de ser realmente interessante. Promovemos a poesia estando simplesmente com a pessoa e melhorando o seu momento de finitude. Damos outra perspetiva do momento que ela está a viver, damos-lhe uma oportunidade de catarse, de descontar no palhaço, por exemplo. Também acontece! Às vezes, as pessoas dizem-nos: “Saiam daqui! Não quero vocês aqui”! Não gosto disso”!

Visita do Senhor Palhota e da Senhora Dona Gertrudes à ASFE Saúde. Créditos: David Cachopo | GERADOR

Mas a grande maioria dos idosos gosta e aceita a vossa presença? Ou alguns sentem que os Senhores Palhaços estão a ser demasiado intrusivos?

A grande maioria recebe muito bem. Porém, alguns dizem para a gente que não gostam de palhaço ou que esse não é lugar para isso. Mas nós não respondemos: “Então vá, tchau”. Não. Nós tentamos brincar e dizer algo do género: “Viu, eu falei para não vir aqui! Para que é que foi entrar aqui”? E o outro palhaço pode responder: “Não, mas foi você que insistiu! Está vendo? Agora o homem não gosta da gente”!

E isso ajuda?

Isso ajuda muito! Na grande maioria das vezes, ajuda a desbloquear esse sentimento de intrusão. A pessoa acaba por responder: “Não, está tudo bem. Só vão embora”. E nós perguntamos: “Ah, ‘tá bom. Por onde é que a gente sai”? E começamos a sair pela porta da casa de banho ou a tentar sair pela janela [risos]. Às tantas, acabamos por conseguir ter ali um pequeno momento de interação com a pessoa! Claro que vamos embora eventualmente [risos].

Para além de provocarem o riso, como tentam ativar as memórias dos utentes?

Tem um número que eu faço, que é cantar a música Oliveirinha da Serra toda errada, por exemplo. Troco as estrofes e tudo. Começo a cantar: “Oh ribeirinha da selva”. E o meu colega depois vira-se para mim e corrige: “Opa, não é ribeirinha, é oliveirinha” [risos]. E eu repito: “Oliveirinha da selva”. Esse já é um jogo que a gente faz há muito tempo. Começou no improviso. E assim os utentes tentam corrigir-nos, isso já ajuda. No outro dia, estive com uma senhora que me perguntou se eu sabia o Hino. E eu respondi: “Claro que eu sei, então! Indo eu, indo eu a caminho de Viseu [canta]”. E ela aí já me corrigiu e disse que era o Hino de Portugal. A gente faz muito isso, puxar pela memória.

Visita do Senhor Palhota e da Senhora Dona Gertrudes à ASFE Saúde. Créditos: David Cachopo | GERADOR

Qual é a importância de não se infantilizar o idoso?

A grande maioria dos projetos ligados a idosos ainda os infantiliza. Na forma de tocar, na forma de falar com eles, na forma de vestir…, mas principalmente na forma de falar com eles. São pessoas com 70 anos, por amor de Deus. Ou então, quando falamos de expressão plástica, acontece que, em muitas das vezes, o staff lhes dá desenhos da Disney para eles colorirem, por exemplo. Não faz sentido. Ou joguinhos com desenhos animados atuais, ainda por cima! Na minha opinião, a maioria dos projetos para idosos ainda não tem essa preocupação, então eu fiz questão de desenvolver isso dentro do Rugas de Riso. Eu não quero isso para mim! Eu não quero ficar velho e as pessoas olhando para mim como se eu fosse uma criança… aliás, às vezes nem é como se fosse uma criança, é mesmo como se fosse alguém que não tem capacidades cognitivas para entender nada.

De que forma é que a demência se relaciona com a arte do palhaço?

A demência e a arte do palhaço têm muita ligação. O palhaço só quer ser aceite mesmo, só quer ser aquilo que ele é, do jeito que ele é, mais nada. Uma pessoa que está em situação de demência, também só quer que aceitem a vulnerabilidade dela, a limitação dela. O palhaço coloca todas as suas limitações em evidência, certo? É a arte do erro, a arte da falha, é a arte do “não consigo”. O palhaço vive o momento, o agora. No teatro, enquanto o ator vem de um lugar e vai para um lugar, o palhaço vive o momento. Ele não está preocupado se amanhã ele vai estar em Nova Iorque, em Lisboa, ele não está nem aí. E a pessoa que tem demência vive o momento dela. Às vezes, esse momento pode ser 40 anos atrás, mas é o momento dela. Acho que são esses dois pontos que ligam a arte do palhaço com a pessoa com demência.

O que sabes acerca da história da arte da palhaçaria?

Existem várias teorias. Dizem que a primeira vez que um ser humano viu que aquilo estava uma seca [pausa para risos], o palhaço apareceu! [risos]. Mas, por exemplo, existem registos de feiticeiros ou curandeiros das tribos indígenas que costumavam fazer espetáculos, performances, para poderem levantar o ânimo das pessoas. Há quem diga que o primeiro palhaço apareceu durante um número de picadeiro porque, em determinado momento, houve alguém que se atrapalhou e aquilo foi engraçado. Então, pensa-se que tenham começado a fazer isso sempre no circo - aquele momento em que a pessoa tentava subir no cavalo e caía. Até acho que o símbolo do nariz vermelho tem que ver com essa queda também!

O palhaço ganha uma fama mais tradicional no período Medieval, com o bobo da corte, com a commedia dell’arte (forma inicial de teatro profissional, originário do teatro italiano, popular em toda a Europa entre os séculos XVI e XVIII. Também conhecida como comédia de improviso, opondo-se à comédia erudita). Já existem registos da existência de palhaços há mais de 3000 anos na China. Pessoas que se pintavam e faziam números cómicos. Depois, surgiu um momento estranho nos Estados Unidos [da América], no qual os palhaços eram usados para a publicidade de cigarro, de bebidas… acho que daí para o “IT” [“A Coisa”, filme de terror] foi um passo [risos]!

Entrevista a Fernando Terra. Créditos: David Cachopo | GERADOR

No Rugas de Risos, a que vertentes artísticas recorrem para protagonizar estas personagens?

A sorte de ser palhaço é que você pode absorver todas as outras artes para dentro da sua, mas continua sendo palhaço. Isso é muito, muito bom. Um pintor que dança vai ser um pintor bailarino. Mas um palhaço pode cantar, dançar, pintar, tudo encaixa. Eles [os palhaços do Rugas de Riso] têm que ter formação em palhaçaria, agora se fazem magia, se cantam, se fazem malabarismo, isso já são só ferramentas que eles podem usar dentro da performance. No Rugas de Riso, não exigimos que os palhaços sejam outras coisas.

E quais são os vossos principais valores?

Para já, trabalhar a partir do utente. O que é que essa pessoa tem que me atrai ou que me possa servir de ferramenta? Temos de observar bem os utentes e ver o que nos possa interessar. Se é o olhar, se são as unhas... Muitas vezes, eu falo para uma utente: “Ah, a senhora está com a unha tão bonita! Você está muito mal-intencionada. Onde é que a senhora vai”? [risos]. Também gosto muito de trabalhar com os homens, porque, infelizmente, nós, homens, fomos travados. Parece que a gente foi crescendo e foram pondo cunhas assim em volta para a gente não cair [risos]. Porque o homem não chora, porque o homem tem que ser assim, porque o homem tem de ser assado. Então, eu, que mal tenho sobrancelha, por exemplo, gosto muito de brincar com os utentes e dizer-lhes: “Ai, que inveja que eu tenho dessa sobrancelha! Se tivesse a sobrancelha do senhor, eu não tinha demorado tanto tempo para me casar”! Gosto de brincar com isso, de colocar as pessoas assim viris, sabe? Levantar o astral deles e trabalhar a autoestima deles. Isso é o mais importante.

Trabalhar em duplas também é muito importante para a gente fazer sempre aqui o interlocutor para algum tipo de situação e até para dar suporte para o colega. O foco da cena nem sempre é o idoso, porque às vezes ele não quer ser o foco! Sente-se desconfortável, constrangido. Então, a gente tem que saber ler o ambiente, saber o que está a acontecer naquele momento. Temos de entrar no quarto, com calma, respirar, às vezes o utente vira a cara um pouco para o lado e nós percebemos que ele é tímido, então vamos focar-nos no vaso de flor, por exemplo.

De um modo geral, o que é que tu e os Senhores Palhaços costumam retirar destas experiências e destas visitas aos lares?

Nós escrevemos sempre um relatório no fim de cada visita, no qual colocamos a história, ou as histórias, que mais nos chamaram à atenção naquele dia; o que achamos que temos de melhorar no nosso palhaço; o que temos de melhorar na relação do nosso palhaço com o outro – sim, porque às vezes existem falhas de comunicação – quais são os jogos que funcionam; ou até podemos mesmo escrever: “na próxima visita não nos podemos esquecer de levar uma flor para a senhora não sei quê”. Talvez ela não se vá lembrar, mas nós vamos sempre preparados.

Entrevista a Fernando Terra. Créditos: David Cachopo | GERADOR

Por outro lado, o que é que vocês aprendem com os idosos e eles convosco?

Eu acho que eles entendem que sempre há tempo para brincar um pouquinho e que isso não é só coisa de criança. Acho que eles percebem que, connosco, podem atirar a pedra que quiserem. Pode ser a pedra do jogo de dominó ou pode ser uma pedra de raiva, de desinchar o que está dentro. Por outro lado, a gente aprende, com eles, que tudo é passageiro e que se deve aproveitar o momento. O agora. É isso, é sentir que o tempo passa. A gente aprende as coisas, mas não usa tudo o que aprende. A gente gasta com futilidade, com coisa que não precisa. Quando a gente chega aqui num quarto e a pessoa tem apenas três minutos com o palhaço e a gente vê que essa pessoa agarra aqueles três minutos com todas as forças que ela tem… a gente aí dá mais três minutos [risos]. Acho que é importante aproveitar o momento e pensar, ao longo da sua vida, o que é que você quer que façam contigo quando você for velhinho, porque pode ser que, quando esse momento chegar, você não consiga dizer: “olha, eu não queria isso”. Então, acho que é muito importante que as pessoas à sua volta saibam o que você espera para o seu futuro.

O que sentes que ainda não é compreendido acerca da arte do palhaço?

Eu acho que as pessoas ainda têm duas ideias acerca do palhaço e se prendem muito nelas, que são: o palhaço joga uma torta na sua cara e te ridiculariza, ou que o palhaço te vai matar por causa dos filmes de terror. Portanto, a partir daí, é como com os enfermeiros. Todo o mundo pensa que o enfermeiro só serve para picar as pessoas com uma agulha. Eu acho que falta abertura, até por parte das próprias instituições, para entenderem o que é que acontece, de onde é que isso vem, para que é que isso serve. Parece que rejeitam logo o palhaço. Agora, fico muito feliz por te dizer que, no que diz respeito aos projetos sociais da Câmara Municipal de Torres Vedras, o Rugas de Riso é o primeiro projeto que esgota os pedidos assim que abrem as nossas datas de disponibilidade.

As pessoas já começam a entender, aos poucos, que os palhaços não vão fazer mal. Agora, falta entender que esse palhaço do Rugas de Riso não infantiliza. Muitos utentes dizem: “eu não sou criança, para que é que eu quero isso de palhaço”? Associa-se muito a arte do palhaço àquilo que é infantil. A isso e a essa coisa bobónica, do bobão, que é outro tipo de arte! Também é palhaçaria, mas o bobão é aquele palhaço que quebra garrafa na mesa, que explode balão de água, goza com a cara do outro e acha graça. Mas tudo isso é um processo, não é? Foram precisos 2012 anos até Portugal ter um palhaço para idoso.

Fernando Terra. Créditos: David Cachopo | GERADOR

De que forma gostavas que o Rugas de Riso influenciasse outros projetos relacionados com idosos ou até mesmo mudasse determinadas formas de tratamento para com este tipo de utentes?

Eu acho que já influencia! Já começam a aparecer outras iniciativas tentando se assemelhar. Isso, para mim, é um elogio. Por outro lado, eu espero que, através da postura dos palhaços, o staff dos lares ou das clínicas entenda que não se infantiliza, que não se despacha um idoso. Gostava que eles fossem mais humanizados. Eu sei que já é uma correria louca só para os médicos e enfermeiros conseguirem fazer o mínimo sem ofender – o que já muito bom. Mas para isso é que nós cá estamos. Espero que eles usem muito os palhaços como um elemento de humanização dentro do próprio lar. Nós estamos dispostos a desopilar um bocadinho o seu trabalho.

Visita dos Senhores Palhaços à ASFE Saúde. Créditos: David Cachopo | GERADOR
Visita dos Senhores Palhaços à ASFE Saúde. Créditos: David Cachopo | GERADOR

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